quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

IX-Terras da Raia de Portalegre - A aristocracia do Sul do Distrito




Nas restantes terras do Distrito de Portalegre a Nobreza Tradicional era então escassa e pouco representativa e se é possível identificar na cidade de Elvas e na vila de Campo Maior, algumas casas da aristocracia, como os Marqueses de Penalva representado pelos Menezes, um grupo familiar, que desde os primeiros séculos da nacionalidade portuguesa e em especial durante a Expansão Portuguesa, esteve, quase sempre representado na Corte e em alguns acontecimentos marcantes da história portuguesa. Não foi em vão, que muitos dos seus membros desempenharam algumas funções administrativas e políticas mais importante não só na própria Casa real mas também na administração colonial nos sécs. XV e XVI. O ramo parental dos Menezes que fixaram a sua residência em Elvas no séc .XVII, na transição para o século XIX, viviam no centro da cidade junto a outras casas nobres entretanto desaparecidas e era então um espaço de sociabilidade ímpar na raia portuguesa onde se deslocava com frequência às suas festas sociais algumas das famílias da alta nobreza da província da “Estremadura Espanhola” e outras de Évora e de Reguengos de Monsaraz. De realçar, ainda que esta casa palaciana serviu como lugar de hospedagem a alguns membros da Coroa nas últimas viagens realizadas pela Casa Real no fim da Monarquia Constitucional quando da sua passagem por Elvas de visita ou a caminho do país vizinho. A sua riqueza agrária era formada por uma série de propriedades repartidas pelos municípios de Elvas, Campo Maior e Portalegre, ainda que algumas, poucas, eram exploradas em regime de associação com a família do Castelo Branco de Portalegre. Em Arronches esta família detinha um grupo de propriedades que embora pertence aos Menezes estava titulada em nome do Conde de Tarouca e eram geridas pelo grande produtor local, o lavrador Joaquim da Silva já nas primeiras décadas do século Vinte. Na vila de Campo Maior podemos identificar um conjunto de famílias com títulos aristocráticos mais recentes. Como são os casos dos Viscondes de Ouguela, Cayola e Xévora que como os grupos pertencentes à nobreza tradicional, incrementaram as suas riquezas mediante a compra e venda de propriedades, possuíam também alguns foros pelos quais recebiam algumas taxas que em termos económicos eram tão importantes como os arrendamentos que constituíam uma base deveras importante nos grupos aristocráticos tradicionais. Por último, ao finalizarmos a reflexão sobre o grupo nobiliário da raia do distrito de Portalegre, devemos assinalar que nos começos do século XX uma parte considerável das suas herdades estava já na posse dos antigos arrendatários, alguns dos quais já se tinham convertido em lavradores de sucesso, homens verdadeiramente ricos e figuras de influência notável na vida económica e política das cidades e vilas raianas do Distrito de Portalegre.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Síntese Hitórica da presença Militar em Elvas



Síntese histórica in Guião da Abertura Oficial do Museu Militar de Elvas

(do autor).


Desde a época Medieval que Elvas primeiro como vila e depois como cidade, se consolidou como um espaço territorial fundamental na defesa e afirmação da soberania portuguesa. Nos primeiros tempos da reconquista cristã os exércitos que corriam as terras de Entre Tejo e Guadiana, eram constituídos por forças de gente da pequena nobreza (ou mesmo não nobre), que no tempo das Guerras da Independência de 1383-1385 se encontravam reforçadas por milícias recrutada pelos concelhos de origem social distinta e que integrava os besteiros e os aquantiados e que no seu todo constituíam as milícias que operaram com bandeiras e oficiais próprios. Na época Moderna, as tropas concelhias correspondiam, às ordenanças a que se refere a lei de D. Sebastião, de 1570, no qual as funções de comando pertenciam a um capitão de Cavalaria ou Infantaria, sob comando de um General de Província. Mas o recrutamento subsidiado pelas obras pias no início do séc. XVII não impedia o recrutamento forçado dos passantes, dos detidos nos cárceres e dos vadios.


Em meados do séc. XVII a questão da mobilização geral era pela primeira vez “testada”, a demografia e o início da “ideia” de um serviço militar obrigatório estavam já subjacente, mas cuja problemática manteve-se já na Época Contemporânea quando os quantitativos demográficos estavam longe do número de recrutados. No teatro bélico do Cerco (1658) e da Batalha das Linhas (1659), evoluiu então a “Nação em Armas” numa época em que o País preparando a sua defesa alistava nos seus “exércitos”, todos os homens válidos de 16 aos 60 anos. A caminho de meados do séc. XVIII pela lei 1764 o recrutamento tornava-se uma realidade regular e pública, com as limitações conjunturais da própria época. Vivia-se a época do Conde de Lippe que lançava as bases para a formação de um exército moderno, com um regulamento próprio e organizado, que regulava a disciplina, o serviço, a instrução, a justiça, o pagamento e o recrutamento.


Mas a Praça Militar abaluartada de Elvas, dos governadores da Nobreza de Portugal desde a época seiscentista, gizada por Juan Sciermans ou Cosmander em 1643, com as suas setes baluartes, quatro meios-baluartes e um redente, era agora confrontada com os “ventos de modernização” instituídos pelo Conde germânico, tornando o espaço militar elvense numa máquina de guerra inexpugnável com a planificação e edificação do Forte da Graça e com as primeiras obras de referência de ocupação e permanência militar, os “Quartéis do Casarão”, iniciadas em 1767 sob a direcção do Engenheiro – General, Valleré perante a questão problemática de estacionamento militar que se tornará evidente na centúria seguinte


Todavia as últimas décadas do final de Setecentos e a primeira de 1800, foram marcadas por novas ameaças que não vinham apenas de Espanha com foi quase uma evidência ao longo da nossa história, mas da França Imperial numa conjuntura política internacional que envolvia um outro protagonista a Inglaterra. E foi neste contexto de ameaça bélica, que a cidade de Elvas não só reforçou a sua posição de “sentinela de fronteira” como se tornou até ao fim do séc. XX como uma placa operacional de estacionamento militar do exército português.


Na verdade em vésperas das invasões francesas o espaço abaluartado elvense concentrava nos seus panos de muralhas a principal retaguarda do exército de linha estacionado na raia, constituída por cerca de 21.600 efectivos de infantaria e 9.600 de cavalaria, cuja operacionalidade teórica e prática justificou a partir de então a presença efectiva do exército português, após a guerra civil que marcou a época liberal entre 1831-1834. E seria neste quadro de estabilidade política e de paz centrada na unidade do exército português, que o Governo da Regeneração legislava no sentido de modernizar os seus equipamentos e a prática e formação do serviço de armas.


O Convento e a Hospedaria da Igreja de S. Domingos, incorporava-se a partir de meados do séc. XIX, após a extinção das Ordens religiosas em 1934 na função militar tornando-se uma estrutura funcional no processo de militarização da cidade de Elvas que conheceu períodos áureos em momentos de estacionamento do exército português de apoio a cenários de guerra a longa distância como as campanhas de África em finais de Oitocentos ou a Guerra Colonial (1960-1975), marcando o quotidiano das gerações que viveram esses períodos em que os militares constituíram uma referência para os filhos de Elvas que encontraram desde então na instituição militar uma opção de vida de servirem as armas do exército português.


Na vida quotidiana a presença militar cruzavam-se em tempo de paz com a comunidade local, ao longo da segunda metade do século XIX, os cirurgiões militares, entre os quais José Desidério Pacheco, organizavam com as autoridades públicas e civis, as medidas preventivas face às ameaças epidémicas que a cólera morbus então determinava. Nas iniciativas de solidariedade como a fundação do Asilo de Infância Desvalida em 12 de Outubro de 1851 por iniciativa e acção do Governador da Praça Militar, General José Maria Baldi, numa época em que a miséria e a pobreza coincidia com o abandono das crianças. Na cultura destacaram-se figuras como o Capitão Vitorino de Almada que deixou à sua cidade natal o esboço do seu testemunho histórico. Na vida política, desempenharam a função de Presidentes de Câmara o Tenente-coronel, José Joaquim Ferreira (1905-1908) e o Major, Joaquim de Melo (1928/1931) e foram Administradores do Concelho, os Tenentes , José Jácome de Santana Silva em 1919 e o Tenente, João Miguel Simões em 1922. Em meados do século, a “cidade – quartel”, era um dos pólos da economia local e nos finais do século XX a componente formativa e profissional, tornou-se um dos vectores do Regimento da Infantaria nº 8, herdeiro directo do Batalhão de Caçadores nº 8 (1961-1975) e legítimo e histórico, das forças contemporâneas estacionadas na Praça Militar de Elvas, tais como o Batalhão de Caçadores nº1 ou os Regimentos de Infantaria nº1, nº8 e nº 17 que se distinguiram vitoriosamente nas Campanhas Militares da Guerra Peninsular (1807/1814).


Por último há que salientar os reflexos que as reformas militares que ocorreram nos dois últimos séculos, na comunidade local que desde sempre defenderam como causa principal a permanência militar na cidade, hoje representada pelo Museu Militar de Elvas..

domingo, 22 de Novembro de 2009

3.2- Elvas Portuguesa: Das deslocações régias [ Cortes de 1361] à função diplomática



A nossa reflexão sobre a vida política e institucional da vila de Elvas se reporta ao papel diplomático e legislativo quando a mesma se afirmava como uma das localidades mais importantes da nova nação que caminhava na direcção do seu terceiro século de existência. Mas, em termos políticos, Elvas distinguia-se com base na sua posição estratégica e consequente afirmação na defesa da soberania portuguesa no quadro político e institucional do Estado Português. De facto se foi a guerra que notabilizou a vila fronteiriça, as Cortes de Elvas de 1361 têm um significado muito particular na vida política nacional, mesmo considerando a presença da corte itinerante que apenas compartilha com outra vila da raia a do Sabugal um número de visitas da Casa real em cerca de uma dezena durante a Idade Média. Em parte podemos relacionar tais visitas com o facto de a Corte se deslocar com frequência à cidade de Évora atingindo cerca de três vezes mais em números registados pela documentação, todavia, Elvas, Braga, Guarda e Guimarães, foram as únicas vilas medievais que realizaram Cortes à margem dos centros urbanos de decisão como Porto, Coimbra, Santarém e Lisboa. Na verdade a presença da nobreza de Portugal em terras de fronteira foi uma característica muito particular durante o reinado de D. Dinis que visitou as terras do Sul numa época em que o Andaluz muçulmano estava em vias de cair nas mãos das hostes nacionais e o Alentejo eram uma fronteira natural entre dois reinos adversos o castelhano cristão e o Andaluz muçulmano. Montemor-o-Novo, Estremoz, Elvas, Évora e Beja, situavam-se no caminho da cavalaria da Nobreza e da peonagem que acompanhava as hostes senhorias nas vários tipos de operação militar de matriz medieval, a guerra de assédio, a guerreada e a de cerco. Contudo uma particularidade, a guerra e paz, foi determinante - um benefício - para a vila elvense com uma pequena aristocracia em formação muito distinta da Nobreza de Entre Douro e Minho, acabaria por concentrar a mais nobre da aristocracia nacional como podemos comprovar documentalmente quando o Infante D. João de Castro em 1361, acompanhado pelos Mestres de Santiago e Alcântara cercou as cercanias de Elvas durante 25 dias, em que os reforços chegaram da capital do Reino: “A Elvas foi enviado por fromteiromor Gonçallo Meemdez de Vasconcellos , e com ele gentes de Lixboa, assi como Alvoro Gil, e Vasco Estevez de Molles, e Esteves Annes, e Martin Affonso Vallemte, todos cavalleiros. Gomez Louremço de Avellar e Gonçalo Vasquez … e asi otros fidalgos cada huuns em seus lugares”. “A vila ornada de grandes edifícios e habitada de gente rica, segundo o cronista António Brandão abria as portas à diplomacia portuguesa e a assinaram-se tratados diplomáticos de paz e de unidade nacional como os que foram firmados por D. Dinis e o seu filho e entre D. Fernando e D. João de Castela e o primeiro casamento real entre os herdeiros e das coroas ibéricas, a princesa D. Beatriz e D. João I de Castela. De Elvas também partiu a 14 de Maio de 1383 para Inglaterra o diplomata Rui Cravo para pedir desculpas ao monarca de Ricardo II e a Jonh of Gaunt, pela violação dos acordos luso-britânicos que tal casamento determinava. Mas, em 1361 realizaram-se pela segunda vez, Cortes durante o reinado de D. Dinis, os três estados do reino, Nobreza, Clero e 3º Estado, reuniam-se em Elvas, nelas de discutiram alguns problemas propostos pela realeza e se fizeram igualmente reclamações, formuladas principalmente pelo 3º estado (burguesia + povo), que apontaram as soluções que se entendia acertadas. Nas Cortes de Elvas, foram compilados dezoito artigos gerais do povo, alterando-se dois e acrescentando-se um. Algumas determinações foram fundamentais para a vida do reino entre elas e a título de curiosidade determinou-se: que os almoxarifes não tivessem maior jurisdição do que deviam aas justiças dos logares hu esto for que lho nom consentam”; que os judeus não fizessem usura, porque tal provinha grave dano para os povos, devendo os contratos ser feitos como «boos mercadores e verdadeiros Christãos; que as mulheres públicas vivessem em lugar apartado e que tanto elas como as barregaaes” se vestissem de modo a distinguir-se das mulheres casadas e das outras que vivem honestamente». Entre as reclamações destaca-se entre outras a que lê no artº 6 do Capítulo do Porto, nos quais os procuradores desta cidade se queixam que os alcaides tomam armas aos mercadores que veêm das aldeias e montes comprar vinhos e fruta, porque assim o mandava uma Ordenação do Corregedor. O monarca acedeu ao pedido, mandando que a nenhum mercador, enquanto for a caminho, não lhe tomem a espada ou cuitelo que leve embainhado, não fazendo dano”. Eram tempos de reconhecimento do patriotismo das gentes de Elvas que em 1325 e 1337 tinham posto fim ao cerco e ameaça da soberania portuguesa em 1325 e 1337, mas seria depois da magna reunião legislativa dos grandes de Portugal que Elvas conquistaria o respeito dos soberanos da coroa portuguesa durante a Crise Geral do Séc. XIV e nomeadamente durante a terceira guerra fernandina.

sábado, 21 de Novembro de 2009

Reflexões sobre o Nosso Tempo




A nossa reflexão sobre o mundo actual leva-nos ao Médio Oriente, na individualidade do Professor Doutor, Helmi Mohammed Nasr, egípcio, doutorado pela famosa Universidade de Sarbonne, sendo um prestigiado estudioso dos estudos árabes e o mais recente tradutor da única versão oficial do Alcorão em língua portuguesa. E desde logo, a nossa reflexão inicia-se com a ideia que percorre o “mundo ocidental” , muitas pessoas, associam hoje o islamismo à violência e principalmente ao terrorismo….. O Islão realmente pede que os féis entrem em guerra para defender os ensinamentos da Alá?Confundir o islamismo com a violência é uma novidade trazida pelos norte-americanos. O preconceito não é algo de novo, mas foi acentuado nos últimos anos e se aumentou a descriminação aos muçulmanos. O problema é que jogaram a culpa pelos actos da Al-Quaeda no islamismo como um todo, e isso não é justo. Por causa dessa propaganda negativa, muitas pessoas realmente acreditam que a religião é responsável por esse tipo de crime. Porém, se algum indivíduo faz algo contra um país, como um atentado, não é justo culpar uma nação ou um povo. Não há nenhum livro sagrado no mundo que prega o pacifismo da mesma forma que o Alcorão. A palavra islã quer dizer paz e não pode ser associada à violência. Os muçulmanos não podem ser culpados pelos erros de alguns indivíduos. Porém essa violência existe …. Sim concordo que há pessoas usam o Alcorão para cometer crimes e atentados. Porém isso ocorre com qualquer religião, como a própria história já o provou. Há sempre há seres humanos praticando o mal em nome de falsos ideais religiosos …. Quem declara guerra em nome de Alá nunca leu o Alcorão. Se leu, não entendeu o seu verdadeiro significado”. Mas 11 de Setembro agravou essa noção que a violência é uma arma do mundo muçulmano …” O preconceito sempre existiu …Depois dos atentados de 11 de Setembro a situação se agravou demais. Não sei se Osama Bin Laden realmente existe, pois nunca o encontraram, mas de qualquer forma não se pode associá-lo ao islamismo. Ele pode ser muçulmano, mas não representa a nossa religião. Mas é justo isso que os norte-americanos fizeram: atribuíram a responsabilidade dos ataques à religião islâmica e estimularam a discriminação contra os muçulmanos”. Embora no Ocidente a questão do “estado de saúde” do Islão não seja objecto de reflexão a verdade é que alguns historiadores especialistas no Médio oriente defendem e falam de uma crise latente nos ideias do Islão … “Pode-se dizer que o islamismo está mesmo em crise no mundo todo, principalmente por conta da propaganda contrária aos muçulmanos. Mas há um outro factor importante que reforça o problema; muitos muçulmanos estão se dirigindo à cultura ocidental, deixando de lado os ensinamentos importantes do islã. Precisamos nos voltar cada vez mais aos nossos conceitos originais, pois o Alcorão é uma regra moral para o povo, mas muitos seguidores do islamismo esqueceram disso. Percebe-se a gravidade do problema porque os pais têm mandado os filhos estudar na Europa e nos Estados Unidos muito cedo, antes mesmo de passar a eles os elementos primordiais do Alcorão. Isso é um erro muito grande. É preciso estudar o livro sagrado muito bem antes de ir atrás da educação no exterior. A base original é fundamental para o muçulmano ter uma boa formação e, com isso, trilhar o caminho da paz. Sem isso, sem dúvidas passamos uma crise”. Por último qual o papel do islamismo no contexto das religiões dominantes no mundo actualO islamismo é a terceira religião divina, na sequência do cristianismo e do judaísmo. Os cristãos têm a Bíblia, os judeus têm o Novo Testamento e os muçulmanos têm o Alcorão, que reconhece as duas outras religiões. Portanto, o islamismo admite a importância dessas outras crenças. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o islã não contraria as outras religiões, pois elas se completam. O islamismo defende que nos três livros sagrados há luz para a humanidade seguir um caminho de paz. Além disso, o profeta de cada uma dessas três grandes crenças realizaram milagres importantes para determinados períodos da história. Jesus Cristo, por exemplo, executou, milagres em uma era em que a necessidade da medicina estava no auge, curando enfermos, ressuscitando os mortos e fazendo os cegos se tornarem videntes. Maoné, por outro lado, se mostrou ao mundo no auge da era da magia, concebendo um livro sagrado que pregava a paz. Foi uma prova divina. Enfim, o islã não rejeita o cristianismo e o judaísmo: apenas completa os ensinamentos dessas duas religiões…..









sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

IX-Terras da Raia de Portalegre - Caracterização da Nobreza:- Os Alvilez e outros nobres do reino


Outra das famílias de referência na cidade de Portalegre eram os Alvilez. Segundo a documentação eram oriundos da cidade de Alvilés , na região espanhola das Astúrias e que se fixaram no núcleo urbano portalegrense no século XVI. Na mesma centúria, afirmaram-se como grandes proprietários, tendo mandado edificar o seu palácio no centro da cidade (hoje sede do Governo civil). Nas últimas décadas do século XVI este grupo familiar logrou aumentar de um modo significativo a superfície das suas terras. Mas a trajectória de suas vidas durante a I República se desenvolveu a Norte de Portugal já que quando finalizaram os anos trinta de Novecentos o seu principal representante, o Conde Jorge de Avilez Juzarte de Sousa Tavares, era um lavrador importante nas regiões da Beira e do Douro, onde exercia a profissão de engenheiro agrónomo. Os Juzarte de Campos só alcançaram a dignidade condal a finais do século XVII, associada desde logo a grandes famílias da cidade. Um bom exemplo era o Conde de Alvilez, Jorge Velez Juzarte de Campos, que casou com Dona Maria Fonseca Coutinho nascida na capital do distrito em 21 de Janeiro de 1864. O seu herdeiro, André Juzarte Campos de Andrade, seguiu o exemplo do seu pai em matéria de alianças familiares, contraindo matrimónio com a sua prima Dona Genebra Maria Rosa Acciaioli Coutinho. Este casamento marcou uma aproximação à família Acciaioli, outro grupo aristocrático radicado na cidade de Portalegre descendente de uma família de origem florentina que se radicou na ilha portuguesa da Madeira durante o século XV no tempo da sua colonização. Um século mais tarde a família Acciaioli tinha já a sua residência em Castelo Branco devido ao matrimónio com Pedro Folgado com Genebra Acciaioli. E durante os séculos XVI e XVII vários membros serviram a Casa Real ou pertenceram à Ordem de Cristo, caso por exemplo de alguns herdeiros da família Acciaioli Fonseca Coutinho. Referimo-nos a Diogo Fonseca Acciaioli Coutinho, cavaleiro da Ordem de Cristo que nasceu em 1696 e contraiu matrimónio com Dona Maria Isabel Juzarte de Sousa. Ou o seu descendente Diogo Fonseca Acciaioli Coutinho, fidalgo da Casa Real e Coronel das Milícias de Portalegre que reforçaria com as suas alianças matrimoniais uma ligação entre as duas famílias mantidas ao longo dos séculos posteriores. Mais tarde no século XX se reproduzia, uma vez mais, a aproximação tradicional da Casa de Avilez a família Fonseca Acciaioli. Porque graças ao matrimónio da filha do Conde de Alvilez e Visconde Reguengo, Dona Maria Francisca Alvilez Salema, o título do Conde Alvilez acabaria sendo ostentado por D. José Maria Fonseca Acciaoli. Não obstante, o título voltou à família da sua procedência nas décadas iniciais do século passado, quando a casa dos Alvilez já não tinha representação alguma na capital na capital norte alentejana. Assim, a política tendente a realizar matrimónios entre as famílias tituladas de Portalegre foi uma estratégia comum a todas elas, como forma de manter e ampliar as suas grandes fortunas. Esta situação sucedeu, por exemplo com os condes de Alvilez, cujo conselho familiar estavam representadas a finais de Oitocentos, com alguns membros das famílias mais prestigiadas de Portalegre, não faltando sequer os Larcher Marçal através de Ramiro Larcher Marçal que se encontrava na burguesia local, mas que então tinha uma controle económico por via dos seus numerosos e rentáveis negócios e investimentos no sector industrial. E outros como Ignacio Cardoso de Barros Caldeira, da família Castelo Branco, Manuel Fonseca ou os Fonseca Acciaioli, todos eles grandes proprietários agrícolas pertencentes às casas nobres das famílias más destacadas de Portalegre. Por último, destacavam-se outros aristocratas exteriores ao distrito com um núcleo de herdades e prédios rústicos no concelho portalegrense como eram os casos do Conde de Vila Real, a condessa de Tarouca, título que utilizava como proprietária em Arronches mas não era mais que a marquesa Penalva com o seu palácio senhorial na cidade de Elvas ou a Casa de Bragança, cujos integrantes mantinham desde o Antigo Regime um notável património que se situavam em lugares muito distantes da casa principal.

domingo, 15 de Novembro de 2009

Reflexões sobre o Nosso Tempo



Numa época de Crise, a situação dos países da Europa Comunitária passa necessariamente pela solidariedade europeia uma vez que hoje os estados não dispõem dos instrumentos clássicos como a política cambial ou a liberdade de gestão orçamental, que em parte praticamente deixou de ser uma prática independente após Maastrich, segundo o Professor Doutor, José Maria Brandão de Brito, professor catedrático do Instituto Superior de Economia e Gestão e estudioso da história económica portuguesa: “ Estamos mais desarmados porque, apesar de tudo, Portugal é [ um dos ] mais pobre dos países que integram a actual configuração da União Europeia, e, por isso, seria necessário dispormos desses instrumentos cambais e orçamentais, uma vez que ainda dependemos muito da despesa pública para prosseguir a obra de infra-estruturas, agora de outra natureza. Quanto à situação de crise, eu considero que é inevitável. Hoje fazemos parte de um agrupamento regional que é a União Europeia, e não é concebível que haja uma crise mundial ou europeia sem que ela se reflicta em Portugal”. E nessa perspectiva, naturalmente Portugal está mais vulnerável, na medida que “Ou há solidariedade, e é para isso que apontam os tratados da União Europeia que têm vido a consolidar os vários passos dados no sentido da EU; ou se rompe com esses compromissos, e cada um segue uma política de “salve-se quem puder “ e, nesse caso, Portugal está totalmente desarmado e desprotegido. Mas isso seria o fim da União Europeia, e eu confesso, sem ser demasiado optimista, não acompanhar alguns colegas economistas que têm da União Europeia uma visão demasiado redutora e, também por isso, demasiado pessimista. Eu creio que a inter-relação existente entre as economias europeias é hoje tão forte, que não pode haver uma crise em França que não se repercuta na Alemanha”. Aliás é hoje uma realidade incontestável. Mas se o optimismo que caracteriza economia europeia, mesmo em tempos de ventos de crise que hoje atravessamos, a riqueza mundial continua segundo todos os documentos oficiais conhecidos desde finais do século XX a demonstrar que a riqueza tende a se concentrar num grupo de países cada vez mais restito: “Penso que há uma parte muito significativa de um continente que está perfeitamente condenada e que se vai envolvendo em guerras fratricidas e tribais, a Ásia que se encontra afastada da esfera da influência japonesa (Indonésia) pode também provocar efeitos negativos à escala mundial, o mesmo acontecendo com todo o subcontinente indiano; a própria China está num processo sui generis de transição para o capitalismo cujo fim se desconhece em grande parte. Essa concentração de riqueza e o acréscimo de pauperização de populações fora desses países do Norte, isto, é do centro do capitalismo, é o grande desafio que se lhe apresenta nas próximas década: ou se consegue resolver esse problema, ou provavelmente entrar-se-á numa situação de bastante instabilidade. Ou se encara esse problema de crescimento assimétrico da riqueza o grande desafio que hoje a humanidade enfrenta, ou, de facto, não há grandes razões para ser optimista”. Sem dúvida que as palavras sábias e fundamentadas do Professor Doutor, Brandão Brito anunciam grandes mudanças na economia mundial, numa época em que o eixo da economia mundial caminha no sentido do Sudoeste Asiático, resta apenas a solidariedade europeia o seu empobrecimento é eminente e para nós portugueses os ventos de empobrecimento será uma realidade ditado pelos ventos da economia global e não pelo maior eloquência de qualquer discurso ideológico seja ele económico e político.

sábado, 14 de Novembro de 2009

IX-Terras da Raia do Distrito de Portalegre: Caracterização da Nobreza :Os Fonseca Acciaioli



DIOGO FONSECA ACCIAIOLI COUTINHO de SOUSA TAVARES, figura de relevo na vida política e social portalegrense, era no período em que se insere a nossa reflexão a figura mais prestigiada da família Fonseca Acciaoli. Procedia de algumas famílias notáveis da região, como os Acciaoli, Fonsecas, Jusartes e Sousas de Arronches. Este grupo familiar era referenciado desde começos do século XVI ao serviço da Coroa portuguesa na personagem de Álvaro da Fonseca Coutinho, Alcaide-mor da cidade de Portalegre em 1530, marcando o início da relação com a Casa Real que se manteve até finais do século XIX. Outras figuras desta velha família aristocrática, merecem, igualmente referência, João Fonseca Coutinho, cavaleiro da Ordem de Cristo, que desempenhou ao longo da sua vida algumas funções relevantes como as de Procurador em cortes em 1645 ou Juiz da Coroa. Na transição para o século XX o morgado João Fonseca Acciaioli Coutinho Sousa Tavares era quem ocupava o palácio familiar chamado de Fonseca Acciaioli, situada na zona histórica da cidade e possuía, como era frequente entre os membros da aristocracia e a alta burguesia europeia, uma segunda casa de Verão, concretamente um solar de grandes dimensões localizado na Quinta da Lameira, que se estendia nos arredores de Portalegre, na localidade de Entre-as-Ribeiras. Por sua vez, o morgado de Entre-Ribeiras, Diogo Fonseca Acciaioli Coutinho de Sousa Tavares, irmão do anterior, logrou manter quase até final de Oitocentos a maior parte de um extenso e rico património construído por João Afonso Coutinho que incluía também um conjunto de herdades localizadas na área do Reguengo, entre elas as chamadas de Entre-Ribeiras e Cabaça que haviam constituído ao longo de quase três séculos uma das fontes principais de renda para o grupo familiar dos Coutinho. Durante a segunda metade do século XIX a riqueza familiar continuou em pleno crescimento através do arrendamento de terras, especialmente as que se localizavam fora do município de Portalegre, sendo esta outra das formas de manutenção do seu património. Eram os casos da Horta de Alvega, situada no município de Abrantes e que tinha por renda anual o valor de 300$000 rs., e a fazenda de Figueirinhas situada no termo municipal de Ponte de Sor, que gerava na sua condição de antigo senhorio a renda anual de 3.000$000 rs. A prática de arrendamento foi, uma das vias más usuais empregues pela obtenção de recursos económicos por Diogo Fonseca, que chegaria a ter como arrendatários outros membros da aristocracia portalegrense, caso de Manuel de Barros Castelo Branco, a quem arrendou a título perpétuo a herdade de figueiras de Maio. O seu irmão João Fonseca Acciaioli Coutinho de Sousa Tavares, era então representante do património da Condessa Melo como se pode comprovar na escritura de um olival localizado no município de Arronches no valor de 101$000 rs. O certo é que o património e a riqueza da família Fonseca Acciaioli se baseava essencialmente na posse da terra, como se pode observar pela leitura do testamento de seu pai de 4 de Janeiro de 1877, que transmitia aos seus herdeiros um património constituído por uma casa nobre, cinco herdades, oito tapadas e três pequenas propriedades que nos inícios de 1870 proporcionava aos seus titulares a renda anual de 1.248$905 rs. Todavia quando o século XIX chegava ao fim, Diogo Fonseca Acciaioli de Sousa Tavares era todavia o maior terratenente de Portalegre. Mas por pouco tempo, uma vez que acabou praticamente com a sua fortuna pessoal pelos gastos que então fazia com a actividade política enquanto figura de destaque do Partido Progressista e com iniciativas de carácter solidariedade que o tornou conhecido como o “Pai Diogo” entre as classes populares e desfavorecidas da cidade de Portalegre

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Os dias da Nossa Civilização






Berlim Oriental, minutos antes das 19h, de 9 de Novembro de 1989. Ao final de uma conferência da imprensa convocada pelo SED, partido comunista da República Democrática Alemã (RDA), o jornalista italiano Riccardo Ehrmann pergunta sobre a existência de uma nova lei que regula as viagens ao estrangeiro. Günther Schabowski, Secretário da Informação, responde que o Pliteburgo aprovou uma normativa que permite sair do país sempre que os seus cidadãos solicitem. Salta um coro de vozes: “Quando entra em vigor tal norma? Sem passaporte? Já mesmo? Verdade…. Depois de um breve silêncio afirma: “Segundo a informação que disponho tem efeito imediato e a saída pode realizar-se através de todos os postos fronteiriços da RDA com Berlim Ocidental”. Numa questão de minutos os alemães de Berlin Oriental que tinham recebido em directo pela TV a notícia do alto dirigente da RDA, dirigiram-se para o Muro, há precisamente vinte anos e às 23.14 uma multidão de pessoas, inicia a abertura das primeiras brechas do último obstáculo que separou as duas Alemanhas durante a Guerra Fria, perante os guardas atónitos que não tinham nenhuma informação oficial, sobre o que se estava a passar e perante a impossibilidade de conter a multidão, em pouco tempo milhares de cidadãos da RDA, passam para oeste, onde são recebidos pelos Berlineses do outro lado com champanhe e alegria. Nos postos de controlo se desenvolvem cenas muito emocionantes. Pessoas que se conhecem se abraçam chorando. Depois de uma noite de celebração, o alcaide de Berlim, Walter Momper (SPD), pronuncia uma alocução em que declara «Ontem pela noite o povo alemão foi o povo mais feliz do mundo». Com a queda do muro seguiram-se profundas alterações políticas na RDA surgindo a questão como será o futuro comum na Alemanha. Tanto para este como para Oeste há disparidades de opiniões. Enquanto que uns desejavam a manutenção do estado da RDA, em finais do ano dispara o número de alemãs que reclamam uma “Pátria unida”. As consequências da queda do muro, na opinião do Professor Doutor, Catedrático de Direito, Marcelo Rebelo de Sousa num pequeno depoimento lembra que: “Mudou tudo. O mundo bipolar passou a unipolar. Implodiu a União Soviética. Morreram Comecon e o Pacto de Varsóvia. Alargou-se a Europa, como centro efectivo em Berlim. Dispararam China, Índia, Brasil.A Rússia teve- tem- de refazer o seu império. Acelerou-se o euro e, em geral, a integração do continente. Os EUA actuaram como se fossem polícias universais, até hoje.”

domingo, 8 de Novembro de 2009

3.1- Elvas Portuguesa: - A organização concelhia Medieval

A actividade política nos primeiros tempos da vida concelhia na vila de Elvas foi obviamente condicionada pela falta de um funcionalismo permanente, competente e com capacidade de registo, todavia esta dificuldade era extensiva quase a todo o País, onde a corte itinerante, através de um séquito régio de funcionários e letrados, asseguravam os serviços burocráticos e das forças militarizadas, dos núcleos populacionais que mais se distanciavam da Corte. No período entre 1279-1325 e com base nas fontes conhecidas, a vinda a Elvas da corte itinerante aproxima-se de uma dezena de visitas, na maior parte das vezes com a presença do rei, de funcionários, cortesões e servidores, este número só ultrapassado em terras de fronteira, pela vila do Sabugal, terra da Nobreza em que as visitas régias chegam quase às três dezenas. Entre essas visitas régias, destaca-se a da Corte em 1361 por altura das Cortes que não eram mais que uma assembleia solene, convocadas pelo monarca, em que tomavam parte os representantes da Nobreza, Clero e 3º Estado. Nelas discutiam-se problemas propostos pela realeza e se faziam reclamações, formuladas especialmente pelo 3º estado que apontava as soluções que entendia acertadas. Nas Cortes de Elvas foram apresentados dezoito capítulos gerais sobre as mais variadas questões que preocupavam os estados sociais, como se lê nas denúncias dos estratos dos referidos capítulos: Que os prelados e fidalgos e outras pessoas honradas, nos lugares em que moram, continuamente e a redor delas quando vão de uma terra para outra, dizem às justiças que lhes dêm carneiros, galinhas e outras viandas pela taxa que os dão ao rei […]; que os rico-homens e outros poderosos (…) pousam nas aldeias e fazem delas cavalariças, e nos celeiros de pão e dos outros haveres, pela qual se segue dano aos da nossa terra(…). Mas nesta fase foram os primeiros alcaides-mores de Elvas, Rui Fernandes (1282), Vasco Lourenço (1314) ou Gomes Annes (1329) que terão sido os primeiros responsáveis pela coordenação de um governo municipal cuja documentação, revela já a prestação de uma homenagem que se renova no princípio ao longo dos reinados dos primeiros monarcas portugueses [O primeiro alcaide do castelo foi Gonçalo Martins – 1230]. Todavia os primeiros aristocratas que reflectiam o centralismo da Coroa e perfeitamente inseridos nas ambições da Coroa só surgem nomeados por carta régia, nos finais do séc. XV como são os casos: D. Jaime, filho de D. Pedro (1443-1448); D. Sancho de Noronha (1448-?) e D. Afonso de Bragança, Conde de Faro ( 1476-1484) . De resto o exercício comunitário de poderes concelhios estava perfeitamente implantado como uma representação régia, através do alcaide do castelo a personalidade jurídica máxima do concelho e que comandava as tropas ao serviço do rei e exercia ainda a vigilância da justiça local; o mordomo do rei, administrador dos Bens da Coroa existentes no concelho e nessa função cobrava os direitos e as rendas régias. Outras funções públicas eram de nomeação concelhia pela respectiva assembleia e nos quais se identificavam o almotacé, responsável pela organização económica; os mordomos que tinham a seu cargo a administração do concelho e os sesmeiros, responsáveis pela distribuição e vigilância das terras. Ao longo dos séc. XIII e XIV, os vereadores locais, na prática magistrais concelhios passam a ser nomeados pelo rei a partir de 1340 quando o alcaide da vila era Álvaro Pereira. O símbolo do concelho, o selo se conservava na arca como fundamento jurídico que se dava aos actos públicos era também neste “recipiente” que se arrecadavam os documentos que era dirigido ao município pelas altas autoridades e pela coroa. Na relação entre a Corte e o concelho destacava-se ainda a figura do procurador designado pelo concelho desde as Cortes de Leiria de 1254. A defesa era outra prioridade concelhia e o Alcaide-mor, Rui Gil Sequeira em 1422 possuía um milícia armada de 100 cavaleiros com funções permanentes, numa época em que as hostes militares eram frequentemente constituídas pelo sistema de recrutamento face à ameaça de guerra. No final da Idade Média e por via do centralismo do poder real novos funcionários surgem no âmbito da fiscalização do poder local, trata-se dos juízes de fora, que inspeccionavam a administração municipal entre os vários elvenses que exerceram tal função destaca-se a figura do Dr. João de Elvas, que foi sucessivamente juiz de fora em Tavira (1482); Serpa (1483) ; Montemor -o -Novo (1484 ) e Estremoz (1487). Mas seria como diplomata ao serviço de D. João II que entraria na História de Portugal, quando integra a missão diplomática que rectificou o tratado de Windsor que determina que as relações entre Portugal e Inglaterra deveriam ser pautadas pela “… amizade e confederação perpétua, e com os aliados deles, de maneira que seria obrigado a prestar auxílio e socorro ao outro contra todos os que tentassem destruir o Estado do outro”. No final da Idade Média e quando a centralização real determinava uma nova estrutura administrativa local, na vila de Elvas assistia-se à reestruturação da estrutura da gestão municipal, com novas funções e reestruturação de outras, como o de Alcaide Sacas sendo Martinho Afonso em 1481 a desempenhar essa função. Os tabeliães a quem se exigia diligência e rigor, foram objecto de nomeação pela primeira vez em Elvas em 1492, sendo o exercício de tal função assegurado por Vicente Álvares. Outros funcionários são referenciados no exercício do poder local no âmbito dos primórdios da organização do poder local, João Rodrigues Barbudo, funcionário de carreira, então juiz do órfão do Alandroal, que vem para a sua terra natal em 1482 para a função de primeiro escrivão da Câmara, uma das funções mais importantes da administração local e cujo exercício ultrapassava a vida camarária e deviam servir também a população. E na Câmara o Tesoureiro nomeado por carta régia em 1483 era João Broa. A estas nomeações régias seguiam-se outras de nomeação local, como Nuno Pestana, recebedor dos portos secos de Elvas, desde os últimos tempos do reinado de D. Afonso V, Joam Rodriguez, porteiro-mor ou Gastão Sardinha, escrivão no âmbito da justiça local. Todavia no final da Idade Média, os poderes locais estavam limitados na sua acção e depende da vontade régia.






IX - Terras da Raia de Portalegre- Caracterização da Nobreza: - Os Castelo Branco



Em meados do século XIX as famílias aristocráticas portalegrenses herdeiras da nobreza de tradicional , viviam no centro da cidade, ocupando grandes casas nobres e em alguns casos, palácios. Era o caso dos Castelo Branco que ocupavam o Palácio Barahona, no Largo Serpa Pinto, assim chamado em homenagem ao famoso engenheiro e matemático, D .Francisco Cordovil Castelo Branco Brahona, personagem distinta que se dedicou durante largo tempo da sua vida aos interesses da cidade. A família CASTELO BRANCO: - representada então por D.Francisco Cordovil Castelo Branco, descendente de uma família originária de CasteloBranco originária da Beira Baixa e que na época medieval e moderna prestou serviço a vários monarcas portuguesas, em distintas campanhas militares que se desenrolaram em Portugal e no Norte de África. De facto, Rui Gonçalves, fundador da família de Castelo Branco, foi Contador da Fazenda na província da Beira e surge mencionado pela documentação, pela primeira vez em registo testamentário de 22 de Outubro de 1576, por Gonçalo Vaz Castelo Branco que deixava a sua filha, Isabel Sequeiro, a quarta prata do seu património. Seu filho, Nuno Vaz Castelo Branco, serviu a coroa portuguesa no Estado da Índia, sendo em consequência seu irmão Martin Vaz Castelo Branco, que manteve as funções de seu avô de Contador da Beira. A partir de então a trajectória histórica da linhagem Castelo Branco passou a estar vinculada de uma forma directa com a capital norte alentejana. Porque D. João Rodrigues Castelo Branco, filho varão de Martim Vaz, se estabeleceu em Portalegre e terminou convertendo-se no herdeiro principal de sua riqueza, obtendo uma quarta parta do seu património por testamento de 18 de Junho de 1578 com a condição de trespassar 200$000 réis a sua irmão Beatriz e 100$000 réis aos filhos de esta que serviam a Coroa portuguesa em terras da Índia. Assim este herdeiro da família Castelo Branco foi, sem dúvida, o primeiro proprietário da agrícola da família adquirindo logo várias herdades muito extensas no território do distrito, entre elas se destacaram as chamadas “Cantos e Safros por 170$000 rs. Mais tarde foi Nuno Vaz Castelo Branco, nascido em 16 de Novembro de 1622 com o título de morgado de Freixo y Naves e cabeça principal na linha dos herdeiros directos da família, que seguira a carreira das armas na Índia começada pelos seus antecessores nos finais do século XVI. A geração posterior continuou mantendo o seu património agrário do grupo familiar numa só pessoa. Os sucessores directos de Nuno Vaz, optaram pela vida religiosa, Francisca Pestana e Mendo Castelo Branco e outro descendente, João Batista de Castelo Branco, marchou a Roma depois de ter completado os seus estudos superiores na Universidade de Coimbra. Seria o seu quarto herdeiro, natural Pedro Caldeira Castelo Branco, nascido em 20 de Outubro de 1663, que ampliou notavelmente o património agrário de família graças a um casamento vantajoso, como se observa em relação às propriedades incluídas no testamento da sua mulher, Maria Leonor Taborda de Sá. Durante o século XVIII os filhos de D. Pedro Caldeira e Dona Maria Leonor Taborda continuaram afirmando-se como grandes proprietários rústicos e pecuários. Inclusive o seu filho ilegítimo João Rodrigues Castelo Branco, que surgia no princípio do séc. XIX como um dos proprietários más ricos do distrito e titular de várias quintas de Castelo Vide e Alpalhão. Durante a segunda metade de Oitocentos a família de Castelo Branco esteve representada por D. Francisco Cordovil Castelo Branco, que tal como outros familiares, continuaram a aumentar o seu património rústico através de novas compras e a sua capacidade económica através do arrendamento de algumas propriedades a particulares e na participação do negócio da cortiça, actividade de resto rentável por contratos que se estabeleciam com comerciantes deste produtos de várias zonas do País. Mas apesar de tudo, no final da década noventa e na transição para o século XX as dificuldades financeiras e económicas ameaçam os Castelo Branco, a venda de propriedades pertencentes a vários membros e inclusive, Luís Xavier de Barros Castelo Branco rico proprietário em Castelo Vide, Arronches, Niza e Portalegre, anuncia a decadência deste grupo familiar que chega a recorrer a empréstimos que devido às altas taxas de juro, aceleram a sua decadência e a venda do seu Palácio é o fim de uma das famílias históricas de Portalegre.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

IX-Terras da Raia de Portalegre:- Caracterização da Nobreza do Distrito






Durante a segunda metade do século XIX a aristocracia tradicional no Distrito de Portalegre limitava-se a pouco mais de uma dezena família. E entre elas, muito poucas eram descendentes da Nobreza de sangue uma vez que uma parte do grupo aristocrático, atingiu a condição de fidalguia em consequência dos processos de nobilitação após a Revolução Liberal do Porto de 1820. Era o caso, de algumas personalidades nomeadamente comerciantes, militares e intelectuais, que acabariam por constituir uma pequena nobreza, por reconhecimento dos seus serviços prestados à Coroa. Sendo estes casos excepcionais, apenas documentados para os centros urbanos da região, era também nas cidades de Portalegre e de Elvas, que se identificavam a aristocracia tradicional. Assim na capital do Distrito, encontramos os Castel Branco ou os Alvilez, cujos herdeiros em 1881 eram os maiores contribuintes do distrito, na cidade fronteiriça do Caia, a realidade aristocrática reduzia-se aos Marqueses de Penalva. Em todo o caso, estas famílias de referência da Nobreza de Portugal, haviam perdido, já alguns dos seus privilégios tradicionais, caso dos direitos feudais e das encomendas, extintas pelas leis de 1821 e 1841 e dos vínculos em 1863. Apesar da perda de parte dos seus privilégios senhoriais, mantinham algumas terras e alguns direitos, como alguns foros que continuavam a persistir. A perda dos velhos direitos feudais, senhoriais, por esta antiga nobreza permitiu a ascensão de uma nova aristocracia de raiz “liberal”, verdadeiros burgueses na essência da sua origem e comportamento, cuja via de enriquecimento era normalmente resultado da participação directa em novas actividades agrícolas, comerciais e industriais. Todavia, tanto a velha nobreza como a nova, em todo o Distrito de Portalegre, tinham em comum a posse de vastas extensões de terra exploradas segundo critérios tipicamente capitalistas, cujo aproveitamento dos seus recursos agrários era feito de forma intensiva e eficiente, sobretudo em muitas propriedades agrícolas que anteriormente estavam em estado de manifesto abandono ou incultos, de resto esta mudança se deveu à política agrária da Regeneração. Nesta época, em terras norte alentejanas, a posse de um título era um factor de valorização e afirmação social, independentemente da natureza do mesmo (social, académico ou até curiosamente de ordem religiosa). Este gosto pelos títulos era notável na cidade de Elvas, assim todos os Presidentes de Câmara, durante a Monarquia Constitucional procuraram obter durante a sua regência política, o título de Comendador da Ordem de Nossa Senhora de vila Viçosa, que utilizavam na vida pública e política. E esta designação, era fundamental para uma posição cimeira no protocolo municipal que estava assim definido: 1º Os militares; 2ºOs comendadores; 3ºOs doutores; 4ºOs representantes das Câmaras; 5º O Escrivão de direito e 6ºAs instituições. Este gosto pelos títulos por parte da nova elite elvense em parte tinha uma justificação bem determinada e que se definia pela sua condição económica, uma vez que uma parte considerável desta pequena aristocracia nobilitada nas décadas de 1830,1840 e 1850, eram reconhecidos como arrendatários de casas nobres como a do Conde Cadaval, Conde de São Martinho e inclusivamente da Casa de Bragança que contudo era mais representativa em termos de património no Distrito vizinho de Évora (CONTINUA).



segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Reflexões sobre o Nosso Tempo.



Vitorino Magalhães Godinho, figura ímpar da historiografia portuguesa e um dos primeiros responsáveis pelo fim do positivismo que marcou durante várias décadas a nossa história, Ministro da Educação em 1974, ex- director nacional da Biblioteca Nacional de Lisboa e com uma vasta bibliografia como académico, deixa-nos algumas reflexões que não devemos ignorar como historiadores e foram várias as gerações que tiveram na sua bibliografia um ponto de encontro, mas também todos nós cidadãos do mundo, enquanto leitores virtuais da blogosfera. E se hoje o Estado liberal é um desafio para os governantes e governados para o notável pensador É verdade que o Estado tem perdido coerência, muito porque se tornaram indefinidas as suas funções. Não sabemos hoje quais são as funções do Estado, na medida em que ele foi efectivamente esvaziado daquelas funções que na primeira metade do séc. XIX tinha estabelecido. De facto , para que serve o Estado? Não sabemos muito bem a não ser, talvez, se supusermos que, na sua maioria, os políticos são ao fim e ao cabo, “caixeiros-viajantes” das grandes máfias internacionais, das grandes empresas, que vão inaugurar empresas fábricas, etc. Penso que não é, nem deve ser a função do Estado – a de reduzir a um mero papel secundário”. E nesta perspectiva o conceito de bem comum está hoje alienado …”A noção de bem comum, aliás, é uma das coisas que desapareceram por completo. Ora, esta situação levou a que se formassem organismos internacionais que têm, por um lado, poderes bastante excessivos (do género dos da Comissão Europeia, quando determina o número de centímetros do carapau!) e, por outro, intervenções na ordem jurídica ou outra perfeitamente descabidas . Então onde se encontra o Estado ….“O Estado abdicou de uma política macro e tem apenas intervenções pontuais. Repare que, com todo o apoio dos analistas, a que se somam as directivas que vêm dos directores dos grandes bancos o que hoje existe é um jogo com apenas duas ou três variáveis. O que é hoje o abre-te sésamo são as taxas de juro, de que o mundo vive suspenso. Os políticos não sabem mais que fazer senão baixar ou subir as taxas de juro”. Por último o Professor Doutor, Vitorino Magalhães Godinho, questiona o Estado Mínimo ….”Pretende-se que cada qual viva por si, sem ser subsidiado. Mas como, se não encontra trabalho? Nos Estados Unidos, actualmente, contam-se cerca de 40 milhões de pessoas que estão em pobreza absoluta, porque tiveram doenças e não havia seguro de saúde. Quando desaparece o subsídio, como é que se mantém o poder de compra, que é a pulsão essencial da economia? Repare-se que, se os instrumentos macroeconómicos são muito reduzidos, visto que o Estado alienou o seu património, os meios que poderiam servir para orientar a vida económica desapareceram…”

domingo, 25 de Outubro de 2009

3.Elvas Portuguesa:- A política régia e a prioridade de fortificação. O Caso de Elvas.



Um dos monarcas que mais se preocupou no contexto do crescimento demográfico e da evolução da vila de Elvas, foi sem dúvida, D. Dinis, que na continuidade da política iniciada por D. Afonso III, procedeu ao aforamento de parte do território da vila não urbanizada para a construção de casas e tendas. Porém há que distinguir a postura de D. Afonso III e D.Dinis, o primeiro apesar de favorecer a expansão das vilas e cidades, beneficiou a aristocracia nortenha, quando doou aos grandes do reino como João Peres Aboim e Estevão Annes, um conjunto de bens, da igreja e do concelho de Elvas, aos referidos ricos- homens. Todavia esta acção de arrendamento da propriedade régia beneficiou de forma especial os núcleos urbanos de Lisboa, Elvas, Guarda e Guimarães, numa época em que o crescimento demográfico implicava uma reestruturação dos espaços ocupados primitivamente. Mas defesa e a fortificação da vila foram uma prioridade de D. Afonso III e continuava no reinado de D. Dinis, sendo Portalegre a sua preocupação em termos da arte de fortificar. Mas, a prioridade do “Rei Lavrador”, em fortificar as terras da raia a Norte com a Galiza e a sul com Castela, foi um acto presente no espírito dos nossos reis medievais. A documentação refere várias intervenções no Castelo de Elvas, por carta régia de 16 de Julho de 1361 foi promulgada o imposto da “adua”, para a cava de Elvas que devia ser financiada pelos moradores e vizinhos do reguengo da vila ; D. Afonso IV por carta régia de 4 de Março de 1378 referia-se a necessidade de reparar a cerca velha e da necessidade de realizar novas obras no perímetro da área fortificada com a finalidade de edificar a cerca nova. Esta fonte histórica da Chancelaria Régia da época D. Fernando, refere-se ainda que tais obras deveriam ser sustentadas pelos habitantes do lugar no valor de 140 soldos para os “carretos de cal e de braças de pedra”. A barbacã de Elvas uma obra interior junto à porta do Castelo, constituiu a obra mais polémica do ponto de vista da fortificação do castelo elvense, logo denunciada ao monarca D. Afonso V em 1439, uma vez que a população elvense, recordava ainda a difícil rendição do alcaide-mor do castelo, que durante a Crise de 1383-1385 procurou entregar o dito a D. Beatriz em função do referido obstáculo, que derrubado nos tempos de D .João I, estava agora de novo levantado por iniciativa do alcaide Diogo Lopes de Sousa. A solução encontra-se registada noutra carta régia, dirigida a D. Pedro ( filho do regente com o mesmo nome) que era então o proprietário senhorial do Castelo (1439-1448) , com a finalidade de efectuar o derrube definitivo daquela estrutura defensiva. Pela mesma época outras pequenas obras de manutenção ocorreram em várias estruturas defensivas nos arredores e vilas do concelho de Elvas, entre elas destacam-se pelo investimento de 3.000 reis feita por Gonçalo Martins, que a documentação identifica como morador [ Continua.]

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

VIII-Terras da Raia de Portalegre : "As classes populares. Síntese das considerações Gerais.



As classes populares constituíam a maior parte da população do Distrito de Portalegre, na fase de transição entre a Monarquia constitucional e a I República, uma parte considerável estava ligada à terra e desenvolvia a sua actividade laboral nas várias herdades dos grandes e médios propriedades da região. Referimo-nos, a uma grande massa de trabalhadores, um autêntico “proletariado rural” que contudo se distinguia de um outro grupo de camponeses procedentes de terras exteriores ao distrito e cujo objectivo era obter um trabalho renumerado sem condições e que depois de fazer a campanha da ceifa nomeadamente nas terras rurais do concelho de Elvas dirigiam-se com o mesmo fim para terras da Extremadura Espanhola. Estes trabalhadores originários dos distritos de Castelo Branco, Viseu e Coimbra, ao contrário dos seus contemporâneos alentejanos ou extremeños, aceitavam trabalhar a troco de salários muito baixos, sobretudo nas planícies espanholas, quando as sucessivas crises económicas (agrárias e subsistência) lançavam parte da mão-de-obra disponível no desemprego. Assim, a pobreza e a miséria eram realidades associadas continuamente à maioria dos indivíduos que se identificavam com as camadas mais baixas da população, por vezes segundo a documentação, em situações muito precárias. Era o caso dos pobres por efeito de alguma incapacidade pessoal, dos desempregados permanentes, das viúvas e dos trabalhadores que eram chefes de família de agregados numerosos. Nesta camada social identificavam-se ainda os chamados “falsos pobres” que viviam exclusivamente de actividades marginais como o contrabando ou viviam na pura vagabundagem. Em suma, há que ter em consideração que a maioria da população do distrito esteve sempre ligada à exploração agrícola e pecuária, independentemente do seu poder económico e nível social. Se tratava pois, de um conjunto humano muito estratificado do ponto vista sociológico, um facto bem evidente nas cidades de Portalegre e Elvas, onde se identificava uma aristocracia restrita e mais significativa na capital do distrito e uma alta e média burguesia cujos membros se cruzavam, por vezes, entre si, enquanto a pequena burguesia agrária era mais evidente nas pequenas vilas, como eram os casos de Marvão e Arronches. Relativamente às classes populares como já a afirmámos, correspondiam à maior parte dos indivíduos que formavam a base produtiva dos centros da raia e outros que na linha de fronteira se dedicavam ao contrabando e à vagabundagem como se comprova, através da análise da documentação da GNR que identifica vários indivíduos de Arronches, Campo Maior e Elvas : - Próximo artigo: - “Caracterização da aristocracia do Distrito de Portalegre”.

domingo, 18 de Outubro de 2009

VII-Terras da Raia do Distrito de Portalegre:"Sociedade e realidades sociais"(2)



Atendendo ao modelo de organização económica social do distrito entre a Regeneração e a I República, observa-se algumas diferenças muito visíveis entre as populações das cidades e vilas da raia de Portalegre. Diferenças essas que se acentuam, em determinadas ocasiões, devido a uma serie de contrastes apreciáveis relativamente ao poder económico e rentabilidade do património correspondente às famílias das classes dominantes, o mesmo já não é tão observável entre as classes populares. No caso, da capital do Distrito, há que fazer referência a um conjunto de famílias pertencentes à nova aristocracia liberal que tendem a se aproximar de outras históricas e de “sangue”. Em Elvas a situação era diferente, uma vez que nas últimas décadas do século XIX encontramos uma serie de titulados com base na compra de títulos e a nobreza tradicional, era exclusivamente representada pela família da Marquesa de Penalva. Mas de acordo com os dados recolhidos na documentação oficial ao nosso alcance, ao largo da segunda metade do séc. XIX e nas três primeiras décadas de Novecentos a classe dominante foi sem dúvida alguma, a integrada pelos proprietários. Formava-se assim um grupo de médios proprietários, exactamente reconhecidos pela documentação pela designação de “proprietários”, tratando-se de um modo geral de uma serie de personagens que haviam construído o seu património com base no exercício de actividades comerciais. Alguns possuíam, inclusivamente, certas terras em propriedade comum ou fragmentadas ou alguns benefícios resultantes da produção manufactureira, no qual se incluíam algumas famílias de origem estrangeira, como eram o caso dos Larcher e Robinson de Portalegre. Outro grupo de proprietários que se integravam entre as elites locais, com influência notável nestas sociedades de fronteira eram os militares e os intelectuais, não só devido à sua formação académica, mas também como resultante de um conjunto de patrimónios igualmente variáveis e que podiam ser agrários, granadeiros ou comerciais. Os primeiros eram sem dúvida, homens unidos por laços familiares ao conjunto de proprietários rurais, muitos dos quais descendentes directamente de algumas personalidades reconhecidas como negociantes ou comerciantes. De realçar que entre os militares nomeadamente de Elvas, havia o hábito de adquirir pequenas herdades de um modo geral na condição de rendeiros. Por outro lado, era nesta cidade que se encontravam alguns oficiais superiores do exército nacional com funções de comando no forte da Graça e Praça Militar, nesta época há que distinguir ainda o tempo dos brigadeiros e o tempo dos coronéis ou seja a época áurea (da monarquia constitucional) e a época de decadência (da I República). Por último, os pequenos proprietários que de um modo particular atingiam um numeroso grupo de proprietários na vila do Marvão como consequência de um espaço agrário deveras limitado e sobretudo com alto índice de partilha Os registos de testamento e de propriedade, demonstram que estes pequenos proprietários, trabalhavam a sua própria propriedade, na maior parte courelas e hortas e algumas parcelas de olival. Entre os pequenos proprietários não situação de riqueza diferenciada eram os titulares de mercearias das vilas e em Elvas ou os vendedores ambulantes (almocreves) que na transição para o século XX estava deveras representada na Vila de Arronches. (continua).

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Reflexões sobre o Nosso Tempo



Reflexões sobre o Terceiro milénio, é o tema de uma breve entrevista , de uma série que publicaremos sobre testemunho de historiadores de referência da historiografia do nosso tempo. Por hoje algumas ideias do melhor historiador português de História Medieval, Licenciado em Filosofia (1957) e Doutor com a tese “Le monachisme ibérique et Cluny. Les monastères du diocèse de Porto de l'an mille à 1200” (1963), Professor Doutor José Mattoso, Catedrático Jubilado, observa o terceiro milénio com preocupação. “Se continuarem a desenvolver-se certos fenómenos de globalização da economia, com a reconhecida incapacidade que o homem tem para se defender de alguns fenómenos, as consequências poderão ser dramáticas. Todas as mutações que conhecemos até aqui incidiam numa parte do planeta. Agora abrangem o conjunto da humanidade. A disparidade entre os países desenvolvidos e os sub-desenvolvidos é de tal modo grande, que isso dificilmente deixará de ter consequências funestas. Os mecanismos que levam a que exista cada vez maior concentração de poder nas mãos das grandes empresas e a necessidade de conceber estratégias para preservar esses poderes levam à exclusão de grandes massas de homens, não só no terceiro mundo, mas também nos próprios ditos civilizados”. Sobre a capacidade de controlar essa mudança? “A humanidade tem-se “safado” sempre (risos). Com custos óbvios, mas a verdade é que tem sobrevivido e ultrapassado as maiores dificuldades. Mas, de ponto de vista racional, dá ideia de que o egoísmo de cada pessoa: possuir mais. É difícil perceber qual será a solução para isso. A não ser que as consequências sejam de tal modo desastrosas, que haja uma catástrofe social tão grande, que os homens sejam obrigados a rever esses mecanismos”. E os exemplos seguem-se: “ Os elementos que poderão desencadear tal catástrofe vão mudando. Por exemplo, há 30 anos tinha-se muito medo da bomba atómica. Actualmente, esse medo é menor porque se tem conseguido que os homens tomem consciência da dimensão dos efeitos nefastos contidos no engenho. A verdade é que não têm faltado ocasiões para utilizar, e isso não sucedeu. O mal que causaria a bomba atómica é demasiado evidente … Já as consequências do actual sistema económico são mais subtis e pulverizadas. A face luminosa da humanidade mantém-se à custa de um lado escuro. Para mudar o rumo da economia seria preciso que as grandes potências se entendessem entre elas ou que os excluídos tivessem capacidade reivindicativa, suficiente para obrigar a alterar o estado das coisas, para impor a justiça social. E não se vê como…Por fim e como humanista admite que o é no sentido global, mas “Sou bastante pessimista em relação à humanidade. Não é por causa do pecado original, é porque na História não consegui ver outras coisas. A Idade Média não foi uma época de justiça social. Os homens resolviam razoavelmente os seus problemas do quotidiano, mas não havia formas de diminuir o sofrimento. Foi uma época de intenso sofrimento para a classe trabalhadora. Não foram as crenças e o grande peso da religião que minimizaram a injustiça social. Quando se procura caracterizar a sociedade em conjunto, os movimentos de altruísmo e o sentido colectivo são de tal forma excepcionais, que não pode considerar-se esses movimentos como aqueles que comandam a humanidade. Sou optimista na medida em que, apesar de tudo conduzir ao egoísmo, continuarão aparecer, nas circunstâncias mais inesperadas e irracionais, movimentos de altruísmo e de capacidade de luta.


terça-feira, 13 de Outubro de 2009

VI -Terras da Raia do Distrito de Portalegre " A Sociedade e as realidades Sociais"(1).

Considerações Gerais: A sociedade que se desenvolveu nos principais centros transfronteiriços do distrito de Portalegre, como de resto na sociedade portuguesa de Oitocentos conheceu ao largo do período objecto de análise, novos critérios de evolução social que estavam então em pleno desenvolvimento desde a Revolução Liberal de 1820. Fruto desta circunstância revolucionária, não só se verificou a valorização de valores como a riqueza e o saber, enquanto que elementos básicos de diferenciação social como, os privilégios jurídicos tradicionais foram praticamente eliminados, com o devido reflexo no peso territorial e económico de uma aristocracia tradicional residente no distrito ou exterior a ela, mas com bens fundiários na região. Nascia, assim, uma nova forma de hierarquização social de baseada essencialmente na desigualdade da partilha de benefícios económicos, de posse da terra por aquisição e que iniciava de um modo particular, o controlo dos meios de produção. Esta realidade social, era uma consequência da distribuição singular da propriedade agrária, factor principal das grandes desigualdades económicas observáveis numa sociedade de base camponesa em que a maioria dos seus componentes estava directamente ligada aos trabalhos no campo, em tarefas agrícolas e pastoris. Todavia esta situação estava em plena mudança na transição para o século XX, mercê do desenvolvimento de novas profissões relacionadas com os transportes públicos e com o avanço dos transportes. De um modo especial nas cidades do distrito já que apesar das novidades que as novas profissões traziam as gentes residentes nos meios urbanos, as vilas da raia continuaram mantendo até ao primeiro terço de Novecentos a prática agrícola como a actividade agrícola como podemos comprovar pelo quadro apresentado.

Distribuição dos activos por sectores económicos em (%) na vila do Marvão.

Sectores

1870

1890

1900

1911

1930

Primário

77.3

76.8

80.0

78.0

77.0

Secundário

18.8

19.2

15.5

15.0

14.0

Terciário

3.9

4.0

4.5

7.0

9.0

Nos núcleos rurais e apesar de não haver coincidência nas series estudadas a situação do Marvão, repetiu-se com diferenças mínimas nas vilas de Arronches e Campo Maior, ao largo da segunda metade do século XIX. Observou-se que a perda de efectivos no sector primário durante as décadas de 1870 e 1890 provocou um certo retrocesso do contingente sectorial, como resultado provável das crises agrícolas que se manifestaram na produção agrícola que se viveu em todo o sul de Portugal. De facto, não podemos esquecer os reflexos da forte crise agrícola e pecuária nestas décadas, como resultado da concorrência do trigo norte-americano ou da chegada das peles oriundas da América Latina, com consequências directas nas explorações agrícolas da região devidamente comprovadas pela baixa de preços nos mercados dos municípios fronteiriços. Assim, só na última década do séc. XIX, se assistiu a um visível crescimento da população activa agrária, uma vez superada a crise precedente, com a reactivação dos sectores agrícolas e pecuários mais exactamente. No sector secundário, a vila de Arronches chegava aos 15.7 % na viragem do século quando aquela realidade administrativa distinguia-se por um conjunto de médios proprietários que se dedicavam ao aluguer de apetrechos agrícolas e um pequeno grupo de almocreves distinguiam-se no conjunto das vilas com tal actividade económica. A vila de Campo Maior no sector era sem dúvida a menos representativa tal como o sector terciário que desde finais do século XIX era mais expressivo no Marvão em parte pelo impacto dos funcionários ferroviários sediados naquela vila ao serviço da Linha de Cáceres. Mas é necessários termos em consideração a documentação relativa à década de 1930 para podermos comparar a realidade distrital.

Distribuição dos activos por sectores económicos em (%) nos centros populacionais da raia de Portalegre

Primário

Secundário

Tercário

Marvão

77

14

9

Portalegre

71

19

10

Elvas

68

29

13

Arronches

79

15

6

Campo Maior

82

12

6.1

Média

75

18

7

E se é certo que o sector primário continuava sendo o sector de actividade económica mais representativo em todas os espaços populacionais do distrito, as realidades agrícolas das vilas de Arronches e Campo Maior, eram as áreas agrícolas mais representativas da raia distrital. Uma vez que o desbravamento das terras durante a Campanha do Trigo corresponderam a novos arroteamentos ainda que os grandes proprietários fossem exteriores a essas realidades municipais. No caso de Arronches, muitas das herdades estavam nas mãos de alguns proprietários de Portalegre como os Castelo Branco e alguns poucos de Elvas como era a Casa Agrícola dos Rasquilhas que possuíam algumas das melhores propriedades locais como a da Contenda. No caso de Campo Maior tal como em Elvas, era tempo de afirmação dos arrendatários, que se tornariam ainda durante o Estado Novo como grandes proprietários, caso dos Corado, dos Minas e dos Rosados. O sector secundário a cidade de Elvas era de longe o núcleo mais importante graças a afirmação do seu comércio desde finais da década de 1890 quando as principais casas comerciais da capital tinham os seus agentes no referido núcleo urbano, tal como nas principais cidades portuguesas da metrópole. O sector terciário concentrava-se nas cidades de Portalegre e Elvas, com base no funcionalismo público crescente desde a implantação da I República e na presença militarizada e policial que no caso de Elvas líder do sector, com 13% dos quais 6% correspondia à sua população militar ( Continua).

sábado, 10 de Outubro de 2009

2.9 -Elvas Portuguesa: -Notas históricas sobre a Igreja Medieval





As armas e a fé percorreram os caminhos da reconquista cristã e a cada povoação conquistada e repovoada, correspondia novas almas, cuja aglomeração populacional no espaço, era fundamental para a constituição de novas paróquias ainda mesmo antes da integração definitiva das mesmas nas suas dioceses definitivas. Não é por acaso que a carta episcopal do Bispo da Guarda exortava na longínqua primavera de 1260, a comunidade cristã de Elvas a reconhecerem como seu Bispo, o mais alto dignitário da Sé de Évora. As causas, as dúvidas e as posições da vila de Elvas, relativas à sua integração na diocese de Évora não são conhecidas no actual momento de investigação histórica, mas dois anos depois o Bispo de Évora exercia a sua jurisdição administrativa em terras elvenses quando confirmava a doação da Igreja de Vila Boim a João Aboim, constituindo então a primeira paróquia fora do núcleo de povoamento primitivo uma vez que outra povoação nas mesmas circunstâncias a vila de Barbacena só atingiria tal dignidade uma década mais tarde. Em Elvas, as primeiras paróquias são anteriores a meados do séc. XIII como a de S. Pedro, fundada em 1227 como se comprova na leitura paleográfica do seu portal e por volta de 1267 as paróquias de Santa Maria e de e de Alcáçova, são já referenciadas com locais de culto e de serviço aos fiéis. No caso, da paróquia de Santa Maria da Alcáçova, as dúvidas são inexistentes considerando que o primeiro templo cristão, edificado sobre as ruínas da provável mesquita (?), está datado para os primeiros dias do ano de 1241. A paróquia do Salvador, mais tardia de meados ou inícios do séc. XIII, cuja igreja constituía um Priorado da Casa de Bragança e regista como seu documento mais antigo um foro datado de 12 de Janeiro de 1273. Da época posterior à reconquista da vila de Elvas outros templos integravam a jurisdição da ordenação paroquial, como as Igrejas de São da Corujeira que a tradição refere como o ponto onde se gerou a ofensiva para a reconquista de Elvas e profundamente alterada pelas obras setecentistas, após a perda da sua torre e parte da sua estrutura (alçados) por volta de 1840. A Igreja da Madalena que se perdeu para a eternidade, onde na época Moderna se edificou o Convento das Dominicanas e a Capela de Nossa Senhora dos Bem Casados, datada sem confirmação para a época de D. Afonso IV, não resistiria às prioridades urbanísticas do desenvolvimento imprimido em meados do século XX pelo município. Sendo uma das primeiras referências da devoção popular, cuja confraria foi reconhecida por bula papal de 1348, foi um exemplo típico da expansão nas paróquias primitivas que permitiam a edificação dos espaços religiosos ainda que dependente da sede da Igreja paroquial. Mas o período medieval em Portugal como um pouco por todo Ocidente foi marcado por uma nova vaga de espiritualidade que aproximou de forma particular as populações urbanas e rurais do ardor evangélico que os tempos medievais então determinaram na visão e concepção do homem medieval. Era o tempo das ordens mendicantes que traziam uma nova mensagem de contenção relativamente aos bens e prazeres materiais, em Elvas a Ordem de São Domingos enquadrava-se nesse âmbito e sedeada na paróquia do Salvador foi durante quase toda a medievalidade o maior complexo arquitectónico religioso. A sua aceitação junto da população, manifestava-se no âmbito do desprendimento das “coisas do mundo” numa época em que o espírito cristão era um sentimento permanente gerado no âmbito da “cruzada da reconquista.” A presença dos monges é documentada oficialmente por volta de 1267 quando por cata régia de 20 de Fevereiro lhes foi doada a Ermida de Nossa Senhora dos Mártires e permitida a sua licença para esmolarem em Badajoz numa fase em que o Igreja, Convento e Hospedaria estava em construção iniciada um ano antes com a doação do terreno para o mesmo fim. A realidade assistencial era outra função extensiva aos espaços religiosos considerados, como eram o caso das albergarias e/ou hospícios anexas os templos: dos Mártires, S .Pedro, Madalena, do Salvador ou do Convento de São Domingos, com dupla função de hospício e de albergaria, no acompanhamento e no apoio solidário, na doença e em especial nas épocas de surtos epidémicos ou na guarda e protecção dos viajantes que para a capital e da mesma, atravessavam as terras de fronteira. De um modo geral, na vila de Elvas o clero medieval centrava-se em duas categorias o paroquial ou regular seja predominava o baixo clero, o paroquial ligado ao direito do padroado e o obrigado a diversas contribuições ao bispado, entre elas o sinodático (Pago em sujeição ao seu bispo, e normalmente em cera); a visitação (Pago em géneros, quando o prelado fazia visita canónica) e a lutuosa (Pago por morte dos religiosos segundo os bens do defunto). O que contribuía para a pobreza do clero paroquial que não tendo bens de raiz, o tornava mais próximo, das formas de vida e preocupações materiais dos seus paroquianos. No clero regular, a situação de desafogo económico ou material, dependia da ordem e do mosteiro em que pertenciam, no caso elvense, a opção pela pobreza justifica toda e qualquer referência relativamente ao retiro espiritual dos frades dominicanos. Todavia nos primeiros tempos do “repovoamento e colonização” do espaço territorial da vila de Elvas, não podemos esquecer o papel da Ordem de Alcobaça que então possuía algumas herdades ou mais tarde na época dos trezentos a Ordem de Cristo que também possuía algum património enquanto instituição espiritual da Casa Senhorial do Infante. Mas, se é verdade que a Igreja Medieval em Elvas, rica no património construído e pobre nos protagonistas espirituais, também é certo que as paróquias locais foram enriquecendo com base nas suas receitas próprias, pregações, missas e ofertas, mas sobretudo através dos testamentos em especialmente a partir de fins do séc. XIV, quando a fidalguia local, doava frequentemente, terras (olivais) e casas de moradas que preenchiam o rol dos seus bens materiais , mas também algumas fortunas como as doações em metal precioso que podemos comprovar na doação de Lourenço Annes Mafalgo, (ANTT, Testamento, 20/1337) em que o mesmo lega à Igreja de Santa Maria dos Mártires, “o valor de 100 meravadis para a obra da igreja e 50 para os frades” ou ainda “ as trezentas drobas, três taças de prata e outros bens em material precioso

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

V -Terras da Raia:-Síntese histórica da Vila de Campo Maior



Ao contrário do que ocorreu com as demais cidades e vilas do norte alentejano, Campo Maior não foi resultado directo do esforço da reconquista cristã, mas antes dos esforços diplomáticos realizados com vista ao estabelecimento de relações pacíficas entre Portugal e Castela. De facto a incorporação da vila de Campo Maior na coroa portuguesa foi uma consequência da assinatura do Tratado de Alcanices em 12 de Dezembro de 1297. Estabelecido com o objecto de pôr termo, às guerras que durante décadas envolveu os dois estados ibéricos. Uma vez que pelo referido Tratado, portugueses e castelhanos comprometiam-se a ser verdadeiros amigos e inimigos dos seus inimigos. E foi nessas circunstâncias, que se definiu então a repartição de castelos e populações mais importantes da raia, desde o Norte ao Sul, no qual o território da vila de Campo Maior passou a integrar a soberania portuguesa. Por essa razão, o desenvolvimento de obras de fortificação passou a ser uma constante, numa localidade que em tempos de crise política se mostrou quase sempre favorável à integração na coroa castelhana, mas tal não evitou que as armas de Portugal fossem defendidas naquela terra da raia nacional, com honra e heroísmo. Mas a ligação a Castela, foi um caso ímpar em terras do distrito de Portalegre, nos séculos XVI e XVII, Campo Maior se converteu de uma maneira particular, num núcleo de atracção de diversas populações da vizinha Extremadura, mais exactamente de Badajoz, Albuquerque e Cáceres. Dois factores contribuíram de um modo especial para esta circunstância, por um lado o desenvolvimento alcançado pelo comércio raiano durante o período da União Ibérica e por outro a chegada de milhares judeus que atravessaram os pontos principais da raia nacional, casos de Elvas e Marvão. Assim e de acordo, com as cifras documentais cerca de 25.000 foram o número de fugitivos de Castela e entre eles, algumas centenas de médicos, boticários, mercadores, sapateiros para citar as profissões mais significativa, dos judeus que se fixaram na vila alentejana. Mais, tarde com a Guerra da Restauração a expansão demográfica que Campo Maior conheceu durante os inícios da Modernidade sofreu um notável retrocesso, quando a sua praça era então reconhecida como a segunda mais importante da região Alentejo. Nos começos do século XVIII a população campomaiorense ainda não tinha recuperado as perdas sofridas durante a segunda metade de seiscentos, não só como consequência da conjuntura de guerra, mas sobretudo pela deslocação de parte dos seus efectivos populacionais, para os núcleos vizinhos, de Arronches e sobretudo para Elvas. Do início do século XVIII destaca-se um precioso documento datado de 1708, que refere que o núcleo urbano estava arruinado e o despovoamento era evidente “ foi uma população com 1.200 vizinhos mas hoje, por causa da guerra com Castela, se apresenta com 850”. Mas a centúria de Setecentos e as primeiras décadas do século XIX foram adversas em termos de desenvolvimento económico e social, uma vez que a maior parte da propriedade agrícola estava sob domínio de um grupo restrito de proprietários e em especial de alguns militares que se tornaram senhores das melhores propriedades da vila e os intercâmbios comerciais frequentes ao longo dos séculos XV e XVI, foram pouco a pouco, interrompidos. E devido, a estas circunstâncias, a vila se converteu num espaço predominantemente agrícola, ao mesmo tempo que o contrabando até então uma actividade complementar nos rendimentos de muitas famílias da raia se tornava uma prática comum e uma actividade exclusiva e sempre crescente ao longo do século XIX. Todavia, como de resto se verificava nos demais centros fronteiriços do distrito, a agricultura continuava a ser a principal actividade pelo menos desde os tempos medievais. E mesmo quando Campo Maior, se afirmava como uma praça comercial de interesse regional, a sua capacidade como centro exportador passava pela produção cerealífera, não é por acaso que o monarca D. Manuel I, enviou a esta vila, um seu criado para a aquisição de trigo para abastecer as necessidades da capital. Em suma, como procuramos comprovar os principais núcleos fronteiriços do distrito se formaram inicialmente, no contexto da reconquista cristã e acabariam por se consolidar nas guerras com Castela, um conflito que em determinados momentos pressionou a fronteira portuguesa, quase sempre sem êxito pois, em muitos casos, as acções consistiram unicamente na realização de operações de saque ou guerras de cerco, sobretudo nos períodos medieval e moderno. Terminada as síntese históricas das cidades e vilas da raia (O caso de Elvas, vide nos textos sobre Elvas Portuguesa), vamos situar as nossas reflexões com base na documentação coeva e no período de 1850-1930, que corresponde nada menos nada mais, as origens mais recentes destes centros populacionais raianos.

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

IV – Terras da Raia: - síntese da História da vila de Arronches.

Durante os séculos XII e XIII quando a reconquista cristã avançava para sul, o espaço territorial onde mais tarde nasceria a futura vila portuguesa de Arronches, esteve em determinados momentos sob domínio mouro, de tal forma que só com o Tratado de Alcanices (1297) que as suas linhas territoriais ficaram praticamente definidas. Uma vez conquistada em 1166 por D. Afonso Henriques viria a perder-se, sendo novamente reconquistada pelas hostes cristãos em 1253 sob comando de D. Sancho II e definitivamente por D. Paio Peres Correia em 1242. Em finais do séc. XIII, Arronches formava parte das terras de fronteira que deviam voltar para as mãos da coroa de Castela pelo tratado de Alcanices que se firmou em 12 de Setembro de 1297 a fim de estabelecer a paz entre Portugal e Castela após uns largos meses de guerra com consequência devastadoras para ambas os reinos. Porém e apesar das pretensões castelhanas sobre território, que havia pertencido a D. Afonso X e D. Afonso IV, não tardou muito em reintegrar-se no território português. Apesar de quase meio século depois, em plena crise dinástica de 1383-85, a vila optaria por tomar partido da causa de castelhana, que havia invadido o país em princípios de 1384. E é curioso, que este apoio acabou por custar as fortunas de Gomes Mendes e Álvaro Botelho, dado que seu irmão Gomes Garcia de Foios se apresentou como legítimo herdeiro dos seus patrimónios: “ …por serme em consentimentos de se dar a villa a seus inimigos”.[ANTT, Carta Régia de 26 de Agosto de 1385]. Durante o séc. XV e XVI, este núcleo fronteiriço se caracterizou por um franco crescimento demográfico e em parte pela tolerância da sua população que permitiu a fixação de residência no seu povoado de comunidades como a moura que viveu nesta vila com uma ampla liberdade caso único na raia do distrito de Portalegre. Por outro lado, Arronches foi igualmente uma das poucas vilas ou cidades portuguesas que admitiu receber os Judeus espanhóis, a troco de um imposto de oito cruzados por cabeça, quando a Inquisição espanhola de forma violenta expulsava todos os judeus que não aceitavam a conversão. [ANTT, Carta régia de 8 de Abril de 1347 outorgada em Santarém]. Nos finais do século XVI e em plena crise dinástica, a vila de Arronches tomava partido dos centros populacionais favoráveis à União Ibérica, tal como Elvas e Portalegre numa atitude que reflectia sobretudo a vontade da nobreza que vivia na raia norte alentejana. No âmbito económico a vila realizava uma feira anual com a duração de quinze dias, em Maio pelo menos desde fins do séc. XIII por concessão de D. Dinis. Mas seria D. João I, o primeiro monarca da dinastia de Avis que concederia por Carta Régia de 20 de Março de 1405 o estatuto de “Feira franca”, promovendo o desenvolvimento mercantil com base na isenção de impostos, como podemos comprovar : «E outrossy queremos que todos aquelles que a dicta feira vierem e trouuerem mercadorias para vender ou as hi quiserem mercar ou mercarem nom paguem sisa nem portagem nem outros direitos nehuuns das dictas mercadorias que se hy a adicta feira vierem e trouuerem e se hi venderem ou mercarem e seiam qujtes e liures e scusados por quatro annos compridos assy que façam quatro feiras quites e jssentas de todo o que dicto he.” Um século mais tarde o funcionamento de vários moinhos de azeite e farinha, o comércio de tecidos e a prática do contrabando, eram já actividades comuns de uma população habituada a passar a raia. Por outro lado a prática do contrabando já era considerada ilegal e praticada de forma clandestina com alguma intensidade desde as Guerras da Restauração. Numa época em que a população da vila desempenhou uma notável função enquanto núcleo de reforço e socorro militar aos centros populacionais cercados pelo invasor, como demonstra o auxílio das hostes militares arronchenses na ajuda a Elvas durante o cerco e batalha das Linhas de Elvas em 1659 e mais tarde em 1705 no cerco ao Marvão e por consequência no assédio a Valência de Alcântara. Mas seria no decorrer dos séculos XVII, XVIII e sobretudo nas primeiras décadas de Oitocentos que a vila de Arronches perdeu a sua importância estratégica como um dos núcleos essenciais na defesa da fronteira, garantida agora pelas guarnições permanentes estacionadas em Almeida e em Elvas. A partir de então a paz relativa que marcou a vida política portuguesa impediu a afirmação desta vila raiana, tal como outras populações alentejanas. A perda da sua alfândega pelos gastos superiores às receitas foi motivo de incompreensão de uma população que se tornou reivindicativa durante a monarquia constitucional e na primeira república como veremos a seu tempo de forma objectiva.

2.8 - Elvas Portuguesa. Os grupos étnicos-religiosos e estrangeiros:Os Judeus.

O outro grupo étnico, mas com maior relevo na sociedade elvense era sem dúvida os Judeus cujos bairros ao contrário do que se verificava com os mouros, tinham o privilégio de ter os seus bairros dentro das muralhas da vila, enquanto aqueles, provavelmente devido o ocupações humildes, e entre elas, o trabalho agrícola, habitavam os subúrbios ou mesmo as áreas fora da zona amuralhada. Em Elvas durante o séc. XIV uma parte considerável dos Judeus tinham como moradas de casa a Praça, a Rua Nova ou Rua do Alcamin (?), a rua das Portas de Olivença e de Évora, enquanto uma parte das famílias mais antigas se situavam ainda no exterior da primitiva muralha. No século XV outras áreas nevrálgicas para a actividade comercial entram no rol dos cristãos novos por oposição aos velhos, como a porta da Praça Nova, a Rua da Feira e da Carreira dos Cavalos, onde vivia Diogo Álvares Soriano cuja actividade mercantil estava registada nas principais praças comerciais luso-espanholas ( ANTT, Inquisição de Évora, 7714º ) . Na comuna judaica tal como na muçulmana, os níveis de riqueza eram diferenciados, os mercadores, os físicos, ourives e os médicos distinguiam-se de uma minoria de mesteirais, tendeiros e assalariados. Os privilégios que detinham os “ricos” da judiaria elvense, eram vários e entre eles destacavam-se a possibilidade de isenção de impostos, de sinalização da sua condição e inclusivamente a permissão de viver entre os cristãos, como eram os casos de José Verdugo ou do casal Alfarim, Monção ou do rabi Sad Ordonha (ANTT, Chanc. de D.Afonso V, Liv.12,15,8 e 1). A sabedoria ou conhecimento, era o factor determinante para obtenção de este tipo de privilégios, considerando que o número de físicos e médicos documentados pelas fontes demonstram que se tratava da comunidade científica mais importante da região e da raia com Castela. Não menos importante era o quantitativo das rendas da judiaria elvense que se situava à volta de 113.333 reais em finais do séc. XIV, quase mais de 80 % das rendas de Portalegre (61.066 reis) (ANTT, Chanc de D.Manuel, Livro 13), não por é caso, que D. João I, após a Crise de 1383-1385, beneficia a aristocracia local com direitos e rendas reais. Como são exemplos a doação ao escudeiro Gil Fernandes do serviço, de cabeças dos Judeus (ANTT, Chanc. de D. João, Livro I) ou das rendas reais da própria judiaria ao alcaide da vila, Álvaro Gonçalves (ANTT, Chanc. D. Manuel, Livro II). Os registos demográficos não nos permitem quantificar os números referentes aos efectivos das judiarias de Elvas e mesmo o número de judeus em fuga à Inquisição Espanhola em 1492 que passaram as fronteiras de Elvas e Marvão e que segundo Velasco da Mota, se encontravam num acampamento levantado em Castelo de Vide, cerca de 4.000 a 5000 efectivos .Todavia o crescimento explosivo da população judaica no distrito também se manifestou em Elvas, uma vez que por essa época nascia e a Judiaria Nova.

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

III –Terras da Raia: síntese história da Cidade de Portalegre

Como terra portuguesa recebeu a sua carta foral das mãos de D.Afonso III em 1259. Uma década depois, por carta régia de 1271, D. Afonso III e sua mulher Dª Beatriz concederam a vila de Portalegre ao Infante D.Afonso Sanhes, assim como as vilas de Marvão e Arronches com todas os seus termos e privilégios. Seria durante o reinado de D.Dinis, que a vila pois em marcha uma serie de obras destinadas a fortificar este núcleo, no contexto de garantir a defesa da linha de fronteira, tal como ocorrera com a vila de Marvão, na mesma época. Em meados do século XVI o monarca D. João III reforçou a identidade administrativa de Portalegre quando elevou a vila a cidade, que graças a uma Bula Papal concedida em 18 de Agosto de 1549 por Paulo III se converteu em diocese. Nos fins da mesma centúria a aristocracia de Portalegre, se mostrava favorável à União Ibérica, de resto uma das mais importantes figuras da cidade foi um dos cinco governadores com mandato de Madrid, durante esse período histórico. Se tratava do Conde de Portalegre, D .João da Silva, que seria também pela mesma época Mordomo-Mor da Casa Real e Capitão Mor dos presídios e da gentes de armas. Nos inícios do século XVII as autoridades da cidade reclamavam junto da coroa espanhola a cobrança de pesados tributos que tanto prejudicavam a população. Todavia, o apoio à causa Ibérica era defendida com alguma determinação pela aristocracia portalegrense, através d, figuras como o Conde de Portalegre D. Diogo da Silva, sem dúvida um dos homens de confiança de Filipe IV para as questões militares das Índias; os Condes de Basto, Portalegre e Miranda, que eram chamados regularmente à Corte para consulta e opinião em matérias fiscais ou assuntos de natureza militar. Convém ressaltar que a economia de Portalegre se transformava de um modo significativo em finais do século XVII e nas primeiras décadas do século seguinte especializava-se na indústria manufactureira de fios e tecidos de lã. Ao mesmo tempo que a criação de cavalos continuava a ser uma actividade económica de referência no âmbito agrário desde os tempos da formação da nacionalidade portuguesa. No início do séc. XIX, como resultado da Guerra das Laranjas, as forças franco-espanholas pressionaram com êxito as praças e fortalezas do Alentejo, quando os estrategas das hostes nacionais imaginavam que o referido avanço ocorreria pelas Beiras. De facto, fruto da guerra, Portugal acabaria perdendo não só as cidades de Portalegre mas também outras populações fronteiriças como Castelo de Vide ou Campo Maior. Mas, pouco depois se restituía a dita cidade pelo Tratado de Badajoz, no qual a Espanha se comprometia a devolver as praças anteriormente conquistadas: Juromenha, Castelo Vide, Portalegre, Barbacena, Campo Maior e Ouguela. Por aquele tratado, os portugueses deviam cerrar os seus portos aos navios ingleses e procurar reunir todos os esforços conducentes a impedir a prática do contrabando que tanto prejuízo ocasionava aos interesses da economia espanhola. A diplomacia continuou a mover as influências no sentido de ultrapassar esta crise política, no entanto as populações civis da raia portuguesa e espanhola, continuaram a não se entender, não respeitando os limites entretanto gizados nas actividades de pasto, a documentação do Governo Civil refere várias situações conflituosas: “ … que nunca devem invadir ou ultrapassar de um só passo que seja, eles seus gados, para qualquer fim oposto à lei, à justiça e à atenção devida aos estrangeiros, os limites da mesma raia, quando estes forem conhecidos e se acharem bem fixados”.Após este período de convulsão e com o fim da guerra carlista e o início de um longo período de paz criaram-se as condições necessárias para o desenvolvimento das vias de comunicação a partir de e com destino ao núcleo urbano principal do norte alentejano, numa época que esta condição era determinante para o desenvolvimento económico e modernização social não só da cidade como do distrito.(Contínua)



segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

II-Terras da Raia de Portalegre: síntese histórica da Vila do Marvão



De volta à Raia de Portalegre, iniciamos hoje a síntese histórica dos principais centros transfronteiriços do Distrito. 1.1 - A Vila do Marvão: - se encontra situada na linha de fronteira, a pouco mais de 13 Kms., da antiga alfândega de Galegos, tendo a norte a vila portuguesa de Castelo Vide e a sudoeste a cidade de Portalegre. A vila de Marvão foi edificada numa elevação escarpada durante o período muçulmano, afirmando-se ao largo da sua história como uma fortaleza de guerra. Assim sucedeu, pelo menos desde o século IX, um século durante o qual este núcleo se transformou num espaço essencial como reduto defensivo, sendo utilizado com muita frequência como lugar e refúgio fortificado de Iban Marvuán, de quem a vila deve a sua denominação. A conquista do Marvão aos árabes, ocorreu graças ao avanço da reconquista cristã a sul e, mais concretamente, com a definição da chamada Linha do Tejo em 1147. Assim, pelo menos, desde 1167, que os cavaleiros dos Templários passaram a controlar este espaço, outorgando-se a sua carta foral em 1226 pelo monarca D. Sancho II e integrando o seu termo numa parte significativa no actual Distrito de Portalegre. Este facto demonstra o valor estratégico extraordinário deste núcleo raiano, uma vez que a dita carta foral estabelecia que uma terça parte dos seus cavaleiros devia permanecer de forma permanente na dita vila, não apenas com a missão de assegurar a presença cristã na dita vila mas como forma de mobilizar as forças cristãs para a conquista das terras do sul. Ao largo do período medieval o Marvão se afirmou como um núcleo importante no desenvolvimento económico da região do Alto Alentejo, uma vez que recebia uma parte considerável de produtos por via da vila mais importante do Tejo, Santarém, para distribuição das localidades mais próximas. Durante o século XIV a vila do Marvão foi fortemente abalada pela trágica e violenta, Peste Negra que levou o monarca D. Fernando a criar os chamados “coutos” para “hominizados” , que eram, indivíduos condenados por homicídio a quem a Coroa perdoava certos crimes ou faltas sempre que se fixavam em terras da raia. Se tratava, ao mesmo tempo, de defender o espaço raiano e contribuir para a estabilização da própria monarquia. E por isso podemos comprovar que foi o próprio rei Dom Fernando quem mandou reforçar através de várias obras da defesa do Castelo, pela soma de 3.000 reis brancos (ANTT, Carta Régia de 1443). Mais tarde, graças ao desenvolvimento do comércio externo, sobretudo com o reino de Espanha, a importância da villa do Marvão foi aumentando convertendo-se nos tempos modernos, não só um dos portos secos mais importantes do norte alentejano mas também como uma das praças comerciais mais representativas do Sul de Portugal, com períodos menos bons até meados do séc. XIX. Os séculos XIV e XV foram determinantes para a colonização do território, mas o apogeu demográfico teve lugar, provavelmente, no século XVI, quando entraram milhares de judeus pela fronteira fugindo à violência da Inquisição Espanhola. De todas as formas, a história mais conhecida de Marvão esteve marcada, sobretudo, por uma serie de eventos militares que a população viveu durante os séculos XVII, XVIII e XIX, entre eles destacaram as seguintes: - Guerra da Restauração – Inicialmente um cerco imposto pelas forças militares espanhola em 1641 e pouco depois em 1648, de um ataque lançado também por unidades militares hispânicas sob comando do Marquês de Lagañes; - Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1715). Em 1704 a fortaleza foi tomada por um exército franco – espanhol dirigido pelo Duque de Berwick, ainda que no ano seguinte se restaurou a situação anterior por acção do exército português, comandado pelo Conde de São João. - Guerra Fantástica (1762-1763) – Ocorreu quando as forças espanholas fazendo uso de surpresa, tentaram uma vez mais tomar aquela praça de guerra sem êxito. – Guerra das Laranjas (1801). A praça seria uma vez mais atacada pelo exercito espanhol, sob direcção do Tenente Coronel D.Ramón Orrel. Mas, uma vez mais, as forças cercadas lograram em resistir com êxito ao assédio espanhol sob comando do Sargento Mor, João Miguel Silva, que tinha sido o responsável pela direcção das obras de fortificação de obras.- Guerras Peninsulares (1807-1811). Destacaram-se, as forças luso-espanholas quando através de um assalto, foram expulsas as forças francesas de ocupação durante a primeira invasão dirigida ao território português. Este assalto foi dirigido pelo Tenente Coronel espanhol D.Vicente Pérez e pelo Tenente Coronel luso, D. Pedro de Magalhães, um militar português que na sua retaguarda contava com o apoio de um corpo de voluntários formado em Valência de Alcântara. – Guerras Liberais (1832-1834. No início dos anos trinta de oitocentos, a vila do Marvão afirmou-se como um reduto defensivo liderado pelas tropas favoráveis ao absolutismo lideradas por D. Miguel, que apoiou alguns movimentos realizados pelos partidários do Infante D. Carlos Maria Isidro na Primeira Guerra Carlista ou Guerra dos Sete Anos. Em 12 de Dezembro de 1838 a praça seria tomada pelas forças liberais com ajuda, uma vez mais, das tropas espanholas. Poucos meses depois, na Primavera do ano seguinte, sofreu uma nova ofensiva das tropas absolutistas que, sem acabou por ser um insucesso por via dos territórios chegados por via espanhola. Em suma, a história da vila de Marvão esteve condicionada em toda a sua história pela sua situação geográfica e pela sua praça de guerra, protagonista de modo permanente desde as guerras da restauração até as guerras liberais na primeira metade de Oitocentos.

sábado, 26 de Setembro de 2009

2.7 – Elvas Portuguesa: - Os grupos étnicos - religiosos e estrangeiros: Os Mouros

Os mouros e os judeus, estavam perfeitamente integradas na sociedade medieval, com os seus bairros próprios e com uma série de privilégios devidamente reconhecidos pela Coroa. Os mouros cuja presença era anterior à soberania portuguesa nunca tiveram o protagonismo dos Judeus que se fixam na vila e nos primeiros tempos da cidade elvense. Era um grupo mais heterogéneo do ponto vista social e económico, distinguindo-se na vida económica e científica de um modo particular nos séculos XV e XVI. A comunidade moura fixada no alfoz do espaço concelhio, encontra a sua origem no período anterior à Reconquista ou por outras palavras a presença muçulmana na “região histórica” de Elvas, foi contemporânea do processo de colonização do Al-Andaluz que se iniciou com a invasão da Península Ibérica em 711. Na verdade, a existência de comunidades muçulmanas e mourarias, deixaram registos arqueológicos ao longo dos tempos históricos, mas são mais objectivos e claros, na documentação medieval, nomeadamente a Sul do Tejo: Alcácer do Sal, Avis Évora, Elvas, Beja e Moura. Todavia, no longo percurso da história árabe no Ocidente, o espaço territorial da “região histórica de Elvas”, foi utilizado frequentemente pelos exércitos dos estrategas árabes, como foram os casos do malado, Ibn Marwan (874-889), sediado na Anaia (actual Marvão) nas suas incursões para Sul e Este da Península. Ou de Makhul outro malado, partidário de Marwan, documentado nas terras vizinhas da Juromenha, como governador e que em diversos momentos pôs cerco a Badajoz. Espaço estratégico para o domínio dos territórios do vale do Guadiana e das regiões de Badajoz e Mérida, nas mãos da dinastia dos Banu Harm desde 1026. Porém não podemos ignorar que Elvas, inexistente como cidade na época romana, foi provavelmente planeada por volta de 884 por Ibn Marwan, segundo o cronista árabe Ibn Al-Althir, que admite ainda antes da existência da conquista de Elvas, reconhecida na toponímia islâmica como Albas, Ilbas ou Yalbas, que no seu espaço territorial possuía uma fortificação incipiente de épocas mais recuadas, que Alexandre Herculano com todas as reservas que a historiografia positivista determina, denominou de "Castro Vitória". A maioria dos historiadores nacionais, defendem que a realidade da urbe elvense no período árabe, tratava-se de uma pequena cidade incapaz de competir com Badajoz, com cerca de 500 a 1000 habitantes segundo o consagrado medievalista Luís Kruss. A sua importância advinha da sua posição militar e económica, a Kura ou Kwar (cidade) de Elvas, para além das suas muralhas abrangia uma rede de atalaias, cuja finalidade era o controlo do espaço em redor como forma de assinalar a presença do inimigo. De resto estas atalaias no corredor militar entre Marvão e Badajoz estão na base dos sucessos e domínio militar imposto por Ibn Marwan nos finais do séc. IX. Nos tempos Medievais, os mouros residentes na vila portuguesa estavam perfeitamente integrados e a sua importância em termos demográficos não está documentada embora há referências bibliográficas no Archivo Municipal de Badajoz de vagas migratórias de mouros livres de Castela, Leão e da Estremadura em direcção às comunas do Alentejo. E a realidade documental prova esta hipótese, de facto, a presença extraordinária de efectivos mouros nos primeiros tempos da reconquista. Não é por acaso que os mouros livres da vila “contrataram” com D. Afonso III (ANTT, Liv. OA.Tit.,II, p.24 Vº), a construção de novas casas na vila. Vivia-se uma época em que os mouros gozavam de alguns privilégios com vista à sua integração social e só ligeiramente adversa durante o período da reconquista do Algarve, uma vez que a coroa Portuguesa receava a fixação moura naquela província do sul de Portugal. Duas décadas depois a comunidade moura florescia do ponto vista económico, embora não haja referência nas fontes documentais relativamente à aquisição de bens imobiliários, característica dos mouros abastados de Lisboa e Santarém, o ouro e a prata faziam parte do rol de bens quitados aos mouros da comuna elvense pelo monarca D. Dinis em 1284. Por outro lado, no interior da mouraria o grau de riqueza era diferenciado e perfeitamente identificado pelo número de indivíduos que constituíam a criadagem de alguns homens de negócio que constituíam a comuna de Elvas e de Vila Boim. Mas a maioria dos mouros tinham na agricultura a sua actividade principal nas terras próprias, aforadas ou de renda. Os albardeiros, sapateiros, pedreiros e outros mesteres ocupavam a vida profissional de uma parte deste grupo étnico que estava sujeita a pesados impostos, tais como: o imposto de capitação (nascimento); a dízima do trabalho, o imposto de compra e venda entre outros. As mourarias de Elvas e vila Boim eram governadas pelo alcaide dos mouros que desempenhava simultaneamente as funções de Juiz. (Continua).




quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

I - Terras da Raia do Distrito de Portalegre.

O espaço fronteiriço que será objecto do nosso estudo em alternância com as reflexões sobre “Elvas Portuguesa”, terá como finalidade divulgar a evolução histórica das cidades de Portalegre e Elvas e das vilas do Marvão, Arronches e Campo Maior, no período contemporâneo com algumas retrospectivas a outras épocas históricas.Em termos de espaço geográfico, trata-se de uma vasta região definida em termos de demarcação territorial pelo menos desde o século XIII, com algumas episódicas alterações. Estas populações fronteiriças, que evoluíram ao longo do tempo histórico, ocupam uma área espacial correspondente a cerca de 44% do espaço territorial do Alentejo e uma área aproximadamente de 441.0777 ha. do território nacional. Ao largo da sua trajectória histórica, estas populações se afirmaram como fundamentais para a defesa da soberania portuguesa, graças a uma rede de castelos que foram edificados e fortalecidos com obras de modernização ao longo dos tempos medievais e modernos. Por outro lado, desde meados do século XVI até há Época Contemporânea, a evolução histórica das populações do distrito portalegrense foram marcadas sempre por realidades administrativas diferenciadas e por uma evolução económica distinta. De facto, Elvas (em 1513) e Portalegre (em 1550) foram elevadas à categoria administrativa de cidades, enquanto as vilas de Marvão (1226), Arronches (1255) e Campo Maior (1229) continuaram na mesma categoria administrativa e em dependência directa, por razões políticas e sociais, das cidades mencionadas pelo menos até ao início do Estado Novo. Do ponto vista económico, a agricultura constituiu a base económica do distrito de Portalegre, com excepção das cidades de Portalegre e Elvas. A primeira, capital do distrito e em conflito permanente com a cidade de Elvas a partir de meados do séc. XIX por razões de liderança administrativa , na vida económica afirmava-se como o núcleo industrial mais importante do distrito, realidade de resto válida, pelo menos desde meados do séc. XVII. A segunda, Elvas, considerada como uma das praças militares de referência do Reino, desde a época da Regeneração, [ainda que a presença efectiva e permanente de forças militares de carreira seja uma realidade de meados do séc. XIX], quando na mesma época a cidade raiana se afirma como o “ centro comercial ” mais importante do distrito em função das facilidades comerciais que a economia transfronteiriça favorecia numa época em que o caminho-de-ferro, a Linha de Leste chegava a Badajoz. No caso das populações das vilas de Marvão, Arronches e Campo Maior, seguiram a sua trajectória histórica com base na exploração directa das riquezas geradas pela terra, em particular de uns bens rústicos que pertenciam a um grupo restrito de proprietários exteriores a estes municípios e que na sua maioria, se identificavam com algumas casas aristocráticas. Apesar de algumas alterações na geografia das propriedades destas localidades depois da Revolução Liberal e das Reformas Legislativas que então ocorreram. E que permitiram a ascensão de alguns novos proprietários residentes nos centros urbanos e que então disputavam a aquisição das antigas terras senhoriais da aristocracia portuguesa. De facto nas últimas décadas de Novecentos, algumas herdades de Marvão se encontravam sob domínio de alguns proprietários e industriais da cidade Portalegre. O mesmo se verificava com as melhores terras de Campo Maior, disputadas pelos grandes proprietários de Elvas, muitos deles até há pouco tempo registados na documentação como rendeiros. Mais singular era a realidade da vila de Arronches, cuja demarcação das terras de melhor qualidade, dedicadas há exploração da plantação de olival, se repartiam, entre as diversas famílias de Elvas e Portalegre, ainda que algumas surgem na documentação registadas como património de algumas ordens religiosas. ( Continua)

domingo, 20 de Setembro de 2009

2.6 - Elvas Portuguesa: - Os mercadores a sua ascensão profissional e económica

Os comerciantes ou mais exactamente os mercadores, ao longo dos séculos XIV e XV foram se afirmando como um estrato social com capacidade económica de tal forma que alguns deles chegaram a ter loja na capital do reino, como os Fernandes e os Gomes. Na sua grande maioria eram cristãos novos ou judeus, que em pouco tempo mereceram algum reconhecimento no comércio regional na qualidade de almocreves, beneficiados pela isenção do imposto de “Aduana” que penalizava os seus concorrentes castelhanos obrigados ao pagamento desse direito. Como podemos comprovar pela análise das fontes que referem que os homens de fora, pagam tributo sobre as mercadorias: “aquelas que hajam de trazer para aí vender” ou “as cousas que os homens de fora comprarem para levarem para fora do dito termo “. Mas depressa os tendeiros da praça comercial da vila de Elvas se fizeram ao caminho como almocreves e depois, já como mercadores acabaram por fazer fortuna na raia do distrito de Portalegre ao longo das primeiras décadas de quatrocentos numa época em que os produtos de origem colonial, estavam longe de concorrer com produtos oriundos do mundo rural, como os cereais e os gados frequentemente utilizados na prática do contrabando. O exemplo mais significativo do percurso dos tendeiros da vila de Elvas foi sem dúvida o caso de Diogo Álvares Soriano (ANTT, Inquisição de Évora, Manuscritos de Livraria, nº771), que residia na Rua da Carreira dos Cavalos, inicialmente tendeiro e mais tarde, mercador de largo trato e que se especializou como mercador de panos da Índia. Correndo as feiras de Lisboa, Flor do Crato, Vila Viçosa e Elvas e com uma rede de distribuição de longo curso em território castelhano, assegurada pelos seus familiares a partir de Badajoz até Málaga. Os registos documentais associam à sua actividade mercantil a de prestamista financiando outros mercadores elvenses, como os cristãos novos, Pero Vasquez e Álvaro Fernandes, residentes em Elvas (ANTT, ob.cit.nº 1044). Todavia nas rotas comerciais de vizinhança, no sentido de Elvas e Badajoz e vice-versa, estavam na mão dos almocreves tal como no comércio regional a norte do distrito de Portalegre, Pedro Álvares, conhecido azeiteiro da vila, costumava vender sardinhas em Badajoz e azeite em Albuquerque (ANTT, ob.cit nº10440). Nos finais do séc. XIV, o mercador independente da sua origem e nacionalidade em pouco tempo conquistou com o seu trabalho de utilidade pública, a estima social e a tolerância da igreja que então condenava a usura e o pecado da avareza em terras luso-castelhanas pelo menos antes da perseguição a que a Inquisição sujeitou os judeus e cristãos novos. De Elvas para a capital, deslocavam-se António Fernandes, neto de António Fernandes que chegou a ser tesoureiro de D. Manuel e que por laços familiares se ligou a outras famílias de poderosos homens de negócios entre elas, Manuel Gomes de Elvas que tinha residência, na Rua de Nossa Senhora da Vitória (Lisboa) e que foi primeiro mercador da nova cidade de Elvas no trato do comércio colonial nas primeiras centúrias da época Moderna. Mas o período medieval fica marcado pela persistência de uma geração de mercadores que aproveitando a situação estratégica da vila raiana cedo se distinguiram nos mercados locais e nas rotas regionais, sendo reconhecidos pela comunidade local como homens possuidores de “cabedal” (Continua).

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

2.5. -Elvas Portuguesa: O 3ºEstado o caso dos Mesteirais

O 3º Estado englobava a maior parte sociedade medieval que na vila de Elvas, incluía entre eles os rendeiros, mesteirais e comerciantes, como os “grupos sociais” com maior condição de posse e de privilégios durante os séculos XIII e XV. Os rendeiros eram uma espécie de campesinato livre que exercia a sua actividade nas terras reguengas e de outros senhores do concelho (laicos ou eclesiásticos). Os foros e as rendas, estabeleciam o contrato entre o senhor e o rendeiro, quase sempre anual, no caso particular das rendas reais. Nos tempos medievais, a documentação regista o pagamento de um quinto do pão, vinho e outras novidades. A excepção era o azeite que pagava um quarto. O rol das propriedades da Coroa a quem os rendeiros pagavam taxa no termo de Elvas, eram não só as hortas, vinhas, ferragiais e olivais, mas outro tipo de propriedades como casas ou instalações domésticas como moinhos e lagares. De resto alguns direitos como a cobrança de portagem, foi exercida pontualmente por alguns rendeiros que pagavam foro pelo exercício de esse serviço de nomeação régia e exercido quase sempre pelos oficiais de portagem [ANTT - Chancelaria de D.Afonso V.]. Os mesteirais e os comerciantes, numa época que o fundamental era antes de tudo, sobreviver, o trabalho era um bem necessário. O seu papel na economia da vila raiana é indiscutível na medida em que estes dois grupos procuravam responder às necessidades vitais. E que no caso dos mesteirais, proprietários das oficinas-tendas que se erguiam nas freguesias de maior importância na economia local, a da Alcaçova e do Salvador. O grupo profissional dos mesteirais, foi sem dúvida o que mais se cresceu até aos inícios do séc. XVI, não faltavam os curtidores, peliceiros ou peliteiros, que trabalhavam as peles e asseguram o vestuário a uma população em nítida em expansão. (Armando Castro, Ob.cit. p.195). Os ferreiros que trabalhavam o ferro “maçudo” ou moído ou moludo em barra, os latoeiros que asseguravam entre outros artefactos, os objectos trabalhados em latão, cobre e o estanho. Os oleiros que desde a fundação da vila de Elvas estavam isentos do pagamento de portagem, relativamente à obtenção da matéria primas, mas não relativamente à louça vidrada ou de barro. A importância dos sapateiros era indiscutível na confecção da “calcadura” de pele e de couros e na carta foral, havia mesmo um capítulo especial relativamente ao desempenho desta função. Os marceneiros asseguravam a loiça de madeira, as arcas, tonéis e outro tipo de recipientes utilizados no quotidiano medieval. O mesteiral por via e regra, era vendedor do seu produto e esta comercialização ocorria no espaço “oficinal”. Por outro lado, não devemos de esquecer o papel do ferreiro, sapateiro e do peliteiro, fundamentais na equipagem de guerreira numa vila de fronteira, como a ferradura e as peças metálicas para cavalos e cavaleiros, a protecção dos pés da peonagem ou os arreios dos cavalos. Na “produção” da utilisagem agrícola, o ferreiro destacava-se dos demais pela importância económica da actividade agrícola que envolvia a maior parte da população. (Continua).



quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

2.4. Elvas Portuguesa.A aristocracia vilão e os escudeiros.

Convém salientar que uma parte significativa da nova aristocracia que se desenvolve nos séculos, XIV e XV, tem a sua origem num estrato social que nos primeiros tempos da reconquista vivia entre o arado e a espada face ao inimigo, que com regularidade efectuava as suas “incursões” na chamada guerra guerreada. Nascia neste quadro não institucional uma aristocracia vilã que ao longo do séc. XIII assumiu e pautou-se pelos valores da honra que eram apanágio da nobreza. Ao mesmo tempo que se foi diferenciado de uma vasta população desprovida de posse, que ao serviço da Coroa foi obtendo algumas mercês que lhe permitiram dispor de meios suficientes para o sustento de um cavalo, a compra e manutenção de armas e em alguns, poucos, tinham já um pequeno grupo de servos ou criadagem ao seu serviço. Os Gante e os Garro, não só integraram as milícias concelhias como serviram a tempo inteiro o monarca e as doações régias que foram feitas a estas primeiras famílias da cavalaria que durante semanas serviram no fossado e como tal, eram recompensados com frequentes doações régias. Por vezes o casamento, entre os vários membros da cavalaria permitiu o “nascimento” de uma cavalaria vilã que no séc. XIV se distinguia já com valores sociais e de honra que eram apanágio da nobreza, todavia no presente momento do nosso conhecimento sobre as fontes medievais e nomeadamente a vasta documentação das Chancelarias Reais, não nos permite ainda de ter uma visão clara e objectiva, sobre a origem de muitos cavaleiros da vila de Elvas. Todavia o seu número no nas primeiras décadas do século XV era já significativo uma vez que o privilegiado e cavaleiro, por nomeação régia em 1439, Álvaro de Abreu, era designado vedor dos vassalos do rei, dezassete anos depois [ ANTT, Chanc. D.Afonso V., fol. 13 e segº ] e a sua importância social equiparava-se já desde os tempos da reconquista ao Infanção da nobreza de topo [ Leyes, I,p.47], ganhando um estatuto de privilegiado nas terras da raia . Os escudeiros, o estrato base da “pirâmide” social da aristocracia medieval português, se identificavam na vila de Elvas com a Casa Senhorial D.Henrique, que incluía desde 1321 uma Comenda onde a Ordem de Cristo, que detinha vários bens imóveis e estava incluía ainda na rota da criação do gado lanígero que se deslocava da Beira Henriquina, num percurso onde as localidades de Montalvão e Elvas eram os pontos de apoio no Alto Alentejo na ida a Castela [ ANTT, Ob.cit, fl.38V º]. O número de escudeiros da Vila de Elvas na Casa Senhorial do Infante do Henrique é deveras significativo quando se compara com as nomeações dos funcionários ao serviço do “Navegador”: Afonso Domingues, Besteiro do Couto, 1448 (Ob.cit.fol.27); Afonso Gonçalves, Besteiro do Couto ( Ob.cit., fol.71 Vº ); João Rodrigues Trigueiro, servidor da Casa do Infante e Escrivão do Porto de Elvas (Alfândega 1436) (Ob.cit. fol.36.). Outros escudeiros de renome da Casa do Infante foram sem dúvida: o navegador Álvaro Tristão e seu irmão Nuno Tristão navegadores da Ordem de Cristo, que descobriu várias paragens da Costa Ocidental africana, fixando o reconhecimento da referida costa em Cabo Branco. Lourenço de Elvas – navegador capitão ao serviço de Gil Eanes. Estevão Subtil – Escudeiro do Infante e Gil Fernantes distinto descendente do herói mítico de Elvas com o mesmo nome e que foi Chanceler da Correição da Comarca Entre Tejo e Guadiana. Em Elvas o estatuto do escudeiro praticamente não é mencionado na documentação o que se entende numa terra onde o grande senhor era o rei e como tal deviam servir a casa real nos tempos difíceis que a guerra determinava, contudo no séc. XV eram na sua maioria funcionários da administração régia, de ordens militares religiosas ou casas senhorias como a de D. Infante D. Henrique. Por outro lado, esse papel foi sempre assumido pela cavalaria vilã cujas hostes jamais foram significativas e por outro lado, a ascensão de escudeiro a privilegiado foi uma prática usual reduzindo a persistência de homens não nobres na baixa nobreza. Por fim, há que ter presente que a Nobreza em Elvas, nunca se afirmou no período medieval como um grupo nobiliárquico forte e as linhagens de Estevão Anes e dos Aboim, acabaram mesmo por se extinguir e em parte devido a política centralista de D. Afonso III que acabou por favorecer a constituição de uma nova linhagem constituída por bastardos régios. Por último, a verdade é que o rei era o único senhor feudal e a força, para exigir a uma multidão de vassalos a que exigia fidelidade, terras, “contias” e até as suas próprias não só para a defesa da soberania, mas inclusive para os dominar.

domingo, 6 de Setembro de 2009

2.3- Elvas Portuguesa o alargamento da aristocracia local.

Durante o séc. XIV, os Annes e os Pegado, surgem como doadores à maneira senhorial, os primeiros com ligação à Corte, beneficiam frequentemente a Igreja com doações de bens materiais, Esteve Annes foi um dos senhores locais que mais beneficiou a primitiva igreja de Elvas como fonte espiritual das primeiras comunidades locais. O rol de bens segundo a documentação se inscreve em terras de olival e de vinha, mas também em moradas de casas que em meados do séc. XIV beneficiava a Igreja do Salvador através do testamento passado por Lourenço Annes. (ANTT, Liv 1- AV,1353, p.76. ) .Os Barbudo, desenvolvem-se durante a época quatrocentista e parte da sua riqueza fundiária, localiza-se em Barbacena na qual a referida família cobrava de foro no valor de 120 rs. à comunidade local que explorava a Herdade da Colina, durante a regência do infante D. Pedro e por testamento (ob.cit. 77), tal património fundiário foi legado à Igreja de Alcaçova, numa época em que as doações entre aristocratas e clérigos era frequente. Em meados do séc. XV a fidalguia de Elvas cruzava-se com o funcionalismo, Affonso de Aboim era um dos procuradores às Cortes e foram várias as respostas dadas pela Chancelaria Real, na época de D. Pedro, a este aristocrata. Joanne Mendes de Vasconcellos outra figura da nobreza local em ascensão foi Corregedor da Comarca Entre-Tejo e Guadiana e substituto de Gil Fernandes quando este desempenhou o cargo de chanceler da correição (Corpus Codicum,Vol.1, p.147). Como escolar em leis as suas informações legislativas eram ouvidas na corte como podemos comprovar por várias carta régias dirigida a João Mendes entre elas a de 23 de Dezembro de 1435 “Os dinheiros que o marinho há d´aver E de que lugares E de que pessoas” (ANTT, Ordenações de D.Duarte, p.640). Doações da propriedade régia a João Mendes em Elvas encontramos um aforamento que “el rrey o mandou per Johane mmendez Corregedor de sua Corte”.(Canc. D.Duarte, Tomo 2, p. 425-426). A fidalguia de sangue em meados do séc. XIV, os ricos homens oriundos da Corte, recebiam no seu seio os novos membros nascidos em terras raianas e que livres por nascimento procuraram servir o monarca na guerra e nas funções da administração que o estado centralizado determinava. A nobreza mais humilde, os cavaleiros foram também objecto de benefício de doações régias e em especial na época de D. Afonso V como são os casos de Pedro Aires (1148), de Vasco da Gama ou de Manuel Pessanha ou Manuel Pessegano (1472) que recebe a Herdade do Cabedal por carta régia de 23 de Janeiro, cavaleiro da Casa do Infante D. Henrique acabaria por se distinguir como cartógrafo. Todavia a cavalaria era já uma força considerável no senhorio da coroa na vila de Elvas, como se admite por uma leitura atenta de um ofício da Chancelaria Régia, datado de 7 de Novembro de 1470 que pretende indagar o número de armas distribuídas aos vassalos do rei e entre eles os escudeiros da Ordem de Cristo que na sua maioria pertencia a Casa do Infante D.Henrique representada na vila de Elvas com bens imóveis documentados desde 1321 e confirmados em 1326.(Continua)

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

2.2-Elvas Portuguesa: a fidalguia em formação.

A primeira Nobreza com raízes no período medieval, radicada e nascida na Vila de Elvas, afirmou-se sobretudo nos séculos XIV e XV, incluindo vários graus da mesma, os ricos homens e a uma baixa nobreza que incluía a cavalaria e os escudeiros. Entre elas destacamos algumas : Os Gante, provavelmente de origem castelhana e radicada em Elvas no início do séc. XV e que se integrava na nova nobreza da Corte de Avis, uma vez que Vasco Peres Gante, cabeça da família e que serviu as armas de Portugal como cavaleiro, era escudeiro e vassalo da Corte. Entre Vasco Peres Gante, nascido em Elvas e Pêro Rodrigues Gante, seu sobrinho decorre quase um século e a integração da mesma família na aristocracia de Corte. Quando Pêro Rodrigues Gante, recebe por carta régia de D. Afonso V,(ANTT, 1454) as armas da família. São elas: de vermelho, um arco “turqueso” cosido de verde, posto em pala e encorado de prata, ladeado de dois grumes de prata. Timbre: um braço de vermelho, picado de ouro, em banda e empunhando o arco do escudo. Os Garro, devem a sua ascensão à Nobreza de Portugal, pelo serviços prestados nas guerras com Castela durante a crise geral do séc. XIV, a origem mais remota da família encontra-se em Pedro Esteves Garro, mas é o seu filho o escudeiro do mesmo nome Pedro Esteves Garro que daria nobreza à família, ao serviço do Mestre de Avis, o seu filho Pedro Afonso Garro, também escudeiro fez parte da hoste que participou na tomada ou conquista de Ceuta em 1915, mas é o escudeiro Numo Martins Garro, a quem D. Afonso V, lhe dá a condição de fidalgo por todos os serviços que prestou à Coroa na Guerra de Castela e nas praças marroquinos, por carta régia de 1475 (ANTT, 1475). O seu escudo apresenta como armas um escudo de vermelho, comum leão de prata empunhando nas garras uma bandeira bifurcada de verde, hasteada de ouro e carregada de uma flor de Lis do mesmo, e por timbre o leão do escudo. No âmbio dos primeiros ricos homens da vila destaca-se os Pegado, na pessoa de Estevão Martins de Pegado, que instituiu o primeiro vínculo na cidade de Elvas e que tinha como armas da fidalguia, três flechas de prata, com hastes de ouro e empenadas de vermelho, enfaixadas e atadas do mesmo, as pontas para cima. Na primeira geração da elite aristocrática da vila de Elvas, destaca-se os Zembrana ou Zembrano, da fidalguia andaluza, fiel partidário de D. Joana, legítima rainha de Castela e que se fixou após a Batalha do Toro na vila raiana por permissão de D. Afonso V. Fernão Gonçalves de Sousa era o rico - homem mais da raia de Portalegre foi inclusivamente o alcaide do Castelo de Olivença e pelos serviços prestados a D. Fernando recebeu a Vila de Aboim que teria voltado aos bens da Coroa com todos os seus direitos, rendas e jurisdição (ANNT, Chanc. de D. Fernando, Livro U, fols, 122-149 ). Nesta primeira etapa da formação da aristocracia elvense, os ricos homens ocupavam os ofícios mores da administração local e detinham os poderes militares e neste caso encontramos as quase três dezenas dos alcaides de Elvas, cujo poder económico advinda de uma parte das receitas e multas pagas pelos moradores da vila. (continua)

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

Há 70 anos o Mundo preparava-se para a guerra

Memória – Há 70 anos na noite de 31 de Agosto para 1 de Setembro, a Alemanha preparava-se para a invasão da Polónia, o mundo entrava em guerra. Vários SS disfarçados de civis assaltaram uma rádio local da localidade fronteiriça de Gliwice, lançado proclamações anti-alemães e eliminando de forma fatal os três empregados que asseguravam a emissão nessa noite. A referida emissora não podia ser um foco de agitação por mais fortes que tenham sido as proclamações dos intrusos na referida rádio, já que a mesma não tinha na sua emissão propósitos políticos mas acabou por ser um dos protestos para legitimar a invasão germânica da Polónia. A primeira terra ocupada pelo exército Nazi seria Danzig (actual Gdansk) no Báltico, de cuja soberania os alemãs haviam feito bandeira. Objecto de disputa históricas entre a Alemanha e a Polónia, o chamado “corredor de Danzing” não era mais que uma cidade livre de cerca de 2.000 kms quadrados, administrada pela Sociedade das Nações (antecessora da ONU). Na madrugada de sexta – feira pelas 04.45m, em 1 de Setembro de 1939 a cidade de Danzing perdeu a sua liberdade iniciava-se a invasão da Polónia e o princípio de um vasto conflito a Segunda Guerra Mundial.

Património Arqueológico da Cidade Sagrada de Caral (Perú)



A UNESCO classifica a Cidade Sagrada de CARAL (Perú)

Notícias com História - A UNESCO apresentou recentemente na sua página oficial um conjunto de vídeos de curta duração (em castelhano, francês e inglês) sobre um conjunto de lugares classificados e declarados como Património da Humanidade. O projecto foi o resultado da colaboração da empresa japonesa Broadcasting Corporotion (NHK) que utilizou avançadas técnicas de digitalização na construção da referida página. O acesso à página pode ser a feito a partir de um click em www.unesco.or.es/nhk-video). A cidade sagrada de Caral é a mais recente classificação de lugares declarados como património universal, situada no Peru a 184 km de Lima e a sua extensão ocupa cerca de 65 hectares. Este aglomerado urbano, que surgiu entre 3000 e 1500 aC.., é considerada a cidade mais antiga do contimente americano e inclui as Pirâmides Maior, do Anfiteatro e um sector residencial cuja dimensão é única no património da arquitectura pública peruana. O processo de classificação foi supersónico e iniciou-se em 1994 e tendo sido dirigido pela arqueóloga, Doutora Ruth Shady, directora do Projecto Arqueológico Caral-Supe (PEACS). De realçar ainda que a Cidade Sagrada de Caral, foi descoberta em 1905 pelo arqueólogo Max Uhle e a décima prima classificação da UNESCO atríbuida ao Perú.

quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

2.1-Elvas Portuguesa: Duas famílias da Nobreza de Corte na vila de Elva

Nos primeiros tempos da Reconquista Cristã e em função da conjuntura política da época que determinava a deslocação dos monarcas para o Centro e depois para a Sul, determinou um corte progressivo com a aristocracia do Norte da região de Entre Douro e Minho, perante a afirmação dos filhos segundos da Nobreza que acompanham o “ primer inter pares” nas campanhas contra os infiéis. Por outro lado, esta nova nobreza encontrava nas campanhas da reconquista um meio de afirmação social e de reconstituição da sua riqueza fundiária que a progressiva constituição de linhagens não lhes permitia, sendo o exercício das armas, uma das razões para acompanhar as hostes reais. Assim a conquista de novas terras a partir da linha do Tejo e terras da raia, ficaram à reserva das ordens militares e aos filhos segundos da nobreza, identificados como ricos homens eram os únicos dotados de virtudes guerreiras em função da sua formação que exercitava a violência guerreira. (Como foi o caso, das hostes militares que acompanharam D. Sancho II na conquista de Elvas). Nestas circunstâncias a Nobreza de Corte nas primeiras décadas da existência da Vila de Elvas, estava praticamente ausente sendo excepção as duas famílias da Corte de D. Afonso III, os Estevão Annes e os Aboim. Os primeiros senhores de várias propriedades fundiárias localizadas nos distritos de Évora e Portalegre e que por carta régia de 1251 recebia as primeiras terras na região de Elvas o baldio de Barbacena, que desde a reconquista era considerada terra de ninguém na pessoa do chanceler Estevão de Annes. O Chanceler do rei “Bolonhês”, um homem com carreira política na Corte e um verdadeiro senhor feudal, com grandes domínios identificados documentalmente no Norte de Portgal (Arcos de Valdevez, Valença e Monção), na Linha do Tejo (Abrantes, Santarém, Lisboa e Cascais) e no Algarve (Silves, Lagoa, Portimão, Faro e Tavira). A família Annes estava representada em Elvas por outros três nobres irmãos de Estevão Annes, Gomes Peres, e os falecidos Fernão Peres e Paio Peres num conflito entre ambos. (ANTT, 4 de Abril de 1255). Os Aboim senhores da herdade do mesmo nome, na sua posse durante mais de um século pelo menos até 14 de Junho de 1374, quando doaram a referida terra a Fernão Gonçalves Sousa, que passou a ser reconhecida pela Coroa, como vila, estendiam os seus domínios mais para sul, com algumas propriedades em Évora nomeadamente ao longo do Guadiana com excepção de algumas que se situavam no Centro do actual distrito de Beja. Mas no Distrito de Évora o seu principal núcleo de bens situava-se na região de Portel, segundo a documentação, “num extenso tracto de terra que se situava entre a ribeira de Pecenas até ao Guadiana, confrontando com o termo de Beja para sudoeste e tocando na ribeira de Dejebe para leste”. Não deixa de ser curioso, que a riqueza acumulada por Estevão Annes e João Peres de Aboim, chefes de melhores linhagens que se constituíram no Alentejo no período pós-reconquista, não só foi obtida pela sua influência na Corte Régia, em função dos cargos que desempenharam mas pela amizade e convívio com o monarca D.Afonso III. Em finais do séc. XIV, estas duas famílias, João Peres de Aboim de Arco de Valdevez e o Chanceler Estevão Annes, era identificados não só como membros da Nobreza de Corte de pleno direito, como os seus domínios senhoriais e fundiários eram só comparáveis à riqueza fundiária de Nuno Martins de Chacim que dominava praticamente as terras de Portugal situadas no Norte Interior. [ Continua]



terça-feira, 25 de Agosto de 2009

1.13 - Elvas Portuguesa: As terras do Termo da vila

Desde a sua fundação que as terras situadas no termo da vila e arredores, estavam em expansão territorial sob exploração económica de alguns ricos homens e herdadores que em torno da vila ou em terras concelhias nomeadamente das herdades de Aboim e de Barbacena, futuras vilas concelhias, organizavam as primeiras formas de sustentação económica ainda que condicionados pela incapacidade tecnológica e pela dureza do clima e da fome, e até da guerra, que levava com relativa facilidade ao abandono de tais meios de produção. A herdade foi inicial uma das “chaves” mestras das áreas de ocupação e povoamento nos tempos imediatos à reconquista cristã, como comprova entre outras cartas régia, a outorgada por D. Estevão Annes, chanceler mor de D. Afonso II, que determina aos moradores da localidade de Barbacena “… aos poboradores presentes, e aos que hão de vir, que na minha herdade de Barvacena poborarem presentes, e aos que hão de vir (….) dêm a mi e a tôdolos que depôs mi vierem, em qualquer tempo, para sempre, pelo terrádego d´essa terra, a outava parte do pão, e do vinho, e de tinta, e de legumes, e de linho, e d´azeite, e de pomos, e de almoinhas, e de tôdolos outros fruitos que Deus hi der (…).” [ANTT, Abril de 1273]. Do mesmo tipo, regista-se a carta de doação a D. João de Aboim, à herdade do mesmo nome por carta régia[ANTT, 22 de Março de 1261]. E outras doações e aforamentos que se sucedem durante os séculos XIV e XV, de acordo com o ritmo de crescimento de uma população que concentrando-se nos três pólos de agregação populacional da vila de Elvas [ Elvas-Barbacena e Vila Boim], como podemos observar no quadro nº I, :

Doação ou Aforamento

Receptor

Carta régia - Fonte.

Do comendador de Elvas, Pero Cebola, da Herdade de Cascavel

Ordem dos Templários

ANTT, 23.12.1262

Doação régia de um terreno

Ordem de S .Domingos

ANTT, 1.5.1268

Doação da herdade de Alvernaz,

situada no Caia.

Ordem de S .Domingos

ANTT, 26.8.1330

Aforamento da herdade de Ourinaça

Beneficiados do Salvador.

ANTT, 30.8.1338

Doação da herdade e terras de Barbacena

D. Martin Afonso de Mello

ANTT, 1.10.1388

Aforamento da Herdade de Castel, em Vila Boim

Beneficiados do Salvador.

ANTT, 9.4.1341

Doação da herdade de Segóvia

Ordem de S. Domingos

ANTT, 5.1.1348

Doação da herdade dos Negros

Ordem de S. Domingos

ANTT, 3. 7.1453

Doação da herdade de Tintão

Ordem de S. Domingos

ANTT, 21.11.1455

Doação da herdade de Algalé (Caia)

D. Afonso Álvares

ANTT, 4.11.1457

Doação da herdade d’ Alcadaria

D. Vasco da Gama

ANTT, 24.3.1474.

Doação de várias herdades do concello

D. Álvaro de Bragança

ANTT, 18. 3.1479

Outro tipo de meios de produção, envolvia os vários agrupamentos populacionais em torno das herdades de matriz senhorial laica e religiosa, assim como outros meios e proventos económicos que animavam os vários servidores do monarca, como a doação de pastos e montados a um conjunto de pequenos e médios proprietários (ANTT, 15.4.1259). Mas, ao contrário do que ocorria em outras vilas e localidades do Alto Alentejo - Avis, Seda, Fronteira, Veiros, Cabeço de Vide ou Sousel, onde um dos principais proprietários fundiários da região, era a Ordem de Avis, que se desenvolveu e afirmou durante a reconquista e colonização das regiões conquistadas aos mouros, em Elvas as terras de matriz eclesiástica, os coutos, estavam na posse da Ordem de São Domingos cuja acção centrava-se na fé e no trabalho. A propriedade laica, não era representativa do ponto vista espacial uma vez que a aristocracia de sangue estava praticamente ausente, não havendo grandes latifundiários quando se compara com as vendas e as compras de propriedade de olival, cereal e vinha, que inclusivamente se desenvolvia no interior do espaço amuralhado. [ CONTINUA]

sábado, 22 de Agosto de 2009

1.12- Elvas Portuguesa: A Mouraria ou os "Bairros dos Mouros"

Em relação à mouraria a sua localização na estrutura urbana e viária na vila de Elvas, não nos oferece grandes dúvidas, considerando que a presença moura é anterior à (re)conquista de Elvas e por outro há todo um conjunto de fontes conhecidas e estudadas, cuja toponímia permite-nos a sua localização no espaço e no tempo. De facto a partir da segunda metade do séc. XIII, a Coroa por carta régia de 1270, estabelecia em parte a área de ocupação da mouraria, situada entre a Porta Nova da muralha almóada e a Porta de Banhos nos limites da actual Igreja paroquial de S. Pedro [ Chac. D.Pedro I, p.264.]. Área esta fundamental e decisiva para a fixação, desenvolvimento e afirmação, da comunidade moura uma vez que a partir do séc. XIV o número de olarias expande-se ao longo das vias que desembocavam na Porta de Banhos numa época em que a área urbanizada atinge os arredores da Igreja, hospedaria e convento de São Domingos, que durante quase um século se manteve isolada nos arrabaldes da área territorial da vila. Durante o período quinhentista , a mouraria ou os “bairros dos mouros”, estavam já consolidados integrando provavelmente a cerca almóada e a cerca nova, fruto da importância económica da produção de vasos e objectos de cerâmica da produção artesanal e oficinal das olarias dos mouros. Aliás esta expansão causou algumas disputas entre cristãos e mouros, quebrando a normalidade das relações de convivência que as duas comunidades mantinham desde os primeiros tempos da fundação da Vila de Elvas. Não podemos esquecer que os mouros de Elvas, gozavam de vários privilégios alguns dos quais como a isenção de portagem como reconhecimento do seu serviço prestado às hostes nacionais com armas e cavalos na guerra contra Castela. O Cemitério mourisco situado junto do adro da Igreja de S.Vicente já fora dos limites da cerca árabe e relativamente perto do Mosteiro de S. Domingos, foi palco de várias incidentes quando quase há mesma hora os cortejos funerários se cruzavam entre si. [Eurico Gama, 1930,pp.39 e 65). Todavia, a vasta área a sul situada entre a Porta de Banhos e a Porta de Badajoz, que na centúria de duzentos revelara-se produtiva na cultura agrícola do cereal amarelo, estava um século mais tarde ocupada pelos mouros, que era na prática a razão das dificuldades de relacionamento das duas comunidades, como se comprova nas alegações apresentadas pelos Procuradores de Elvas às Cortes de 1436. O monarca D. Duarte por carta régia, determinava que a solução fosse encontrada entre os juízes e os mouros da vila e que o novo “jazigo colectivo dos mouros”, “façam e que assignem logar convinhavel aos mouros em que façam seu adro.” O conflito em torno dos espaços ocupados pelos mouros ao longo da época de Trezentos manteve-se pelo menos até finais do séc. XV quando o almocovar primitivo e adjacente ao adro do Mosteiro de S .Domingos, foi trocado por um terreno exterior à cerca nova em más condições de habitabilidade e que determinou um recurso do alcaide dos mouros à Coroa, cuja resposta seria enviada ao concelho por carta régia de 14 Julho de 1464 na qual D. Afonso V “Somos certificados em como o chão que ora daes aos mouros d`essa vila, pêra fazerem seu almocovar, é pedregoso e pouco pertencente pêra semelhante cousa. E além de sermos d éllo assí certificado, estando nós em essa villa, e passando um dia por o dito chão, así nos pareceu como nos dito era”. [continua]



segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

1.11- Elvas Portuguesa:- As Judiarias no traçado da Vila de Elvas

Vivia-se uma nova era no plano vial e urbanístico da vila, a saída directa para exterior, a partir do castelo ou da alcáçova era uma realidade da época da reconquista como provam as várias ruas estruturantes dos séc. XIV e XV, as praças e os amplos terreiros crescem em ruas mais largas uniformemente em torno do traçado antigo. Mas o progressivo aumento demográfico que a Vila de Elvas conheceu até finais do séc. XV era também o resultado da presença e crescimento da comunidade judaica, uma realidade extensiva em toda a raia do Distrito de Portalegre onde a proliferação dos judeus foi evidente por duas causas bem determinadas: a prática comercial e o exílio evidente nos períodos em que a Inquisição Espanhola, mais violenta que a portuguesa determinava o refúgio clandestino em terras portuguesas. Em fins do séc. XIV a vila de Elvas tal como outras de fronteira como são os casos de Trancoso, Guarda e Castro Marim eram centros de atracção para esta população flutuante clandestina que no Alentejo crescia em torno de outros centros urbanos como: Estremoz, Vila Viçosa e Beja [Elucidário, II ,325].A referência documental da Judiaria de Elvas mais antiga que se conhece situa-se por volta de 1386, mas a sua existência será provavelmente anterior a meados do séc. XIV como as demais situadas na raia nacional. A sua localização é ainda hoje problemática, pois a documentação é escassa e imprecisa na sua informação, mesmo quando se tem em consideração a documentação da Chancelaria Régia ou os Processos da Inquisição de Évora, fundamentais na caracterização e identificação do perfil dos Judeus e Cristão Novos de Elvas. As outras questões que se formulam é se devemos falar da Judaria de Elvas ou da Judaria Nova, são aliás estas as designações que encontramos em algumas obras publicadas por historiadores locais e nacionais. Nesta perspectiva, a problemática situa-se na inserção da comunidade judaica no espaço e no tempo, assim se tivermos em consideração as ruas dos Mercadores, Sapateiros, Beatas e outras afins que se ligavam entre si em torno de um espaço exterior à Alcáçova como referem alguns investigadores locais, não estaremos a caracterizar a Judiaria de Elvas mas provavelmente a Judiaria Velha. Sendo assim a Judiaria Nova proposta por alguma bibliografia nacional com base numa tese académica, estava quase limitada ao exterior do espaço da Porta do Templo e que envolvia praticamente o bairro residencial da rua das Beatas … ? Assim e considerando as fontes possíveis, (as objectivas seriam as arqueológicas), registamos um documento do séc. XVI [ANTT, nº 8031, fls. 157-1258], que identifica a Rua Nova ou antiga Judiaria, situada na actual artéria do Alcamin, referindo ainda que muitos judeus continuavam a habitar aquela rua e que antigos descendentes de judeus tinham como residência moradas de casa, na Praça, na rua da Feira e junto das portas de Olivença e Évora. Ou seja, quando falamos da Judiaria de Elvas, devemos ter duas realidades distintas, a Judiaria Velha a norte da actual Praça da República centrada nas ruas onde situavam os principais ofícios artesanais e a Judiaria Nova, onde a prática mercantil e artesanal, marcava a vida económica na época fernandina. A certeza porém da existência de duas Judiarias na Vila de Elvas e uma outra em Vila Boim é simplesmente indiscutível quando o ofício das rendas da Judiaria de Elvas, no qual o alcaide mor Rui de Abreu, recebia as rendas das referidas comunidades das três Judiarias elvenses no valor de 113. 333 reais. [ ANTT, Livro, 28, fols.2]- Continua.

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Outras paisagens e outras histórias até ao fim do Verão

quinta-feira, 30 de Julho de 2009

UNESCO apresenta Biblioteca Digital Mundial

Notícias com História - A UNESCO apresentou recentemente um vasto fundo documental digital, que aquela instituição catalogou de Biblioteca Digital Mundial. Segundo informações prestadas pelo seu coordenador, Doutor Andelaziz Abib esta base digital pretende seleccionar as jóias que reflictam o génio humano das Culturas e das Civilizações. A página digital no presente momento está acessível a sete idiomas, mas o fundo documental está registado em mais de cinquenta idiomas. O material recolhido é tão diverso que nos permite consultar mapas do Novo Mundo, pinturas rupestres africanas desde 8.000 aC ou registos sonoros como a gravação da Marselhesa. Para a consulta na Web deverá utilizar o link ou simplesmente carregar no presente endereço electrónico: www.wdl.org/pt.

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

1.10 - As principais ruas medievais segundo as fontes documentais da Alta Idade Média



Assim se a estrutura urbana foi crescendo e ampliando-se de um modo particular nos séc. XV e XVI, as principais ruas, ruelas ou becos, constituíram sem dúvida o núcleo a partir do qual a vila se organiza na segunda metade de Trezentos seguindo a tradição árabe na zona história. Das mais remotas destacam-se, a Rua dos Mercadores cuja denominação medieval é referenciada em todas as vilas e cidades medievais no caso da artéria elvense é datada para o ano de 1273 e foi das primeiras ruas a integrar o traçado da judaria velha em finais do séc. XV. Nas primeiras décadas do séc. XIV era referenciada com a denominação de Rua dos Açouges, considerando a descrição documental, que coloca esta via entre a Igreja Nova (Sé) e a do Salvador, tratava-se de uma área com tendência para a prática comercial, uma vez que a maior parte dos tendeiros que desenvolviam as suas actividades económicas desde 1274 pagavam foro aos seus proprietários residentes na freguesia de Santa Maria dos Açouges mais tarde da Alcaçova. Era nesta rua da vila de Elvas que em 1498 se situava “ uns acouges antigos, de tres naves, mui grandes, todos de cantaria, e são dos melhores do vosso reino”.[ Capítº dos procuradores do concelho de Elvas, nº26 . às Cortes de 1498]. No séc. XIV destacamos outras ruas de natureza económica como a Rua dos Hortelões de 1351, que nos permite afirmar sem grandes reservas que a existência de pequenas hortas era uma característica dos moradores da paróquia do Salvador. Aliás nos livros de registo de 1351, encontramos parcelas de vinha e olival de Estevão Annes, que pagava foro ao Prior de S.Bartomoleu d’ Alfange. Por outro lado e analisando a toponímica comprovamos que as actividade de natureza económica se encontravam representadas por uma série de ruas situadas na mesma freguesia, como a Rua do Ganço (1344) que mantém essa função económica na centúria seguinte, onde se localizavam os lagares da cidade na rua do mesmo nome, que se mantiveram até pelo menos finais do séc. XVI ou princípios do séc. XVII. Não menos importante na vida económica da cidade medieval era sem dúvida a Rua do Alcamim principal via da freguesia de Santa Maria de Alcácova, rua de moradores e almocreves com informação documental frequente desde segunda metade do séc. XIV, mas com importância económica desde o período árabe, como espaço provável de exploração de cereais nos limites da cerca árabe. De resto não devemos ignorar que o termo (qamh) era o termo geral empregue para o trigo e que hoje identifica várias ruas portuguesas registadas na toponímia portuguesa que utilizam o termo Alcamin como são os casos de: Vila Franca de Xira, Castelo Branco, Estoí (Faro) ou herdade de Alcamins – S.Matias (Évora). As ruas de carácter profissional como a dos Mercadores ou dos Sapateiros, que se identificam com a presença dos cristãos novos em Elvas, completam-se com a actividade profissional do ofício das armas, como a Rua dos Cavaleiros (1386) ou dos Quartéis (1580) . A primeira que António Thomaz Pires, identifica como sendo de natureza onomástica considerando a relação nominal da freguesia de S. Pedro, contudo a designação de cavaleiro é uma prática atribuído à função profissional dos ricos homens que no período medieval era extensiva aos herdadores de origem nobre ou não. Ainda na dimensão da cavalaria destaca-se uma das ruas mais tradicionais e populares dos tempos medievais, a Rua da Carreira (1587) verdadeiro espaço de lazer para a cavalaria local que aí fazia disputar os seus torneios no contexto da arte de bem cavalgar. Durante o séc. XV e XVI, surgem com mais evidência as ruas com denominações de nomes comuns e quase todas com moradas de casa, tal como a de: João Fangueiro (1494); Gonçalo Varela (1500) ; João Vaz de Pousada (1523) cavaleiro; João Preto (1505), identificado como mercador, Gil Ferreira (1535), João Paes (1547); Pessanhas (1559), de família nobre de origem genovesa que defendeu fervorosamente a União Ibérica; Heitor das Sillas (1571), Luís Mendes de Vasconcellos, da nobreza do reino, João Rico (1581), de origem judaica e reconhecido como Dr., exercendo a profissão de físico, Gaspar Gomes (1590); João Sotil (1592) , que na documentação do Cabido da Sé, designa a partir de 1597 esta artéria como a Rua da Sapataria Velha e dois anos mais tarde Rua de Olivença (1599) ou seja em todos os casos referimo-nos a uma ou mais artérias da Judaria Velha. Outras de tradição histórica desenvolveram-se até finais da Baixa Idade Média como a de João de Olivença (1543), cuja referência nominal herdou da antiga porta fernandina e nesta perspectiva trata-se de uma das ruas de denominação histórica mais antiga de Elvas quando se considera a pesquisa toponímica. As ruas direccionais praticamente não fazem parte da toponímica medieval como por exemplo a Rua de Santarém aberta ao público provavelmente em meados do séc. XIV e referida pela documentação com alguma frequência entre 1361 até finais do séc. XV nos livros de testamentários. A toponímica referente à Cristandade estava subjacente em todo o período medieval como são os casos dos ruas de São Lourenço (1387), S. Mamede (1477) , Travessa de S. Miguel (1536), S. Martinho (1597). Em finais do século XV , Portugal Medieval limitava-se a nove cidades que eram em simultâneo sedes de bispado por ordem alfabética: Braga, Coimbra, Évora, Guarda, Lamego, Porto, Silves e Viseu, mas vilas urbanas como Guimarães, Beja, Elvas , Lagos e Setúbal já superavam a demografia e o desenvolvimento económico das urbes nortenhas Lamego, Guarda e Viseu assim como a desenvolvida cidade do antigo Algarbe Andaluz, Silves. Postado Arlindo

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

1.9. Elvas Portuguesa - O limite urbano na primeira fase de fortificação da vila de Elvas

Primitivamente e considerando a reprodução do Castelo de Elvas segundo Duarte Armas, o modelo da primeira fortificação da vila de Elvas, era de inspiração quadrangular dos quais só encontramos cinco outros modelos tipo na época medieval, como são os casos de Penha Garcia, Sabugal, Almeida, Alpalhão e Castro Marim. Com excepção dos castelos de Sabugal e de Alpalhão, tinham em comum a sua posição estratégica como fortificações de primeira linha. Trata-se inicialmente de uma pequena fortificação não ultrapassando os 200 metros de extensão e com panos de muralha que não atingiam uma altura superior aos 10 metros. No século XIII, o monarca D. Dinis introduziu à construção inicial um conjunto de inovações defensivas e construtivas ao nível dos torreões, abobadamentos e matacães. Na centúria seguinte e desde 1361, o espaço acastelado estava limitado por uma cava, espécie de escavação semelhante a um fosso que circundava provavelmente parte do castelo numa época em que a barbacã (espécie de barreira ou obstáculo) cobria as áreas mais sensíveis do espaço fortificado, nomeadamente da alcáçova e prolongando-se pelas portas dos Mártires, dos Banhos e de S. Francisco. Ou seja, o castelo da reconquista cristã estava então inserido num espaço mais amplo e fortificado e que correspondia a grande cerca fernandina iniciada pelo monarca D. Afonso IV .Todavia o ciclo das inovações específicas do castelo gótico, como o caso da Torre de Menagem do Castelo de Elvas datada de 1488, era edificada na posição de canto e adossada à própria muralha e não como era tradicional nos castelos românicos no centro isoladas das muralhas, a nova posição favorecia a generalização de sistemas de tiro vertical. Os matacães foram outra inovação gótica, espécie de aberturas que permitiam o despejo de projécteis destinados a bater o embasamento das torres e o acesso às portas. Ainda durante a baixa Idade Média assistiu-se a edificação da Torre Hexagonal e a cisterna na fase de transição para a “guerra de fogo” ou pirobalística. Mas o plano defensivo da vila de Elvas, estava traçado e sinalizado com as suas vinte e duas torres, mantendo - se quase sem transformações durante quase as duas primeiras centúrias da Época Moderna. O aglomerado populacional da vila e mais tarde cidade, no séc. XVI e na primeira metade do séc. XVII, concentravam-se inicialmente em torno da segunda cintura árabe já incapaz de manter uma população em franco crescimento, que no séc. XIV e XV crescia em torno das vias que desembocavam na Porta Real ou Olivença, para este e oeste da mesma. Ainda que as casas construídas em tijolo e cal, com traves e tabuados de madeira e telha, situadas no termo da Rua de S. Francisco se confrontavam a norte e a sul com áreas baldias, pomares, hortas e mesmo com algumas plantações de olivais. No início de quinhentos o casario e as novas ruas proliferavam em torno dos eixos das vias que se articulavam com as onze portas medievais: Porta de Banhos, de Badajoz, Mártires, Olivença, Évora, S. Pedro, S. Francisco, Enforcados, S. Martinho, Templo e Hospital. E o espaço não ocupado pela presença humana limitava-se a um conjunto de propriedades ou parcelas de terras em torno da Igreja, convento e mosteiro de São Domingos. (Continua – Postado Arlindo Sena).

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

1.8.Elvas Portuguesa. A defesa e as primeiras obras materiais

Mas a defesa do reino continuava a ser uma prioridade da Coroa portuguesa, mesmo quando algumas povoações e localidades apresentavam já um franco desenvolvimento. Como tal na paisagem natural do território nacional e em especial no litoral e na linha de fronteira de Norte para sul, era interrompida pelos solares e pelos castelos edificados no cimo dos montes e das colinas, protegendo as zonas e áreas mais sensíveis a qualquer invasão de terra ou mar que fosse uma ameaça à soberania nacional. Em muitos casos como o de Elvas, essas colinas correspondiam a zonas de ocupadas desde a Idade do Ferro, como foi o Castro de Vitória onde se implantou o primeiro centro administrativo ou militar o castelo medieval. Numa época que a sua disposição no espaço pretendia a médio ou mesmo longo prazo, estabelecer uma rede de castelos articulados em redes locais, regionais ou mesmo nacionais, de forma a melhor cumprirem a primeira das suas funções. De facto, a política de fortificação da raia só é visível, constante e programática desde finais do séc. XIII quando o monarca D. Dinis não só reforça a primeira linha de castelos de fronteira como também é neste período que existe uma estratégia declarada de fortalecer o espaço do território português, recentemente reconhecido pelo Tratado de Alcanices. Todavia não podemos ignorar, que as décadas que decorrem após a assinatura do referido tratado são de paz permanente, considerando que o referido diploma também estabelecia um longa trégua de quarenta anos em que os monarcas de Portugal e Castela deviam ser “verdadeiros amigos de amigos e inimigos de inimigos”. Assim se em finais do séc. XIII, a zona nevrálgica da Beira estava já consolidada, o mesmo não se observava em certas áreas do Alentejo, como Arronches , Ouguela e alguns castelos do Guadiana, mesmo tratando-se de fortificações de primeira linha. Na verdade a proliferação de documentação sobre o reforço da linha dos castelos de raia Alentejana só é visível e constante ao longo do período de 1350-1450, numa época em que ameaça à soberania nacional era evidente e constante. Em Elvas esse período foi vivido com apreensão pelos responsáveis pelos poderes públicos e uma vez que era necessário reforçar as estruturas e adaptá-las à inovação da guerra, considerando que as últimas modificações introduzidas na época pelo alcaide - mor Álvaro Pereira como sejam as torres de menagem, os torreões e os matacães só por si não garantiam a modernidade do castelo gótico face às novas ameaças da guerra. As queixas dos vizinhos e moradores de Elvas ao rei no tempo do Alcaide Álvaro Pereira, sucediam-se como a revindicação de uma “adua para a cava de Elvas”, necessária para a protecção das operações de cerco, chegava à corte em 16 de Julho de 1361. Dezassete anos depois, o alcaide - mor Gonçalo de Martins, observava a velha muralha remodelada pelo monarca D.Dinis, com apreensão de tal forma que a nova cerca foi edificada por iniciativa dos habitantes de Elvas, a partir de uma taxa de 140 soldos que não incluía os "carretos de cal e as braças de pedra”, considerando que apesar da documentação referenciar o conhecimento de D. Afonso IV não existe qualquer indicação documental sobre o seu "patrocínio". Os preparativos para guerra reforçaram as condições de fortificação do Castelo de Elvas, mas ao longo do século XIV e XV, novas aspirações tinham os moradores que encontravam no castelo tardo - gótico a sua protecção para os constantes assédios que destruíam as culturas e a dieta alimentar da população, de resto uma constante na época Medieval e Moderna. Num período em que as caravelas sulcavam pela Costa Ocidental Africana, os representantes de Elvas às Cortes de Lisboa de 1448 e o alcaide-mor da nobre vila de Elvas, D. Jaime, filho de D. Pedro , davam conhecimento às cortes da construção de uma Barbacã (uma barreira interior) , que teria sido construída entre 1443/1447 ?, sem conhecimento régio, pelo anterior alcaide-mor, Diogo Lopes de Sousa (1443-1448) que voltava a repor a defesa do castelo uma vez que a antiga barbacã teria sido mandada destruir pelo Mestre de Avis como forma de permitir a rendição do Castelo quando Fernando Álvares Pereira, então alcaide do castelo negociava a entrega de Elvas a D. Beatriz de Castela, durante a Guerra da Independência. As últimas obras de reforço de muros e dos castelos tardo-góticos do Alentejo datam de carta régia de 27 de Janeiro de 1443, beneficiando as povoações de Castelo Vide, Marvão, Elvas, Alandroal, Terena , Noudar e Mértola, no caso de Elvas há considerar a doação da quantia de 3.000 reais para a reparação das obras Castelo que foram entre entregues ao mestre ou responsável da obras (?) , Gonçalo Martins de Fonte de Alva (Continua). Postado por Arlindo Sena

sábado, 18 de Julho de 2009

A Apolo XI e a exploração lunar.


Efemérides da Memória: Nos primeiros dias do mês de Julho de 1969 – faz agora 40 anos – uma enorme multidão convergia para a costa Oriental da Florida, na ponta Sueste dos Estados Unidos da América, de repente transformada em Babel do Mundo Novo. No reduzido território de Cocoa Beach, Rockledge, Sharpes e outras soalheiras localidades de veraneio próximo de Cabo Canaveral – então chamado de Cabo Kennedy, nome que ostentou entre 1963 e 1973 – estava concentrado no dia 10 mais de um milhão de pessoas, incluindo 5 mil VIPS e 3 mil jornalistas provenientes de todo o mundo [Almeida Martins, 1969, Odisseia no espaço, in História - 2009, p.23]. Vivia-se em plena Guerra Fria e a conquista do espaço era apenas um vector da política imperialista dos Estados Unidos e da União Soviética, para os norte americanos o grande objectivo para a década de 1960 encontra-se registado no seu discurso no Congresso em 25 de Maio de 1961, quando Jonh F. Kennedy defendeu: “Primeiro, acredito que esta nação se deve compreender no objectivo de, antes do fim da década, colocar um homem na Lua e fazê-lo regressar, em segurança, à Terra. Nesta altura nenhum programa espacial será mais impressionante aos olhos da Humanidade, ou mais importante na longa exploração do espaço… .” O objectivo concretizou-se com a missão da Apolo XI com o lançamento do foguetão Saturno que transportava o Módulo de Expedição Lunar – LEM, tripulado por Michael Collins ( o único que ficaria na cápsula durante a exploração lunar e autor do logótipo da missão Apolo 11), Neil Armstrong e Edwin Aldrin, às 8 horas e 32 minutos, hora local, do dia 16 de Julho. Ao fim de 2 minutos e 27s, a missão encontrava-se já a cerca de 185 km da Terra. Por volta das 11 horas, 16 minutos e 16 segundos, após uma volta e meia à Terra a Apolo deixa a órbita da Terra. As horas seguintes são marcadas por acertos de trajectória e navegação que percorre os dias seguintes até às 12 horas, 21 minutos e 50 segundos, do dia 19 de Julho, quando a tripulação muda para o Módulo de Expedição Lunar, que fará o processo de alunagem que permitiu a Louis Armstrong no dia 20 de Julho ser o primeiro ser humano a dar o primeiro passo na Lua. A 24 de Julho, às 11 horas, 50 minutos e 35 segundos, termina a Odesseia no espaço com a amaragem no Pacífico junto às ilhas de Havai. O regresso ao satélite mais perto ocorreria em mais três ocasiões em 1969, 1971 e 1972. Na última dos quais foi batido o recorde de permanência pela equipa, Eugene Cernan, Harrison Shmit e Ronald Evans com a estada de 74 horas e 59 minutos na superfície lunar. Postado por Arlindo Sena