Mostrar mensagens com a etiqueta Elvas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Elvas. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, março 30, 2012

14.1. - O fim do Estado Novo ...



José Vicente de Abreu - marcou uma época num período de dificuldades para o Poder Local.

Os simblogia do Estado Novo na Praça da República ( in Grupo Elvas em Fotos)


As novos equipamentos anunciavam as necessidades de uma classe média em embrião 
(foto de Jacinto César)


O regime caminhava para o fim … mas em Elvas vivia-se na esperança de um relativo progresso, a aposta era José Vicente de Abreu, figura simpática, correcto e de trato agradável, cuja acção se distinguiria como Presidente do município e mais tarde como deputado da Nação. Na verdade seria na Assembleia Nacional, que o seu carisma político se afirmava, em torno das causas de Elvas de uma forma indiscutível, defendendo a implantação de uma zona de regadio e de um Liceu Nacional, como de uma cidade capital se tratasse. A nível local, seria a primeira personalidade a defender a criação de uma zona especial de Turismo, que considerava uma das condições determinantes para o futuro da cidade. Da sua obra e influência, destaca-se a criação de uma série de equipamentos que permitiram a valorização da cidade raiana, das quais destacamos: a Maternidade, o Tribunal, a instalação da Estação de Olivicultura, o Bairro das Caixas a primeira obra de matriz social no âmbito do estado providência … outras eram esperadas numa época em que a cidade era conhecida pela sua fidelidade ao Estado Novo e como tal o regime não lhe era adverso … mas a morte inesperada, inoportuna e trágica, de José Vicente de Abreu num acidente aéreo na Guiné na companhia de outra figura da Ala Liberal, Dr. Pinto Leite … terminou com este período de pleno desenvolvimento, o município de Elvas, marcava passo, até final do Estado Novo, face aos limitados e quase inexistentes orçamentos de um poder político centralista, em crise e com uma guerra interminável que sugava os dinheiros públicos. Algumas obras de vulto, hoje consideradas pequenas, como a electrificação da Calçadinha, rompiam com o imobilismo os poderes políticos, numa época em que o comércio e a cidade tinham alguma dinâmica face ao crescimento do funcionamento púbico, ao estacionamento de vários batalhões do exército português e alargamento dos chamados “remediados” uma espécie de embrião da futura classe média. A mudança aproximava-se na Primavera de 1974 … o dia 24 de Abril caminhava para o fim, faltavam cinco minutos para as vinte e trinta minutos, o som da rádio nacional mais ouvida, era interrompida com uma canção censurada “Grândola Vila Morena”. De prevenção há algumas horas, as forças militares compostas em quatro zonas de comando (Lisboa e sectores: Norte, Centro e Sul) iniciavam o primeiro Golpe de Estado Militar bem sucedido após o 25 de Maio de 1926 que tinha como objectivo a capital, no plano geral das operações o Major Otelo Saraiva de Carvalho deixava bem claro que considerava “ a cidade de Lisboa como fulcro de toda a acção, visto que é nela que se concentram os poderes legais e os objectivos remuneradores para o cumprimento da missão e das missões consequentes”. Pela manhã, as notícias eram conhecidas em Elvas, com entusiasmo e ao mesmo tempo com apreensão, a rádio nacional era o meio privilegiado com notícias como esta: “As forças armadas desencadearam, na madrugada de hoje uma série de acções com vista à libertação do regime que há longo tempo domina”. Mas a noite seria longa e histórica, para dois elvenses que participaram nesta aventura pela democracia, José Manuel Carapinha brilha e Martinho José Coelho de Jesus, que faziam parte da coluna militar do  RPC, liderados pelo capitão Salgueiro Maia, que de Santarém partiram para a capital na madrugada, ocupando o Terreiro do Paço, subindo ao Carmo onde aceitaram a demissão do Presidente do Conselho, o  Prof. Dr. Marcelo Caetano. Aos poucos o Movimento empreendido pelas Forças Armadas, chegava a Elvas, a cidade tornava-se movimentada e patrulhada por inúmeras viaturas militarizadas, entre elas os Jipes da era dos aliados do pós II Guerra Mundial, o tempo corria depressa e as vozes da liberdade faziam-se sentir um pouco por todo o lado, onde a esperança e a apreensão eram sentimentos próprios de quem não podia entender o que se passava. O fim das estruturas do regime de repressão e censura, situadas na Praça (PIDE-DGS) e Largo de S. Domingos (Legião) denunciavam a mudança que alcançava o ponto mais alto nos comícios do 1º de Maio e em Elvas a dimensão da festa era complementada pela intervenção de vários oradores, alguns dos quais ficariam ligados ao processo de consolidação do poder local em Elvas.                                  

domingo, março 04, 2012

14. Uma cidade ao serviço da Pátria nos tempos da Guerra Colonial.

A praça Militar era de novo valorizada com a eclosão da Guerra Colonial


As madrinhas de guerras - o lado sentimental de uma ligação à Pátria 

A antiga Sé - o último espaço de homanagem à memória dos heróis da guerra




As cerimónias militares e os desfiles militares mobilizavam o patrotismo da população.

Em meados do século a cidade de Elvas do ponto vista militar voltava a ganhar o estatuto que tinha ganho por mérito próprio, quase um século depois, como praça de estacionamento militar e de mobilização para a guerra de África. Os grandes desfiles militares mobilizavam a população local nas datas comemorativas do regime e o comércio local prosperava com a presença das várias centenas de militares, numa época em que era possível adquirir farda militar nas lojas locais. A abastança era uma característica das famílias dos oficiais e sargentos que residiam temporalmente na urbe elvense, ao mesmo tempo que o gosto pelas armas, chamava os muitos elvenses à carreira das armas, nas classes populares o limite era a chegada ao posto de sargento enquanto na classe dos “remediados” surgiam os primeiros-oficiais da geração da guerra colonial saídos da academia nos fins da década de 1960. Todavia, ao longo dos anos sessenta os elvenses, viam-se envolvidos por um teatro de guerra longínquo e a chegada a maioridade tinha um destino devidamente direccionado: Guiné, Angola e Moçambique. A saudade ficava na terra e as madrinhas de guerra, preenchiam algumas páginas do jornal com maior circulação na cidade, o Linhas de Elvas, mais tarde na altura do regresso, o matrimónio … mas muitos ficariam para sempre na saudade dos seus familiares … a notícia da morte heróica em combate era a pior que as famílias então desejavam. Mas as piores notícias também marcavam o ritmo em terras da raia, os ferimentos em combate e a morte … eram notícia … e a tristeza e a dor, preenchiam os corações da multidão de centenas de pessoas que então ocorreram à antiga Sé de Elvas durante as primeiras cerimónias fúnebres dos primeiros elvenses caídos em combate. A guerra, essa continuava, apesar da pressão externa e do isolamento de Portugal face às condenações das Assembleias Gerais da ONU. As opiniões variavam, entre uma guerra justa ou perdida, numa altura em que o equipamento militar melhora bastante após a perda da chamada, a Índia Portuguesa e o exército português praticamente exercia sem resistência o seu controlo militar em Angola e Moçambique. O insuspeito poeta, Manuel Alegre reconhecia que “ O exército começava a tomar conta. Começou-se a fazer a acção psicossocial e compreendeu-se que o essencial era a conquista das populações”. Mas a Guiné era o teatro de guerra mais sangrento e tímido pelos jovens portugueses, os mísseis Strella dominavam o teatro de guerra e do ponto vista político, segundo a opinião do socialista, Manuel dos Santos …”Penso que em 1968-1969, o PAIGC dominava perfeitamente o território. O PAIGC nunca teve uma base étnica, pelo contrário, sempre procurou agir numa base não étnica ….”  um dos vários aspectos que favoreceram o êxito a guerrilha guinense.  Todavia Portugal na transição para a década de setenta estava só … nem os norte-americanos queriam nada com a pátria lusitana, o Doutor Adriano Moreira diria : “ … tenho a noção de que os americanos o que interessava em África eram o petróleo, os diamantes e o açúcar. Eu tinha essa noção que os americanos sabiam pouco de África e nada de Angola, e o que os movia eram os seus interesses …”.  Até ao fim da Guerra de África, várias gerações de elvenses marcharam em solo africano em nome da pátria mas também de uma  profissão que cada vez mais era uma opção de vida para uma terra que mais uma vez estava ao serviço da Pátria.              

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

13. O Urbanismo - A configuração urbana no fim do século -1960-2000



Em meados do século XX - a cidade rompia definitivamente com a cintura muralhada.




Nas décadas de 1960 e 1970 o centro histórico continuava a ser o "coração" da cidade.




O Bairro da Boa Fé inspirava-se no projecto conservador dos Centenários



O Bairro Europa - símbolo do crescimento da classe média e dos bons ventos que sopravam da Europa 

A cidade abria-se ao exterior, os ventos de guerra ainda faziam parte da vida dos europeus, estávamos em meados do século e há pouco mais de uma década, Elvas rasgava definitivamente com os limites da muralha seiscentista, outrora a seu escudo defensivo e que cada vez mais apertava o seu progresso e desenvolvimento. Os novos bairros preenchiam os espaços então vazios, pela regulamentação militar de outras épocas da história, o Bairro de Santa Luzia, desenvolvia-se a sul da Porta de Olivença, que durante mais de dois séculos apenas tinha edificado o fortim de S. Pedro e algumas pequenas construções agrícolas, junto do Rossio do Meio, de apoio à prática agrícola sem expressão num espaço que na viragem do século ainda estava limitado por arame farpado e outras marcas militares. Na antiga estrada Elvas/Campo Maior, crescia o Bairro da Boa Fé, que inaugurava os bairros sociais que assentava no modelo nacionalista dos “Centenários”, incluindo na sua génese um conjunto de edifícios de apoio social, entre eles o seu parque escolar. De sublinhar, que a noção de “bairro social”, não estava devidamente consolidada, e então era então rotulado, pelo imaginário popular como o “bairro dos pobres” em oposição ao Bairro de Santa Luzia, onde residiam as famílias de posse do município. Já em meados da década de 1950, na mesma dimensão social, desenvolvia-se o Bairro das Caixas (1956) de linhas modernistas, evidenciando a visão inovadora do jovem e promissor arquitecto português, Teotónio Pereira, que no apoio à estrutura habitacional, incluía várias vias rodoviárias e pedonais, incluindo largos e pracetas arborizadas, em nítido contraste com as linhas autoritárias e austeras que marcavam as construções da época do Estado novo. Até final do século XX, novos bairros nas zonas periféricas da cidade, junto aos limites do forte de Santa Luzia, edificava-se o Bairro de S. Pedro, projecto modernista dos arquitectos, Jorge Alves, Carlos Alves e Clara Silva, que se destacava pela sua construção de raiz contemporânea, tratava-se de habitações com dois pisos, em banda e germinadas e que obedecia ao mesmo tempo a uma tentativa política de integração da etnia cigana, consumada no mandato do Dr. Aníbal Franco e uma preocupação já subjacente desde os tempos da vereação do Professor João Vale. A oeste, do Aqueduto das Amoreiras na década de 1980 desenvolvia-se o Bairro Europa, no contexto do crescimento de uma pequena e média classe média, beneficiada ao mesmo tempo pelo desenvolvimento do aparelho bancário que permitia a “democratização da propriedade” por empresto bancário. Neste período, em que o destino municipal estava sob desígnio do Dr. João Carpinteiro assiste-se à criação de uma série de equipamentos sociais que facilitavam as práticas desportivas e de lazer. A década de 1990 marcava uma explosão significativa do número de habitações por metro quadrado, a cidade voltava a crescer nos bairros já edificados, nos confins do Bairro de santa Luzia, do Bairro Europa e do Revoltilho, ao mesmo tempo que entre outras construções. A renovação das velhas estruturas sanitárias com quase meio século de existência e valorização de algumas zonas estratégicas do tecido urbano torna-se um marco das primeiras vereações de José Rondão de Almeida, a cidade volta a crescer numa política de expansão que iria marcar a primeira década do século XXI. Mas nos seus primeiros mandatos, o lazer e a prática desportiva, voltavam a ganhar outra dinâmica com edificações como a Piscina Municipal e o Complexo Municipal de Atletismo, numa cidade que a breve trecho estava capaz de receber eventos de envergadura. Chegados ao fim do século, a cidade estava em transformação, numa dualidade  urbana, o centro histórico e sede dos serviços, quase lembrando a tradição romano-gótica, enquanto que o exterior da Praça de Elvas se tornava num grande e complexo dormitório, atendendo há demografia e ao espaço urbano. Na viragem do século o centro histórico, base do quotidiano desde tempos imemoriais torna-se um espaço funcional onde o trabalho é praticamente o fundamento da sua existência.                   

sábado, janeiro 21, 2012

12. O Urbanismo - As obras públicas : - O tempo das construções fora do burgo histórico.


 Meados de século XX - O tempo rompia com o monopólio do burgo moderno e militarizado


O trânsito automóvel marcou a necessidade de uma nova ordenação na mobilidade da cidade 

O Bairro de Santa Luzia uma imitação dos bairros burgueses ocupado com a média, Classe Média e que se identificava com algumas famílias de elite local que abandonavam as casas senhorias do núcleo histórico.

Pousada de Santa Luzia - denunciava a vocação para o Turismo sendo a primeira pousada no continente português já que a primeira, fundada no séc. XIX (1840) situava-se nos Vinháticos (Rosário/Madeira). 


O urbanismo e a expansão da cidade tornava-se uma realidade evidente há medida que se aproximava de meados do século XX, pouco a pouco, rompia-se a cintura muralhada, eram as exigências de uma cidade fronteiriça que se abria ao trânsito automóvel. Numa época, em que o Jardim Municipal, a velha “alameda” aberta nos fins da Monarquia Constitucional, era o único espaço exterior à cidade, que há pouco tinha acabado com o toque militar que reunia toda a população ao final da tarde no baluarte setecentista. Os arautos da desgraça, viviam desencantados com o “derrube” da Porta de Évora que dava lugar ao viaduto, que iria mudar radicalmente o movimento na cidade que se abria ao trânsito automóvel ao mesmo tempo que se iniciava as primeiras obras de para a construção do futuro Bairro de Santa Luzia, que se inscrevia no contexto da afirmação de uma média classe média que na cidade constituía a elite local, que se distinguia pelo poder económico e pela formação académica. Mas havia quem fosse avesso a esse novo conceito urbano, que se expressava pela ampliação da cidade para fora do núcleo histórico, como se observa num estrato de um texto publicado em 1929, no periódico “O Leste” : …que vão assim apertar o único jardim que possuímos roubando-lhe beleza natural, impedindo com estas alterações em volta, que possamos jamais naquele lindo local, encher os pulmões de ar puro …”. Mais polémica era sem dúvida a solução encontrada para a circulação no interior da cidade, mas a Câmara não cedia e explicava em reunião de câmara que: “O projecto municipal consiste na abertura no lado sul do Largo da Fonte Pereira de Melo encostada ao Baluarte de São João de Deus. Os argumentos empregados pela comissão a favor da solução por ela preconizada são da maior economia da obra, melhoria da parte estética e maior respeito devido à fortificação, obra prima do maior respeito devido à fortificação, obra prima do maior respeito devido à fortificação do seu tempo”. É certo que a polémica continuou associada, ao valor do património local, poderemos mesmo afirmar sem receio que foi no final da década de 1920 que os Elvenses tomaram consciência cívica do seu património, face às alterações do espaço urbano, mas mesmo nos espaços que eram intocáveis, as opiniões mais ou menos científicas defendiam a necessidade das autoridades procurarem divulgar a cidade através da edição de roteiros históricos que deviam informar os viajantes. Mas sem dúvida que as duas preocupações latentes, no espírito dos mais críticos era a desvalorização do velho burgo - moderno e militar, como então se pretendia afirmar: “ ... mania de derrubar muralhas, total ou parcialmente conserva-se latente no espírito de muito gente, mas dado o facto dessa gente estar atacada da ânsia de construir, porque não procede desde já à construção de novos bairros ? Em lugar de falarem em projectos de renovação viária, deviam de tratar da extinção da chamada zona militar….” …Vivia-se os primeiros momentos de desvalorização de algumas construções anexas à praça, nomeadamente caminhos ou melhor trilhos militares que tinham chegado ao século XX e que se mantinham intactos e limitados por arame farpado todavia a estratégia de guerra tinha mudado desde a I Guerra Mundial com a guerra aérea .... limitando a importância dos campos entrincheirados, mas o espaço militar desde o início do séc. XIX até finais do século XX, afirmou-se sobretudo como espaço militar de estacionamento e mobilização de apoio  cenários de guerra a longa distância.                            

segunda-feira, janeiro 16, 2012

11.2. As adversidades da economia entre guerras em Elvas (1926-1950)


Os cartazes do regime faziam o apelo á produção agrícola

A cortiça um factor de riqueza complementar das casas agrícolas 

 A Ceifa numa época em que a campanha do Trigo pretendia o Alentejo no celeiro de Portugal 

O gado uma especialidade da Herdade da Fontalva e do experimentalismo do Doutor Ruy de Andrade

Até meados do século, a vida na cidade de Elvas continuou marcada pela sua actividade principal a agricultura, ainda que fosse considerado o centro urbano comercial de maior importância no Distrito de Portalegre. Contudo, desde o lançamento da Campanha do Trigo que a agricultura se tornara no vector principal da economia local. A produção cerealífera ganhava cada vez mais espaço nas grandes propriedades que tinham crescido devido à aquisição, continuada de parcelas de terras, pelos muitos rendeiros que se tinham tornado, médios lavradores durante a transição para a I República e alguns deles grandes lavradores na fase de incentivo da política agrícola nacional do Estado Novo (1926 a 1937). Mas, na cidade e nos campos do município raiano, a conjuntura difícil marcada pela fome, pairava e se instalara em muitos lares das camadas sociais modestas, os proprietários rurais das casas agrícola, alguns deles distinguiam-se pelos actos de solidariedade: “Assim não negamos a ninguém a garantia do pão, do pão que é como a instrução, a primeira necessidade do homem…”. Viviam-se tempos de adversidade, não só nos ritmos de trabalho mas também na produção agrícola e nem o decreto nº17 252 que proclamava “ O trigo é a fronteira que melhor nos defende” favorecia o esforço da agricultura elvense, mas o tempo tornava mais penosa a vida dos que dela dependiam, as produções em queda, o desemprego em flecha, uma contradição que se justificava com a partida para o litoral dos primeiros migrantes sem o vigor do início da segunda metade da década e que pretendiam sobretudo uma vida mais fácil e menos penosa que nos campos frequentemente abalados pela violência da meteorologia, sobretudo pela chuva, mas a bonança por vezes significou os períodos de seca, como se pode comprovar num periódico local no fim do Inverno de 1931  : “Umas vezes porque chove e outras porque não chove as classes operárias continuam lutando contra a miséria, em vasta inactividade a que foram condenados. Os trabalhadores rurais tem agora esperanças de trabalho, dado os serviços de campo que começam a intensificar-se” . De resto, toda a década foi dramática, os pedidos de auxílio ao Estado sucediam-se, uma delegação de lavradores elvenses deslocaram-se no princípio de Julho de 1937 com esse objectivo ao Terreiro do Paço e entre o fim da Guerra Civil de Espanha e o desencadear da II Guerra Mundial a situação era preocupante e com reflexos em todos os sectores da sociedade local dependente da “vida fundiária”. O Governado Civil de Portalegre em 1940, devido à crise de desemprego que reinava nos campos e nas cidades do seu distrito dirigia-se ao Presidente do Conselho, afirmando que no campo as dificuldades eram maiores na cidade a diminuição do poder de compra, a falta de géneros alimentares e por consequência o desemprego. A  sopa dos pobres, instituída cerca de duas décadas pelo Major Doutor Sidónio Pais, voltava de novo à mesa das instituições oficiais e de solidariedade da cidade, era outra vez útil, lia-se no Correio Elvense : “A sopa dos pobres é pois uma benemérita instituição que todas as pessoas de sentimentos bem formadas devem olhar com afeição e carinho (…) um povo com fome tem de indubitavelmente se transformar numa legião de tuberculosos e essa legião se encarrega de contaminar como o bacilo que devora a sociedade que a alberga”… era um tempo em que os mais ricos tornaram-se menos ricos e os pobres e os mais pobres, num tempo em que as crises de subsistência face à conjuntura de guerra, que atravessava toda a Europa civilizada e industrial, longe iam os tempos do Capitalismo Industrial que parecia a ser solução das grandes nações ocidentais, que viviam os dias padecendo a ferro e fogo.                                                       

domingo, janeiro 08, 2012

12. Meados de século (1930-1950) - Entre o Progresso e os novos Desafios...

h
A modernização e o progresso chegavam a uma sociedade ruralizada...


O comércio prosperava na continuidade das décadas finais do séc. XIX


O novo piso o mecadame, os novos caminhos e as novas estradas era uma dádiva do Estado Novo 

Os Buicks norte-americanos causavam espanto quando passavam por Elvas onde a motorização era precária


O projecto e construção do Viaduto foi uma das primeiras grandes decisões do Estado Novo
(foto de Pedro Franco, in Elvas em Fotos).


A vida económica nos anos trinta continuava a ser um desafio para a classe política local uma vez que capacidade decisão dependia do Poder Central e as poucas iniciativas de desenvolvimento do município era uma realidade de uma frágil iniciativa privada. Ainda que na transição para a década de 1930, surgia as primeiras obras públicas no âmbito do desenvolvimento dos transportes e do trânsito automóvel, na verdade a Lição de Salazar, que surgia anunciada nos cartazes do regime, defendia a quebra do isolamento das populações em nome do progresso, a estrada internacional para o Caia e a via ferroviária, Elvas – Vila Viçosa, mobilizava uma mão de obra disponível para tais empreendimentos, mas o número de operários eram recrutados numa área geográfica que ultrapassava os limites do município e  a que ocorriam, trabalhadores das mais variadas regiões do País. Mas, na cidade raiana, os automóveis eram um acontecimento e os automóveis do país vizinho eram motivo de comentário na imprensa periódica: “Um automóvel em Elvas digam o que disserem mas é  ainda uma coisa que nos obriga a parar e a voltar a cabeça (…) . Foi precisamente o que nós fizemos quando o Buick parou à frente do café (Alentejo)e do carro saíram então algumas espanholas, lindas como os camones e graciosas, como só elas sabem ser …” .  De resto, a circulação rodoviária entrava na ordem do dia, nas conversas amenas entre os lavradores e os políticos locais, o tema da necessidade de mais estradas agrícolas era motivo de reflexão, na década de 1930 a agricultura era a actividade principal, ocupando cerca de 68% da população. Todavia, era o núcleo populacional do distrito de Portalegre menos ruralizado, o comercio na tradição dos finais do séc. XIX ocupava cerca de 29%  dos seus efectivos populacionais e 13% era a percentagem do sector terciário, uma parte constituída por novos moradores da cidade  cerca de 4% de militares e funcionários públicos, era o tempo da chegada dos funcionários públicos de carreira, dos professores e dos policiais. Todavia, a cidade tornara-se mais movimentada e nos finais da década o Coronel Passos e Sousa e o Presidente da Câmara, Dr. Santana Marques, procuravam junto do Estado Novo uma solução rodoviária para a entrada de cidade, nascia o projecto do viaduto que romperia em definitivo alguns anos depois as Portas de Évora. Na vida comercial, até meados do século, assistia-se uma contínua modernização os velhos armazéns e as mercearias incontáveis, nas décadas de 1930 e 1940, davam lugar aos primeiros estabelecimentos comerciais, alguns merceeiros convertiam-se em logistas e com algum orgulho as notícias circulavam: “A nossa terra possue já um número bastante elevado  de estabelecimentos modernos, que bem pode dizer-se que são monumentos grandiosos, duma cidade progressiva e trabalhadora, parecendo crer num momento recuperar, tempo perdido de outrora”.  Ao mesmo tempo que sinais de progresso e modernização, era visíveis na estrutura urbana, os protestos voltavam quando por razões económicas e financeiras, o Estado Novo, extinguia alguns serviços que faziam parte da vida económica e social da cidade … “Acabaram com a estação telegráfica permanente, acabaram com a Escola Primária Superior , as estradas não são reparadas …. E não há protesto, um brando de indignação ! Como é boa e meiga esta gente de Elvas! ... Outra questão, tornava-se objecto de reflexão, a necessidade do ensino secundário, um privilégio e um investimento só acessível a meia dúzia de famílias locais que tinham meios económicos, para a continuação de estudos complementares no Liceu Nacional de Portalegre, o Dr. João Bagulho questionava na imprensa local a falta desse grau de ensino na cidade: “ Até parece mal não é verdade? Mas é que já há muitos anos vimos perguntando a razão porque Elvas não tem, pela sua categoria de cidade, os estabelecimentos de ensino secundário e técnico com que são dotadas outras terras de igual e até menos importância e mais escassa que a nossa.… (continua).          

quinta-feira, dezembro 29, 2011

11.1. O Estado Novo e o Poder Local entre guerras.....


D.Duarte Pio (Duque de Bragança)  na fronteira vigilante do Caia (Elvas) 

Doutor Oliveira Salazar nos tempos que convivia com a família Santana Marques.


A guerra civil de Espanha favoreceu a presença militar na administração municipal 

 O viaduto a primeira grande obra do Estado Novo uma ambição da primeira vereação municipal


Com o fim da Guerra civil de Espanha, a cidade de Elvas ao contrário do que se tinha observado durante a I República, aumentou significativamente a sua importância como espaço militarizado iniciando-se uma pré-militarização da Praça que se torna efectiva cerca de trinta anos depois. O seu espaço fronteiriço, afirma-se a partir de finais dos anos quarenta como uma zona de trânsito amplamente controlada e não apenas como uma área fiscal de 1ª ordem, categoria que advinha desde meados do séc. XIX com a reorganização da política e polícia fiscal dos governos da regeneração. Mas entre a legalidade e a clandestinidade tornou-se também um ponto de chegado para os exilados espanhóis e um ponto de partida para os portugueses, ao contrário de Vilar Formoso que se afirmava mais do que nunca como a parte de saída para a emigração, que não era tão evidente a sul da raia portuguesa. Porém, em tempo de paz e normalidade, o poder local continuava a se estruturar segundo a vontade do Poder Central, cada vez mais fechado em si mesmo. Se a República em 1910, em termos programáticos mostrava-se tendencialmente favorável a uma descentralização política, a verdade é que tais ideias não passaram disso mesmo, tal como o municipalismo no séc. XIX . O debate mantinha-se desde as primeiras crises do republicanismo, o sector integralista na personagem de Alberto Monsaraz considerava que a descentralização não tinha tido sucesso na I República porque ela era de natureza monárquica. Por esta razão e pelo nacionalismo que o Doutor Oliveira Salazar pretendia empreender a autonomia do Poder Local não era discutível, de facto na história portuguesa desde a Época Moderna, que o localismo era mais forte que o nacionalismo, porque o conceito de naturalidade (de uma cidade ou vila), atravessou os “séculos da memória” , o nacionalismo e o regionalismo como ideias políticas nascem praticamente na época contemporânea como consequência das revoluções liberais do século XIX e do desenvolvimento dos transportes,  vias de comunicação, da imprensa e do ensino público a partir de meados do séc. XIX, logo o futuro Presidente do Conselho não podia construir um Estado Forte dividido alienando funções e competências pelos poderes locais, era aliás um contra senso num país que vivia próximo da anarquia fruto da instabilidade política de dezasseis anos de experiência republicana e que lhe ia faltando uma identidade própria. Foi nestas circunstâncias que segundo César Oliveira: “As Câmaras nacionais deveriam ter funções de soberania municipal. Entre tais funções, contava-se fazer leis (posturas), regulamentos, funções de gestão patrimonial, funções policiais e de segurança dos cidadãos e funções relativas aos interesses morais e materiais da população. Desde a construção e gestão dos cemitérios, aos abastecimentos de água e aos esgotos até à gestão dos espaços urbanos e a promoção dos interesses económicos concelhios” . A execução de tais funções estavam reguladas pela existência de dois órgãos segundo o Código Administrativo, artigo 71, nº2, cujo modelo era concretizado por um Conselho Municipal e pelo Presidente da Câmara Municipal. Nestes órgãos, a figura predominante era de facto o Presidente da Câmara, na verdade, ele era livremente nomeado pelo governo. Todavia, a nomeação directa do Presidente da Câmara, suscitava alguma polémica mesmo nos sectores mais conservadores da União Nacional, por isso mesmo e mais tarde o II Congresso Nacional da União Nacional, resolvia esta questão com uma ideia já lançada pelo movimento Integralista, como se comprova na reflexão de António Teixeira Santos: “… com base nos argumentos expandidos durante a I República, por António Sardinha, Teoria do Município e Cartilha Monárquica com base nos chefes de família, nos representantes dos grémios, sindicatos e misericórdias e corporações de interesse e espírito”.”O conselho municipal resultava da representação das juntas de freguesia únicos órgãos eleitos ainda que por um colégio eleitoral restringido aos chefes de família ou equiparados” in Decreto lei 27 995, de 27 de Agosto de 1937. Estas limitações eram extensivas aos meios técnicos e humanos, falta de maquinaria, de ferramentas e um quadro técnico inadequado para um corpo de funcionários com habilitações e competências limitas, determinando uma política dependente da vontade do Poder Central. A intervenção central omnipotente, a carência de meios e um presidente de Câmara, nomeado e sem renumeração mensal, limitavam o planeamento e as ambições dos municípios. A Câmara de Elvas, no período de 1926-1945 estava limitada a um orçamento típico, que pouco variava na sua execução: 1.Orçamento típico; 2.Compromissos do município anterior; 3. Execuções fiscais; 4. Obras Municipais; 5.Obras com a comparticipação do estado e a 6.Assistência Pública. Em dezanove anos a cidade conheceu sete presidentes que se destacaram por um conjunto de obras que ultrapassaram o seu rígido orçamento: O Dr. Manuel Santana Marques (1926-1928), figura grata do regime, a sua esposa era amiga de longa data do chefe de Estado e a presença do Doutor Salazar na sua residência era comum nos tempos da formação do Estado Novo. Destaca-se do seu mandato algumas propostas e obras notáveis, nomeadamente, a questão da abertura do Viaduto, a montagem da linha telefónica entre Elvas e Portalegre e o alargamento da estrada para a fronteira entre Elvas e o Caia; o Major Joaquim Melo (1928-1931), foi sobretudo o militar em comissão de serviço tendo sido um dos impulsionadores para os estudos de ligação ferroviária, Elvas e Vila Viçosa. O Dr. João Crisóstomo Atunes (1931-1936), prestigiado médico da cidade, cuja principal preocupação centrou-se na implementação do ensino primário, num período em que a cidade vivia a tragédia da guerra civil espanhol e nesse contexto era uma “urbe” militarizada. O médico, Dr.Januário Machado Cavalheiro (1936-1937, líder da União Nacional, destacou-se sobretudo por prolongar a sua actividade médica com as suas decisões políticas, centradas na Saúde sendo responsável pela construção do Dispensário Anti-Tuberculoso e pelo Centro de Saúde. Mas, a guerra civil de Espanha e os sinais de confrontação bélica entre franquistas e republicanas, adivinhava-se e como prevenção, de novo um militar era nomeado para dirigir a vida municipal, o Capitão Manuel Rodrigues Carpinteiro (1938-1941) que iniciou a electrificação das zonas rurais e o primeiro político de Estado Novo a privilegiar o “mundo rural” então em expansão. Até meados do século, novas personalidades, dirigem os interesses municipais, o Coronel Henrique Lopes Garcia (1942-1943), que é sobretudo um militar numa praça militar de fronteira numa época de conjuntura de guerra e o Dr. Mário Cidraes que chega à Câmara em 1944 mas é sobretudo uma figura distinta da política elvense na segunda metade do séc. XX.        



O Dr. Mário Cidraes uma gestão única ou uma visão geradora de progresso







                          

quarta-feira, dezembro 21, 2011

1.1.1.O renascimento militar da Praça Militar de Elvas numa conjuntura de guerra….


Os campos agrícolas da raia de Elvas afirmaram-se espaços de exílios para
os extremenhos que passavam a raia.


A aviação germânica que participou na batalha área de Badajoz fez escala numa herdade elvense.

Os arredores em torno do Forte de Santa Luzia faziam parte da rota dos exilados em fuga da violência e da morte que marcava os dias em Badajoz ... 

Os franquistas contaram com a colaboração das autoridades portuguesas na detenção da oposição republicana....

Nos primeiros tempos de vigência do Estado Novo, as suas estruturas de suporte foram crescendo com o seu próprio aparelho burocrático, a censura e a vigilância marcaram necessariamente muitos momentos da vida quotidiana da cidade de Elvas e de um modo particular pela situação estratégica de espaço fronteiriço. Se a nível da vida local, as dificuldades de afirmação de uma acção política favorável ao exercício do poder local foi uma constante pelo menos até meados do séc. XX , a verdade é que a conjuntura de guerra que se viveu no Ocidente  não facilitava qualquer solidariedade com os poderes locais. Mas ao contrário, do que se tinha verificado durante a I República a cidade de Elvas, voltava a ganhar o seu estatuto histórico que tinha “ganho” durante as guerras peninsulares voltando a ser uma praça militarizada, uma placa estacionamento. Ou seja a Guerra Civil de Espanha e em consequência indirecta a 2ºGuerra Mundial, voltava a dar dignidade ao estatuto militar da velha praça militar da época Moderna, praticamente desmilitarizada entre finais da Monarquia Constitucional e a I República. A guerra Civil de Espanha seria o primeiro momento de afirmação, a cidade elvense no Inverno de 1939 tinha se transformado no “centro do mundo”, políticos, jornalistas e equipamentos militares permaneciam instalados nas artérias e nas proximidades de Elvas com ligação à fronteira, descrições da época demonstram esse intenso movimento como a coluna de apoio á causa nacionalista (franquista): “A coluna automóvel do Rádio Clube Português, que na sua longa viagem de Lisboa-Badajoz, transportava donativos em géneros e agasalhos medicamentos. As camionetas alinhadas por distritos e levando à frente o de Lisboa, estendiam-se por quilómetros. Esperava-se ansiosamente a entrada em Espanha. Faziam-se perguntas contínuas aos chefes das colunas distritais e o tempo ia passando. Havia talvez uma hora que ali estávamos quando de Elvas nos chegou o barulho de potentes aviões. Os olhos perscrutaram o espaço ansiosamente até que se descortinavam três aviões que para nós se dirigiam. Eram aviões portugueses das nossas forças aéreas que sobrevoaram as colunas num voo elegantíssimo que despertou o mais vivo entusiasmo. Vivas estridentes ecoaram, pelo espaço numa expontânea de fé nacionalistas, braços bem alto para o céu, em direcção às cruzes de Cristo rubras, que se avistaram na fuselagem dos aparelhos”. O Coronel Passos e Sousa, natural de Elvas, Ministro da Guerra em 1934-1936, era designado pelo regime para assumir o comando da Praça face a qualquer ameaça republicana que eventualmente pudesse ameaçar a soberania nacional face à ameaça de uma vitória republicana em Espanha. O tempo em Elvas parara com a tragédia espanhola, a solidariedade não era palavra vã, as notícias corriam em toda a raia: “As senhoras de Elvas e campo Maior, que tanto carinho e dedicação confeccionaram agasalhos para as tropas que estão batendo na “frente” pede-nos o Consulado de Espanha, nesta cidade que o tomemos público o seu profundo e fervoroso reconhecimento para notável iniciativa”. Nas herdades junto ao Guadiana, os actos de bravura e de humanidade dos proprietários das casas agrícolas elvenses sucediam-se: “O Dr. José Albarran atravessou o rio a nado, seguido de perto de comunistas. A perseguição foi tão feroz que o nosso hóspede chegou aqui em lamentável Estado, não havendo água que o saciasse”. Todavia, um pouco por todo o lado, passavam a salto, homens, mulheres e crianças, independentemente da sua posição política face às facções em conflito, as crianças muitas vezes passavam a raia sob protecção de contrabandistas elvenses e campomaiorenses, sendo depois enviadas para o norte de Portugal, antes de partirem para a América Latina, por via marítima. Mas, sem dúvida que com muitos riscos correram vários homens e famílias de Elvas, que protegeram as centenas de refugiados republicanos espanhóis, que atravessaram a raia. Uma vez que desde finais de Outono de 1936, o Governador Civil de Portalegre e os militares estacionados em Elvas e Badajoz, para além do director da Polícia Internacional de Segurança Pública, tinham ordens para deter e barrar a entrada de qualquer indivíduo identificado com a causa republicana. As detenções entretanto sucediam-se como se lê em documentos rubricados por secreto: “Alguns comunistas fugiram para Portugal, onde foram presos pelas nossas forças de fronteira”. Numa atitude informativa, o Prof.Dr. Vicent Gray, da Universidade de Valhadolid, dava a conhecer aos Elvenses: “A Espanha luta contra o comunismo, e ao denunciar o seu sangue, o mais precioso, o da sua juventude, que renunciou aos amores e à prosperidade e a força do amanhã …”.  Neste teatro de guerra, em que muitos elvenses subiam aos montes para assistir aos bombardeamentos da aviação franquista e germânica sobre a cidade de Badajoz, na cidade de Elvas, Ventura Abrantes defendia que Portugal tinha uma oportunidade única para recuperar Olivença, em 20 de Fevereiro de 1938, declarava que “um grande número de patriotas vão empreender uma ofensiva patriótica “… mas o jornal nacionalista a Defesa, no seu editorial dava conta das pretensões de Ventura Abrantes e denunciava: “Reclamar Olivença nesta altura pode ser um disfarce e neste momento histórico que atravessamos é fazer propaganda dos vermelhos”…. Mas com o fim da Guerra Civil de Espanha ainda com as feridas por sarar na raia luso-espanhola, o elvense Manuel Cayola, no Correio Elvense, previa o desencadear de um conflito à escala mundial:”A Espanha entrou no Eixo das grandes potências totalitárias, a Itália absorveu a Albânia e a Inglaterra, na direcção da linha defensiva da Europa atribulada, decretou o serviço militar” e alguns meses depois, o jovem promissor das letras elvenses Eurico Gama, escrevia: “Assim alastra, como um incêndio tremendo e devastador, pelo mundo inteiro, não poupando crianças, nem mulheres, nem velhos, metralhando e reduzindo a pó, hospitais, misericórdias, asilos  e maternidades, bombardeando escolas e templos ….” ….a guerra na Europa estava no seu início. Em Elvas a vida marcava, passo, a pobreza e a modéstia, fazia parte do homem comum perante a inoperância do poder local, limitado pelo centralismo e pela ordem militar numa época de racionamento e de austeridade económica, que se manifestou durante quase  duas décadas, 1930 e 1940 …..  Em Elvas vivia-se em paz mas numa conjuntura de prevenção que acabou por tornar contribuir para a sua importância militar quase até final do século XX como espaço de estacionamento militar para conflitos armados a longa distância. 

domingo, dezembro 04, 2011

11. A viragem do regime : - O Estado Novo

h
A notícia esperada por vários sectores da sociedade elvense

O general Gomes da Costa triunfante em 28 de Maio de 1926

A miltarização da cidade de Elvas entrava na ordem do dia com o novo regime.

A primeira república, continuava a viver num clima de instabilidade política, a ordem imposta pelo Major Doutor Sidónio Pais, não teve continuidade e o regresso, à ordem democrática, não evitou a agitação social nas ruas e nas fábricas. A queda da 1ª República, adivinhava-se face ao défice orçamental crónico, acompanhado pelo crescimento da dívida pública e pela desvalorização da moeda, ao mesmo tempo que a fuga de capitais e inflação crescia num clima de instabilidade política e social, propício à mudança. Na cidade de Elvas como nas principais cidades do país sem viver um clima de conspiração, a facção monárquica órfão do ideário integralista de António Sardinha e da República Nova, associava a instabilidade republicana à corrupção ou à incompetência. As principais personagens da I República, estavam em debandada relativamente à causa republicana, Júlio de Alcântara Botelho, após a sua passagem pela presidência da Câmara, com o apoio do Partido Republicano Liberal em 1919, deixava definitivamente a vida política, mas desde 1913 que se tornara um adversário do radicalismo republicano, face às divisões e ambições, que se faziam sentir no interior do P.R.P.-Partido Democrático.  O guarda livros, José Augusto Cayola, também conhecido pelo nome simbólico de “Pasteur” quando da sua passagem pela Loja maçónica da Emancipação (Elvas), também se afastou das ideais da I República após as eleições locais de 1917, aproximando-se do Partido Republicano Liberal e apresentando-se na lista de Júlio de Alcântara Botelho às eleições de 1919.  André Gonçalves, escrivão notarial figura conceituada na cidade muito cedo tinha abandonado o debate político, embora nunca tenha afirmado publicamente que estava desapontado com os rumos da vida política em círculos mais fechados tal decisão parece ter sido tomada. O Solicitador, José Barroso um devoto republicano desde a primeira hora, abandonara o PRP-Democrático em 1915 e tornou-se um defensor da República Nova e juntamente com Júlio Botelho, lançou a iniciativa para a edificação de um monumento ao Dotor Sidónio Pais, apesar de voltar a surgir numa lista do PRP-Democrático nas eleições de  1922 era outro dos descontentes dos elvenses republicanos da primeira hora. Entre os republicanos elvenses da vanguarda do 5 de Outubro de 1910, apenas dois nomes mantinham-se em pleno, António José Torres de Carvalho e o Dr. João Camoesas que seria deportado para Angola quando da mudança do regime, antes de se exilar nos  Estados Unidos. Mas, se para alguns personalidades locais, a viragem entre fundamental para outros, continuavam no jogo político, a surpresa era vinculada ao boato que uma lista monárquicos que se apresentariam às eleições de 1926 defensora da esquerda democrática, que juntava o Dr .João Henriques Tierno  e outros conservadores, como Estevão Falé, Tello Rasquilha, Alfredo Carvalho e D.Gonçallo Telles da Silva. O tempo histórico, porém não confirmou esta notícia que circulou na Primavera de 1926, quando o tempo republicano se ia esgotando como se lia na imprensa elvense: “ As eleições essa comédia grotesca que o povo está junto lá vai o tempo e a nossa prometida ainda não chegou. Quando é que estes políticos nos deixam em paz”. Mas a mudança estava a pouco mais de três meses e o primeiro mês após o movimento militar de 28 de Maio de 1926, corria com certa moderação e desconfiança, todavia não se compreendia mesmo em certos círculos de opinião pública, o facto de ter passado três semanas e não haver um governo em funções: “Tem causado no público impressão pouco agradável, a morosidade com que após o 28 de Maio, se está montando a máquina governativa. Agora a dificuldade em conseguir a organização do ministério que, até à hora em que escrevemos se não acha completo”. A verdade é que a opinião pública não tinha compreendido o alcance do 28 de Maio, porque este movimento político não tinha objectivos partidários, uma vez que era uma acção de natureza militar por outro não sendo um movi mento liderado por uma força partidária não tinha um programa detalhado, mas a ordem era então a palavra de ordem “Entre a ditadura de farda e disciplinada e uma ditadura de pé descalço esfomeada e parlamentar, não hesitamos um segundo, somos pela primeira”.                            

sábado, novembro 19, 2011

10.1 -As novas formas de lazer nos actos de sociabilidade (1880-1929)

  A locomotiva a Vapor "Badajoz" nos primórdios da Linha de Leste ( in CP-GHM).

         Estação del FF.CC - ponto de partida da Linha de Leste e das viagens de Badajoz/Elvas
         (Arq. José Ángel Vicente)

Parque da Piedade outrora (ainda hoje) centro da diversão popular nas festas anuais do São Mateus

As casas nobres recebiam as elites raianas nos tempos de diversão

Os novos gostos e comportamentos sociais, na transição para o século XX o lazer e as práticas de sociabilidade, ganhavam cada vez mais popularidade nos grupos privilegiados, o gosto pelas viagens, com a chegada da Linha de Leste ao Caia, permitia às famílias mais endinheiradas da região e da cidade de Badajoz, satisfazer um gosto que então era moda da burguesia do último quartel do séc. XIX. A praia era o destino das poucas famílias de Elvas que se juntavam às pacenses a caminho dos areais da Figueira, ainda que as famílias espanholas preferissem a Costa do Sol . "De Badajoz para as nossas praias têm passado muitas famílias para a Figueira, Espinho, Cascais, por toda esta razão a demora do trem na estação (posto de desinfecção ), têm sido de duas horas”. De resto a Companhia Real de Transporte, publicava nos jornais de Elvas e Badajoz o seu serviço em direcção às praias na época balnear …” É no dia 9 de corrente que começas nas linhas férreas da companhia real a venda dos chamados bilhetes de banhos, serviço combinado com os caminhos-de-ferro do Minho e Douro, e Porto à Póvoa e Famalicão. Nas linhas espanholas a venda deve começar em 15 de corrente, havendo ano uma nova estação balnear, a de Bayona de Vigo, praia bastante concorrida. Passageiro vai, em caminho de ferro até Valença do Minho e de ali a Bayona de deligência” … O cinema chegava ao Alentejo e as primeiras projecções cinematográficas, ocorriam no final da primeira década do século, a 13 de Março de 1909, a empresa “Portuguesa Cinematógrafo” levava a cabo a primeira sessão, cuja duração não ultrapassava mais que dez minutos, mas para muitos elvenses da época era mais interessante esses breves minutos do que as duas horas de concentração e imobilidade que as empresas teatrais da capital determinavam nas suas representações na cidade raiana. Em finais da década de vinte, o cinema tinha conquistado o público elvense nomeadamente as projecções da “Invicta Filmes” que tinha sede no Porto e que chegou a produzir alguns filmes em que a paisagem do Alto Alentejo surgia como cenário, já que a referida companhia também se destacou como produtora cinematográfica. Em pouco tempo o cinema mudo, ganhou espaço ao teatro ambulante, primeiro chegaram os projectores ambulantes depois as companhias e mas muito mais tarde as salas de cinema e neste contexto, a primeira surgia na Vila de Campo Maior corria o ano de 1928 por iniciativa das firmas “ José Rodrigues Valente & Irmão “ e pela José Ramos & Irmão”. As corridas de touros, não era propriamente uma novidade, mas as praças de touros eram então a novidade, mas para os elvenses e para as “gentes da raia” nos finais do século XIX as touradas eram em Badajoz, para as quais ocorriam multidões de espectadores portugueses, as mesmas eram anunciadas na cidade e nos jornais e as famílias de referência passavam a frente ao mesmo tempo que as classes populares, mas uma vez na praça espanhola, instalavam-se nos camarotes das famílias pacenses enquanto as autoridades ficavam junto com as autoridades espanholas, numa verdadeira selecção e ordenação social, que os distinguiam das massas populares que seguiam exaltados e ao sol os acontecimentos que decorriam em plena arena. Na década de 1870, o projecto de uma praça na cidade de Elvas era então o desejo da “classe dos lavradores”, o Club Taurino dedicado à tauromaquia, ginástica e jogo de armas, tinha esse objectivo, ao contrário do que se passava na maior parte das vilas alentejanas onde o espectáculo ocorria nas praças públicas, nas cidades de Portalegre e Elvas, os touros corriam já em praças, a de Elvas bastante rudimentar e situada fora das muralhas recebeu as primeiras corridas por volta de 1872, mas com a condição em que os toureiros fossem espanhóis ara garantir a presença de público, mas o projecto de uma praça propriamente dita ficava adiada para o Estado Novo. Outros acontecimentos sociais que envolviam a população eram sem dúvida, a música, o arraial do São Mateus e a popularização dos desportos. Os concertos eram acontecimento social e popular, com dois cenários semanas como palco, a Praça D. Manuel I e o Jardim Público que a partir de 1880 era uma alternativa ao Passeio da Alameda e um lugar de recreio, e em especial para o público feminino que exibia as novidades da moda, as bandas militares eram as vedetas de cartaz, nomeadamente a Filarmónica do Recreio Artístico e as duas militares a Banda da Infantaria nº4 e a Charanga do Regimento da Cavalaria nº1. A Festa e o arraial de S. Mateus era sem dúvida o acontecimento religioso, económico e popular da época, no final da Monarquia quando a festa popular ganhava renome em toda a região e tornava-se conhecida na Extremadura Espanhola. A vasta zona agrícola dos arredores de Elvas, não cultivada era marcada por zonas próprias de estacionamento, para as populações do Alentejo e nesse contexto, a Olivença já integrada em Espanha tinha a zona de estacionamento demarcada junto aos actuais prédios defronte da retaguarda da actual Escola Secundário D.Sancho II. Mas a presença espanhola era também expressiva, algumas famílias da aristocracia e alguns oficiais do aquartelamento de Valverde, assistiam aos actos religiosos, mas a festa propriamente dita ocorria longe dos olhos dos populares, nos espaços fechados das casas nobres locais mas em especial  no palacete dos marqueses de Alegrete até de madrugada. Enquanto a multidão a cantar e a bailar invadia o Parque da Piedade, onde grande parte da “massa camponesa”, em tendas ou ao relento, vendiam o produto do seu trabalho ao longo de nove meses, numa época em que o dinheiro circulava uma vez que os salários semestrais ou trimestrais eram pagos na altura do São Mateus. Mas nem sempre a euforia, era musical mas pautada pela violência, nomeadamente pela numerosa presença das classes populares do país vizinho, que encontrava no palco da “Piedade” motivo para o confronto com os seus vizinhos. Aliás a partir da década de 1870, as forças militares entravam de prevenção quando as centenas de espanhóis desembarcavam na estação das Fontainhas, uma vez que numa das vindas a Elvas, tinham queimado integralmente uma carruagem e destruídos outros bens materiais … de resto os documentos sobre o assunto abundam …."A concorrência dos nossos vizinhos foi grande, como costuma ser no terceiro dia. A classe baixa dos nossos vizinhos, que há anos costumava fazer desordens, este ano portou-se dignamente, livrando-se assim de um castigo, que consta estava a ser preparado pelas autoridades espanhóis, sendo estes prevenidos antes da partida para esta cidade”. O desporto tornava-se uma paixão, para as elites locais o ténis na Quinta da das Queimadas atingia a excelência na organização e no trato social, as gincanas automóveis marcavam o gosto pelos automóveis, em Elvas e Campo Maior. Mas, o 2º lugar de Manuel Serra Candeias, acompanhado pela filha do Major Teixeira, Helena Morais Teixeira, na Gincana de Badajoz, foi o primeiro resultado expressivo numa prova oficial de automobilismo organizada pelo Real Clube Extremenho de Badajoz, que fica sem dúvida para a história daquele desporto. O desporto, na sua essência torna-se uma realidade popular já durante a I República, o ciclismo era a grande paixão, na medida em que nas primeiras voltas a Portugal, os ídolos da modalidade passavam por Elvas e o futebol dava os primeiros passos, num terreno preparado para o efeito na Fonte Nova mas nem toda a cidade partilhava o gosto popular e havia que olhasse para essa prática com desdém: “Chamamos atenção para o vergonhoso e degradante que quase assistimos no recinto onde se joga o futebol. Rapazes sem grande preparação física, raquíticos, amarelentos e doentios, entregam-se durante duas horas a esse desporto violento” . Chegava ao fim uma época, onde a Primeira República ainda estava fortemente marcada pelo espírito da Monarquia Constitucional.

segunda-feira, outubro 10, 2011

10.As práticas de sociabilidade e de lazer (1850-1930)


A Casa palaciana dos Marqueses de Alegrete marcava o ritmo da festa aristocrática

As quintas de Elvas ponto de encontro das novas famílias enrequecidas pela terra.

O gosto burguês era caso único na região -Court de Ténis -Quinta das Queimadas
(foto de Luís Dias Caraças, in Campo Maior a preto e branco p.99)

As práticas de sociabilidade e as actividades culturais foram uma realidade emergente nas vilas e cidades do Alto Alentejo na época da Regeneração e que se mantiveram durante a primeira república. No município de Elvas, afirmaram-se os clubes privados, as quintas rurais e os hotéis, como espaços de lazer utilizados pelas elites locais, enquanto as feiras e os mercados, continuavam a serem o ponto de encontro das classes populares no âmbito da diversão e do convívio social. Estes espaços de sociabilidade mantiveram-se até aos finais da monarquia constitucional. Com a I República, assistiu-se a uma maior aproximação de uma classe média, emergente ao colectivo popular, mas a prática dos espaços diversificados e restritos por classe social manteve-se, nomeadamente a nível das classes mais abastadas com base na propriedade e no poder económico. Se na capital do distrito, as grandes recepções de uma mão cheia de casas aristocráticas, constituíam um momento alto na sociabilidade das elites locais, fundamentadas na sua origem aristocrata, poder económico e prestígio social. Na cidade de Elvas os momentos de referência da vida social ocorriam na casa aristocrática dos Marqueses de Penalva que recebiam no seu espaço palaciano, famílias nobres portuguesas e espanholas e outras personalidades de referência como era o caso de altas patentes militares, nos quais se incluíam a presença de alguns militares espanhóis, como se pode comprovar: Entre os cavaleiros notavam-se os Hussares do reino vizinho, que abrilhantaram aquele acontecimento … acaba o concerto começou o baile, que esteve animado, terminando às cinco da amanhã. Entre as famílias nobiliárquicas presentes contavam-se as melhores famílias das vilas próximas de Vila Viçosa, Reguengos de Monsaraz e por vezes da cidade de Évora e Badajoz. Estes bailes e festas privadas, marcavam cada vez mais o gosto particular das elites locais, que preferiam a descrição dos espaços privados aos espaços livres de gosto popular. Mas, há medida que se aproximava do século XX, este tipo de sociabilidade foi perdendo importância em favor das festas que ocorriam em amplas casas senhoriais entretanto adquiridas pelos antigos rendeiros, agora prósperos lavradores. Era o tempo das quintas como a de S. João, das Águias ou a do Dr. Santa Clara, onde o lanche e o chá era o motivo do convívio, mas a excelência deste tipo de festa, era em Campo Maior onde ocorriam as melhores famílias de Elvas, na época do Charleston na aurora do séc. XX : “Na aprazível Quinta das Queimadas realizou-se hoje uma elegante festa que decorreu com invulgar brilhantismo e entusiasmo. Às cinco da tarde, num espaço terraço fronteiro ao “court”, as mesas de chá encontravam-se já dispostas com as suas artísticas toalhas, engalanadas de rosas e bolos. Pouco depois, servido o chá, alguns pares iniciaram um movimento “Charleston” a que o abrir das garrafas de “champagne” dava por vezes a desarmonia característica de Jazz-Band”. Outro espaço de sociabilidade, que iria vingar no século XX era o Círculo Elvense mais tarde conhecido por “Club Elvense”, fundado em 1863, ocupava uma casa nobre propriedade do Conde do Bonfim. Numa época em que os lavradores se tinham convertido na elite local do ponto vista económica, mas igualmente aberta a personalidades como formação académica como médicos, advogados, professores, militares e alguns funcionários públicos escolarizados. Em momentos festivos, o Club durante a I República abria as suas portas a outros convidados, exteriores à sociedade local, como grandes proprietários e lavradores, das terras vizinhas mas também a alguns estrangeiros, como lavradores, ricos comerciantes, jornalistas, militares e diplomatas espanhóis da cidade vizinha de Badajoz. Mas no “tempo quotidiano” os seus sócios dispunham de um lugar idóneo para determinadas actividades diárias como a leitura da imprensa ou a participação nos jogos legais, onde a prática da conversão, da reflexão e o ócio, fez tradição naquele espaço.

segunda-feira, setembro 26, 2011

9.1.O princípio do fim da I República ... e a afirmação da ordem e da autoridade.

António Sardinha com os exilados monárquicos atentos às contradições republicanas
(foto de Ana Isabel Sardinha, arquivo FAS) 

D.Laura Santana Marques figura da facção católica liderada pelo seu esposo
(foto de Felícia Cabrita, arquivo de família)

Da casa do Governador conspirou-se contra a I República

As figuras do novo governo saído do 28 de Maio de 1926
(Portugal séc.XX -1920-1930, A Tropa,p.201)

As guerras regionais e locais, fora e dentro do Partido Democrático alimentavam as aspirações das figuras mais ambiciosas e as cisões atingiam o auge quando os adeptos do reforço dos poder executivo, ganhava peso em todo o distrito. O duelo entre republicanos, conservadores, integralistas e nacionalistas, era evidente no círculo nº33 (Elvas) e as eleições de 1921 eram as primeiras após a queda do sidonismo. As forças monárquicas desde 1919, tinham ganho alguma notoriedade no distrito e no concelho e pela primeira vez, a defesa dos valores tradicionais era representado por algumas personalidades locais, com algum prestígio nomeadamente o Doutor Ruy de Andrade e o Dr. Santana Marques. O primeiro, um aristocrata de sangue, doutorado pela Universidade de Pisa e um reputado especialista em questões de agronomia com obra publicado. Mais, modesto o licenciado Santana Marques, representava o movimento católico, mas a sua esposa era uma personagem, oriunda de aristocracia da Beira e curiosamente descendente da família Mata Coronel de Elvas, de origem judaica e com ligações próximas a futuras figuras de Estado, como era o caso do Doutor Oliveira Salazar. A recuperação eleitoral das forças monárquicas foi evidente,  no acto eleitoral, mas as denúncias de fraude pela opinião pública era evidentes e os republicanos, junto da imprensa local denunciavam: “Foram descarregados nos quatro cadernos eleitorais, dois para os vereadores e dois para procuradores à Junta Geral, os seguintes cidadãos: -José Joaquim Pinto Cordeiro em parte incerta; - António Joaquim da Silva Rente, estava no Monte da Marinela do Meio; António Rodrigues, estava nas proximidades; Francisco Sabino, cocheiro da Colónia de Vila Fernando, que estava em Estremoz e José Barriga Negra, antigo empregado da Colónia de Vila Fernando, donde saiu há um ano, e habitualmente reside em Borba”. Mas, a verdade era só uma, quer monárquicos, quer republicanos, todos conspiravam de igual forma na procura do voto popular e era de resto, uma situação vigente em todo o Distrito. Os republicanos tinham a vantagem de controlar as comissões municipais e os recenseamentos das freguesias e a fraude típica na região era a exclusão dos cidadãos legalmente inscritos, uma prática herdade da monarquia constitucional. Na vida partidária, o Partido Democrático - PRP, estava já em desagregação um pouco por todo o distrito ao contrário do que se observava a nível nacional e o médico monárquico, João Henriques Tierno da Silva, apresentava-se nas eleições ao Senado em 1926, há esquerda do P.R.P., impensável, quinze anos antes, mas era uma esquerda muito particular (?...) pois reunia em seu torno os grandes lavradores de Elvas que não tinha na sua origem recente, o trajecto da ascensão dos “rendeiros” , O Rebelde noticiava este apoios da seguinte forma: “O sr. Dr. João Henriques Tierno nas próximas eleições vai propor-se a senador pela esquerda democrática. Consta-nos que o acompanham na nova política os senhores Estevão Falé, M.Vasconcellos, José Joaquim Vasconcellos, Tello Rasquilha, Alfredo Carvalho e D.Gonçalves Telles da Silva”. Em Elvas a debandada do Partido Republicano era geral e algumas figuras que tinham militado nas lojas maçónicas também estavam em retirada, abraçando as causas do nacionalismo que sopravam gradualmente em todo o Ocidente. Júlio Alcântara Botelho, tornara-se sidonista e era o rosto do Partido Republicano Liberal, na companhia de José Augusto Cayola que também tinha pertencido à primeira comissão republicana da cidade. José Dias Barroso, era outro reforço nas hostes liberais mas antes já era o principal apoiante do Sidonismo. Entre os militares, o Coronel António Augusto Namorado Aguiar, era o rosto do descontentamento que levava os caminhos da República, mas só voltava a política activa já durante o Estado Novo onde chegaria a Ministro da Guerra (1930-1931). O tempo corria contra a I República, o candidato do Partido do Partido Democrático-P.R.P., por Elvas, era recrutado fora do círculo elvense, tratava-se do grande proprietário agrícola de Avis, António Pais da Silva Marques que conseguiria o pior resultado de sempre do P.R.P. na cidade raiana, a folha da oposição republicana elvense o Rebelde sobre os actos eleitorais de 1923 e 1925, fazia o seguinte juízo de valor: “As eleições essa comédia grotesca que o povo está junto já lá vai tempo e a nossa prometida ainda não chegou. Quando é que estes políticos nos deixam em paz”. Vivia-se numa época em que nos periódicos nacionais mas em especial nos do distrito se pedia, “autoridade e ordem”, quinze anos e quarenta e cinco governos, dera cabo da I República e o movimento militar de 28 de Maio de 1926, chefiado pelo Marechal da Costa era o golpe final na aventura republicana, no entanto como defende o Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, o 28 Maio na sua essência não era contra a República …”Torna-se errado defender que o 28 de Maio se fez contra a República, quando o espírito do movimento tomou como alvo principal a supremacia eleitoral democrática”, mas o insuspeito Doutor Agostinho da Silva o maior filósofo português do séc. XX diria pouco nas suas memórias (Dispersos): “A 1ª República, para mim, era uma coisa esquisita que não ia levar a sítio nenhum. Mais: estou convencido de uma coisa , segundo o qual, se não tivesse havido ditadura, provavelmente Portugal tinha acabado naquele momento, aí por 1925-1926. Era uma confusão, ninguém se entendia, não parecia existir uma saída de espécie alguma”. Chegava ao fim uma época da História da República, onde Elvas também desempenhou um papel activo, na conspiração militar de 28 de Maio de 1926, ….mais tarde o elvense, General Passos e Sousa daria o seguinte testemunho a um dos mais prestigiados historiadores de história contemporânea de Espanha, o Doutor Jesus Pabón, que recolheu o segundo testemunho: “En el fuerte da Graça y durante el tiempo en que fui governador, se lanzaram las bases de um movimiento militar de gran envergadura ( o 28 de Maio), en el cual tomariam parte todas las guarniciones del País, que en un momento dado, se sublevarían y marcharían com la mayor rapidez sobre Lisboa.