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sábado, maio 07, 2011

8.2. A sociedade contemporânea: As características da classe dominante - 1850-1930

H
 O palácio dos Marqueses de Alegrete o símbolo do aristocracia oitocentista.
A família Bagulho em menos de um século juntou lavradores, intelectuais e militares.

A elite dos lavradores na época áurea da agricultura elvense com o Ministro do Estado Novo, Arantes da Oliveira 

A maioria da sociedade elvense que se afirma a partir de meados do século XIX é marcada pela afirmação de novas gentes que se fixam em território elvense entre os finais do século XVII e o primeiro quartel do século XIX. Ou melhor, pouco mais que 32.7 % das famílias registadas no cartório notarial de Elvas algumas dezenas de anos antes da época da Regeneração têm a sua origem nas vilas ou na cidade raiana. E de um modo geral, a sua origem é popular e apenas meia dúzia de famílias tem origem nobre e a excepção é praticamente os marqueses da casa de Penalva. Uma vez que os restantes titulados o foram durante a monarquia constitucional por comenda e não pela origem de sangue como se observa com maior atenção na aristocracia portalegrense. Mas quando se chega a meados do séc. XIX, podemos já encontrar indícios de uma nova sociedade que chega aos nossos dias, mas que nada tem a ver com o passado histórico da cidade e é sobretudo um produto da Revolução Liberal. Na verdade quando se chega ao final do século XIX a “classe dos proprietários” afirma-se como grupo dominante, integrando os lavradores como grupo maioritário que foi sem dúvida o que mais evolui, pois mais de 85% das principais famílias tinham a sua origem em pequenos arrendatário e algumas tinham mesmo uma origem social humilde. Mas no grupo dos proprietários, agrupavam-se ainda os comerciantes, muito deles com origem na Sertã e os militares cujo prestígio estava determinado pela sua posição no exército português. Porém no seio dos proprietários agrícolas no final da primeira metade haviam já algumas famílias que se distinguiam das demais, como era o caso das famílias Bagulho, Gonçalves, Barbas e Rasquilha, as duas últimas com afinidade à nobreza local e regional, no caso da família Rasquilha o seu reconhecimento social advinha da sua riqueza inicialmente concentrada na vila de Arronches. Outras, estavam ainda dependentes do arrendamento de propriedades da Casa de Bragança, Cadaval e de alguns burgueses lisboetas como Lança Alvim ou João Miguel Barreto, que tinham o monopólio das grandes propriedades do concelho. Nas décadas de 1880/90 a intensificação de compra de herdades pelas famílias locais arrendatárias torna-se uma evidência na relação de compra/venda das propriedades agrícolas (herdades), numa época em que o investimento agrícola era complementar à actividade agrícola, neste âmbito distinguia-se a família Nunes da Silva oriunda das Beiras e cuja fortuna se constituiu na prática comercial antes de se tornaram também grandes lavradores da cidade e em pouco tempo, uma família de referência local e regional pela sua intervenção na vida política. Também inicialmente fora do seio da prática agrícola, destacava-se outra família com origem na região centro a família Lopes cujo poder aquisitivo estava relacionada pela sua prática prestamista que permitiu que ainda antes da década de 1890 fosse uma família de posse e de referência na vida social e económica, de quem dependiam os pequenos/ médios proprietários agrícolas por força dos empréstimos a quem estejam sujeitos por contrato. Fora do contexto agrário, distinguia-se no grupo dos proprietários a família Torres de Carvalho, com origem na então vila vizinha de Estremoz e  a família Mendes, cujo fundador da família José Mendes tinha a sua origem na Sertã como os Nunes da Silva e que da relação com o seu amigo Baltazar Paiva, nasceria a firma Mendes & Paiva com fins comerciais. No final do século XIX a elite económica da cidade tinha uma origem social exterior há cidade e procedia o seu enriquecimento económico através do arrendamento de grandes herdades que em pouco tempo, passavam para sua tutela considerando que se tratavam não de arrendatários mas de proprietários arrendatários com capital de remate era o caso de José Mendes, Lobão Rasquilha e José Lopes que se tornavam proprietários das melhores herdades do Conde de Tarouca. Na viragem do século, a propriedade não só significava riqueza como distinção, por isso mesmo alguns militares, médicos e industriais, procuravam então o estatuto de lavradores, como eram os casos do Dr.António Cidrais ou José Guerra, próspera e rico, o único com verdadeiro estatuto para tal no município de Elvas. Mas se os novos-ricos “sonhavam” com a aquisição da herdade, os grandes lavradores, bem sucedidos há muito tinham iniciado um verdadeiro processo de “nobilitação” com aquisição das Quintas e Solares, identificadas com as Casas Agrícolas como era o caso da Quinta de São João adquirida em 1872 por José Joaquim Gonçalves ou o “Solar dos Mesquitas” pelo Dr. Santa Clara que apesar de tudo tinha ascendência nobre apesar de ser uma das figuras mais prestigiadas da cultura oitocentista. De resto, o Dr.Santa Clara, o Visconde Cristovão Vasconcellos de Andrade, proprietário de uma casa palaciana de gosto itálico e o Visconde de Alcântara com a família da Marquesa de Alegrete e Condessa de Tarouca, identificadas com o grupo dos lavradores distinguia-se pela sua origem nobre e pela ligação à Casa Real. A este núcleo fechado abria-se excepção aos oficiais superiores do exército quase sempre os Governadores da Praça e a número muito restrito de proprietários, como eram o caso do Sr. Rodrigues Tenório durante várias décadas “tutor” das terras da “marqueza”, os Rasquilhas, pelo prestígio de essa grande figura do eixo Arrronches – Santa Eulália e Campo Maior, o deputado Progressista Lobão Rasquilha e os Bagulho, por via do Dr. João José Bagulho, médico que se distinguia pelo trato e educação numa sociedade fechada e profundamente ruralizada. Da I República ao Estado Novo, a classe dos proprietários, alargou-se significativamente em função da riqueza agrícola através de uma política matrimonial que acabou por cruzar as velhas famílias de posse com as que cresceram antes e depois da I República.

sábado, abril 30, 2011

8.1.3 - A afirmação do comércio Elvense numa cidade agrícola.

 O mercado local um faceta da actividade mercantil de base agrícola e artesanal que se manteve na Época Contemporânea.
A publicidade na Imprensa local contribui para a especialização do comércio durante as décadas de 1880-1890

A Rua da Cadeia pioneira do comércio contemporâneo em Elvas

A época da Regeneração foi sem dúvida um período determinante para o desenvolvimento do comércio elvense, que até então era sobretudo uma actividade subsidiária da prática agrícola com base na exploração dos seus produtos. Uma realidade que percorre a história económica da cidade desde os tempos medievais, em que o tendeiro, o mercador ou almocreve, asseguravam o sustento da sua actividade a partir dos excedentes agrícolas e de um conjunto mínimo de produtos manufacturados produzidos nos núcleos populacionais mais próximos das suas “rotas comerciais”. A viragem para uma actividade económica, de matriz exclusivamente comercial ocorre na principal cidade da região do Caia, pelo menos desde a década de 1870, numa época em que a população portuguesa não só se limitava como crescia e deslocava-se para os centros urbanos onde a prosperidade era visível. Não podemos ignorar que na cidade de Elvas,  o seu núcleo urbano cresceu muito rapidamente até ao fim do século XIX, assim em 1878 contava com cerca de 10.471 almas e em 1900, altura em que se verifica o primeiro abrandamento no ritmo de crescimento populacional a cidade atingiu um número de efectivos de cerca de 13.981 habitantes ou seja um índice de crescimento de cerca de 186% em cerca de 36 anos. Ao mesmo que crescimento médio da população rural era evidente durante o mesmo período cronológico, embora disparando mais tarde, por volta de 1887 quando cerca de 9.006 constituíam os valores efectivos da população rural. Todavia, entre a Regeneração e o final da I República, não só a existência de uma população próspera em trabalho e com um salário pago periodicamente, favorecia o desenvolvimento das práticas comerciais como também uma serie de estradas locais e regionais, facilitavam essas trocas e permitiam a prosperidade do negócio. De facto, em vésperas da implantação do Estado Novo, a Linha de Leste tornava-se um veículo fundamental para a especialização de estabelecimentos comerciais como também a rede viária sofrera uma forte reforma com um crescimento médio de novas vias à média de 5.1% desde 1922 com excepção do ano de viragem de regime, com o 28 Maio de 1926 em que o número de estradas municipais construídas não ultrapassa os 1.9%. Na verdade entre a Regeneração e o final da I República, não faltavam consumidores mas também de vias necessárias para canalizar os excedentes. E nessa perspectiva, a Linha de Leste facilitava a modernização do comércio regional colocando nas terras do interior de Portugal as novidades que se vendiam na capital. Mas, a cidade comercial propriamente dita como um espaço organizado afirma-se no final da década de 1870 e afirma-se na década seguinte, de tal forma que se publicava na cidade, duas vezes por semana, um periódico gratuito que informava e publicitava os produtos e as actividades de natureza comercial. Na década de 1860, a principal zona comercial urbana desenvolvia-se ao longo da Rua da Cadeia, as mercearias e as lojas, eram os estabelecimentos tipos e o Hotel Central a principal unidade hoteleira da região também estava sediado nesta artéria da cidade. Na década de 1870, a Rua da Carreira entrava na concorrência mas a maioria dos lojistas continuavam concentrados na Rua da Cadeia. A Rua do Alcamin entrava na disputa nas duas últimas décadas do século XIX e tornava-se um espaço de referência durante a República, o calçado, as lojas de vestuário e as ourivesarias, foram sem dúvida os estabelecimentos que vieram a valorizar aquela artéria urbana, que tal como todas as outras tinham uma ou duas mercearias no seu espaço. A viragem para o século XX, quando a cidade de Elvas era já referenciada como um pólo comercial e agrícola de referência regional, novas artérias juntavam-se ao aglomerado urbano, nomeadamente as Ruas Pereira de Miranda e da Princeza Dona Amélia que constituíam juntamente com as ruas comerciais que se foram desenvolvendo nas décadas anteriores a zona comercial da cidade. Do ponto vista da estrutura comercial da cidade a mercearia como local onde se vende um pouco de tudo e algumas delas eram agentes de algumas casas comerciais da capital, persistem com vigor até a década de 1890. Os serviços nomeadamente os transportes, as seguradoras e os agentes de actividades várias como por exemplo a bancária já estavam sediadas no final de Oitocentos. No final da I República, o comércio tinha já um estatuto próprio, não dependia da prática agrícola e resultava já de um pequeno investimento dos particulares, com uma estrutura de matriz familiar. Os poucos comerciantes de sucesso nos finais do século XIX, identificavam-se com a classe dos proprietários e eram reconhecidos na sociedade local como lavradores, numa época em que o poder ou a capacidade económica estava associada à casa agrícola como factor de criação de riqueza. Os lojas de especialidade e em contraste com as mercearias e as oficinas que se concentravam igualmente no traçado urbano, eram a novidade e esboçavam os traços comuns de um comércio virado para uma sociedade de consumo. Mas o conservadorismo, de uma mentalidade adversa à mudança continuava a persistir no modelo de muitas lojas que na verdade não eram diferentes das mercearias que foram as pioneiras do desenvolvimento do comércio local e que persistiram ao logo do séc. XX.                           

quarta-feira, abril 20, 2011

8.1.3. - A experiência fabril num concelho agrícola entre a Regeneração e a I República

 A mecanização foi um desafio para elite económica elvense



A Companhia de Moagens a Vapor um exemplo do associativismo da elite económica local no final de Oitocentos.


 Os moinhos e as azenhas outra forma de assegurar a importância da moagen dos cereais no distrito.

Em meados do século XIX a indústria no Distrito de Portalegre estava praticamente limitada a um conjunto de unidades fabris que se situavam na cidade capital verdadeiro pólo industrial desde os tempos da Fábrica real. Todavia, a indústria manufactureira da cidade de Portalegre atravessava uma crise sem precedentes face às dificuldades económicas que atravessavam o sector. A sul do distrito, distinguiam-se apenas duas unidades fabris, com alguma dimensão e cujo existência, se devia à aplicação de capital privado como era o caso da Companhia de Moagens a Vapor em Elvas na transição para o século XX ou a  Fábrica de moagens a União de Campo Maior  já em pleno século XX (1928). No caso, elvense a realidade industrial desenvolveu-se timidamente e não privilegiou os têxteis como no caso portalegrense e a exploração da cortiça jamais teve a importância económica que marcou a economia oitocentista da capital do distrito. A moagem seria um sector em franco desenvolvimento, na continuidade da tradição da realidade norte alentejana desde o século XVII, os moinhos hidráulicos ou eólicos povoavam o solo das aldeias agrícolas em solo elvense como eram os casos particulares de Vila Boim e Santa Eulália. Na verdade, eram os pequenos proprietários que se afirmavam como os “grandes investidores” na pequena indústria da moagem podendo ter rendas anuais segunda a documentação na ordem dos 17.000 réis. De um modo geral, tratava-se de modestos proprietários que junto das suas pequenas hortas e pequenas parcelas de cerais possuíam o seu moinho ou azenhas, no caso particular das pequenas parcelas na margem do Guadiana. Sem concorrência, identificavam-se os moinhos edificados pelos proprietários das herdades que procediam à moagem da sua produção cerealífera que lhes rendia um valor médio próximo dos 60.000 réis. De forma generalizada e até aos finais do séc. XIX, a moagem no município elvense continuava limitada pelos seus equipamentos tradicionais de matriz medieval, mas fundamental num concelho em que o aumento populacional determinava desde logo determinava maior consumo do pão na dieta alimentar da sua população. Porém, com a lei de 1899, que ordenava que a indústria da moagem implicava a utilização da máquina na moagem , mas esse processo de mecanização na indústria elvense já tinha sido iniciado em 1884 com a Companhia de Moagens a Vapor, uma sociedade anónima que associava não só uma parte significativa de lavradores mas também os comerciantes com maior capacidade económica da cidade e das localidades rurais do concelho. O sucesso deste empreendimento fabril tornou-se evidente à medida que se avançava pelo século XX e em função da importância das bolachas e massas alimentícias no espaço regional. Um pouco por todo, o território agrícola local, identificavam-se os lagares e as azenhas ( nas masrgens do Guadiana), destinados à transformação dos produtos agrícolas e de modo geral propriedade dos arrendatários bem sucedidos e identificados então já como prósperos proprietários. Outras indústrias com alguma importância na economia local e regional, foram sem dúvida a fábrica da família Guerra e Irmão, que tendo uma dimensão manufactureira de matriz tradicional, chegou a alcançar os mercados inglês e brasileiro, com as suas frutas doces, as ameixas de Elvas que chegaram a obter reconhecimento internacional com vários prémios conquistados nas Exposições Internacionais de Paris (1955), Porto (1861 e 1877), Lisboa (1864 e 1884) Filadélfia (1978) e Rio de Janeiro (1878). A fábrica os irmãos Guerra no início do século XX, tornou-se uma das mais modernas da região com a aquisição da máquina a Vapor “Rutton”, mas que não dispensava uma mão-de-obra de cerca de cem operários. Não menos importante à dimensão regional era a fábrica de António Duarte Brazão, que durante décadas foi o fornecedor do transporte de carros movidos por cavalos ou mulas, aliás só com a ameaça do automóvel que esta firma sofreu os seus primeiros golpes do ponto vista financeiro. A sua capacidade produtiva, situava-se no fabrico de quase meia centena de veículos sem motor ao ano, para além de todo um conjunto de actividades de reparação. A empresa obedecia já a uma organização pré-industrial com serviços de pintura, carpintaria e serralharia. Outra, firma de pequena dimensão, numa Praça militar era sem dúvida a oficina do metalúrgico, Alfredo Guedes que chegou a fornecer ao exército português por encomenda do Governador da Praça Militar de Elvas a requisição de dezoito espingardas. Numa cidade fortemente agrícola e em pleno desenvolvimento comercial, a indústria não tinha de facto grande impacto económico, predominando o trabalho artesanal onde se destacavam um pouco por toda a cidade numerosos operários ou artesão, como carpinteiros, pintores e serralheiros ao serviço de múltiplos oficinas de carácter privado que marcaram a época da Regeneração até ao Estado Novo.                         

segunda-feira, abril 11, 2011

8.1.2. A ciência e o progresso técnico no sul do Distrito de Portalegre [1850-1930]

A chegada da Linha de Leste ao Caia contribuiu para a acelarar a modernização agrária.

 Mapa agrícola do Alto Alentejo - 1866 - àreas de ocupação e exploração agrícola
O campesinato de um modo geral era adverso à modernização agrícola uma ameaça ao emprego 

Entre a Regeneração e a I República, o trabalho nos campos na planície caracterizava-se pelo esforço humano, em que a robustez física e o trabalho manual era a única característica dominante na exploração económica da propriedade. Em terras da raia, a mecanização da agricultura é uma realidade de fins do séc. XIX embora alguns agrónomos da região na imprensa regional reflectiam a emergência de uma melhor exploração dos solos e das culturas denunciando que “ tudo é feito ao acaso; tudo se espera da Providência”. De facto, a falta de conhecimentos sobre a exploração da terra propriamente dita e da apetidão dos solos para a sementeira de determinadas culturas, juntava-se a falta de instrumentos modernos e eficazes que então era objecto de aplicação na agricultura do Ocidente. Por outro lado, a imprensa periódica no seu noticiário reforçava a opinião de meia dezena de proprietários e lavradores, sobretudo com formação académica superior do distrito de Portalegre, em que a agricultura dependia exclusivamente da natureza, como se pode comprovar nas seguintes notícias no Elvense em meados da década de 1880: “ O tempo tem corrido favorável à agricultura. As oliveiras apresentam-se com um aspecto prometedor de uma boa colheita. As sementes brancas têm dado magníficas fundas especialmente elevadas”…”As geadas que caíram nas últimas noites produziram consideráveis prejuízos nos pomares de esta cidade. Em Varche há proprietários que calculam as suas perdas em centenas de mil réis” . Por essa época, o sistema de rotação quinquenal foi substituído paulatinamente nos municípios da raia portalegrense nomeadamente na Vila de Campo Maior e nas aldeias dos arredores do concelho de Elvas, onde o esforço do arroteamento dos campos era notório e distinguia-se na realidade regional. A entrada de adubos químicos nas últimas décadas eram visíveis um pouco por toda a região em finais do século XIX ainda que a maioria dos lavradores e rendeiros continuavam a utilizar o estrume animal como elemento regenerador dos solos. Na verdade, a entrada dos primeiros fertilizantes químicos em terras do sul do distrito portalegrense ocorre numa casa agrícola elvense por volta de 1884 mas seria na década seguinte que tais produtos se generalizam associados ao plantio das sementeiras cerealíferas, fruto das campanhas publicitárias em revistas e periódicos que se vendem nas casas comerciais das duas cidades portalegrenses, no caso particular dos jornais destacavam-se alguns artigos científicos que acabaram por contribuir para a formação de uma nova mentalidade nos processos de organização e exploração da terra, mais evidente na transição para o século XX. De referir também que essas reflexões descritivas evidenciavam as vantagens e os numerosos benefícios que o seu emprego determinava, de resto com a chegada da linha ferroviária de Leste à fronteira, as estações de Elvas e da Vila Santa Eulália eram o ponto de chegada dos super fosfatos de cal solúveis em água que de seguida eram distribuídos pelas casas agrícolas e herdades da região, de uma maneira particular a estação de santa Eulália tornava-se um verdadeiro entreposto de abastecimento para as terras vizinhas de Monforte, Arronches e Campo Maior. Mas o grande desafio, a lavoura regional foi sem dúvida a questão da mecanização, no distrito de Portalegre e nos municípios integrantes nesta circunscrição administrativa, este processo foi tardio quando se compara com as realidades agrícolas de outras regiões agrícolas e a primeira máquina agrícola que evolui nos solos do Distrito, ocorreu quando o lavrador Joaquim lúcio Couto, rico lavrador e proprietário da Quinta das Longas, alugou uma debulhadora mecânica a Sebastião Alvarez, grande lavrador do município de Borba para a debulha e limpeza. O êxito da experiência levou a que o referido lavrador elvense adquirisse uma máquina Garret por volta do início da década de 1880, mas tal compra não foi seguida pelos seus pares que achavam que tais máquinas eram excessivamente caras, um facto para os médios e pequenos lavradores, considerando ainda que na sua maior parte no sul do distrito tratavam-se de rendeiros e como tal sem grande capital de investimento. Também a chegada das máquinas aos campos também não era bem aceite pelos trabalhadores rurais que eram adversos a esta inovação, cuja aplicação lhes tiraria o “pão”. Assim, só na primeira década do século passado, que a mecanização tornava-se uma realidade no eixo, Arronches, Elvas e Campo Maior, fruto em parte do empenho do grande proprietário da região, Lobão Rasquilha que associado a Augusto de Andrade, negociou directamente com o Ministro Elvino Brito, conseguindo que um dos depósitos de máquinas agrícolas que seriam instalados pela Direcção Geral da Agricultura ficasse instalado em Santa Eulália que se convertia cada vez mais num pólo agrícola regional ao serviço dos municípios de Elvas, Arronches e Campo Maior. Todavia, entre o aluguer e a compra, a aversão às máquinas era evidente quer dos proprietários quer dos trabalhadores e o som das máquinas só viriam a perturbar a vida quotidiana rural, nos anos vinte quando o cereal “desgrenhado” nas propriedades rústicas elvenses, o “coração” da agricultura da raia atingia os 50% e eram cerca de cinquenta as debulhadoras registadas em 1921 ou seja o dobro do número de máquinas no início de 1911. Por último de referir que o sucesso da expansão da mecanização deveu-se a uma intensa campanha dos representantes oficiais das máquinas Garret, Marshall e Ruston, que através da imprensa apresentavam os seus modelos, as suas características e as suas vantagens, com a viragem de século, as referidas marcas tinham já os seus representantes com lojas próprias nas cidades do distrito e a partir de então se assistiu à transformação definitiva da paisagem agrícola com a introdução de vários tipos de maquinaria em terras do Distrito de Portalegre.

quarta-feira, março 30, 2011

8.1.1. - A propriedade agrícola. A formação da classe dos lavradores. Algumas referências à paisagem agrícola.


O cereal amarelo  - determinante na afirmação da economia elvense oitocentista
 O olival fundamental na economia local nos fins da Monarquia Constitucional
 Desfile em Santa Eulália terra agrícola e esteio dos proprietários durante a I República

 A maioria dos proprietários com estatuto inicial de arrendatários, que se constituíram a partir de meados do século XIX, chegam ao final da I República já com algum capital e alguns já com a sua casa agrícola. De facto, o número crescente de arrendatários que se converteram em grandes proprietários é de facto notável entre 1869-1881 nada mais que uma dezena de famílias de Elvas, que possuíam pelo menos uma herdade arrendada. A excepção seriam as famílias:  Rasquilha , Telo e Caldeira, que dotadas de maior capital tinham sob arrendamento pelo menos duas herdades. Mas entre todas era sem dúvida a família Rasquilha que a maior potencial económico agrícola detinha já que eram grandes proprietários em Arronches e até final do séc. XIX possuíam mais quatro herdades arrendadas em Elvas  entre o período situado entre 1871 e 1881, antes de as integrar na sua propriedade. Aliás os Rasquilha juntamente com o Conde de Tarouca eram os proprietários que detinham maior riqueza agrícola na área entre Arronches-Elvas e Campo Maior. De realçar que esta capacidade de fazer riqueza e fortuna com base na agricultura é sem dúvida uma particularidade da região de Elvas, uma vez que os pequenos e médios arrendatários das principais famílias elvenses com vocação agrícola, revelaram-se excelentes gestores das casas aristocráticas e dos proprietários agrícolas exteriores ao concelho que lhes cediam as suas terras para exploração agrícola, que atingiu o auge durante a primeira “Campanha dos Cereais -1899” levada a cabo no Alentejo durante a Monarquia Constitucional. Na verdade o apoio do Estado e a existência de vastidão de terras incultas favoreceu esse enriquecimento, numa época em que era possível identificar outro tipo de arrendatários, mais esclarecidos que se fixam nos arredores de Elvas e que se distinguiam dos futuros proprietários/lavradores, como era o caso dos chamados “doutores”, quase sempre médicos que associavam ao seu prestígio professional o domínio de uma ou mais propriedades, inicialmente com base no arrendamento, na maioria dos casos. Ou seja, o proprietário/lavrador foi no município de Elvas uma realidade dominante até ao final da I Guerra Mundial, ou melhor é sensivelmente a partir de 1920, que desaparecem os grandes arrendatários que chegam a ser uma dezena em vésperas da implantação da I República, pouco mais de uma meia dúzia em 1915 e nos anos seguintes já surgem na documentação como senhores das terras ou por outra, com estatuto de lavradores que durante décadas lhes permitiram adquirir o capital para a sua compra, através da exploração agrícola e da pastorícia como forma de obtenção de derivados do seu abate. Por outro lado, o número de pequenos arrendatários “dispara” entre 1910 e 1915, quando nada menos de sessenta arrendatários que desenvolveram a sua labuta em pequenas parcelas arrendadas pelos grandes arrendatários e sobretudo pelos novos proprietários, as razões são várias como o custo de exploração da terra, as taxas contributivas elevadas que eram exigidas pelo Estado e a concorrência dos cereais estrangeiros e em especial do chamado “trigo americano” para o seu aparecimento .  Porém, desde meados do séc. XIX que a agricultura elvense era mais do que a produção do cereal amarelo, “transpirava” alguma vitalidade o centeio de Elvas colocado nos mercados nacionais atingia a cifra de 1.5% ocupando uma área agrícola próxima dos 150 ha, nos quais se distinguia as terras dos grandes produtores locais, Francisco da Silva Rosado e José Joaquim da Silva. O azeite era outra das riquezas da economia nacional com uma capacidade produtiva na ordem dos 2% no contexto nacional, a sua exploração era uma tradição local, o seu investimento era relativamente baixo, não exigia muita mão-de-obra, complementava muitas vezes as áreas livres das grandes propriedades mas também era explorada em pequenas propriedades rústicas, hortas de pequenos proprietários. De resto, a produção de azeite para o mercado regional/local era assegurado por duas dúzias de lagares com tecnologia variada sendo um pouco de menos de metade de prensa de ferro e varas, os mais modernos que então se destacava dos demais caracterizados com tecnologias mais atrasadas. Mas a importância da produção de azeite continuou a ser uma prioridade dos lavradores locais ao longo das primeiras décadas do século XX como se pode comprovar nas razões que levam a criação da Sociedade Oleica Elvense, constituída em 12 de Julho de 1925 com um capital de 2.000$00 e que reuniam cerca de cinquenta e quatro proprietários nos quais se destacam Júlio Alcântara Botelho e o Dr. João Pinto Bagulho que foram sem dúvida os impulsionadores deste movimento associativo. Paralelamente a criação de gado era outra aposta da agricultura elvense, como veremos.

domingo, março 20, 2011

8.1 - Elvas Portuguesa. A organização económica entre o liberalismo e a I República.

H


    A diversidade agrícola marcou a paisagem agrícola após a  Revolução Liberal de 1820

   As receitas dos cereais no final da Monarquia Constitucional a riqueza dos arrendatários. 

A prática agrícola foi sem dúvida a actividade fundamental e prioritária ao longo da história de Portugal e que se reflectia de uma forma particular a sul do território nacional, com o predomínio do latifúndio e do absentismo em terras do Alentejo. Todavia nos distritos de Évora, Portalegre e de Beja, algumas décadas após a Revolução Liberal do Porto (1820), as herdades tornaram-se pela sua dimensão e importância económica um modo de exploração económica das novas classes de posse em ascensão pelos menos até ao Estado Novo. Até à Regeneração no distrito de Portalegre a sua extensão média não ultrapassa os 6 hectares, sendo a paisagem agrícola dominada pela exploração do olival, da madeira de sobreiro, da plantação de cereais e de alguns pastos para os gados no complemento da exploração económica da propriedade. Todavia, era na raia norte alentejana, que esta geografia da propriedade era mais visível nos concelhos de Arronches, Elvas e Campo Maior, onde um grupo de agrários e arrendatários viviam directamente deste tipo de exploração económica. O concelho de Elvas constituía sem dúvida, o território mais vasto e importante do ponto de vista económico e agrícola, numa época em que a riqueza do município estava concentrada nas freguesias rurais de Barbacena, S.Vicente e Santa Eulália. Na verdade, os matagais e os arbustos silvestres dominavam a maior extensão das terras de bons solos agrícolas nos  concelhos Arronches e Campo Maior cujo arroteamento ocorre mais tarde do que na segunda cidade portuguesa do distrito. Por outro lado, em Elvas o investimento na exploração agrícola ocorreu mais cedo que nos municípios já citados, uma vez que nas décadas de 1830, 1840 e 1850, muitas das propriedades pertencentes aos Condes de Cadaval e S. Martinho foram objecto de compra ou de aluguer pela imensa rede de arrendatários que também beneficiaram de parte das propriedades da Casa aristocrática do Marquês de Penalva que sendo o único grande proprietário residente jamais alienou o seu património latifundiário durante a centúria de oitocentos. Outro grupo de proprietários com capacidade de exploração e investimento, em solo elvense era sem dúvida um trio de grandes comerciantes lisboetas, como era o caso de António José de Andrade, José Silva Falcão e António Silva Neves Lança Alvim, este originário da vila de Ourém e que acabaria por investir também num conjunto de propriedades situadas nos termos municipais de Arronches e Campo Maior. A maioria dos restantes proprietários do concelho de Elvas em meados do século XIX era arrendatária, apesar de alguns tratados oficialmente por lavradores por fazerem a gestão das terras arrendadas pertencentes a lavradores exteriores ao concelho. Mas, numa análise minuciosa da propriedade, verifica-se que a maior parte dos mesmos, estava directamente depende dos grandes proprietários por contratos de duração com prazos de dez anos, por isso mesmo só na viragem para o século XX e durante o Estado Novo, se revelam como a nova elite agrária em função da posse de uma ou mais herdade. Todavia é de salientar a capacidade de trabalho e de arrojo, que permitiu que uma parte destes arrendatários tenha construído a sua pequena fortuna a partir da introdução de novas culturas agrícolas, da ampliação do espaço agrícola através da limpeza das zonas baldias arrendadas ou de práticas inovadores como os sistemas de drenagem que permitia um melhor aproveitamento da área agrícola. A herdade transformava-se no centro de exploração agrícola em solo elvense a partir do monte, com uma série de edifícios e estruturas de apoio na qual se destacava a casa principal, de resto um modelo resultante e secular desde a romanização da Ibéria. Em meados do século XIX, o monte alentejano, no município de Elvas caracterizava-se pela presença da casa agrícola no extremo das herdades e na parte mais alta da propriedade ou seja edificada sobre uma colina, como forma de controlo sobre o espaço agrícola e dos pastos circundantes.

terça-feira, março 08, 2011

8. Elvas Portuguesa. Introdução. Demografia (1850-1930)


A construção da Linha de Leste teve impacto no comportamento demográfico na transição para o séc.XX


   A chegada do comboio foi determinante para o desenvolvimento regional



A cidade perdia em termos de % populacional relativamente à população rural - o centro do trabalho.

A demografia contemporânea demonstra que durante a Monarquia Constitucional, I República e início do Estado Novo, o concelho de Elvas, apresenta um constante crescimento pelo menos até 1882, quando a população atinge um valor próximo das 19.659 almas. Vivia-se numa época em que a população rural, cerca de 10.964 efectivos era mais representativa que a população urbana que se limitava a cerca de 8.695 efectivos, numa época em que o arroteamento dos campos estava no seu auge. Aliás em 1887 a população rural chega a um número recorde de 10.202 habitantes. Numa época em que a cidade de Elvas era o núcleo urbano mais importante do distrito se considerarmos por exemplo que em 1890, a cidade raiana tinha um registo populacional de cerca de 13.291 habitantes contra 11.820 de Portalegre, de resto a capital do Distrito só se afirma como o centro urbano mais populoso nos censos de 1911 e 1930, como resultado do reforço das políticas republicanas em favor da circunscrição administrativa mais importante do distrito. Mas, numa análise comparativa, das duas cidades que procuram liderar as políticas públicas no Distrito, observamos desde logo um percurso quase comum e um crescimento médio entre 1864-1930, de 62% de efectivos humanos, mas com um claro crescimento da capital do Distrito que duplica o número de habitantes entre (1864-1930) isto é passa de 6.433 para 14.712 habitantes enquanto Elvas, cidade, no mesmo período recebe apenas mais 2.142 almas. Situação aliás curiosa, uma vez que Portalegre só ultrapassa efectivamente o número de efectivos no curto período de 1920-1930, quando a força do trabalho na cidade raiana desenvolvia-se no espaço rural. Por outro lado, numa análise dos dados estatísticos observa-se que no período de 1864-1878, a taxa anual de crescimento de ambas as cidades foi bastante reduzido não ultrapassando a média de 0.3%, numa época em que os ventos da emigração contribuem para a saída de efectivos populacionais do distrito que todavia não atingiu os índices de outras regiões nacionais. Mas os dados dispararam, durante o período de 1878 e 1900, quando o distrito de Portalegre é dos que mais crescem a nível nacional, atingindo um crescimento médio de 2.1% mas com o contributo de Elvas que chega nesse período à taxa média anual de 3.1% , não havendo dúvidas que o desempenho demográfico do Distrito de Portalegre e da cidade de Elvas, deve-se a chegada do caminho de ferro à fronteira do Caia ou por outras palavras, a Linha de Leste, mobilizando novos moradores e um vasto número de assalariados, criou trabalho e progresso e um grande número de assalariados procedentes de outras regiões. Outras, duas grandes construções foram determinantes para esta etapa de progresso e trabalho na região, nomeadamente o Ramal de Cáceres e a estrada regional, Portalegre e Elvas. No caso, do concelho de Elvas, juntava-se ainda o aumento da população rural, que desde finais do século XIX vinha alcançando um número de efectivo superior à população urbana e a presença de novas forças militares, estacionadas na Praça Militar de Elvas no âmbito das Campanhas de África, depois da saída dos Regimentos de Artilharia nº2 e da extinção do Regimento de Caçadores nº2, que permitia que a presença militar tivesse ainda alguma representação até final da década de 1890, altura em que se inicia um verdadeiro processo de desmilitarização só estacando com a implantação do Estado Novo. As décadas de 1900-1920, a cidade de Elvas numa análise crua de dados, parece vítima de uma hecatombe, a recessão demográfica é evidente, a população urbana situa-se à volta de 9.133 habitantes em 1920 ou seja a valores de finais do séc. XVII. Mas, a realidade é de natureza administrativa que integra as freguesias de S. Lourenço, S. Vicente, Aventosa e Várzea, que até então haviam pertencido à cidade. Na década de 1920-1930, a cidade elvense voltava a crescer com taxa anual de 3%, recuperando o seu potencial humano, contando com mais 6.248 habitantes numa época que o município introduziria um conjunto de melhorias locais que foram fundamentais para a fixação de mão de obra na área urbana e municipal.

domingo, fevereiro 27, 2011

7.2 - Elvas Portuguesa : O fim do Antigo Regime, o último meio século.



 A cidade como Praça  militar afirmava a sua vocação de placa de estacionamento militar uma realidade na Época Contemporânea.

No último meio século da modernidade, a cidade continuava a recuperar, o crescimento populacional que era evidente de resto, em 1739, Elvas era o centro mais populoso do Alentejo, chegando aos 12.408 habitantes e em vésperas do início da época contemporânea em Portugal, em 1820 chegava aos 16.069 habitantes, com excepção do início do Séc. XIX em que a população triplicou durante meia dúzia de anos a partir de 1806 face ao estacionamento militar no contexto político-militar das Guerras Peninsulares. Continuava-se nesta fase de transição e na continuidade do que fora a segunda metade do séc. XVII e todo o século XVIII, a centrar toda a vida quotidiana na prática agrícola, as Beiras que durante época de setecentos tinha contribuído para o pré-desenvolvimento comercial da cidade com a chegada de alguns mercadores e tendeiros, tornava-se agora um espaço de recepção para as vagas de migrantes que iriam labutar nos campos agrícolas do termo de Elvas. Nessa época, chegavam as primeiras vagas de ceifeiros, os ratinhos que a documentação cita pela primeira vez para o ano de 1766, não havendo provas documentais se tal deslocação para terras para sul se deveu a alguma iniciativa da Câmara, todavia nas actas municipais há referência periódica à falta de braços e por Portaria de 17 de Julho de 1815, o Comando Geral da Praça autorizava o recrutamento de soldados em tempo de paz para a prática agrícola numa época em se assistia ao aumento da terra arroteada que seria, a grande conquista da lavoura elvense a partir de meados do século. Porém uma particularidade, ocorreria no concelho de Elvas antes da Revolução Liberal do Porto de 1820 e das várias reformas entre elas as de Mouzinho da Silveira que contribuíram para o aumento da área cultivável, que tem a ver com uma carta régia datada de 13 de Dezembro de 1812 na qual se estabelecia a venda de todos os bens livres da coroa: casas, capelas, propriedades e bens próprios, que seriam adquiridos por uma aristocracia não residente e por uma burguesia lisboeta em ascensão, como era o caso da Herdade do Alcaide, gerida pelo morgado dos Peixinhos que passa a pertencer a José Martinho Costão Falcão um rico burguês da capital ou da Herdade da Alcarapinha, que passava definitivamente para o Conde de Vila Flor, D. Rodrigo de Noronha que herdara parte da mesma propriedade que pertencera aos padres do Convento de S. Paulo. Ao mesmo tempo uma nova realidade surgia ainda de forma incipiente, os arrendatários com posse para fazer a gestão de uma herdade, era o caso de Manuel Joaquim Gonçalves que recebia mediante contrato de arrendamento da Herdade de Água de Banhos que pertencia à casa do Marquês de Penalva. No interior da cidade e nos seus arrabaldes, surgia um pouco por todo o território as hortas de dimensão variada, adjunta às plantações de olivais e nos espaços ainda vagos no interior da cidade. Apesar de tudo, o esforço de ordenação económico do território era novamente interrompido, face há conjuntura de Guerra na região do Caia, concretizada no Combate de Arronches e na Guerra das Laranjas. Foram os primeiros embates no contexto de uma conjuntura internacional em que o território português estava sob ameaça das forças franco-espanholas, que se esboçava de forma concreta, desde o Tratado de Santo Ildefonso (assinado com a concentração de tropas espanholas junto à fronteira) e que se tornavam evidentes em acordos posteriores, nomeadamente no Convénio de 1 de Fevereiro de 1801: “…que previa a invasão do nosso país caso não abandonasse o campo inglês”. Mas o Tratado de Paz assinado em 7 de Junho de 1801, em Badajoz, afastava de forma muito breve a conjuntura de guerra na região do Caia apesar da perda da vila de Olivença. Uma vez que Napoleão decretou o Bloqueio Continental, que desde logo constituía uma ameaça a Portugal, velho aliado da Inglaterra que ignorou o fecho dos seus portos à navegação inglesa, como ultimava o referido Tratado. Uma vez mais estava ameaçada a integridade do território português, enquanto que aliança anglo - lusa se concretizava na negociação de um tratado de auxílio e de comércio; a aliança franco-espanhola preparava a invasão de Portugal, pondo em causa a integridade do território continental que seria retalhado em três partes e das nossas colónias. Portugal preparava-se para a guerra, procurando assegurar a defesa da sua ampla terrestre, desde Valença a Tavira, destacando-se a região do Caia, onde pela primeira vez o estacionamento militar, demonstra a importância daquela entrada natural tão utilizada pelos exércitos invasores desde a época moderna. Na verdade nas praças militares de Elvas e Campo Maior concentraram-se cerca de 41 regimentos de infantaria e 11 de artilharia, totalizando cerca de 57.000 homens, quase o dobro de outras concentrações em regimentos de infantaria e cavalaria na raia, casos de Valença, Chaves, Bragança e Almeida. A preparação para guerra era acompanhada pela destruição das áreas de cultivo à volta da Praça para evitar a existência de reservas alimentares que favorecessem a possibilidade de pôr cerco à cidade. As invasões francesas jamais puseram em perigo a Praça militar que seria apesar de tudo, protagonista na 3ª Invasão francesa, quando o espaço abaluartado elvense se afirmou pela primeira vez como placa de estacionamento militar, funcionando como um verdadeiro hospital de campanha para o qual, durante dois  comboios sucessivos foram transferidos vários feridos no teatro bélico da Batalha de Albuera em 16 de Maio de 1811. Da Praça militar de Elvas saíram vários regimentos que constituíram as forças aliadas (já no contexto da Guerra Peninsular e entre) e entre elas o Regimento de Infantaria nº17, constituído por elvenses e que mereceu o elogio do General britânico Lumlry e o Batalhão de caçadores nº8 comandados pelo Tenente General Hill que se destacaria na tomada de Badajoz (1812) e outras que se sucederam até à saída do exército francês do território espanhol, como foram os casos de Carrión (1812), Vitória (1813) e S.Sebastian (1813). O protagonismo dos militares estacionados na Praça Militar elvense nas guerras liberais marcava o fim da época Moderna, na qual se destacavam os comandantes dos regimentos da Infantaria nº3 e nº4, respectivamente, o Coronel António José Antunes e o Marechal António Joaquim da Gama Lobo que defendiam a causa miguelista.






sábado, fevereiro 12, 2011

7.1.Elvas Portuguesa - A Paz e a reconstrução no final do Antigo Regime na cidade do Caia.


No final do Antigo Regime a fortificação da cidade completara-se


O Forte da Graça o último reduto defensivo mas uma das marcas da militarização de fronteira.


Entre as sentinelas e os campos, a renovação agrícola era uma opção 


Nas margens do Guadiana o contrabando era outra forma regular de vida entre as práticas agrícola e  comercial

As décadas finais do Antigo Regime marcam o regresso aos campos agrícolas em terras do Caia num período em que a prioridade de organização económica manifesta-se um pouco por todo o concelho de Elvas. Que nos fins de setecentos mantém uma forma de exploração agrícola medieval e tradicional, com amplas áreas do seu território ainda num estado selvagem, predominando o bosque e a mata em vastas áreas do seu território. De facto, após quase meio século de guerra quase permanente, o abandono da prática regular da exploração dos campos agrícolas, determinou que a pecuária se tornasse uma opção, aos campos de cereais. Assim o número de rebanhos cabras e ovelhas estavam em crescimento e disputavam um espaço no mundo rural onde os alinhamentos de vinhedos ( contava-se nesta época mais de uma meia dúzia de herdades que apostavam nos vinhedos, casos da Torrinha, Enxara, Vale de Marques, Mouros, Varche, Caldeiras e Amoreira) e olivais, caracterizavam a paisagem agrícola, colorida pelo afolhamento trienal, uma prática seguida pelas casas agrícolas do distrito. De resto, o comércio da cevada e do trigo, duas das culturas cujo cultivo ainda sustentava a capacidade económica de alguns lavradores, tornava-se pouco lucrativa e gerava descontentamento face as imposições da coroa, que desde 28 de Julho de 1678, só permitia o comércio de tais produções agrícolas, uma vez abastecido o Assento ou seja, a partir do momento em que era assegurada a auto-suficiência alimentar das forças militarizadas, homens e cavalos. A documentação coeva, refere o grande esforço dos proprietários rurais, independentemente da sua dimensão na limpeza dos campos com frequência ao longo de setecentos face às matas que cobriam as outrora as terras de cereais e de olivais, documentadas pela primeiras em 1689 quando a ameaça de guerra parecia poupar os campos agrícolas do termo de Elvas. As grandes propriedades de um modo geral permaneciam na posse de uma aristocracia exterior ao concelho e a um pequeno grupo de aristocráticas que residindo ou não na cidade, eram então os “donos “ da terra em Elvas. Distinguindo-se então alguns poucos burgueses da capital com alguns investimentos na exploração agrária era os casos particulares, de Augusto Lima Mayer que adquiriu a herdade do Alcaide em 1698 ou de  António José de Andrade que em 1875 adquiriu a sua primeira propriedade nos arredores da cidade a herdade das Arcas de São João por volta de 1875. Essa propriedade cuja organização já seguiu o conceito de monte que fará tradição nos montes alentejanos entre meados do séc. XIX e a centúria seguinte, era dotada de casas de moradia, granja, pastagem, terras de semeadura  e mato de azinho, e era propriedade de D. João da Silva Pessanha, uma família prestigiada com reconhecimento nobiliárquico desde os tempos medievais. Em meados do século XVIII, a cidade voltava a animar-se com a presença de mercadores sem esplendor e a importância económica da época de quinhentos, mas estavam lançadas as bases para a reanimação comercial que tornaria Elvas na cidade comercial de importância na raia em finais do século XVIII. A chegada de comerciantes, maçanos e caixeiros, oriundos da Beira e particularmente da Vila da Sertã entre eles destacam-se o mercador Domingos Lopes e os tendeiros José Silva, Venceslau Mendes, Anastácio Mendes que marcam a primeira migração de homens com algum capital que se fixam ou mantêm relações económicas na cidade. No âmbito das relações inter-regionais animavam-se as rotas dos almocreves com o norte alentejano e a ligação das barcas entre as vilas vizinhas Elvas e Olivença, que voltam animar a relação agrária e comercial interrompida com a destruição da ponte durante a Guerra da Liga em 1709. Para tal era criada a companhia das barcas em 1718 que existiu até 1812, altura em que tal serviço foi interrompido, depois de ter estado ao serviço de particulares durante os finais do séc. XVII, nomeadamente de Manuel Fernandes Largo, que utilizou a barca ao serviço das herdades de Malpique e Defezinha, antes da aquisição da nova barca que custou 70.000 rs. Em 1783 e na transição para o séc. XVIII estava nas mãos de um agrário de Olivença, Miguel Garcia, numa época em que o contrabando tinha-se tornado uma forma regular de vida ao longo do Guadiana, face à existência de uma fiscalização que se limitava às áreas fortificadas. Mas, sem dúvida que a nova companhia deu um novo alento ao intercâmbio entre Elvas e Olivença, mesmo quando perdeu oito das suas doze barcas num pavoroso incêndio nas margens do Guadiana. No final do Antigo Regime, a cidade de Elvas e o seu termo, estavam em plena recuperação, os historiadores tradicionais referem a existência de cerca de 5000 vizinhos, mas fontes que consultamos levam-nos a dados reais e mais objectivos, a população cifrava-se em cerca de 15.800 almas  e uma % elevada de efectivas militares, pela primeira vez na Praça militar existia uma população aquartelada, iniciava-se o processo de militarização de fronteira com estacionamento militar e com o esforço construtivo no plano militar, as estruturas e o arame farpado marcava a nova realidade de coexistência entre civis e militares. Longe de outras épocas, onde Elvas era referência dos mercadores e viajantes, para além dos obstáculos naturais o testemunho da violência da guerra e dos cercos, estava marcada nos solos os barrancos abertos pelas bocas-de-fogo ocupados pela água ampliara o isolamento e a interioridade da cidade que era então a porta de saída para a Europa que então já soprava os ventos do Liberalismo, nesta época em que ainda vigorava o Estado Moderno e Absoluto.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

7. Elvas Portuguesa: - O século XVIII uma época de prevenção.


As vilas, as cidades, as nações, os impérios, têm nas suas histórias períodos, obscuros, mal estudados ou pouco referenciados na sua memória. O Século XVIII é para a história da cidade uma época com essas características, de facto depois do seu período áureo correspondente a sua elevação à categoria administrativa de cidade e após o seu protagonismo na época da Restauração, torna-se sobretudo num espaço de prevenção. Ainda longe da militarização a fase final do Estado Moderno e Absoluto, não ignorou a importância da cidade raiana, a defesa tornou-se uma prioridade se a obra mais significativa neste período foi sem dúvida a obra anexa, a norte da Praça Militar de Elvas, o Forte da Graça outras pequenas obras se inseriram nesse propósito. De facto e assinada a paz com Espanha, a população elvense continuou a ser tributada para as obras de carácter militarizado, não apenas para a manutenção das cortinas, dos fortins adjacentes e dos caminhos de ronda junto à praça, mas também para os primeiros alojamentos militares, os primeiros quartéis eram edificados em 1704, cerca de trinta e seis anos antes das primeiras medidas tomadas pela classe dirigente para a sua construção face ao estacionamento das primeiras forças militares exteriores à mobilização miliciana. Na verdade entre 1668-1704, a guarnição das forças militares ainda longe de constituir um exército nacional tinha dobrado em termos de efectivos, não sabemos exactamente o seu número, mas tal informação está registada em diversas cartas de correspondência entre os Governadores da Praça e a Coroa, a noção de que os efectivos militares aumentaram para além da sua capacidade é datada em cartas registadas para os anos de 1668, 1678,1681, 1685, 1689 e 1702, na última delas à referência que dobrou o número de efectivos, numa época que se verificava a reorganização do exército português no sentido da profissionalização sob orientação do Conde Lippe, um oficial oriundo da tradição germânica que viveu e conheceu as valências da importância da cidade na estratégia e defesa da soberania nacional, como se comprova em algumas das suas reflexões. A verdade é que a questão do alojamento militar só teria resolução efectiva e definitiva após a Revolução Liberal do Porto de 1820. Em meados do século XVIII as dificuldades mantinham-se os quartéis já não alojavam totalmente as forças militarizadas e uma parte dos efectivos desde 1767 tinham morada nas ruas dos Esteiros e Botafogo, enquanto os primeiros-oficiais de carreira sediados em Elvas estavam hospedados em casas particulares, pelo menos desde 1763 ocupavam de uma maneira particular um quarto em casas de particulares na freguesia do Salvador. Esta nova situação causava uma certa ambiguidade na população elvense, enquanto a hospedagem de militares de baixa patente não era muito apreciada ou mesmo não acontecia com os oficiais de carreira, os primeiros desenganos e os primeiros casamentos, era outra realidade que acompanhava o início de uma etapa onde os civis compartilhavam o espaço privado e urbano com os militares, uma das várias causas para a necessidade de um aquartelamento mais amplo que vingará um século depois.                           

domingo, janeiro 23, 2011

6.2.3 - Elvas Portuguesa: A prevenção a caminho da Paz


A paz e a guerra, foram sem dúvida uma realidade quotidiana para as populações raianas ao longo da raia nacional e essa realidade acompanhou as populações locais até ao primeiro quartel do século XVIII. Na raia de Elvas os tempos do pós Linhas de Elvas continuaram marcadas pela necessidade de prevenção. As cartas régias, dirigidas à Câmara de Elvas e aos Governadores militares da cidade evidenciavam a necessidade de preparação para uma conjuntura de guerra e nesse contexto o conteúdo legislativo indirectamente convocava os efectivos populacionais e militarizados (milicianos), para a prevenção e o esforço de guerra que a conjuntura militar iria determinar até à assinatura da Paz com a Espanha. No total de noventa cartas enviadas pelo monarca D. Afonso VI apenas cerca de 25% tinham como finalidade doações de património ou relativas há organização urbana, mas entre as doações numa análise cuidada e orientada se observa, que algumas delas beneficiaram algumas figuras que foram protagonistas na Batalha das Linhas de Elvas. Era o caso por exemplo de Afonso Fortunato de Mendonça que entre outros receberam doações fundiárias da Coroa, do qual o seu filho, João Fortunato de Mendonça seria o seu herdeiro e a sua ligação a solo elvense tornou-o Governador Militar da Praça com seis mandatos (1671, 1678,1682, 1688, 1702 e 1715. As primeiras decisões da Coroa, postas em prática pelo Governador, o Conde D. Jerónimo de Ataíde, denunciam desde logo que a paz estava muito longe de ser um dado adquirido, a nomeação de Manuel Gomes Lima para cumprir serviço militar na Praça de Elvas, denunciava que a prevenção face à guerra não se limitava a forças milicianas uma vez que o referido militar tinha como objectivo organizar o alojamento para um o estacionamento das tropas de socorro da Extremadura em caso de necessidade. Mas, a continuidade de cartas régias com finalidade preventiva acompanha os primeiros anos de regência do novo rei de Portugal, D.Afonso VI, que foi interpelado pela Câmara de Elvas três meses após a subida ao trono, uma vez que a população queixava-se da pressão fiscal. A resposta régia só seria dada dois anos depois por carta de 16 de Março de 1664, dispensando o pagamento dos contribuites elvenses da sisa no valor global de 880.000 rs., mas a política de assegurar a defesa da soberania da raia portuguesa era evidente em função de uma série de medidas que então foram tomadas entre elas podemos sintetizar e enunciar: - a fixação de residência permanente do Governador militar na praça; - a guarnição de armas para defesa da fortaleza elvense; - a nomeação de um almoxarife de armas e munições; - a nomeação de um pagador do exército que evidencia a presença de forças militarizadas com função militar independentemente do tipo mobilização militar (aliás esta era uma preocupação permanente que se observa ao longo da década de 1660 de tal forma que a Coroa aconselhou o governador, o Conde Sabugal, D. João Mascarenhas a aplicar o fundo das fortificações no aluguer das casas da Ordem de Sâo Paulo devido à falta de quartéis e várias resoluções para a deposição de trigo para o abastecimento de prevenção a eventuais cercos (no qual destacamos duas medidas, a de D. Afonso V que em 1660 mandou parar as obras de edificação dos quartéis para a compra de cereais e a de  1670, em que o infante regente D. Pedro por carte régia de 3 de Fevereiro mandou construir um amplo celeiro público com vista à auto-suficiência da cidade). Outra medida de carácter militar, táctica e como forma de impedir cercos de longa duração como tinha ocorrido entre Outubro e Janeiro de 1659,  consistiu na destruição dos rossios cuja produção agrícola podia ser eventualmente aproveitada pelas forças aventuras.   Na prática as preocupações régias e da superintendência do governo da Praça Militar tinham fundamento, já que a cidade de Elvas voltou a ser cercada sem êxito, em vários momentos, após a Batalha do Ameixal ( 8 Junho de 1663)  o exército de D. João de Áustria, irrompeu sobre Elvas após a destruição do Castelo de Arronches, mais tarde vários reconhecimentos foram feitos pelos castelhanos ocorreram na fronteira portuguesa no Verão de 1667 esperava-se um novo cerco mas o exército castelhano marcharia para Vila Viçosa. A paz era assinada em 1º de Fevereiro de 1668, mas a Praça Militar não desarmou como sentinela de fronteira e resistiria ao cerco posto pelo Marquês de Bay em 14 de Abril de 1706 que ao fim de 48 horas, retirou para Badajoz mas a defesa da cidade tornou-se uma prioridade da Coroa até a Época Contemporânea.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

6.2.3. Elvas Portuguesa - A defesa da soberania nacional nas Linhas de Elvas


Representação cartográfica e pictórica, da Batalha de Linhas de Elvas, de Saint -Colombe, datada de 1661

  
No Outono de 1658, a Praça Militar de Elvas era de novo cercada por o segundo maior exército que em termos de efectivos e logísticos, avançara sobre as terras da raia e que entretanto estacionara numa serie de pontos estratégicos nos arredores de Elvas com vista ao domínio da praça e ao corte do socorro a Elvas. Entretanto no interior da Praça a resistência era testada, o sacrifício da população era uma exigência para evitar a sua rendição, a morte espreitava uma população esfomeada e sujeita a uma economia de guerra, caracterizada pela especulação dos preços, de facto os produtos alimentares atingiam preços exorbitantes, na maioria atingiam quase o dobro do seu valor, por exemplo a galinha que valia 400 réis passava para 700 réis. Ao mesmo tempo que a fome proliferava a peste agravava-se os índices de mortalidade chegaram a atingir uma média de 300 efectivos por dia em pleno Inverno de 1658. Aliás foi neste contexto de sofrimento e de depressão económica, que se podem entender as medidas tomadas pelo Governador da Praça D. Sancho Manuel, como o tabelamento do pão e dos preços ou acções emergentes e de risco, como a introdução clandestina de carregamentos  cevada e trigo, em pleno cerco. Entretanto nas cercanias, os castelhanos consolidavam o cerco a partir de um traçado de linhas perfeitamente articuladas com os chamados quartéis que na verdade eram pequenas construções abaluartadas de emergências (fortins) que coroavam as linhas de circunvalação organizadas em duas camadas de terra, preparadas por duas linhas de fossos protegidas por estacas e rematadas em alguns pontos da circunvalação com bocas-de-fogo, como era o caso do monte da Graça, base da artilharia pesada do Conde de S.German. Do ponto vista, defensivo as hostes nacionais prepararam a defesa de forma particular, na parte mais sensível da praça, a frente sul, entre o Forte de Santa Luzia e a  futura Baluarte do Casarão. As posições fortificadas das hostes castelhanas, situadas no Quartel General ou da Corte, a sudoeste da Praça no antigo caminho para Vila Viçosa e o Quartel de Vale de Marmelos, pareciam anunciar que o avanço ocorreria a sul. Porém tal não ocorreu durante a Batalha das Linhas de Elvas, mas durante o acontecimento bélico de 14 de Janeiro de 1659, esses espaços de concentração de efectivos militares acabaram por funcionar como reforço ao exército castelhano que acabaria por evoluir em torno do espaço situado entre a Baluarte do Príncipe e os arredores do sopé do Monte da Graça. Onde a cavalaria castelhana de reforço estacionada no Quartel da Vergada procurou obstaculizar sem êxito o avanço da cavalaria que rompeu a linha de circunvalação junto ao planalto dos Murtais com o apoio da artilharia de socorro que se concentrava na retaguarda na Serra da Malafeta. Aliás, a inoperacionalidade da cavalaria castelhana, incapaz de fechar a referida, linha de circunvalação foi determinante para a derrota do exército castelhano que durante três meses ocupou os campos de Elvas numa extensão de 15/18Km. A história da Batalha  segundo as fontes documentais, iniciou-se na madrugada de 14 de Janeiro de 1659, quando aproveitando a neblina matinal, as hostes nacionais sob comando do Conde de Catanhede surpreende a defesa castelhana estacionada nos quartéis do Cocena e de São Francisco, pressionando-a durante toda a manhã até quebrar a sua resistências às 15h00 da tarde. A partir de então e com a derrota da cavalaria castelhana, abriram-se várias brechas ao longo da linha de circunvalação determinando a queda dos vários fortins, a morte e a fuga dos invasores para Badajoz que se inicia com o abandono de D.Luis Haro do campo de batalha. A resistência castelhana ao fim da tarde limitava-se ao Monte da Graça, onde o comando militar de maior notoriedade do exército castelhano, o Duque San German  se manteve no seu posto até à manhã do dia 15 quando as forças ocupantes abandonaram definitivamente o campo de batalha com o abandono do Quartel General ou da Corte. A importância do significado do Cerco e Batalha das Linhas de Elvas: -“ Deve ser vista em várias perspectivas e sempre no contexto da conjuntura, nacional e regional, neste âmbito devemos salientar: - A importância estratégica da Praça Militar de Elvas que condicionou todo e qualquer avanço das tropas castelhanas em território português a partir da raia, anulando dessa forma uma base de apoio militar, ao deslocamento tão desejado em direcção à capital do Reino. – A valentia da população civil da cidade de Elvas, que injustamente é ignorada pela história tradicional, considerando a sua resistência perante a fome, a peste e os bombardeamentos a que foi sujeita. – A estratégia dos líderes das hostes nacionais que tornaram possível o êxito em 14 de Janeiro de 1658 e testada durante o Cerco das Linhas de Elvas, uma vez que antes da chegada do Conde de Catanhede já as hostes portuguesas induziam em erro os castelhanos fazendo sair do Castelo de Elvas, pequenos grupos de cavaleiros que logo voltavam à base, em nítido desafio, quando o mesmo se verificasse seria um desaire para os interesses portugueses. Por outro lado e apesar dos exageros de tradição, a documentação parece-nos indicar que o avanço português, surpreendeu não tanto D.Luís Haro, mas a sua disposição táctica de guerra. -  O potencial bélico, superior do lado castelhano, mais significativo neste plano do que em homens, como muitas vezes salienta a história tradicional, quando o que de facto prevalece é o poder militar de Espanha e não o número de efectivos de guerra, porque esta, não é uma guerra medieval, logo é o fogo que determina a vantagem e a derrota militar incontestável quando se analisa o documento “Relaçam do Sucesso de Armas na rota do cerco que o Castelhano tinha posto à praça em vez de Janeiro de 1659:" - que refere um número de 5000 prisioneiros, a rendição das forças castelhanas no Monte da Graça, a fuga nocturna dos sobreviventes para Badajoz e o afogamento de alguns nos rios Caia e Guadiana, as numerosas perdas e abandonos de peças de artilharia, tendas e até a correspondência entre Filipe IV e D. Luís Haro.                

sábado, janeiro 08, 2011

6.2.3. Elvas Portuguesa: - A conjuntura de Guerra na época da Restauração eixo Elvas-Badajoz

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O espaço regional por excelência das guerras da raia - Alentejo/Extremadura na Época da Restauração 

O cerco e a Batalha das Linhas de Elvas, durante algumas décadas tem sido reflectido e interpretado como um acontecimento político-militar de surpresa que ocorreu em redor da Praça Militar da cidade. Nada mais errado e sem discussão, quando se analisa toda a documentação seiscentista, mas sem qualquer análise, o facto de a batalha ter sido uma consequência do cerco que pressionou a população de Elvas desde o início do Outono 1658, nega por si só qualquer ofensiva inesperada. Todavia, a guerra na planície foi uma constante desde o Cerco de Évora em 1644, onde os efectivos militares nacionais rondaram, as 17.000 almas mais 5.000 dos efectivos que evoluíram no teatro de guerra das Linhas de Elvas. Mas esse cenário em torno do eixo Badajoz-Elvas e Olivença, inicia-se na defesa de Olivença sob comando de Francisco Mello no Verão de 1641, num ano em que as populações fronteiriças na linha e proximidades do Caia, sofrem os primeiros embates como espaço territorial do Estado Nacional a poucos meses restaurado. A chamada guerra guerreada sucedia-se em ambas direcções, tratava-se de destruir ou queimar os recursos das populações a meio caminho das grandes praças das duas regiões, Alentejo e Extremadura: Elvas e Badajoz. Nos primeiros dias de Agosto, os portugueses incendiaram a vila de Herrera e a resposta castelhana ocorreu com a destruição das aldeias de Pitaranha (entretanto desaparecida) e de Galegos. No final do Agosto, o Conde Monte Rey faz o primeiro cerco à cidade de Elvas sem consequências apesar de um combate junto da atalaia da Terrinha que determinou o recuo das forças castelhanas, todavia nestas campanhas, interessa referir que não se tratavam de exércitos formais ou convencionais, mas sobretudo de hostes milicianas e de cariz quase senhorial. Em 1642, no final do Inverno nas proximidades da Praça, assistia-se a uma tentativa de ocupação da colina de Santa Luzia, num momento em que o futuro Forte estava ainda em construção, sob comando de D. João Garay  sem consequências e com os efectivos em campanha a recuar para Badajoz, mas já pressionados pelas hostes militares sitiadas em Elvas que no mês de Maio, iniciam um saque  a terras da Extremadura.  Alconchel e Cheles são simplesmente queimadas enquanto que Figuera de Vargas foi totalmente saqueada. Em 1643, no fim do Verão, as ofensivas à Extremadura, passam para o Comando do Governador da Praça Militar de Badajoz, Joanne Vasconcellos, que arrasa por completo Telena e na tentativa de pôr cerco a Praça Militar de Badajoz é obrigado a bater em retirada após o combate  à entrada da ponte de Badajoz. Mas no início de Setembro de 1644, Joanne Mendes Vasconcellos, caminha em direcção a Badajoz com um numeroso exército fazendo o reconhecimento de Badajoz, sem a cercar e sem conflito directo, mas uma vez mais os portugueses saquearam algumas populações extremenhas, Alconchel, Figuera de Vargas, Assumar e Villanueva de Fresno. A resposta castelhana ocorre em plena Primavera, saqueando Santo Aleixo e São Vicente. A defesa de Ouguela e Campo Maior é uma prioridade nacional face às incursões do Marquez Terracusa. O ano seguinte é de paz relativa, o Conde Castelo Melhor marchou em direcção de Badajoz uma vez sem mais sem resultados práticos e os castelhanos saquearam os arredores de Elvas na chamada Campanha dos Olivais. Em meados do século as escaramuças sucedem-se com o saque a vila Boim em 1651 e a época dos combates de exércitos medianos ocorrem com mais frequência com a chegada de André Albuquerque  ao serviço da Praça Militar de Elvas, a cronologia refere  na Extremadura o de Alcornal (1652), Talavedra (1655), Lobón (1656), Badajoz (1657) assalto a Badajoz e tomada do Forte de São Cristovão (1658)  e no Alentejo, Alandroal (1652), Campo Maior (1656), reconhecimento de Campo Maior (1656). Ou seja, o Cerco e Batalha das Linhas de Elvas foi o coroar lógico de uma conj-untura de guerra regional onde a ocupação do território foi sem dúvida o objectivo dos vários tipos de guerra de saque, guerreada e de cerco. E que continuaria após a mais importante batalha que ocorreu em solo transfronteiriço na época Moderna.              

quinta-feira, dezembro 30, 2010

6.2.3. Elvas Portuguesa - Em vésperas das grandes ofensivas.A cadeia de comando


A nobreza de Portugal tomou o comando dos destinos da soberania portuguesa nas guerras da raia




Conde-duque de Olivares é um dos responsáveis pela perda da soberania Portuguesa na historiografia espanhola




Alegoria da Rebelião Portuguesa, página rosto da obra de António Sousa, 1645. 

Os comandos militares das forças que evoluíram nas planícies do Alentejo e da Extremadura, distinguia-se igualmente pela sua motivação intrínseca que a Guerra determinava, no caso português tratava-se de uma oportunidade única para a afirmação da Nobreza de Portugal, no plano do exercício de funções políticas e militares que a nova etapa política a Restauração lhes reservava. É certo que no plano da arte da Guerra a Nobreza portuguesa desconhecia as inovações técnicas e novos saberes militares testados nas guerras europeias, com algumas excepções. Aliás só assim se compreende que um século mais tarde o Conde de Lippe,  venha para Portugal para proceder à modernização do exército nacional, mas se tivermos como referência os postos de comando das forças nacionais na época da Restauração e durante o Cerco e Batalha das Linhas de Elvas, apenas temos um três figuras de referência nos acontecimentos que marcaram a guerra de fronteira. D. Joanne de Vasconcellos, um aristocrata que foi Governador da Praça Militar de Elvas e um dos teóricos da arte da guerra mais credenciados na época seiscentista, O Conde Vila Flor, D. Sancho Manuel, da nova nobreza em ascensão, já que o seu ramo nobiliárquico era identificado com uma nobreza funcionalista que tinha servido a Coroa nacional no Oriente nos séculos XVI e XVII. Porém era um militar com provas dadas no Império Espanhol onde serviu em vários cenários de guerra na Flandres e na península itálica, que desde o primeiro momento esteve com o movimento restaurador do 1º de Dezembro de 1640 e que em 1648 foi distinguido com a nomeação de Governador de Armas da Beira. E foi nessa qualidade de estratega militar na raia nacional que justifica a sua nomeação para Governador da Praça militar de Elvas em 1658 quando sobre a mesma se esperava a todo o momento o fim do cerco e o desencadear da guerra. A outra figura, que a cidade de Elvas acabou por transformar no seu herói no âmbito da Batalha das Linhas de Elvas, André de Albuquerque Ribafria que era para todos os efeitos, um profissional das armas com provas dadas nas expedições militares enviadas para o Brasil em 1638. Militar e operacional da primeira hora da nova etapa que o país atravessava tinha uma folha de serviços coroada de vários êxitos ao serviço da cavalaria e temporariamente substituiu Joanne de Vasconcellos no comando da Praça Militar de Elvas quando este cessou funções. A restante fidalguia a que se juntou algumas personagens com formação militar, tratava-se sobretudo de gente rica e cuja função militar era temporária e sem ambições políticas ou outras, já que se tratava de servir temporariamente a nação, sem que para tal contribuísse para a falta aos seus deveres familiares. No caso espanhol, a nobreza tinha as mesmas dificuldades que se verificava nos comandos nacionais, mas não por falta de nobres ou militares com experiência de guerra. A província da Extremadura não era uma motivação para essas personagens, habituadas ao comando de grandes exércitos bem armados e com o devido apoio logístico, que faltava nas hostes militares estacionadas a 17 Km de Portugal. Assim D. Luís Haro, que comanda o cerco e batalha das Linhas de Elvas, era um nobre de corte, um político que liderando as forças que irrompem sobre a planície do Caia em direcção aos arredores de Elvas, encontra no Duque San German o estratega necessário para o acontecimento bélico que se desencadeou em 14 de Janeiro de 1656. O Duque tratava-se de um aristocrata da nobreza napolitana, D.Francisco de Tuttavilla, um militar com currículo no exército do Império Espanhol e que tinha defendido com êxito o Cerco a Badajoz em 1658, chegando a ocupar Olivença e Mourão um antes. O Duque de Ossuna chega há Extremadura por nomeação régia para o Comando General da Extremadura.O Marquez de Torrescura outro aristocrata, que se destacou na defesa da Extremadura na década de 1640, que derrotou o cerco a Badajoz em 1644 dirigido por Matias Albuquerque. E infligiu novas derrotas ao exército luso nas campanhas de assédio a Talavera la Real, Puebla de Calzada e Montijo . No ano seguinte domina parte da guarnição estacionada em Olivença e em 1648, dirigiu-se a Elvas mas seria obrigado a retirar-se e numa nova tentativa de conquista da praça militar é derrotado com enormes perdas humanas e materiais no seu exército por André de Albuquerque em 1653. Em 1658 apesar de tudo as forças castelhanas contavam com um maior número de comandos militares com experiência operacional, caso de Méndez de Vasconcellos , D. Gaspar de La Cueva, o Marquez de Lanzarote ou o irlandês Waltaer Dogan, que com o seu contingente vem reforçar a defesa de Badajoz, sob ameaça das forças portuguesas após o sucesso das Linhas de Elvas. A logística militar baseava-se num guerra onde artilharia e o fogo era elementos determinantes para o desfecho das guerras de de cerco, de assédio e de espaço aberto, a espingarda de  cano curto, o mosquete e os canhões de sete e nove bocas foram utilizados pelos exércitos que evoluíram nas guerras de fronteira, nas hostes portuguesas a escassez e a permanência de meios militares de matriz medieval eram uma adversidade, no caso espanhol, o material bélico não era muito diferente, primeiro por que Portugal durante a União Ibérica acabou por ter acesso ao material bélico castelhano e segundo porque a Extremadura foi fortemente penalizada pela Guerra da Catalunha, para onde era enviada regularmente reforços nomeadamente da Praça de Armas de Badajoz, em material logístico e efectivos militares.              

segunda-feira, dezembro 27, 2010

6.2.2.Elvas Portuguesa: Na modernidade - Nas vésperas das grandes ofensivas




                 A artiharia mudou o curso das guerras modernas no Ocidente na Modernidade


A Baluarte entreicheirada fundamental na edificação militar na época da Restauração.


A  disciplina uma problema inquestionável nos exércitos milicianos peninsulares.

A história tradicional invoca com frequência o êxito das forças portuguesas sob as forças espanholas em função do número de efectivos militares, da sua capacidade operacional, técnica e competência funcional, nada menos correcto quando se analisa e reflecte as fontes documentais quer portuguesas e espanholas. Ou de forma mais objectiva, os exércitos luso e castelhano que evoluíram na conjuntura de guerra da Restauração, não eram profissionais e a disciplina era um dos aspectos que mais condicionavam a evolução das forças no campo de batalha, mais evidente nas hostes espanholas do que nas portuguesas. Mas esta situação é uma realidade extensiva a toda a Europa sendo a única excepção os exércitos das Províncias Unidas, pela simples razão de que era um exército regular e pago. O problema dos exércitos peninsulares estava subjacente logo no recrutamento, de facto, no caso português, essa prática era feita segundo a Lei das Ordenanças de D. Sebastião de 1750 que estavam sob comando de um corregedor, todavia em face da guerra pela independência nacional essa autoridade devido às circunstâncias estava sob direcção operacional de um Comandante Militar de Província, situação documentada nos Cercos de Elvas e Badajoz (1657) ou nas batalhas do Ameixial (1663) e de Montes Claros (1665).  Vivia-se então num período de transição no processo de recrutamento em que persistia todavia o espírito de mobilização da nação em armas, apesar de em meados do século XVII o elemento demográfico passar a ser uma forte componente para a convocação dos efectivos que as forças militarizadas então determinavam. Mas esta realidade não fez parte da estrutura, senhorial, miliciana e concelhia, que evolui nos cenários de guerra nas planícies do Alentejo e da Extremadura, palcos por excelência das Guerras da Restauração. Todavia e relativamente a lei de 1570, há que fazer referência a introdução de um novo sistema de prestação militar dos concelhos, que obrigava uma contribuição em dinheiro, surgia o vulgar “soldado das pias”, normalmente veteranos pagos para o desempenho da função militar em caso de guerra o que determinava a exclusão dos jovens e dos inexperientes. Outros estratos sociais simplesmente estavam isentos do serviço militar nomeadamente os letrados, os funcionários públicos, os comerciantes, marinheiros e pescadores, no âmbito que as funções eram prioritárias no funcionamento da sociedade. Apesar das circunstâncias adversas de cinquenta anos de domínio castelhano, o exército ou a nação em armas mais correctamente, tinha uma motivação extra que era a defesa da soberania nacional recentemente conquistada. Era provavelmente esta a vontade psicológica de manter sua identidade que justificava o esforço de guerra de uma Nação que pretendia ter direito a um Estado formal e nessa perspectiva sem ter presente as noções de nacionalismo subjacentes ao Século XIX tal ideia persistia na Nobreza de Portugal que conduziria as milícias municipais aos grandes êxitos da Restauração. No caso espanhol, as fontes arquivo demonstram que as forças militarizadas estacionadas em Badajoz tinham como cujo objectivo reconquistar Portugal e sujeitar a sua nação à obediência castelhana, todavia a formação do exército da Extremadura foi dramática e marcada pela incompetência e indisciplina. As fontes históricas comprovam tal afirmação e um dos primeiros obstáculos situou-se no esforço financeiro necessário para as campanhas militares, do qual se exigia aos extremenhos cerca de dois terços do total do seu custe, que por sua vez estavam sujeitos a constantes acções de pilhagens, roubos e saques de bandos portugueses que actuavam na calada da noite em toda a raia da Extremadura. Por outro lado, a indisciplina minava as hostes milicianas devido a falta de uma cadeia de comando, uma vez que as altas patentes militares espanholas estavam mais motivadas para outros cenários de guerra na Europa e nas suas colónias que lhe traziam pompa e honra. Na verdade, a Extremadura não honrava a nobreza castelhana, com um exército mal apetrechado e sobretudo sem suporte financeiro, aliás esta foi a razão para que numa década passaram por Badajoz nada menos que nove Capitães Generais em missão de Comando Militar da Extremadura. A confrontação entre a população civil e militar era outra realidade visível na medida em que os vexames, saques e os furtos, da soldadesca era denunciados pelos extremenhos, denunciando que os mesmos eram realizados pelos naturais e não pelo invisível inimigo português. O estado de intolerância com os militares tornava-se popular através da poesia da época, em 1643 ouviam-se na Extremadura frases como:” si solo los castelhanos/ para robar tienen manos/ mas no para pelear” um funcionário do governamental na sua carta dirigia à Coroa em 1650, relatava as actividades militares e a sua relação com a população local utilizando o termo de “agresores insólitos”. Estas e outras, situações são hoje motivo de debate na historiografia da Extremadura, o historiador Fernando Cortés cuja vida académica foi dedicada às relações Portugal e Espanha, do ponto vista institucional é de opinião que estes aspectos foram pontuais, mas em perfeito desacordo com os meus colegas da Universidad da Extremadura, Filipe La Puente e Alfonso Grajera, cuja validade dos seus estudos no teatro de guerra na Extremadura é indisctível. O sistema de mobilização não era muito diferente do português e o “soldado das pias” que era financiado pelos municípios em Portugal era nitidamente influenciado pela legislação espanhola que de resto em parte estava em vigência nos códigos portugueses, formais e não formais, após cerca de cinquenta anos de domínio filipino. Mas, a realidade das milícias extremenhas era totalmente diferente da situação portuguesa, se é certo que marginais e indigentes faziam parte do exército nacional, a falta de comando no exército castelhano permitiu que os mesmos fossem protagonistas nas suas relações com a população civil, numa época em que na Extremadura o descontentamento face à Guerra da Catalunha era evidente na medida que prejudicava a defesa da Província, não só pelos tributos fiscais que eram canalizados para aquela região Espanhola mas pelos contingentes que se deslocavam para aquela região. Aliás a vila de Cáceres em 1642 lamentava a saída dos seus milicianos para a defesa da Catalunha, face a ameaça portuguesa que facilmente conquistaria aquela praça protegida por 125 Infantes.