Em relação à mouraria a sua localização na estrutura urbana e viária na vila de Elvas, não nos oferece grandes dúvidas, considerando que a presença moura é anterior à (re)conquista de Elvas e por outro há todo um conjunto de fontes conhecidas e estudadas, cuja toponímia permite-nos a sua localização no espaço e no tempo. De facto a partir da segunda metade do séc. XIII, a Coroa por carta régia de 1270, estabelecia em parte a área de ocupação da mouraria, situada entre a Porta Nova da muralha almóada e a Porta de Banhos nos limites da actual Igreja paroquial de S. Pedro [ Chac. D.Pedro I, p.264.]. Área esta fundamental e decisiva para a fixação, desenvolvimento e afirmação, da comunidade moura uma vez que a partir do séc. XIV o número de olarias expande-se ao longo das vias que desembocavam na Porta de Banhos numa época em que a área urbanizada atinge os arredores da Igreja, hospedaria e convento de São Domingos, que durante quase um século se manteve isolada nos arrabaldes da área territorial da vila. Durante o período quinhentista , a mouraria ou os “bairros dos mouros”, estavam já consolidados integrando provavelmente a cerca almóada e a cerca nova, fruto da importância económica da produção de vasos e objectos de cerâmica da produção artesanal e oficinal das olarias dos mouros. Aliás esta expansão causou algumas disputas entre cristãos e mouros, quebrando a normalidade das relações de convivência que as duas comunidades mantinham desde os primeiros tempos da fundação da Vila de Elvas. Não podemos esquecer que os mouros de Elvas, gozavam de vários privilégios alguns dos quais como a isenção de portagem como reconhecimento do seu serviço prestado às hostes nacionais com armas e cavalos na guerra contra Castela. O Cemitério mourisco situado junto do adro da Igreja de S.Vicente já fora dos limites da cerca árabe e relativamente perto do Mosteiro de S. Domingos, foi palco de várias incidentes quando quase há mesma hora os cortejos funerários se cruzavam entre si. [Eurico Gama, 1930,pp.39 e 65). Todavia, a vasta área a sul situada entre a Porta de Banhos e a Porta de Badajoz, que na centúria de duzentos revelara-se produtiva na cultura agrícola do cereal amarelo, estava um século mais tarde ocupada pelos mouros, que era na prática a razão das dificuldades de relacionamento das duas comunidades, como se comprova nas alegações apresentadas pelos Procuradores de Elvas às Cortes de 1436. O monarca D. Duarte por carta régia, determinava que a solução fosse encontrada entre os juízes e os mouros da vila e que o novo “jazigo colectivo dos mouros”, “façam e que assignem logar convinhavel aos mouros em que façam seu adro.” O conflito em torno dos espaços ocupados pelos mouros ao longo da época de Trezentos manteve-se pelo menos até finais do séc. XV quando o almocovar primitivo e adjacente ao adro do Mosteiro de S .Domingos, foi trocado por um terreno exterior à cerca nova em más condições de habitabilidade e que determinou um recurso do alcaide dos mouros à Coroa, cuja resposta seria enviada ao concelho por carta régia de 14 Julho de 1464 na qual D. Afonso V “Somos certificados em como o chão que ora daes aos mouros d`essa vila, pêra fazerem seu almocovar, é pedregoso e pouco pertencente pêra semelhante cousa. E além de sermos d éllo assí certificado, estando nós em essa villa, e passando um dia por o dito chão, así nos pareceu como nos dito era”. [continua]
sábado, agosto 22, 2009
segunda-feira, agosto 17, 2009
1.11- Elvas Portuguesa:- As Judiarias no traçado da Vila de Elvas
Vivia-se uma nova era no plano vial e urbanístico da vila, a saída directa para exterior, a partir do castelo ou da alcáçova era uma realidade da época da reconquista como provam as várias ruas estruturantes dos séc. XIV e XV, as praças e os amplos terreiros crescem em ruas mais largas uniformemente em torno do traçado antigo. Mas o progressivo aumento demográfico que a Vila de Elvas conheceu até finais do séc. XV era também o resultado da presença e crescimento da comunidade judaica, uma realidade extensiva em toda a raia do Distrito de Portalegre onde a proliferação dos judeus foi evidente por duas causas bem determinadas: a prática comercial e o exílio evidente nos períodos em que a Inquisição Espanhola, mais violenta que a portuguesa determinava o refúgio clandestino em terras portuguesas. Em fins do séc. XIV a vila de Elvas tal como outras de fronteira como são os casos de Trancoso, Guarda e Castro Marim eram centros de atracção para esta população flutuante clandestina que no Alentejo crescia em torno de outros centros urbanos como: Estremoz, Vila Viçosa e Beja [Elucidário, II ,325].A referência documental da Judiaria de Elvas mais antiga que se conhece situa-se por volta de 1386, mas a sua existência será provavelmente anterior a meados do séc. XIV como as demais situadas na raia nacional. A sua localização é ainda hoje problemática, pois a documentação é escassa e imprecisa na sua informação, mesmo quando se tem em consideração a documentação da Chancelaria Régia ou os Processos da Inquisição de Évora, fundamentais na caracterização e identificação do perfil dos Judeus e Cristão Novos de Elvas. As outras questões que se formulam é se devemos falar da Judaria de Elvas ou da Judaria Nova, são aliás estas as designações que encontramos em algumas obras publicadas por historiadores locais e nacionais. Nesta perspectiva, a problemática situa-se na inserção da comunidade judaica no espaço e no tempo, assim se tivermos em consideração as ruas dos Mercadores, Sapateiros, Beatas e outras afins que se ligavam entre si em torno de um espaço exterior à Alcáçova como referem alguns investigadores locais, não estaremos a caracterizar a Judiaria de Elvas mas provavelmente a Judiaria Velha. Sendo assim a Judiaria Nova proposta por alguma bibliografia nacional com base numa tese académica, estava quase limitada ao exterior do espaço da Porta do Templo e que envolvia praticamente o bairro residencial da rua das Beatas … ? Assim e considerando as fontes possíveis, (as objectivas seriam as arqueológicas), registamos um documento do séc. XVI [ANTT, nº 8031, fls. 157-1258], que identifica a Rua Nova ou antiga Judiaria, situada na actual artéria do Alcamin, referindo ainda que muitos judeus continuavam a habitar aquela rua e que antigos descendentes de judeus tinham como residência moradas de casa, na Praça, na rua da Feira e junto das portas de Olivença e Évora. Ou seja, quando falamos da Judiaria de Elvas, devemos ter duas realidades distintas, a Judiaria Velha a norte da actual Praça da República centrada nas ruas onde situavam os principais ofícios artesanais e a Judiaria Nova, onde a prática mercantil e artesanal, marcava a vida económica na época fernandina. A certeza porém da existência de duas Judiarias na Vila de Elvas e uma outra em Vila Boim é simplesmente indiscutível quando o ofício das rendas da Judiaria de Elvas, no qual o alcaide mor Rui de Abreu, recebia as rendas das referidas comunidades das três Judiarias elvenses no valor de 113. 333 reais. [ ANTT, Livro, 28, fols.2]- Continua. sexta-feira, julho 31, 2009
quinta-feira, julho 30, 2009
UNESCO apresenta Biblioteca Digital Mundial
Notícias com História - A UNESCO apresentou recentemente um vasto fundo documental digital, que aquela instituição catalogou de Biblioteca Digital Mundial. Segundo informações prestadas pelo seu coordenador, Doutor Andelaziz Abib esta base digital pretende seleccionar as jóias que reflictam o génio humano das Culturas e das Civilizações. A página digital no presente momento está acessível a sete idiomas, mas o fundo documental está registado em mais de cinquenta idiomas. O material recolhido é tão diverso que nos permite consultar mapas do Novo Mundo, pinturas rupestres africanas desde 8.000 aC ou registos sonoros como a gravação da Marselhesa. Para a consulta na Web deverá utilizar o link ou simplesmente carregar no presente endereço electrónico: www.wdl.org/pt.
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quarta-feira, julho 29, 2009
1.10 - As principais ruas medievais segundo as fontes documentais da Alta Idade Média

Assim se a estrutura urbana foi crescendo e ampliando-se de um modo particular nos séc. XV e XVI, as principais ruas, ruelas ou becos, constituíram sem dúvida o núcleo a partir do qual a vila se organiza na segunda metade de Trezentos seguindo a tradição árabe na zona história. Das mais remotas destacam-se, a Rua dos Mercadores cuja denominação medieval é referenciada em todas as vilas e cidades medievais no caso da artéria elvense é datada para o ano de 1273 e foi das primeiras ruas a integrar o traçado da judaria velha em finais do séc. XV. Nas primeiras décadas do séc. XIV era referenciada com a denominação de Rua dos Açouges, considerando a descrição documental, que coloca esta via entre a Igreja Nova (Sé) e a do Salvador, tratava-se de uma área com tendência para a prática comercial, uma vez que a maior parte dos tendeiros que desenvolviam as suas actividades económicas desde 1274 pagavam foro aos seus proprietários residentes na freguesia de Santa Maria dos Açouges mais tarde da Alcaçova. Era nesta rua da vila de Elvas que em 1498 se situava “ uns acouges antigos, de tres naves, mui grandes, todos de cantaria, e são dos melhores do vosso reino”.[ Capítº dos procuradores do concelho de Elvas, nº26 . às Cortes de 1498]. No séc. XIV destacamos outras ruas de natureza económica como a Rua dos Hortelões de 1351, que nos permite afirmar sem grandes reservas que a existência de pequenas hortas era uma característica dos moradores da paróquia do Salvador. Aliás nos livros de registo de 1351, encontramos parcelas de vinha e olival de Estevão Annes, que pagava foro ao Prior de S.Bartomoleu d’ Alfange. Por outro lado e analisando a toponímica comprovamos que as actividade de natureza económica se encontravam representadas por uma série de ruas situadas na mesma freguesia, como a Rua do Ganço (1344) que mantém essa função económica na centúria seguinte, onde se localizavam os lagares da cidade na rua do mesmo nome, que se mantiveram até pelo menos finais do séc. XVI ou princípios do séc. XVII. Não menos importante na vida económica da cidade medieval era sem dúvida a Rua do Alcamim principal via da freguesia de Santa Maria de Alcácova, rua de moradores e almocreves com informação documental frequente desde segunda metade do séc. XIV, mas com importância económica desde o período árabe, como espaço provável de exploração de cereais nos limites da cerca árabe. De resto não devemos ignorar que o termo (qamh) era o termo geral empregue para o trigo e que hoje identifica várias ruas portuguesas registadas na toponímia portuguesa que utilizam o termo Alcamin como são os casos de: Vila Franca de Xira, Castelo Branco, Estoí (Faro) ou herdade de Alcamins – S.Matias (Évora). As ruas de carácter profissional como a dos Mercadores ou dos Sapateiros, que se identificam com a presença dos cristãos novos em Elvas, completam-se com a actividade profissional do ofício das armas, como a Rua dos Cavaleiros (1386) ou dos Quartéis (1580) . A primeira que António Thomaz Pires, identifica como sendo de natureza onomástica considerando a relação nominal da freguesia de S. Pedro, contudo a designação de cavaleiro é uma prática atribuído à função profissional dos ricos homens que no período medieval era extensiva aos herdadores de origem nobre ou não. Ainda na dimensão da cavalaria destaca-se uma das ruas mais tradicionais e populares dos tempos medievais, a Rua da Carreira (1587) verdadeiro espaço de lazer para a cavalaria local que aí fazia disputar os seus torneios no contexto da arte de bem cavalgar. Durante o séc. XV e XVI, surgem com mais evidência as ruas com denominações de nomes comuns e quase todas com moradas de casa, tal como a de: João Fangueiro (1494); Gonçalo Varela (1500) ; João Vaz de Pousada (1523) cavaleiro; João Preto (1505), identificado como mercador, Gil Ferreira (1535), João Paes (1547); Pessanhas (1559), de família nobre de origem genovesa que defendeu fervorosamente a União Ibérica; Heitor das Sillas (1571), Luís Mendes de Vasconcellos, da nobreza do reino, João Rico (1581), de origem judaica e reconhecido como Dr., exercendo a profissão de físico, Gaspar Gomes (1590); João Sotil (1592) , que na documentação do Cabido da Sé, designa a partir de 1597 esta artéria como a Rua da Sapataria Velha e dois anos mais tarde Rua de Olivença (1599) ou seja em todos os casos referimo-nos a uma ou mais artérias da Judaria Velha. Outras de tradição histórica desenvolveram-se até finais da Baixa Idade Média como a de João de Olivença (1543), cuja referência nominal herdou da antiga porta fernandina e nesta perspectiva trata-se de uma das ruas de denominação histórica mais antiga de Elvas quando se considera a pesquisa toponímica. As ruas direccionais praticamente não fazem parte da toponímica medieval como por exemplo a Rua de Santarém aberta ao público provavelmente em meados do séc. XIV e referida pela documentação com alguma frequência entre 1361 até finais do séc. XV nos livros de testamentários. A toponímica referente à Cristandade estava subjacente em todo o período medieval como são os casos dos ruas de São Lourenço (1387), S. Mamede (1477) , Travessa de S. Miguel (1536), S. Martinho (1597). Em finais do século XV , Portugal Medieval limitava-se a nove cidades que eram em simultâneo sedes de bispado por ordem alfabética: Braga, Coimbra, Évora, Guarda, Lamego, Porto, Silves e Viseu, mas vilas urbanas como Guimarães, Beja, Elvas , Lagos e Setúbal já superavam a demografia e o desenvolvimento económico das urbes nortenhas Lamego, Guarda e Viseu assim como a desenvolvida cidade do antigo Algarbe Andaluz, Silves. Postado Arlindo
sexta-feira, julho 24, 2009
1.9. Elvas Portuguesa - O limite urbano na primeira fase de fortificação da vila de Elvas
Primitivamente e considerando a reprodução do Castelo de Elvas segundo Duarte Armas, o modelo da primeira fortificação da vila de Elvas, era de inspiração quadrangular dos quais só encontramos cinco outros modelos tipo na época medieval, como são os casos de Penha Garcia, Sabugal, Almeida, Alpalhão e Castro Marim. Com excepção dos castelos de Sabugal e de Alpalhão, tinham em comum a sua posição estratégica como fortificações de primeira linha. Trata-se inicialmente de uma pequena fortificação não ultrapassando os 200 metros de extensão e com panos de muralha que não atingiam uma altura superior aos 10 metros. No século XIII, o monarca D. Dinis introduziu à construção inicial um conjunto de inovações defensivas e construtivas ao nível dos torreões, abobadamentos e matacães. Na centúria seguinte e desde 1361, o espaço acastelado estava limitado por uma cava, espécie de escavação semelhante a um fosso que circundava provavelmente parte do castelo numa época em que a barbacã (espécie de barreira ou obstáculo) cobria as áreas mais sensíveis do espaço fortificado, nomeadamente da alcáçova e prolongando-se pelas portas dos Mártires, dos Banhos e de S. Francisco. Ou seja, o castelo da reconquista cristã estava então inserido num espaço mais amplo e fortificado e que correspondia a grande cerca fernandina iniciada pelo monarca D. Afonso IV .Todavia o ciclo das inovações específicas do castelo gótico, como o caso da Torre de Menagem do Castelo de Elvas datada de 1488, era edificada na posição de canto e adossada à própria muralha e não como era tradicional nos castelos românicos no centro isoladas das muralhas, a nova posição favorecia a generalização de sistemas de tiro vertical. Os matacães foram outra inovação gótica, espécie de aberturas que permitiam o despejo de projécteis destinados a bater o embasamento das torres e o acesso às portas. Ainda durante a baixa Idade Média assistiu-se a edificação da Torre Hexagonal e a cisterna na fase de transição para a “guerra de fogo” ou pirobalística. Mas o plano defensivo da vila de Elvas, estava traçado e sinalizado com as suas vinte e duas torres, mantendo - se quase sem transformações durante quase as duas primeiras centúrias da Época Moderna. O aglomerado populacional da vila e mais tarde cidade, no séc. XVI e na primeira metade do séc. XVII, concentravam-se inicialmente em torno da segunda cintura árabe já incapaz de manter uma população em franco crescimento, que no séc. XIV e XV crescia em torno das vias que desembocavam na Porta Real ou Olivença, para este e oeste da mesma. Ainda que as casas construídas em tijolo e cal, com traves e tabuados de madeira e telha, situadas no termo da Rua de S. Francisco se confrontavam a norte e a sul com áreas baldias, pomares, hortas e mesmo com algumas plantações de olivais. No início de quinhentos o casario e as novas ruas proliferavam em torno dos eixos das vias que se articulavam com as onze portas medievais: Porta de Banhos, de Badajoz, Mártires, Olivença, Évora, S. Pedro, S. Francisco, Enforcados, S. Martinho, Templo e Hospital. E o espaço não ocupado pela presença humana limitava-se a um conjunto de propriedades ou parcelas de terras em torno da Igreja, convento e mosteiro de São Domingos. (Continua – Postado Arlindo Sena). segunda-feira, julho 20, 2009
1.8.Elvas Portuguesa. A defesa e as primeiras obras materiais
Mas a defesa do reino continuava a ser uma prioridade da Coroa portuguesa, mesmo quando algumas povoações e localidades apresentavam já um franco desenvolvimento. Como tal na paisagem natural do território nacional e em especial no litoral e na linha de fronteira de Norte para sul, era interrompida pelos solares e pelos castelos edificados no cimo dos montes e das colinas, protegendo as zonas e áreas mais sensíveis a qualquer invasão de terra ou mar que fosse uma ameaça à soberania nacional. Em muitos casos como o de Elvas, essas colinas correspondiam a zonas de ocupadas desde a Idade do Ferro, como foi o Castro de Vitória onde se implantou o primeiro centro administrativo ou militar o castelo medieval. Numa época que a sua disposição no espaço pretendia a médio ou mesmo longo prazo, estabelecer uma rede de castelos articulados em redes locais, regionais ou mesmo nacionais, de forma a melhor cumprirem a primeira das suas funções. De facto, a política de fortificação da raia só é visível, constante e programática desde finais do séc. XIII quando o monarca D. Dinis não só reforça a primeira linha de castelos de fronteira como também é neste período que existe uma estratégia declarada de fortalecer o espaço do território português, recentemente reconhecido pelo Tratado de Alcanices. Todavia não podemos ignorar, que as décadas que decorrem após a assinatura do referido tratado são de paz permanente, considerando que o referido diploma também estabelecia um longa trégua de quarenta anos em que os monarcas de Portugal e Castela deviam ser “verdadeiros amigos de amigos e inimigos de inimigos”. Assim se em finais do séc. XIII, a zona nevrálgica da Beira estava já consolidada, o mesmo não se observava em certas áreas do Alentejo, como Arronches , Ouguela e alguns castelos do Guadiana, mesmo tratando-se de fortificações de primeira linha. Na verdade a proliferação de documentação sobre o reforço da linha dos castelos de raia Alentejana só é visível e constante ao longo do período de 1350-1450, numa época em que ameaça à soberania nacional era evidente e constante. Em Elvas esse período foi vivido com apreensão pelos responsáveis pelos poderes públicos e uma vez que era necessário reforçar as estruturas e adaptá-las à inovação da guerra, considerando que as últimas modificações introduzidas na época pelo alcaide - mor Álvaro Pereira como sejam as torres de menagem, os torreões e os matacães só por si não garantiam a modernidade do castelo gótico face às novas ameaças da guerra. As queixas dos vizinhos e moradores de Elvas ao rei no tempo do Alcaide Álvaro Pereira, sucediam-se como a revindicação de uma “adua para a cava de Elvas”, necessária para a protecção das operações de cerco, chegava à corte em 16 de Julho de 1361. Dezassete anos depois, o alcaide - mor Gonçalo de Martins, observava a velha muralha remodelada pelo monarca D.Dinis, com apreensão de tal forma que a nova cerca foi edificada por iniciativa dos habitantes de Elvas, a partir de uma taxa de 140 soldos que não incluía os "carretos de cal e as braças de pedra”, considerando que apesar da documentação referenciar o conhecimento de D. Afonso IV não existe qualquer indicação documental sobre o seu "patrocínio". Os preparativos para guerra reforçaram as condições de fortificação do Castelo de Elvas, mas ao longo do século XIV e XV, novas aspirações tinham os moradores que encontravam no castelo tardo - gótico a sua protecção para os constantes assédios que destruíam as culturas e a dieta alimentar da população, de resto uma constante na época Medieval e Moderna. Num período em que as caravelas sulcavam pela Costa Ocidental Africana, os representantes de Elvas às Cortes de Lisboa de 1448 e o alcaide-mor da nobre vila de Elvas, D. Jaime, filho de D. Pedro , davam conhecimento às cortes da construção de uma Barbacã (uma barreira interior) , que teria sido construída entre 1443/1447 ?, sem conhecimento régio, pelo anterior alcaide-mor, Diogo Lopes de Sousa (1443-1448) que voltava a repor a defesa do castelo uma vez que a antiga barbacã teria sido mandada destruir pelo Mestre de Avis como forma de permitir a rendição do Castelo quando Fernando Álvares Pereira, então alcaide do castelo negociava a entrega de Elvas a D. Beatriz de Castela, durante a Guerra da Independência. As últimas obras de reforço de muros e dos castelos tardo-góticos do Alentejo datam de carta régia de 27 de Janeiro de 1443, beneficiando as povoações de Castelo Vide, Marvão, Elvas, Alandroal, Terena , Noudar e Mértola, no caso de Elvas há considerar a doação da quantia de 3.000 reais para a reparação das obras Castelo que foram entre entregues ao mestre ou responsável da obras (?) , Gonçalo Martins de Fonte de Alva (Continua). Postado por Arlindo Sena sábado, julho 18, 2009
A Apolo XI e a exploração lunar.

Efemérides da Memória: Nos primeiros dias do mês de Julho de 1969 – faz agora 40 anos – uma enorme multidão convergia para a costa Oriental da Florida, na ponta Sueste dos Estados Unidos da América, de repente transformada em Babel do Mundo Novo. No reduzido território de Cocoa Beach, Rockledge, Sharpes e outras soalheiras localidades de veraneio próximo de Cabo Canaveral – então chamado de Cabo Kennedy, nome que ostentou entre 1963 e 1973 – estava concentrado no dia 10 mais de um milhão de pessoas, incluindo 5 mil VIPS e 3 mil jornalistas provenientes de todo o mundo [Almeida Martins, 1969, Odisseia no espaço, in História - 2009, p.23]. Vivia-se em plena Guerra Fria e a conquista do espaço era apenas um vector da política imperialista dos Estados Unidos e da União Soviética, para os norte americanos o grande objectivo para a década de 1960 encontra-se registado no seu discurso no Congresso em 25 de Maio de 1961, quando Jonh F. Kennedy defendeu: “Primeiro, acredito que esta nação se deve compreender no objectivo de, antes do fim da década, colocar um homem na Lua e fazê-lo regressar, em segurança, à Terra. Nesta altura nenhum programa espacial será mais impressionante aos olhos da Humanidade, ou mais importante na longa exploração do espaço… .” O objectivo concretizou-se com a missão da Apolo XI com o lançamento do foguetão Saturno que transportava o Módulo de Expedição Lunar – LEM, tripulado por Michael Collins ( o único que ficaria na cápsula durante a exploração lunar e autor do logótipo da missão Apolo 11), Neil Armstrong e Edwin Aldrin, às 8 horas e 32 minutos, hora local, do dia 16 de Julho. Ao fim de 2 minutos e 27s, a missão encontrava-se já a cerca de 185 km da Terra. Por volta das 11 horas, 16 minutos e 16 segundos, após uma volta e meia à Terra a Apolo deixa a órbita da Terra. As horas seguintes são marcadas por acertos de trajectória e navegação que percorre os dias seguintes até às 12 horas, 21 minutos e 50 segundos, do dia 19 de Julho, quando a tripulação muda para o Módulo de Expedição Lunar, que fará o processo de alunagem que permitiu a Louis Armstrong no dia 20 de Julho ser o primeiro ser humano a dar o primeiro passo na Lua. A 24 de Julho, às 11 horas, 50 minutos e 35 segundos, termina a Odesseia no espaço com a amaragem no Pacífico junto às ilhas de Havai. O regresso ao satélite mais perto ocorreria em mais três ocasiões em 1969, 1971 e 1972. Na última dos quais foi batido o recorde de permanência pela equipa, Eugene Cernan, Harrison Shmit e Ronald Evans com a estada de 74 horas e 59 minutos na superfície lunar. Postado por Arlindo Sena
quinta-feira, julho 16, 2009
1.7.Elvas Portuguesa. A noção júridica do espaço e a sua organização .

A partir de meados do séc. XIII, a vila de Elvas inseria-se na organização territorial do reino português, no conjunto das terras ou territórios, que se foram criando, colonizando e povoando de Norte para Sul segundo a densidade demográfica e os avanços da própria reconquista cristã. Como exemplos de terras medievais na aurora do novo estado citamos: a) No Minho: Nóbrega, Basto, Lanhoso, Ponte Lima, Baião, Sousa, Bouro, Neiva, Maia. B) Em Trás-os-Montes: Barroso, Panóias, Miranda,Aguiar, Lampaças, Bragança, Chaves, Montenegro, Vinhais, Ledra e Vilariça: c) Na Beira e Estremadura: Trancoso, Seia, Gouveia, Sul, Lafões, Ávila, Lamego, Covilhã, Viseu, Guarda, Moção, Paiva, Traserra e Santa Maria e a Sul do Tejo: Portalegre, Elvas e Évora. Era contudo a Norte do Tejo, que se situavam os núcleos mais importantes da aristocracia medieval portuguesa, os Coutos e as Honras eram áreas inumes, as primeiras detidas por eclesiásticos e as segundas por nobres. Não se encontravam sujeitas à tributação e fiscalização e justiças régias, e nelas se vedava o acesso aos oficiais e a agentes dos monarcas. Os Coutos e as Honras predominavam a Norte do Douro, ainda que as terras sobre jurisdição eclesiásticas fossem visíveis em Trás-os-Montes e nas Beiras. Nas terras do Sul, com excepção de certas áreas territoriais como era o caso dos reguengos que o soberano reservava para si, o exercício da organização territorial estava a cargo de autoridades amovíveis, de nomeação régia, exercitando competências sobretudo de administração militar e civil, e inclusive de carácter judicial, em directa representação do soberano. Tais magistrados eram invariavelmente ricos - homens, o estrato mais proeminente da nobreza medieva. Que na Vila de Elvas, encontrava no alcaide-mor o mais alto representante da coroa, cuja primeira geração não provém das elites da aristocracia portuguesa pelo menos até a época de Trezentos. Por outro lado, não temos quaisquer dúvidas em assinalar esta personagem administrativa como um dos agentes centrais do processo de povoamento e defesa da vila raiana na primeira centúria da sua existência, uma vez que a sua intervenção na mediação das doações régias está deveras documentada e ultrapassa as meras funções de administração do castelo na guerra e na paz. Gonçalo Martins, por carta régia de 26 de Dezembro de 1230, tornou-se o primeiro dos trinta e cinco alcaides que a vila conheceu segundo a documentação até 1820? [Continua]. Postado por Arlindo Sena.
terça-feira, julho 14, 2009
Entre o mito e a realidade ...
Notícias da Memória: - O célebre assassino londrino, Jack O “Estripador” que matou cinco prostitutas em 1888 e que jamais foi referenciado ainda hoje sustenta algumas hipóteses e dúvidas sobre a sua identidade. De referir que ao longo da investigação policial dos seus crimes, foram identificados cerca de 175 suspeitos sem que as autoridades policiais tenham chegado a qualquer conclusão. O último suspeito identificado como tal, foi o pintor impressionista Walter Richard Sickert, segundo uma hipótese lançada pela escritora Patricia Cornwell na sua obra “Retrato de um assassino -2003”. Agora a historiador norte-americano, Andrew Cook volta a estudar esta personagem enigmática com a apresentação da sua obra o “Caso Cerrado”. Que segundo o referido historiador, os cinco crimes que abalou a capital inglesa, não foi cometido pelo mesmo indivíduo e que tal cenário foi inventado pelo jornal Star ainda que as investigações policiais estavam longe de concluídas. Andrew Cook, sustenta a sua tese a partir da tiragem extraordinária de 230.000 exemplares que o caso suscitou na opinião pública e da falsa carta dirigida ao jorrnal, que segundo o historiador norte-americano foi escrita por Frederick Best um repórter do Star. A pergunta que hoje se formula e se Jack Estripador, existiu mesmo. Postado por Arlindo Sena1.6. -Elvas Portuguesa. O povoamento e as actividades comerciais
domingo, julho 12, 2009
1.5 - Elvas Portuguesa - O povoamento e os recursos económicos.
Após dois séculos de povoamento da vila de Elvas, a paisagem agrícola era ainda natural e selvagem, constituída por brenhas de urzes, giestas, medronheiros e muitas heras. E, em grande parte, composta por bosques de sobreiros, azinheiras e pinheiros mansos. Nas últimas décadas do séc. XIII, o centeio, a cevada e a aveia preenchiam os campos de cultivo e a sua plantação fazia-se sobretudo em pleno inverno, de resto a mistura dos cereais era então usual como forma de obter o pão. Na época de Trezentos e pelo estudo do rol de propriedades podemos afirmar que as searas, as vinhas e os olivais, marcaram os primeiros recursos agrícolas da vila nova criada por D. Sancho II. Mas a importância da produção cerealífera é mais evidente nos séc. XIV e XV, uma vez que a documentação refere ainda o milho painço e a aveia, como produções agrícolas que integravam a dieta alimentar da população e dos gados, que eram exploradas no termo de Elvas onde se situavam os moinhos e as atafonas. Não faltava o azeite, o vinho e o vinagre. O foral Manuelino, testemunha a riqueza da produção pecuária identificando a existência de bois, ovelhas, cabritos, gamos, cervos, porcos, cavalos, mulas, galináceos e perus. Permitindo ao mesmo tempo a exploração de produtos derivados como o leite, o queijo e o mel. [O “gado ao vento” isto é, encontrado sem pastor ou proprietário era de direito real determinando que a sua existência fosse conhecida das autoridades como forma de identificação. Se tal não se verificasse era considerado furto]. Mas a dieta alimentar do elvense medieval integrava não só a carne, o leite, o mel, os ovos, mas também as hortaliças, os alhos secos, as cebolas, a fruta [as castanhas, as ameixas, figas, uvas, laranjas, cidra e melões] , etc … O que nos permite aceitar a existência de pomares e de granjas nas herdades elvenses, mas com as devidas reservas em função da documentação coeva, que não menciona essas formas de exploração económica. Nas actividades manufactureiras, a existência dos artesões ou mais exactamente dos mesteirais está identificada desde a fundação de Elvas, como era o caso dos Oleiros que estavam isentos de portagem, a menos que se tratasse de louça de barro vidrada ou não. Os ferreiros trabalhavam o ferro maçudo ou moído, os latoeiros concebiam os seus objectos e recipientes para uso doméstico, em latão , cobre e estanho e tinham como concorrentes os marceneiros que fabricavam louças de pau e outros equipamentos domésticos como arcas e tonéis. E por último não podemos deixar de referenciar os curtidores que fabricavam as peles com a aplicação na confecção do vestuário. Os sapateiros, os tecelões e os pescadores (de àgua doce) uma vez que as outras espécies eram exteriores ao concelho, eram outras actividades mesteirais que marcaram o quotidiano medieval da vila de Elvas. Postado por Arlindo Sena sexta-feira, julho 10, 2009
1.4. -Elvas Portuguesa - O povoamento e a propriedade laica
De facto, as cartas de doação ao longo dos séc. XIII, XIV e XV, beneficiaram de uma forma particular, os grupos sociais privilegiados nomeadamente alguns nobres terratenentes como era o caso particular de D. João de Aboim, alguns ricos homens que tal como uma aristocracia funcionalista se foram fixando em terras do Caia. Na verdade, este último grupo de funcionários régios, acabaram por beneficiar das doações frequentes da Coroa que ocorreram ao longo da segunda metade do séc. XIII, em termos de quantidade e qualidade das áreas a “colonizar”. É nesta perspectiva que podemos identificar uma série de doações a alguns senhores da corte, como por exemplo a localidade de Barbacena, a D.Estevão Annes que era então apenas o chanceler del-rei D. Afonso III, na documentação podemos ler: “Concebo et confirmo vobis Stephano, dilecto ac fideli meo cancellario, pró muito bono et fideli serviço, quod mihi a longis retro temporibis fecistis, hereditadem meam de Barvacena, qui est in termino de Elvis, quam vabis concilium de Elvis, per meum consensum dedit”. Aliás a distribuição de terras por um núcleo mais vasto de aristocratas em terras do concelho de Elvas só é evidente a partir do século XV quando é possível identificar um maior número de grandes proprietários constituídos pelos diversos membros das famílias: Pessanha, Barbudo, Pegado, Segurado, os Melo entre outros, cuja posse fundiária identificava-se com a herdade e não como a quintã, propriedade característica na região Entre -Douro e Minho e que de certo modo corresponde à realidade regional alentejana. No caso das grandes herdades doadas a D. João de Aboim ou a D. Estevão Annes, trata-se de grandes domínios fundiários cuja finalidade de ocupação e colonização, mobilizou um conjunto de “povoadores” que permitiram a fixação de numerosos famílias nessas propriedades cuja dinamização contribui para a sua evolução do ponto vista jurídico, tornando-se vilas como a de Elvas geradora da fixação, povoamento e colonização das áreas agrícolas envolventes e com potencialidades agrícolas. No caso, da herdade de Barbacena em cerca de dezassete anos o seu estatuto jurídico evolui de um estatuto privado a público, como resultado exclusivo da sua dinamização económica, uma vez que entre os moradores de Barbacena identificava-se as mais variadas profissões nomeadamente os cavaleiros e escudeiros, mas também os almotacés, os mercadores, os pescadores e os homens de fora vinham com frequência nomeadamente para a venda de azeite. Outra forma de ocupação, povoamento e exploração económica do concelho de Elvas, foi feita através do aforamento de bens variados da Coroa, da Igreja e da aristocracia de posse, tratava-se de bens materiais como casas e tendas normalmente propriedades da igreja, as paróquias do Salvador e de Santa Maria eram os principais proprietários deste tipo de imóveis. Ou mais corrente, terrenos, courelas, de reguengos (terras régias) na primeira centúria da existência da vila de Elvas. Durante o século XIV e fruto de uma maior dinamização económica e aumento do espaço desbravado, aumenta o número de aforamentos com fins exclusivamente agrícolas feita por casais e por duas ou três vidas, como as herdades, mas sobretudo de propriedades de olival e de vinha que disputam os campos de cereal que marcam as primeiros arroteamentos no solo elvense(continua). Postado Arlindo Sena quinta-feira, julho 09, 2009
1.3 - Elvas Portuguesa - O Povoamento e o papel das ordens religiosas
Todavia esta política da Coroa favorecendo a instalação das ordens religio
sas no território, recém conquistado justificava-se no âmbito da organização económica das novas vilas portuguesas. E o facto de algumas propriedades pertencerem às ordens de Alcobaça e de S. Domingos denunciam essa estratégia da Coroa Portuguesa. No caso, dos domínios pertencentes à Ordem de Alcobaça, as já referidas herdades situavam-se fora do seu couto, mas a sua importância na economia do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça não nos parece que eram pouco significativas se considerarmos que durante o período medieval, a documentação refere várias deslocações dos funcionários da Ordem às terras do Alto Alentejo, nomeadamente a Avis e a Elvas. O que se compreende uma vez que no domínio alcobacense que se situava entre a região de S. Pedro e a Lourinhã e para o interior entre a Serra dos Candeeiros e Rio Maior, os monges exerciam não só exerciam a sua autoridade, como cobravam impostos e detinham o monopólio da vida económica. Os cereais e azeite, foram provavelmente as culturas que marcaram a exploração económica nas terras do Sul de Portugal, de uma instituição religiosa que não desprezava o labor económico. Mas se a Ordem de Alcobaça, foi fundamental no povoamento do Centro do País e uma verdadeira escola para as actividades agrícolas e outras anexas, a Ordem de São Domingos que se radica em Elvas após meio século de vida em Portugal considerando a sua origem no sul de França (Toulose), acabará por ter uma acção significativa na vida económica e social da vila elvense, considerando a sua vocação para a clausura, não impediu a sua aproximação com a realidade terrena e com os fiéis na sua obra de salvação das almas cristãs. A presença da Ordem de S. Domingos em Elvas foi marcada pelo facto curioso de a Coroa, conceder duas cartas régias quase consecutivas para a doação de um terreno a referida ordem mendicante para a construção de um mosteiro, uma datada de 16 de Março de 1266 e outra de 1 de Maio de 1268. O certo é que os monges já exerciam funções de culto na Ermida de Santa Maria dos Mártires desde 1867 por carta régia de 20 de Fevereiro de 1267. E o seu património material foi aumentado significativamente por várias doações de particulares que percorrem o século XIV e XV, tais como: a herdade de Alvernaz (Caia) de Dona Margarida Aires ou a herdade de Segóvia de Dona Margarida Vaz. Ou outras doações, como a doação de peças de pratas ou numerário, como por exemplo, as 1.000 dobrais que foram determinantes para as primeiras obras das naves da igreja de S. Domingos em 5 de Fevereiro de 1349. Para além das dádivas dos féis e dos viajantes que passavam pela sua hospedaria, contava-se algumas receitas provenientes da exploração de algumas propriedades e parcelas de olival. Todavia numa época de organização, estruturação e povoamento da vila de Elvas, o papel das ordens religiosas não foi tão dinâmico como no Norte e Centro do País, do ponto vista da exploração económica quando se compara com a acção de povoamento da primeira nobreza de Portugal que por terras da raia se fixou(Continua). Postado por Arlindo Sena
sas no território, recém conquistado justificava-se no âmbito da organização económica das novas vilas portuguesas. E o facto de algumas propriedades pertencerem às ordens de Alcobaça e de S. Domingos denunciam essa estratégia da Coroa Portuguesa. No caso, dos domínios pertencentes à Ordem de Alcobaça, as já referidas herdades situavam-se fora do seu couto, mas a sua importância na economia do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça não nos parece que eram pouco significativas se considerarmos que durante o período medieval, a documentação refere várias deslocações dos funcionários da Ordem às terras do Alto Alentejo, nomeadamente a Avis e a Elvas. O que se compreende uma vez que no domínio alcobacense que se situava entre a região de S. Pedro e a Lourinhã e para o interior entre a Serra dos Candeeiros e Rio Maior, os monges exerciam não só exerciam a sua autoridade, como cobravam impostos e detinham o monopólio da vida económica. Os cereais e azeite, foram provavelmente as culturas que marcaram a exploração económica nas terras do Sul de Portugal, de uma instituição religiosa que não desprezava o labor económico. Mas se a Ordem de Alcobaça, foi fundamental no povoamento do Centro do País e uma verdadeira escola para as actividades agrícolas e outras anexas, a Ordem de São Domingos que se radica em Elvas após meio século de vida em Portugal considerando a sua origem no sul de França (Toulose), acabará por ter uma acção significativa na vida económica e social da vila elvense, considerando a sua vocação para a clausura, não impediu a sua aproximação com a realidade terrena e com os fiéis na sua obra de salvação das almas cristãs. A presença da Ordem de S. Domingos em Elvas foi marcada pelo facto curioso de a Coroa, conceder duas cartas régias quase consecutivas para a doação de um terreno a referida ordem mendicante para a construção de um mosteiro, uma datada de 16 de Março de 1266 e outra de 1 de Maio de 1268. O certo é que os monges já exerciam funções de culto na Ermida de Santa Maria dos Mártires desde 1867 por carta régia de 20 de Fevereiro de 1267. E o seu património material foi aumentado significativamente por várias doações de particulares que percorrem o século XIV e XV, tais como: a herdade de Alvernaz (Caia) de Dona Margarida Aires ou a herdade de Segóvia de Dona Margarida Vaz. Ou outras doações, como a doação de peças de pratas ou numerário, como por exemplo, as 1.000 dobrais que foram determinantes para as primeiras obras das naves da igreja de S. Domingos em 5 de Fevereiro de 1349. Para além das dádivas dos féis e dos viajantes que passavam pela sua hospedaria, contava-se algumas receitas provenientes da exploração de algumas propriedades e parcelas de olival. Todavia numa época de organização, estruturação e povoamento da vila de Elvas, o papel das ordens religiosas não foi tão dinâmico como no Norte e Centro do País, do ponto vista da exploração económica quando se compara com a acção de povoamento da primeira nobreza de Portugal que por terras da raia se fixou(Continua). Postado por Arlindo Sena quinta-feira, julho 02, 2009
1.2. Elvas Portuguesa - A reconquista e o povoamento.
A Carta foral, concedida a Elvas em Março de 1229, como primeiro documento orientador da história administrativa da vila recentemente conquistada, tinha uma finalidade bem determinada “ povoar Elvas que havia conquistado aos Serracenos”. O que se compreende no contexto, de que a nova vila portuguesa era então o posto mais avançado a Sul do Tejo e a partir de então substituía em definitivo a posição de Évora como base para as campanhas militares que ocorriam em terras de fronteira. Com a Carta Foral, estavam criadas para o reforço dos efectivos populacionais uma vez que a população cristã, na maioria moçárabe só por si não era capaz de manter o espaço recentemente conquistado pela Coroa portuguesa. E criava-se ao mesmo tempo um conjunto de obrigações e de benefícios favoráveis para a normalidade da vida concelhia, já que este diploma fixava os impostos a pagar, as composições e multas a impor aos delinquentes, assim como privilégios e encargos a uma comunidade em formação e diversificada de cavaleiros vilãos, vizinhos, homens de fora, judeus, mouros, etc. Igualmente fundamental na vida da vila de Elvas nos séculos XIII, XIV e XV, foram sem dúvida a presença das ordens religiosas em solo elvense, que dividiam a propriedade com os cavaleiros vilões que eram os detentores das maiores fortunas individuais, aqueles de que em grande parte dependia a segurança da comunidade em caso de ataque militar e, finalmente, como resultado de tudo isto, aqueles que monopolizavam e perpetuavam num grupo fechado as magistraturas da administração local. Todavia, há que referir que sendo Elvas o concelho urbano medieval que em termos de contribuição militar era dos mais importantes da fronteira do Sul de Portugal com cerca de 50 a 80 besteiros efectivos nas tropas do alcaide, segundo o rol de besteiros de conto de 1422, não foi durante a reconquista uma “base” para as ordens religiosas - militares, assim para além do interesse espiritual foi sobretudo a função económica que caracterizou a igreja na região nos princípios da nacionalidade. De facto oito anos, após a primeira carta de doação a um nobre, surgem uma sucessão de cartas régias em favor de duas ordens religiosas fundamentais na vida económica da vila, a Ordem da Alcobaça e de S. Domingos, em ambos os casos, a sua acção está relacionada com a exploração económico, no caso da Ordem de Alcobaça que recebe da coroa as herdades da Fonte Ensossa e Mata da Alcavariça e outros bens fora do seu termo, para José Mattoso afirma mesmo que o modelo de exploração da dita ordem seguia um modelo de uma verdadeira empresa agrícola. No caso, da Ordem de São Domingos a sua implantação na vila de Elvas era uma consequência da vontade régia que por carta régia[1] concede uma série de privilégios desde a concessão de um espaço para a edificação do seu mosteiro ainda antes da licença eclesiástica do Bispo de Évora para a fundação da referida edificação como sede da Ordem que então desenvolvia as acções e o culto religioso na Ermida de Santa Marta dos Mártires. (Continua)1.1. Elvas Portuguesa - A reconquista cristã e o povoamento

História Local - Nas duas décadas seguintes de 1230 e 1240, a presença portuguesa na fronteira continuava marcada pelo estado de guerra e em especial na raia do distrito de Portalegre, de facto Marvão e Elvas eram terras ocupadas num período em que as preocupações de domínio do Alto Alentejo passavam necessariamente pela conquista de Alter do Chão que era então a povoação mais importante a conquistar no eixo entre Marvão, Crato e Elvas, já então terras da coroa portuguesa. Aliás, após a tomada de Alter do Chão (1232) , a reconquista avança para as terras da margem sul do Guadiana as hostes nacionais consolidam com a ocupação de Mértola (1238) e no início da década de 1240, caem os primeiros castelos sarracenos do Algarve. A crise política de 1245 e a guerra civil de 1246 a 1248, que abalaram a estrutura administrativa do novo reino e condicionou, o ritmo da organização dos espaços fronteiriços, uma vez ultrapassada, estavam criadas as condições para o início do povoamento e exploração económica das terras da planície e do sul de Portugal. A análise da documentação régia e das cartas de doação, demonstram que a prioridade da consolidação das terras conquistadas, tornam-se uma realidade a partir de meados do séc. XIII, numa época em que novos grupos de povoadores que se deslocam das terras a Sul da região Entre Douro e Minho, não são os ricos homens que acompanharam o monarca na conquista de Elvas e do Marvão, como foram os casos das famílias de Pires Lumiares, Mendes de Sousa, Pires de Maia , Pais de Valadares ou Afonso de Baião. De facto os primeiros povoadores do concelho de Elvas, na sua maioria, não se identificam com a nobreza de Portugal ou melhor com os ricos homens da corte lusitana, embora encontramos figuras distintas da aristocracia como D. João de Aboim, senhor de Vila Boim próximo da figura do Bispo de Évora ou outros nomes de referência da vila elvense, como o Chanceler Estevão Annes ou Rodrigues Peres Cebola, comendador que tal como a maioria da população são servidores da coroa ou “criados del rei” como se observa nas cartas régias da época. Na verdade à medida que o avanço da reconquista se desenvolve em terras algarvias, estes “cavaleiros vilões” outrora mobilizados para o serviço de hoste e para as consequentes devastações da guerra, não só estão mobilizados para a produção de bens de consumo como também para a vida concelhia e espiritual, considerando que a carta foral e a fé Cristã, serão os princípios orientadores da vila de Elvas consagrada pela carta foral (continua). Postado por Arlindo Sena
terça-feira, junho 30, 2009
Elvas Portuguesa - 1. A reconquista cristã
História Local - A conquista de Elvas, na História Portuguesa deve ser entendida como resultado de um movimento mais vasto, a Reconquista Cristã que se caracterizou por um conjunto de campanhas militares dirigidas pelos reinos cristãos da Península Ibérica contra os Muçulmanos, que a invadiram em 711. Esse movimento iniciado em 718-722, a partir de um pequeno reino das Astúrias, conheceu várias fases, caracterizadas por avanços e recuos e que culminou com a conquista do reino mouro de Granada. De resto, o reconhecimento de Portugal pela Santa Sé como território soberano é uma das consequências directas do próprio movimento da reconquista, considerando a Bula Manifestis Probatum, de 23 de Maio de 1179, concedida pelo Papa Alexandre a D. Afonso Henriques “ … sob protecção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com auxílio da graça celeste arrancaste às mãos dos sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos vizinhos príncipes cristãos”. Todavia, ainda antes de Portugal ser reconhecido pela Santa Sé, já D. Afonso Henriques entrara na conquista da planície e o seu domínio não consolidado se estendia até a actual, cidade de Cáceres, incluindo o domínio de uma faixa de território que regista os territórios onde se insere as actuais cidades de Elvas e Badajoz pelo menos desde 1168. Porém não existe qualquer referência documental à conquista de tais castelos, no caso de Évora e de Elvas, após a consolidação da conquista da Linha do Tejo, que era uma prioridade das hostes cristãos, mas o cronista régio, António Brandão apenas refere a acção de Geraldo Sem Pavor que conquistara Évora em 1165 e os assédios a Badajoz no mesmo ano e em 1168, não havendo referência a Elvas. Por outro lado, as campanhas do Rei de Leão e do soldado aventureiro, Geraldo Sem Pavor em direcção a Badajoz eram feitos directamente de Évora ou então a partir da Juromenha pelo menos desde 1169, na verdade a consolidação da Linha do Tejo só se torna evidente com a tomada de Cáceres em 1226 e de Badajoz em 1227. Assim o avanço das forças leonesas a partir das terras a norte de Cáceres e portuguesas a partir de Évora em torno da conquista de Badajoz, acabaram por ser decisiva na ocupação e depois conquista de Elvas, de facto o reconhecimento e tentativa de conquista de Elvas na Primavera ou Verão de 1226 não foi coroada de êxito tal como o cerco de Badajoz gizado pelos dois soberanos ibéricos segundo a Crónica Latina dos Reis de Castela. Contudo a notícia do insucesso em Elvas segundo algumas fontes, contribuiu para um clima de conspiração para afastar do trono D. Sancho II em favor do seu irmão, um jovem de 14 anos. Mas as campanhas em terras de fronteira continuaram no ano seguinte com as entradas triunfais de D. Afonso IX de Leão em Cáceres e do infante português Pedro Sanches em Mérida. A expedição a Elvas em 1229, sob comando de D. Sancho II com o apoio das melhores famílias dos ricos homens do reino e de vários prelados, seria coroado de êxito por abandono da população da cidade que se torna portuguesa por carta foral de 1229 (Continua) –
domingo, junho 28, 2009
Cidade Velha - Cabo Verde - Património Mundial
Património em Notícia: O processo de candidatura da Cidade Velha, situada a 15 quilómetros a oeste da Cidade da Praia e primeira capital de Cabo Verde, foi motivo de análise e aprovação pelo comité da UNESCO para o Património Mundial, em reunião do passado dia 22, na cidade de Sevilha e que determinou a sua homologação no dia de ontem, 28 de Junho de 2009. A classificação do referido bem patrimonial incorpora a chamada Cidade Velha ( no qual se destaca um pelourinho com coluna torça e com acesso por escada, seguindo os modelos do século XVI, hoje visíveis em Elvas e no Funchal) e o Forte Real de São Filipe.E é o resultado de uma notável intervenção da equipa coordenada pelo nosso mais representativo arquitecto português, Siza Vieira, que coordenou a equipa que em 1999, iniciou a intervenção de conservação e restauro da Fortaleza Real de São Filipe, num processo integrado que atingiu a excelência no plano da recuperação da Cidade Velha. De realçar ainda que todo este processo de restauro e conservação foi financiada pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional. O que se deve compreende uma vez que esta antiga fortificação portuguesa, a Fortaleza Real de São Filipe foi edificada durante a Dinastia Filipina após os sucessivos ataques e assaltos do corsário inglês Francis Drake (entre 1578 e 1585), visando a defesa da Cidade Velha e do seu ancoradouro. As obras foram iniciadas em 1587 e concluídas em 1593, mas, em 1712, foi novamente tomada de assalto, desta vez por corsários franceses, que, em seguida, saquearam violentamente a cidade, incendiando-a. A fortaleza acabaria por ser reconstruída na segunda metade do século XVIII. De realçar ainda que a relativa rapidez de classificação da candidatura de Cabo Verde se deveu à cooperação desenvolvida pelo governo de Cabo Verde, junto da diplomacia internacional, incluindo a portuguesa e a espanhola, à qualidade do seu plano de gestão hoje fundamental no processo de classificação e da equipa técnica. E apenas, mais um pormenor, a sua geografia não europeia, que é desde logo uma grande vantagem sobre as candidaturas europeias que devido a sua “multiplicidade” ficam sujeitas a critérios de rigor marcados necessariamente pela exigência e restrição. Por último há que registar neste processo o empenho do Dr. Mário Soares, que dirigiu uma carta pessoal ao Doutor Koichiro Matsuura, director geral da UNESCO, para a Ciência, Educação e Cultura, segundo as nossas fontes. Postado por Arlindo Sena. quinta-feira, junho 18, 2009
A Primeira Imprensa de Elvas- 1850-1899

História Local - O desejo da criação de uma folha periódica em Elvas, desde meados do século XIX era um desejo da “elite” esclarecida desta cidade, deveras influenciada pelo desenvolvimento da mesma na Estremadura Espanhola, por isso mesmo o “arranque” da primeira folha periódica de Elvas, inicia-se com o recurso à tecnologia do país vizinho. De facto, no primeiro número da Voz do Alentejo, primeiro periódico publicado em Elvas, lê-se : “…Era uma falta, e uma falta considerável não haver em Elvas uma imprensa. Toda a gente ilustrada lamentava esta inépcia, e aspirava ao regozijo de ver estabelecida aqui uma tipografia (…). Sendo impresso no reino vizinho! Por quanto não se alcançaram os meios indispensáveis para introduzir a imprensa; convinha porém, que a todo o custo se publicasse o periódico e que, embora se faltasse a algumas causas do programa, não se faltasse a criação desta pequena folha ”.A imprensa segundo os redactores e colaboradores da década de sessenta, tinha um papel fundamental para o progresso moral e material das populações que “ela” servia, em função do debate de ideias que as folhas periódicas pretendiam promover:“… aqueles que mais favoravelmente a têm acolhido e considerado, conhecendo e aproveitando o meio que ela faculta, de comunicar as suas ideias; acelerando desta maneira a disseminação de conhecimentos; são sem dúvida os povos, que na marcha para o progresso e civilização ocupam o primeiro lugar, devendo tal supremacia ao seu desenvolvimento intelectual, que proporciona às diferentes classes a necessária inteligência para melhorar , explorar e satisfazer a todas as exigências e comodidades sociais. A ideia de que a imprensa era determinante para o progresso dos homens, tornava-se um argumento utilizado com frequência ao longo da década de 1860, no primeiro periódico de Elvas, na edição de 12 de Novembro de 1860, onde se lê:“ A imprensa periódica está considerada o principal motor da civilização do paiz; ser-lhe adverso é não querer a felicidade pátria. Verdadeiros portugueses não deixarão pois de assim pensar, e de contribuir com sua parte, para que Portugal possa um dia marchar a par dos estados cultos da Europa”. Nesta perspectiva, a defesa da imprensa para além da sua sobrevivência, propunha-se também através dos seus artigos de sensibilizar os seus leitores para a novidade e inovação que então o “mundo conhecia”, não deixando de ser ao mesmo tempo um objecto de instrução e de cultura como se lê em vários artigos publicados ao longo da época oitocentista. De um modo geral e ao longo das décadas de 1860, 1870 e 1880, o surgimento de um periódico correspondeu ao interesse de um grupo de cidadãos da terra em nome do progresso ou por razões de natureza moral e cultural:“O Elvense que nasceu, quando o paiz acordava do grande lethargo de três séculos para saudar Camões, conservou-se sempre modesto, pequeno pacífico, mesmo desejando conservar-se estranho às lutas partidárias”. Todavia esse desejo de independência dos pioneiros da imprensa elvense, foi quase sempre provisória e quase todos os periódicos que defenderam essa situação, nos seus programas, alteraram a sua intenção inicial e de um modo particular quando a questão monarquia ou república tornou-se motivo de debate na política portuguesa. Como é exemplo no artigo redactorial do Elvense após o seu XIV aniversário:“Em política tem sido abertamente monárquico, por se converter que da manutenção das instituições que nos regem resultam grandíssimas vantagens para a nação, arvorando ao mesmo tempo, com entusiasmo mas sem facciosismo a bandeira do partido progressista, por ser programa d ´este partido o mais liberal”. Porém quando se analisa as folhas periódicas ao longo da segunda metade do séc. XIX, observamos que em cada folha periódica se definia com rigor os objectivos do seu programa editorial e nessa perspectiva podemos identificar as suas intenções de forma concreta e precisa:
a) A defesa dos interesses da terra, características dos periódicos da década de sessenta.
b) A defesa de alguns assuntos de máxima importância para a província do Alentejo.
c) A defesa da instrução e da moral como elementos determinantes para que os cidadãos tivessem consciência dos seus direitos e obrigações.
d) Aceitar sem compromissos a legalidade existente como ponto de partida para um progesso, ilimitado e contínuo.
e) Moderar os impulsos da “mocidade democrática”, uma vez que as grandes conquistas são o resultado das lentas e duradouras lutas, característica presente nas reflexões das folhas republicanas.
A partir do último quarto de século de oitocentos a matriz política percorre não só os editoriais como os artigos de reflexão no interior dos semanários elvenses, as questões nacionais e locais foram motivo de debate, por vezes entre os diferentes periódicos que eram publicados, nas suas reflexões trocavam entre si de forma por vezes violenta opiniões sobre um dado momento da vida nacional. Na prática tratava-se de uma luta política entre liberais monárquicos e os defensores de uma nova ordem a República. Como se pode comprovar na seguinte reflexão:“Pretendem os monarchicos que esse poder seja perpetuo e supremo: e una querem que o monarcha governe em quanto outros só lhes consentem reinar sob a responsabilidade dos seus ministros. Pelo contrário os republicanos querem o poder maior limitado e temporário; singular conforme as affeições de muitos, collectivo segundo o desejo de muitos (…).As questões políticas locais tinham um carácter reivindicativo em torno das necessidades locais, sobretudo quando se tratavam de faltas de serviços já anteriormente existentes e como tal era necessárias resolvê-las com alguma urgência, outras tinham um carácter acentuadamente regionalista, o fundamento do progresso e desenvolvimento, que só a descentralização poderia fazer, como se poder ler na seguinte reflexão:
O que é a descentralização?
É a simplificação em todos os rumos da administração pública.
É a igualdade de direitos entre a capital e as províncias
É a abolição total dos vínculos.
É melhorar por todos os modos a instrução pública, derramando-a até ao último casal.
É a formação de bancos crédito para favorecer a agricultura
É a divisão territorial, para que não aniquile a vida dos povos.
É a repressão da emigração.
Aliás, os colaboradores e redactores tinham a consciência de que a imprensa era decisiva para o progresso das populações: “O auxílio da imprensa não é tanto para desprezar como a muitos se afigura. Nele se discutem os assuntos mais vitais da localidade, os melhoramentos mais urgentes; e muitas vezes os povos abraçam, depois de discutidos e pausadamente avaliados, projectos importantes, que o mais ousado vereador se não atreveria a apresentar”. Mas a luta política pela influência na vida local com base nas reivindicações locais, praticamente não ocupava espaço nos periódicos locais antes da década de 1870 e quando tal se verificava, a razão era normalmente as eleições municipais. Todavia os conceitos políticos emergentes das sociedades liberais eram motivo de reflexões de natureza pedagógica com alguma normalidade na imprensa periódica oitocentista: “ A Democracia na actualidade, não é somente uma ardente aspiração. É a expressão do d´este século – é o credo da humanidade. Falamos (…) da democracia que menciona, envageliza, que instrui, que repreende com benevolência, que a mina com o exemplo, que fortalece com a doutrina, e que espera impassível e perseverante, com a religião, e com a liberdade. A democracia assim é liberdade, a igualdade e a fraternidade”.Mas seria na década de 1880 que os periódicos elvenses se afirmavam como meios de intervenção política, de forma prática e objectiva, nas questões de matriz nacional ou local, de facto O Elvense acabou por se tornar numa verdadeira baluarte dos interesses do Partido Progressista, enquanto que o Correio de Elvas afirmou-se como o órgão oficial do Centro Republicano Elvense, contribuindo para a intensificação da propaganda republicana. Todavia se algumas folhas de Elvas, questionavam ou defendiam o sistema republicano através da crítica violenta ao regime monárquico. Outras questões são igualmente objecto de reflexão nos jornais do fim do século, como sejam a validade do sistema parlamentar assente no rotativismo: “Ao fim de meio século de representação nacional, estamos cada vez peior em matéria de regime representativo. Temos a certeza que os progressistas não romperão todas as dificuldades para colocarem o systema político na altura que lhe pertence.” As críticas à acção ao governo e a validade da acção política dos partidos, eram outros dois temas predilectos das folhas liberais oitocentistas. Postado por Arlindo Sena
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