terça-feira, outubro 13, 2009

VI -Terras da Raia do Distrito de Portalegre " A Sociedade e as realidades Sociais"(1).

Considerações Gerais: A sociedade que se desenvolveu nos principais centros transfronteiriços do distrito de Portalegre, como de resto na sociedade portuguesa de Oitocentos conheceu ao largo do período objecto de análise, novos critérios de evolução social que estavam então em pleno desenvolvimento desde a Revolução Liberal de 1820. Fruto desta circunstância revolucionária, não só se verificou a valorização de valores como a riqueza e o saber, enquanto que elementos básicos de diferenciação social como, os privilégios jurídicos tradicionais foram praticamente eliminados, com o devido reflexo no peso territorial e económico de uma aristocracia tradicional residente no distrito ou exterior a ela, mas com bens fundiários na região. Nascia, assim, uma nova forma de hierarquização social de baseada essencialmente na desigualdade da partilha de benefícios económicos, de posse da terra por aquisição e que iniciava de um modo particular, o controlo dos meios de produção. Esta realidade social, era uma consequência da distribuição singular da propriedade agrária, factor principal das grandes desigualdades económicas observáveis numa sociedade de base camponesa em que a maioria dos seus componentes estava directamente ligada aos trabalhos no campo, em tarefas agrícolas e pastoris. Todavia esta situação estava em plena mudança na transição para o século XX, mercê do desenvolvimento de novas profissões relacionadas com os transportes públicos e com o avanço dos transportes. De um modo especial nas cidades do distrito já que apesar das novidades que as novas profissões traziam as gentes residentes nos meios urbanos, as vilas da raia continuaram mantendo até ao primeiro terço de Novecentos a prática agrícola como a actividade agrícola como podemos comprovar pelo quadro apresentado.
Distribuição dos activos por sectores económicos em (%) na vila do Marvão.
Sectores
1870
1890
1900
1911
1930
Primário
77.3
76.8
80.0
78.0
77.0
Secundário
18.8
19.2
15.5
15.0
14.0
Terciário
3.9
4.0
4.5
7.0
9.0
Nos núcleos rurais e apesar de não haver coincidência nas series estudadas a situação do Marvão, repetiu-se com diferenças mínimas nas vilas de Arronches e Campo Maior, ao largo da segunda metade do século XIX. Observou-se que a perda de efectivos no sector primário durante as décadas de 1870 e 1890 provocou um certo retrocesso do contingente sectorial, como resultado provável das crises agrícolas que se manifestaram na produção agrícola que se viveu em todo o sul de Portugal. De facto, não podemos esquecer os reflexos da forte crise agrícola e pecuária nestas décadas, como resultado da concorrência do trigo norte-americano ou da chegada das peles oriundas da América Latina, com consequências directas nas explorações agrícolas da região devidamente comprovadas pela baixa de preços nos mercados dos municípios fronteiriços. Assim, só na última década do séc. XIX, se assistiu a um visível crescimento da população activa agrária, uma vez superada a crise precedente, com a reactivação dos sectores agrícolas e pecuários mais exactamente. No sector secundário, a vila de Arronches chegava aos 15.7 % na viragem do século quando aquela realidade administrativa distinguia-se por um conjunto de médios proprietários que se dedicavam ao aluguer de apetrechos agrícolas e um pequeno grupo de almocreves distinguiam-se no conjunto das vilas com tal actividade económica. A vila de Campo Maior no sector era sem dúvida a menos representativa tal como o sector terciário que desde finais do século XIX era mais expressivo no Marvão em parte pelo impacto dos funcionários ferroviários sediados naquela vila ao serviço da Linha de Cáceres. Mas é necessários termos em consideração a documentação relativa à década de 1930 para podermos comparar a realidade distrital.
Distribuição dos activos por sectores económicos em (%) nos centros populacionais da raia de Portalegre
Primário
Secundário
Tercário
Marvão
77
14
9
Portalegre
71
19
10
Elvas
68
29
13
Arronches
79
15
6
Campo Maior
82
12
6.1
Média
75
18
7
E se é certo que o sector primário continuava sendo o sector de actividade económica mais representativo em todas os espaços populacionais do distrito, as realidades agrícolas das vilas de Arronches e Campo Maior, eram as áreas agrícolas mais representativas da raia distrital. Uma vez que o desbravamento das terras durante a Campanha do Trigo corresponderam a novos arroteamentos ainda que os grandes proprietários fossem exteriores a essas realidades municipais. No caso de Arronches, muitas das herdades estavam nas mãos de alguns proprietários de Portalegre como os Castelo Branco e alguns poucos de Elvas como era a Casa Agrícola dos Rasquilhas que possuíam algumas das melhores propriedades locais como a da Contenda. No caso de Campo Maior tal como em Elvas, era tempo de afirmação dos arrendatários, que se tornariam ainda durante o Estado Novo como grandes proprietários, caso dos Corado, dos Minas e dos Rosados. O sector secundário a cidade de Elvas era de longe o núcleo mais importante graças a afirmação do seu comércio desde finais da década de 1890 quando as principais casas comerciais da capital tinham os seus agentes no referido núcleo urbano, tal como nas principais cidades portuguesas da metrópole. O sector terciário concentrava-se nas cidades de Portalegre e Elvas, com base no funcionalismo público crescente desde a implantação da I República e na presença militarizada e policial que no caso de Elvas líder do sector, com 13% dos quais 6% correspondia à sua população militar ( Continua).

sábado, outubro 10, 2009

2.9 -Elvas Portuguesa: -Notas históricas sobre a Igreja Medieval



As armas e a fé percorreram os caminhos da reconquista cristã e a cada povoação conquistada e repovoada, correspondia novas almas, cuja aglomeração populacional no espaço, era fundamental para a constituição de novas paróquias ainda mesmo antes da integração definitiva das mesmas nas suas dioceses definitivas. Não é por acaso que a carta episcopal do Bispo da Guarda exortava na longínqua primavera de 1260, a comunidade cristã de Elvas a reconhecerem como seu Bispo, o mais alto dignitário da Sé de Évora. As causas, as dúvidas e as posições da vila de Elvas, relativas à sua integração na diocese de Évora não são conhecidas no actual momento de investigação histórica, mas dois anos depois o Bispo de Évora exercia a sua jurisdição administrativa em terras elvenses quando confirmava a doação da Igreja de Vila Boim a João Aboim, constituindo então a primeira paróquia fora do núcleo de povoamento primitivo uma vez que outra povoação nas mesmas circunstâncias a vila de Barbacena só atingiria tal dignidade uma década mais tarde. Em Elvas, as primeiras paróquias são anteriores a meados do séc. XIII como a de S. Pedro, fundada em 1227 como se comprova na leitura paleográfica do seu portal e por volta de 1267 as paróquias de Santa Maria e de e de Alcáçova, são já referenciadas com locais de culto e de serviço aos fiéis. No caso, da paróquia de Santa Maria da Alcáçova, as dúvidas são inexistentes considerando que o primeiro templo cristão, edificado sobre as ruínas da provável mesquita (?), está datado para os primeiros dias do ano de 1241. A paróquia do Salvador, mais tardia de meados ou inícios do séc. XIII, cuja igreja constituía um Priorado da Casa de Bragança e regista como seu documento mais antigo um foro datado de 12 de Janeiro de 1273. Da época posterior à reconquista da vila de Elvas outros templos integravam a jurisdição da ordenação paroquial, como as Igrejas de São da Corujeira que a tradição refere como o ponto onde se gerou a ofensiva para a reconquista de Elvas e profundamente alterada pelas obras setecentistas, após a perda da sua torre e parte da sua estrutura (alçados) por volta de 1840. A Igreja da Madalena que se perdeu para a eternidade, onde na época Moderna se edificou o Convento das Dominicanas e a Capela de Nossa Senhora dos Bem Casados, datada sem confirmação para a época de D. Afonso IV, não resistiria às prioridades urbanísticas do desenvolvimento imprimido em meados do século XX pelo município. Sendo uma das primeiras referências da devoção popular, cuja confraria foi reconhecida por bula papal de 1348, foi um exemplo típico da expansão nas paróquias primitivas que permitiam a edificação dos espaços religiosos ainda que dependente da sede da Igreja paroquial. Mas o período medieval em Portugal como um pouco por todo Ocidente foi marcado por uma nova vaga de espiritualidade que aproximou de forma particular as populações urbanas e rurais do ardor evangélico que os tempos medievais então determinaram na visão e concepção do homem medieval. Era o tempo das ordens mendicantes que traziam uma nova mensagem de contenção relativamente aos bens e prazeres materiais, em Elvas a Ordem de São Domingos enquadrava-se nesse âmbito e sedeada na paróquia do Salvador foi durante quase toda a medievalidade o maior complexo arquitectónico religioso. A sua aceitação junto da população, manifestava-se no âmbito do desprendimento das “coisas do mundo” numa época em que o espírito cristão era um sentimento permanente gerado no âmbito da “cruzada da reconquista.” A presença dos monges é documentada oficialmente por volta de 1267 quando por cata régia de 20 de Fevereiro lhes foi doada a Ermida de Nossa Senhora dos Mártires e permitida a sua licença para esmolarem em Badajoz numa fase em que o Igreja, Convento e Hospedaria estava em construção iniciada um ano antes com a doação do terreno para o mesmo fim. A realidade assistencial era outra função extensiva aos espaços religiosos considerados, como eram o caso das albergarias e/ou hospícios anexas os templos: dos Mártires, S .Pedro, Madalena, do Salvador ou do Convento de São Domingos, com dupla função de hospício e de albergaria, no acompanhamento e no apoio solidário, na doença e em especial nas épocas de surtos epidémicos ou na guarda e protecção dos viajantes que para a capital e da mesma, atravessavam as terras de fronteira. De um modo geral, na vila de Elvas o clero medieval centrava-se em duas categorias o paroquial ou regular seja predominava o baixo clero, o paroquial ligado ao direito do padroado e o obrigado a diversas contribuições ao bispado, entre elas o sinodático (Pago em sujeição ao seu bispo, e normalmente em cera); a visitação (Pago em géneros, quando o prelado fazia visita canónica) e a lutuosa (Pago por morte dos religiosos segundo os bens do defunto). O que contribuía para a pobreza do clero paroquial que não tendo bens de raiz, o tornava mais próximo, das formas de vida e preocupações materiais dos seus paroquianos. No clero regular, a situação de desafogo económico ou material, dependia da ordem e do mosteiro em que pertenciam, no caso elvense, a opção pela pobreza justifica toda e qualquer referência relativamente ao retiro espiritual dos frades dominicanos. Todavia nos primeiros tempos do “repovoamento e colonização” do espaço territorial da vila de Elvas, não podemos esquecer o papel da Ordem de Alcobaça que então possuía algumas herdades ou mais tarde na época dos trezentos a Ordem de Cristo que também possuía algum património enquanto instituição espiritual da Casa Senhorial do Infante. Mas, se é verdade que a Igreja Medieval em Elvas, rica no património construído e pobre nos protagonistas espirituais, também é certo que as paróquias locais foram enriquecendo com base nas suas receitas próprias, pregações, missas e ofertas, mas sobretudo através dos testamentos em especialmente a partir de fins do séc. XIV, quando a fidalguia local, doava frequentemente, terras (olivais) e casas de moradas que preenchiam o rol dos seus bens materiais , mas também algumas fortunas como as doações em metal precioso que podemos comprovar na doação de Lourenço Annes Mafalgo, (ANTT, Testamento, 20/1337) em que o mesmo lega à Igreja de Santa Maria dos Mártires, “o valor de 100 meravadis para a obra da igreja e 50 para os frades” ou ainda “ as trezentas drobas, três taças de prata e outros bens em material precioso”

quinta-feira, outubro 08, 2009

V -Terras da Raia:-Síntese histórica da Vila de Campo Maior



Ao contrário do que ocorreu com as demais cidades e vilas do norte alentejano, Campo Maior não foi resultado directo do esforço da reconquista cristã, mas antes dos esforços diplomáticos realizados com vista ao estabelecimento de relações pacíficas entre Portugal e Castela. De facto a incorporação da vila de Campo Maior na coroa portuguesa foi uma consequência da assinatura do Tratado de Alcanices em 12 de Dezembro de 1297. Estabelecido com o objecto de pôr termo, às guerras que durante décadas envolveu os dois estados ibéricos. Uma vez que pelo referido Tratado, portugueses e castelhanos comprometiam-se a ser verdadeiros amigos e inimigos dos seus inimigos. E foi nessas circunstâncias, que se definiu então a repartição de castelos e populações mais importantes da raia, desde o Norte ao Sul, no qual o território da vila de Campo Maior passou a integrar a soberania portuguesa. Por essa razão, o desenvolvimento de obras de fortificação passou a ser uma constante, numa localidade que em tempos de crise política se mostrou quase sempre favorável à integração na coroa castelhana, mas tal não evitou que as armas de Portugal fossem defendidas naquela terra da raia nacional, com honra e heroísmo. Mas a ligação a Castela, foi um caso ímpar em terras do distrito de Portalegre, nos séculos XVI e XVII, Campo Maior se converteu de uma maneira particular, num núcleo de atracção de diversas populações da vizinha Extremadura, mais exactamente de Badajoz, Albuquerque e Cáceres. Dois factores contribuíram de um modo especial para esta circunstância, por um lado o desenvolvimento alcançado pelo comércio raiano durante o período da União Ibérica e por outro a chegada de milhares judeus que atravessaram os pontos principais da raia nacional, casos de Elvas e Marvão. Assim e de acordo, com as cifras documentais cerca de 25.000 foram o número de fugitivos de Castela e entre eles, algumas centenas de médicos, boticários, mercadores, sapateiros para citar as profissões mais significativa, dos judeus que se fixaram na vila alentejana. Mais, tarde com a Guerra da Restauração a expansão demográfica que Campo Maior conheceu durante os inícios da Modernidade sofreu um notável retrocesso, quando a sua praça era então reconhecida como a segunda mais importante da região Alentejo. Nos começos do século XVIII a população campomaiorense ainda não tinha recuperado as perdas sofridas durante a segunda metade de seiscentos, não só como consequência da conjuntura de guerra, mas sobretudo pela deslocação de parte dos seus efectivos populacionais, para os núcleos vizinhos, de Arronches e sobretudo para Elvas. Do início do século XVIII destaca-se um precioso documento datado de 1708, que refere que o núcleo urbano estava arruinado e o despovoamento era evidente “ foi uma população com 1.200 vizinhos mas hoje, por causa da guerra com Castela, se apresenta com 850”. Mas a centúria de Setecentos e as primeiras décadas do século XIX foram adversas em termos de desenvolvimento económico e social, uma vez que a maior parte da propriedade agrícola estava sob domínio de um grupo restrito de proprietários e em especial de alguns militares que se tornaram senhores das melhores propriedades da vila e os intercâmbios comerciais frequentes ao longo dos séculos XV e XVI, foram pouco a pouco, interrompidos. E devido, a estas circunstâncias, a vila se converteu num espaço predominantemente agrícola, ao mesmo tempo que o contrabando até então uma actividade complementar nos rendimentos de muitas famílias da raia se tornava uma prática comum e uma actividade exclusiva e sempre crescente ao longo do século XIX. Todavia, como de resto se verificava nos demais centros fronteiriços do distrito, a agricultura continuava a ser a principal actividade pelo menos desde os tempos medievais. E mesmo quando Campo Maior, se afirmava como uma praça comercial de interesse regional, a sua capacidade como centro exportador passava pela produção cerealífera, não é por acaso que o monarca D. Manuel I, enviou a esta vila, um seu criado para a aquisição de trigo para abastecer as necessidades da capital. Em suma, como procuramos comprovar os principais núcleos fronteiriços do distrito se formaram inicialmente, no contexto da reconquista cristã e acabariam por se consolidar nas guerras com Castela, um conflito que em determinados momentos pressionou a fronteira portuguesa, quase sempre sem êxito pois, em muitos casos, as acções consistiram unicamente na realização de operações de saque ou guerras de cerco, sobretudo nos períodos medieval e moderno. Terminada as síntese históricas das cidades e vilas da raia (O caso de Elvas, vide nos textos sobre Elvas Portuguesa), vamos situar as nossas reflexões com base na documentação coeva e no período de 1850-1930, que corresponde nada menos nada mais, as origens mais recentes destes centros populacionais raianos.

sexta-feira, outubro 02, 2009

IV – Terras da Raia: - síntese da História da vila de Arronches.

Durante os séculos XII e XIII quando a reconquista cristã avançava para sul, o espaço territorial onde mais tarde nasceria a futura vila portuguesa de Arronches, esteve em determinados momentos sob domínio mouro, de tal forma que só com o Tratado de Alcanices (1297) que as suas linhas territoriais ficaram praticamente definidas. Uma vez conquistada em 1166 por D. Afonso Henriques viria a perder-se, sendo novamente reconquistada pelas hostes cristãos em 1253 sob comando de D. Sancho II e definitivamente por D. Paio Peres Correia em 1242. Em finais do séc. XIII, Arronches formava parte das terras de fronteira que deviam voltar para as mãos da coroa de Castela pelo tratado de Alcanices que se firmou em 12 de Setembro de 1297 a fim de estabelecer a paz entre Portugal e Castela após uns largos meses de guerra com consequência devastadoras para ambas os reinos. Porém e apesar das pretensões castelhanas sobre território, que havia pertencido a D. Afonso X e D. Afonso IV, não tardou muito em reintegrar-se no território português. Apesar de quase meio século depois, em plena crise dinástica de 1383-85, a vila optaria por tomar partido da causa de castelhana, que havia invadido o país em princípios de 1384. E é curioso, que este apoio acabou por custar as fortunas de Gomes Mendes e Álvaro Botelho, dado que seu irmão Gomes Garcia de Foios se apresentou como legítimo herdeiro dos seus patrimónios: “ …por serme em consentimentos de se dar a villa a seus inimigos”.[ANTT, Carta Régia de 26 de Agosto de 1385]. Durante o séc. XV e XVI, este núcleo fronteiriço se caracterizou por um franco crescimento demográfico e em parte pela tolerância da sua população que permitiu a fixação de residência no seu povoado de comunidades como a moura que viveu nesta vila com uma ampla liberdade caso único na raia do distrito de Portalegre. Por outro lado, Arronches foi igualmente uma das poucas vilas ou cidades portuguesas que admitiu receber os Judeus espanhóis, a troco de um imposto de oito cruzados por cabeça, quando a Inquisição espanhola de forma violenta expulsava todos os judeus que não aceitavam a conversão. [ANTT, Carta régia de 8 de Abril de 1347 outorgada em Santarém]. Nos finais do século XVI e em plena crise dinástica, a vila de Arronches tomava partido dos centros populacionais favoráveis à União Ibérica, tal como Elvas e Portalegre numa atitude que reflectia sobretudo a vontade da nobreza que vivia na raia norte alentejana. No âmbito económico a vila realizava uma feira anual com a duração de quinze dias, em Maio pelo menos desde fins do séc. XIII por concessão de D. Dinis. Mas seria D. João I, o primeiro monarca da dinastia de Avis que concederia por Carta Régia de 20 de Março de 1405 o estatuto de “Feira franca”, promovendo o desenvolvimento mercantil com base na isenção de impostos, como podemos comprovar : «E outrossy queremos que todos aquelles que a dicta feira vierem e trouuerem mercadorias para vender ou as hi quiserem mercar ou mercarem nom paguem sisa nem portagem nem outros direitos nehuuns das dictas mercadorias que se hy a adicta feira vierem e trouuerem e se hi venderem ou mercarem e seiam qujtes e liures e scusados por quatro annos compridos assy que façam quatro feiras quites e jssentas de todo o que dicto he.” Um século mais tarde o funcionamento de vários moinhos de azeite e farinha, o comércio de tecidos e a prática do contrabando, eram já actividades comuns de uma população habituada a passar a raia. Por outro lado a prática do contrabando já era considerada ilegal e praticada de forma clandestina com alguma intensidade desde as Guerras da Restauração. Numa época em que a população da vila desempenhou uma notável função enquanto núcleo de reforço e socorro militar aos centros populacionais cercados pelo invasor, como demonstra o auxílio das hostes militares arronchenses na ajuda a Elvas durante o cerco e batalha das Linhas de Elvas em 1659 e mais tarde em 1705 no cerco ao Marvão e por consequência no assédio a Valência de Alcântara. Mas seria no decorrer dos séculos XVII, XVIII e sobretudo nas primeiras décadas de Oitocentos que a vila de Arronches perdeu a sua importância estratégica como um dos núcleos essenciais na defesa da fronteira, garantida agora pelas guarnições permanentes estacionadas em Almeida e em Elvas. A partir de então a paz relativa que marcou a vida política portuguesa impediu a afirmação desta vila raiana, tal como outras populações alentejanas. A perda da sua alfândega pelos gastos superiores às receitas foi motivo de incompreensão de uma população que se tornou reivindicativa durante a monarquia constitucional e na primeira república como veremos a seu tempo de forma objectiva.

2.8 - Elvas Portuguesa. Os grupos étnicos-religiosos e estrangeiros:Os Judeus.

O outro grupo étnico, mas com maior relevo na sociedade elvense era sem dúvida os Judeus cujos bairros ao contrário do que se verificava com os mouros, tinham o privilégio de ter os seus bairros dentro das muralhas da vila, enquanto aqueles, provavelmente devido o ocupações humildes, e entre elas, o trabalho agrícola, habitavam os subúrbios ou mesmo as áreas fora da zona amuralhada. Em Elvas durante o séc. XIV uma parte considerável dos Judeus tinham como moradas de casa a Praça, a Rua Nova ou Rua do Alcamin (?), a rua das Portas de Olivença e de Évora, enquanto uma parte das famílias mais antigas se situavam ainda no exterior da primitiva muralha. No século XV outras áreas nevrálgicas para a actividade comercial entram no rol dos cristãos novos por oposição aos velhos, como a porta da Praça Nova, a Rua da Feira e da Carreira dos Cavalos, onde vivia Diogo Álvares Soriano cuja actividade mercantil estava registada nas principais praças comerciais luso-espanholas ( ANTT, Inquisição de Évora, 7714º ) . Na comuna judaica tal como na muçulmana, os níveis de riqueza eram diferenciados, os mercadores, os físicos, ourives e os médicos distinguiam-se de uma minoria de mesteirais, tendeiros e assalariados. Os privilégios que detinham os “ricos” da judiaria elvense, eram vários e entre eles destacavam-se a possibilidade de isenção de impostos, de sinalização da sua condição e inclusivamente a permissão de viver entre os cristãos, como eram os casos de José Verdugo ou do casal Alfarim, Monção ou do rabi Sad Ordonha (ANTT, Chanc. de D.Afonso V, Liv.12,15,8 e 1). A sabedoria ou conhecimento, era o factor determinante para obtenção de este tipo de privilégios, considerando que o número de físicos e médicos documentados pelas fontes demonstram que se tratava da comunidade científica mais importante da região e da raia com Castela. Não menos importante era o quantitativo das rendas da judiaria elvense que se situava à volta de 113.333 reais em finais do séc. XIV, quase mais de 80 % das rendas de Portalegre (61.066 reis) (ANTT, Chanc de D.Manuel, Livro 13), não por é caso, que D. João I, após a Crise de 1383-1385, beneficia a aristocracia local com direitos e rendas reais. Como são exemplos a doação ao escudeiro Gil Fernandes do serviço, de cabeças dos Judeus (ANTT, Chanc. de D. João, Livro I) ou das rendas reais da própria judiaria ao alcaide da vila, Álvaro Gonçalves (ANTT, Chanc. D. Manuel, Livro II). Os registos demográficos não nos permitem quantificar os números referentes aos efectivos das judiarias de Elvas e mesmo o número de judeus em fuga à Inquisição Espanhola em 1492 que passaram as fronteiras de Elvas e Marvão e que segundo Velasco da Mota, se encontravam num acampamento levantado em Castelo de Vide, cerca de 4.000 a 5000 efectivos .Todavia o crescimento explosivo da população judaica no distrito também se manifestou em Elvas, uma vez que por essa época nascia e a Judiaria Nova.

terça-feira, setembro 29, 2009

III –Terras da Raia: síntese história da Cidade de Portalegre

Como terra portuguesa recebeu a sua carta foral das mãos de D.Afonso III em 1259. Uma década depois, por carta régia de 1271, D. Afonso III e sua mulher Dª Beatriz concederam a vila de Portalegre ao Infante D.Afonso Sanhes, assim como as vilas de Marvão e Arronches com todas os seus termos e privilégios. Seria durante o reinado de D.Dinis, que a vila pois em marcha uma serie de obras destinadas a fortificar este núcleo, no contexto de garantir a defesa da linha de fronteira, tal como ocorrera com a vila de Marvão, na mesma época. Em meados do século XVI o monarca D. João III reforçou a identidade administrativa de Portalegre quando elevou a vila a cidade, que graças a uma Bula Papal concedida em 18 de Agosto de 1549 por Paulo III se converteu em diocese. Nos fins da mesma centúria a aristocracia de Portalegre, se mostrava favorável à União Ibérica, de resto uma das mais importantes figuras da cidade foi um dos cinco governadores com mandato de Madrid, durante esse período histórico. Se tratava do Conde de Portalegre, D .João da Silva, que seria também pela mesma época Mordomo-Mor da Casa Real e Capitão Mor dos presídios e da gentes de armas. Nos inícios do século XVII as autoridades da cidade reclamavam junto da coroa espanhola a cobrança de pesados tributos que tanto prejudicavam a população. Todavia, o apoio à causa Ibérica era defendida com alguma determinação pela aristocracia portalegrense, através d, figuras como o Conde de Portalegre D. Diogo da Silva, sem dúvida um dos homens de confiança de Filipe IV para as questões militares das Índias; os Condes de Basto, Portalegre e Miranda, que eram chamados regularmente à Corte para consulta e opinião em matérias fiscais ou assuntos de natureza militar. Convém ressaltar que a economia de Portalegre se transformava de um modo significativo em finais do século XVII e nas primeiras décadas do século seguinte especializava-se na indústria manufactureira de fios e tecidos de lã. Ao mesmo tempo que a criação de cavalos continuava a ser uma actividade económica de referência no âmbito agrário desde os tempos da formação da nacionalidade portuguesa. No início do séc. XIX, como resultado da Guerra das Laranjas, as forças franco-espanholas pressionaram com êxito as praças e fortalezas do Alentejo, quando os estrategas das hostes nacionais imaginavam que o referido avanço ocorreria pelas Beiras. De facto, fruto da guerra, Portugal acabaria perdendo não só as cidades de Portalegre mas também outras populações fronteiriças como Castelo de Vide ou Campo Maior. Mas, pouco depois se restituía a dita cidade pelo Tratado de Badajoz, no qual a Espanha se comprometia a devolver as praças anteriormente conquistadas: Juromenha, Castelo Vide, Portalegre, Barbacena, Campo Maior e Ouguela. Por aquele tratado, os portugueses deviam cerrar os seus portos aos navios ingleses e procurar reunir todos os esforços conducentes a impedir a prática do contrabando que tanto prejuízo ocasionava aos interesses da economia espanhola. A diplomacia continuou a mover as influências no sentido de ultrapassar esta crise política, no entanto as populações civis da raia portuguesa e espanhola, continuaram a não se entender, não respeitando os limites entretanto gizados nas actividades de pasto, a documentação do Governo Civil refere várias situações conflituosas: “ … que nunca devem invadir ou ultrapassar de um só passo que seja, eles seus gados, para qualquer fim oposto à lei, à justiça e à atenção devida aos estrangeiros, os limites da mesma raia, quando estes forem conhecidos e se acharem bem fixados”.Após este período de convulsão e com o fim da guerra carlista e o início de um longo período de paz criaram-se as condições necessárias para o desenvolvimento das vias de comunicação a partir de e com destino ao núcleo urbano principal do norte alentejano, numa época que esta condição era determinante para o desenvolvimento económico e modernização social não só da cidade como do distrito.(Contínua)



segunda-feira, setembro 28, 2009

II-Terras da Raia de Portalegre: síntese histórica da Vila do Marvão



De volta à Raia de Portalegre, iniciamos hoje a síntese histórica dos principais centros transfronteiriços do Distrito. 1.1 - A Vila do Marvão: - se encontra situada na linha de fronteira, a pouco mais de 13 Kms., da antiga alfândega de Galegos, tendo a norte a vila portuguesa de Castelo Vide e a sudoeste a cidade de Portalegre. A vila de Marvão foi edificada numa elevação escarpada durante o período muçulmano, afirmando-se ao largo da sua história como uma fortaleza de guerra. Assim sucedeu, pelo menos desde o século IX, um século durante o qual este núcleo se transformou num espaço essencial como reduto defensivo, sendo utilizado com muita frequência como lugar e refúgio fortificado de Iban Marvuán, de quem a vila deve a sua denominação. A conquista do Marvão aos árabes, ocorreu graças ao avanço da reconquista cristã a sul e, mais concretamente, com a definição da chamada Linha do Tejo em 1147. Assim, pelo menos, desde 1167, que os cavaleiros dos Templários passaram a controlar este espaço, outorgando-se a sua carta foral em 1226 pelo monarca D. Sancho II e integrando o seu termo numa parte significativa no actual Distrito de Portalegre. Este facto demonstra o valor estratégico extraordinário deste núcleo raiano, uma vez que a dita carta foral estabelecia que uma terça parte dos seus cavaleiros devia permanecer de forma permanente na dita vila, não apenas com a missão de assegurar a presença cristã na dita vila mas como forma de mobilizar as forças cristãs para a conquista das terras do sul. Ao largo do período medieval o Marvão se afirmou como um núcleo importante no desenvolvimento económico da região do Alto Alentejo, uma vez que recebia uma parte considerável de produtos por via da vila mais importante do Tejo, Santarém, para distribuição das localidades mais próximas. Durante o século XIV a vila do Marvão foi fortemente abalada pela trágica e violenta, Peste Negra que levou o monarca D. Fernando a criar os chamados “coutos” para “hominizados” , que eram, indivíduos condenados por homicídio a quem a Coroa perdoava certos crimes ou faltas sempre que se fixavam em terras da raia. Se tratava, ao mesmo tempo, de defender o espaço raiano e contribuir para a estabilização da própria monarquia. E por isso podemos comprovar que foi o próprio rei Dom Fernando quem mandou reforçar através de várias obras da defesa do Castelo, pela soma de 3.000 reis brancos (ANTT, Carta Régia de 1443). Mais tarde, graças ao desenvolvimento do comércio externo, sobretudo com o reino de Espanha, a importância da villa do Marvão foi aumentando convertendo-se nos tempos modernos, não só um dos portos secos mais importantes do norte alentejano mas também como uma das praças comerciais mais representativas do Sul de Portugal, com períodos menos bons até meados do séc. XIX. Os séculos XIV e XV foram determinantes para a colonização do território, mas o apogeu demográfico teve lugar, provavelmente, no século XVI, quando entraram milhares de judeus pela fronteira fugindo à violência da Inquisição Espanhola. De todas as formas, a história mais conhecida de Marvão esteve marcada, sobretudo, por uma serie de eventos militares que a população viveu durante os séculos XVII, XVIII e XIX, entre eles destacaram as seguintes: - Guerra da Restauração – Inicialmente um cerco imposto pelas forças militares espanhola em 1641 e pouco depois em 1648, de um ataque lançado também por unidades militares hispânicas sob comando do Marquês de Lagañes; - Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1715). Em 1704 a fortaleza foi tomada por um exército franco – espanhol dirigido pelo Duque de Berwick, ainda que no ano seguinte se restaurou a situação anterior por acção do exército português, comandado pelo Conde de São João. - Guerra Fantástica (1762-1763) – Ocorreu quando as forças espanholas fazendo uso de surpresa, tentaram uma vez mais tomar aquela praça de guerra sem êxito. – Guerra das Laranjas (1801). A praça seria uma vez mais atacada pelo exercito espanhol, sob direcção do Tenente Coronel D.Ramón Orrel. Mas, uma vez mais, as forças cercadas lograram em resistir com êxito ao assédio espanhol sob comando do Sargento Mor, João Miguel Silva, que tinha sido o responsável pela direcção das obras de fortificação de obras.- Guerras Peninsulares (1807-1811). Destacaram-se, as forças luso-espanholas quando através de um assalto, foram expulsas as forças francesas de ocupação durante a primeira invasão dirigida ao território português. Este assalto foi dirigido pelo Tenente Coronel espanhol D.Vicente Pérez e pelo Tenente Coronel luso, D. Pedro de Magalhães, um militar português que na sua retaguarda contava com o apoio de um corpo de voluntários formado em Valência de Alcântara. – Guerras Liberais (1832-1834. No início dos anos trinta de oitocentos, a vila do Marvão afirmou-se como um reduto defensivo liderado pelas tropas favoráveis ao absolutismo lideradas por D. Miguel, que apoiou alguns movimentos realizados pelos partidários do Infante D. Carlos Maria Isidro na Primeira Guerra Carlista ou Guerra dos Sete Anos. Em 12 de Dezembro de 1838 a praça seria tomada pelas forças liberais com ajuda, uma vez mais, das tropas espanholas. Poucos meses depois, na Primavera do ano seguinte, sofreu uma nova ofensiva das tropas absolutistas que, sem acabou por ser um insucesso por via dos territórios chegados por via espanhola. Em suma, a história da vila de Marvão esteve condicionada em toda a sua história pela sua situação geográfica e pela sua praça de guerra, protagonista de modo permanente desde as guerras da restauração até as guerras liberais na primeira metade de Oitocentos.

sábado, setembro 26, 2009

2.7 – Elvas Portuguesa: - Os grupos étnicos - religiosos e estrangeiros: Os Mouros

Os mouros e os judeus, estavam perfeitamente integradas na sociedade medieval, com os seus bairros próprios e com uma série de privilégios devidamente reconhecidos pela Coroa. Os mouros cuja presença era anterior à soberania portuguesa nunca tiveram o protagonismo dos Judeus que se fixam na vila e nos primeiros tempos da cidade elvense. Era um grupo mais heterogéneo do ponto vista social e económico, distinguindo-se na vida económica e científica de um modo particular nos séculos XV e XVI. A comunidade moura fixada no alfoz do espaço concelhio, encontra a sua origem no período anterior à Reconquista ou por outras palavras a presença muçulmana na “região histórica” de Elvas, foi contemporânea do processo de colonização do Al-Andaluz que se iniciou com a invasão da Península Ibérica em 711. Na verdade, a existência de comunidades muçulmanas e mourarias, deixaram registos arqueológicos ao longo dos tempos históricos, mas são mais objectivos e claros, na documentação medieval, nomeadamente a Sul do Tejo: Alcácer do Sal, Avis Évora, Elvas, Beja e Moura. Todavia, no longo percurso da história árabe no Ocidente, o espaço territorial da “região histórica de Elvas”, foi utilizado frequentemente pelos exércitos dos estrategas árabes, como foram os casos do malado, Ibn Marwan (874-889), sediado na Anaia (actual Marvão) nas suas incursões para Sul e Este da Península. Ou de Makhul outro malado, partidário de Marwan, documentado nas terras vizinhas da Juromenha, como governador e que em diversos momentos pôs cerco a Badajoz. Espaço estratégico para o domínio dos territórios do vale do Guadiana e das regiões de Badajoz e Mérida, nas mãos da dinastia dos Banu Harm desde 1026. Porém não podemos ignorar que Elvas, inexistente como cidade na época romana, foi provavelmente planeada por volta de 884 por Ibn Marwan, segundo o cronista árabe Ibn Al-Althir, que admite ainda antes da existência da conquista de Elvas, reconhecida na toponímia islâmica como Albas, Ilbas ou Yalbas, que no seu espaço territorial possuía uma fortificação incipiente de épocas mais recuadas, que Alexandre Herculano com todas as reservas que a historiografia positivista determina, denominou de "Castro Vitória". A maioria dos historiadores nacionais, defendem que a realidade da urbe elvense no período árabe, tratava-se de uma pequena cidade incapaz de competir com Badajoz, com cerca de 500 a 1000 habitantes segundo o consagrado medievalista Luís Kruss. A sua importância advinha da sua posição militar e económica, a Kura ou Kwar (cidade) de Elvas, para além das suas muralhas abrangia uma rede de atalaias, cuja finalidade era o controlo do espaço em redor como forma de assinalar a presença do inimigo. De resto estas atalaias no corredor militar entre Marvão e Badajoz estão na base dos sucessos e domínio militar imposto por Ibn Marwan nos finais do séc. IX. Nos tempos Medievais, os mouros residentes na vila portuguesa estavam perfeitamente integrados e a sua importância em termos demográficos não está documentada embora há referências bibliográficas no Archivo Municipal de Badajoz de vagas migratórias de mouros livres de Castela, Leão e da Estremadura em direcção às comunas do Alentejo. E a realidade documental prova esta hipótese, de facto, a presença extraordinária de efectivos mouros nos primeiros tempos da reconquista. Não é por acaso que os mouros livres da vila “contrataram” com D. Afonso III (ANTT, Liv. OA.Tit.,II, p.24 Vº), a construção de novas casas na vila. Vivia-se uma época em que os mouros gozavam de alguns privilégios com vista à sua integração social e só ligeiramente adversa durante o período da reconquista do Algarve, uma vez que a coroa Portuguesa receava a fixação moura naquela província do sul de Portugal. Duas décadas depois a comunidade moura florescia do ponto vista económico, embora não haja referência nas fontes documentais relativamente à aquisição de bens imobiliários, característica dos mouros abastados de Lisboa e Santarém, o ouro e a prata faziam parte do rol de bens quitados aos mouros da comuna elvense pelo monarca D. Dinis em 1284. Por outro lado, no interior da mouraria o grau de riqueza era diferenciado e perfeitamente identificado pelo número de indivíduos que constituíam a criadagem de alguns homens de negócio que constituíam a comuna de Elvas e de Vila Boim. Mas a maioria dos mouros tinham na agricultura a sua actividade principal nas terras próprias, aforadas ou de renda. Os albardeiros, sapateiros, pedreiros e outros mesteres ocupavam a vida profissional de uma parte deste grupo étnico que estava sujeita a pesados impostos, tais como: o imposto de capitação (nascimento); a dízima do trabalho, o imposto de compra e venda entre outros. As mourarias de Elvas e vila Boim eram governadas pelo alcaide dos mouros que desempenhava simultaneamente as funções de Juiz. (Continua).



quinta-feira, setembro 24, 2009

I - Terras da Raia do Distrito de Portalegre.

O espaço fronteiriço que será objecto do nosso estudo em alternância com as reflexões sobre “Elvas Portuguesa”, terá como finalidade divulgar a evolução histórica das cidades de Portalegre e Elvas e das vilas do Marvão, Arronches e Campo Maior, no período contemporâneo com algumas retrospectivas a outras épocas históricas.Em termos de espaço geográfico, trata-se de uma vasta região definida em termos de demarcação territorial pelo menos desde o século XIII, com algumas episódicas alterações. Estas populações fronteiriças, que evoluíram ao longo do tempo histórico, ocupam uma área espacial correspondente a cerca de 44% do espaço territorial do Alentejo e uma área aproximadamente de 441.0777 ha. do território nacional. Ao largo da sua trajectória histórica, estas populações se afirmaram como fundamentais para a defesa da soberania portuguesa, graças a uma rede de castelos que foram edificados e fortalecidos com obras de modernização ao longo dos tempos medievais e modernos. Por outro lado, desde meados do século XVI até há Época Contemporânea, a evolução histórica das populações do distrito portalegrense foram marcadas sempre por realidades administrativas diferenciadas e por uma evolução económica distinta. De facto, Elvas (em 1513) e Portalegre (em 1550) foram elevadas à categoria administrativa de cidades, enquanto as vilas de Marvão (1226), Arronches (1255) e Campo Maior (1229) continuaram na mesma categoria administrativa e em dependência directa, por razões políticas e sociais, das cidades mencionadas pelo menos até ao início do Estado Novo. Do ponto vista económico, a agricultura constituiu a base económica do distrito de Portalegre, com excepção das cidades de Portalegre e Elvas. A primeira, capital do distrito e em conflito permanente com a cidade de Elvas a partir de meados do séc. XIX por razões de liderança administrativa , na vida económica afirmava-se como o núcleo industrial mais importante do distrito, realidade de resto válida, pelo menos desde meados do séc. XVII. A segunda, Elvas, considerada como uma das praças militares de referência do Reino, desde a época da Regeneração, [ainda que a presença efectiva e permanente de forças militares de carreira seja uma realidade de meados do séc. XIX], quando na mesma época a cidade raiana se afirma como o “ centro comercial ” mais importante do distrito em função das facilidades comerciais que a economia transfronteiriça favorecia numa época em que o caminho-de-ferro, a Linha de Leste chegava a Badajoz. No caso das populações das vilas de Marvão, Arronches e Campo Maior, seguiram a sua trajectória histórica com base na exploração directa das riquezas geradas pela terra, em particular de uns bens rústicos que pertenciam a um grupo restrito de proprietários exteriores a estes municípios e que na sua maioria, se identificavam com algumas casas aristocráticas. Apesar de algumas alterações na geografia das propriedades destas localidades depois da Revolução Liberal e das Reformas Legislativas que então ocorreram. E que permitiram a ascensão de alguns novos proprietários residentes nos centros urbanos e que então disputavam a aquisição das antigas terras senhoriais da aristocracia portuguesa. De facto nas últimas décadas de Novecentos, algumas herdades de Marvão se encontravam sob domínio de alguns proprietários e industriais da cidade Portalegre. O mesmo se verificava com as melhores terras de Campo Maior, disputadas pelos grandes proprietários de Elvas, muitos deles até há pouco tempo registados na documentação como rendeiros. Mais singular era a realidade da vila de Arronches, cuja demarcação das terras de melhor qualidade, dedicadas há exploração da plantação de olival, se repartiam, entre as diversas famílias de Elvas e Portalegre, ainda que algumas surgem na documentação registadas como património de algumas ordens religiosas. ( Continua)

domingo, setembro 20, 2009

2.6 - Elvas Portuguesa: - Os mercadores a sua ascensão profissional e económica

Os comerciantes ou mais exactamente os mercadores, ao longo dos séculos XIV e XV foram se afirmando como um estrato social com capacidade económica de tal forma que alguns deles chegaram a ter loja na capital do reino, como os Fernandes e os Gomes. Na sua grande maioria eram cristãos novos ou judeus, que em pouco tempo mereceram algum reconhecimento no comércio regional na qualidade de almocreves, beneficiados pela isenção do imposto de “Aduana” que penalizava os seus concorrentes castelhanos obrigados ao pagamento desse direito. Como podemos comprovar pela análise das fontes que referem que os homens de fora, pagam tributo sobre as mercadorias: “aquelas que hajam de trazer para aí vender” ou “as cousas que os homens de fora comprarem para levarem para fora do dito termo “. Mas depressa os tendeiros da praça comercial da vila de Elvas se fizeram ao caminho como almocreves e depois, já como mercadores acabaram por fazer fortuna na raia do distrito de Portalegre ao longo das primeiras décadas de quatrocentos numa época em que os produtos de origem colonial, estavam longe de concorrer com produtos oriundos do mundo rural, como os cereais e os gados frequentemente utilizados na prática do contrabando. O exemplo mais significativo do percurso dos tendeiros da vila de Elvas foi sem dúvida o caso de Diogo Álvares Soriano (ANTT, Inquisição de Évora, Manuscritos de Livraria, nº771), que residia na Rua da Carreira dos Cavalos, inicialmente tendeiro e mais tarde, mercador de largo trato e que se especializou como mercador de panos da Índia. Correndo as feiras de Lisboa, Flor do Crato, Vila Viçosa e Elvas e com uma rede de distribuição de longo curso em território castelhano, assegurada pelos seus familiares a partir de Badajoz até Málaga. Os registos documentais associam à sua actividade mercantil a de prestamista financiando outros mercadores elvenses, como os cristãos novos, Pero Vasquez e Álvaro Fernandes, residentes em Elvas (ANTT, ob.cit.nº 1044). Todavia nas rotas comerciais de vizinhança, no sentido de Elvas e Badajoz e vice-versa, estavam na mão dos almocreves tal como no comércio regional a norte do distrito de Portalegre, Pedro Álvares, conhecido azeiteiro da vila, costumava vender sardinhas em Badajoz e azeite em Albuquerque (ANTT, ob.cit nº10440). Nos finais do séc. XIV, o mercador independente da sua origem e nacionalidade em pouco tempo conquistou com o seu trabalho de utilidade pública, a estima social e a tolerância da igreja que então condenava a usura e o pecado da avareza em terras luso-castelhanas pelo menos antes da perseguição a que a Inquisição sujeitou os judeus e cristãos novos. De Elvas para a capital, deslocavam-se António Fernandes, neto de António Fernandes que chegou a ser tesoureiro de D. Manuel e que por laços familiares se ligou a outras famílias de poderosos homens de negócios entre elas, Manuel Gomes de Elvas que tinha residência, na Rua de Nossa Senhora da Vitória (Lisboa) e que foi primeiro mercador da nova cidade de Elvas no trato do comércio colonial nas primeiras centúrias da época Moderna. Mas o período medieval fica marcado pela persistência de uma geração de mercadores que aproveitando a situação estratégica da vila raiana cedo se distinguiram nos mercados locais e nas rotas regionais, sendo reconhecidos pela comunidade local como homens possuidores de “cabedal” (Continua).

segunda-feira, setembro 14, 2009

2.5. -Elvas Portuguesa: O 3ºEstado o caso dos Mesteirais

O 3º Estado englobava a maior parte sociedade medieval que na vila de Elvas, incluía entre eles os rendeiros, mesteirais e comerciantes, como os “grupos sociais” com maior condição de posse e de privilégios durante os séculos XIII e XV. Os rendeiros eram uma espécie de campesinato livre que exercia a sua actividade nas terras reguengas e de outros senhores do concelho (laicos ou eclesiásticos). Os foros e as rendas, estabeleciam o contrato entre o senhor e o rendeiro, quase sempre anual, no caso particular das rendas reais. Nos tempos medievais, a documentação regista o pagamento de um quinto do pão, vinho e outras novidades. A excepção era o azeite que pagava um quarto. O rol das propriedades da Coroa a quem os rendeiros pagavam taxa no termo de Elvas, eram não só as hortas, vinhas, ferragiais e olivais, mas outro tipo de propriedades como casas ou instalações domésticas como moinhos e lagares. De resto alguns direitos como a cobrança de portagem, foi exercida pontualmente por alguns rendeiros que pagavam foro pelo exercício de esse serviço de nomeação régia e exercido quase sempre pelos oficiais de portagem [ANTT - Chancelaria de D.Afonso V.]. Os mesteirais e os comerciantes, numa época que o fundamental era antes de tudo, sobreviver, o trabalho era um bem necessário. O seu papel na economia da vila raiana é indiscutível na medida em que estes dois grupos procuravam responder às necessidades vitais. E que no caso dos mesteirais, proprietários das oficinas-tendas que se erguiam nas freguesias de maior importância na economia local, a da Alcaçova e do Salvador. O grupo profissional dos mesteirais, foi sem dúvida o que mais se cresceu até aos inícios do séc. XVI, não faltavam os curtidores, peliceiros ou peliteiros, que trabalhavam as peles e asseguram o vestuário a uma população em nítida em expansão. (Armando Castro, Ob.cit. p.195). Os ferreiros que trabalhavam o ferro “maçudo” ou moído ou moludo em barra, os latoeiros que asseguravam entre outros artefactos, os objectos trabalhados em latão, cobre e o estanho. Os oleiros que desde a fundação da vila de Elvas estavam isentos do pagamento de portagem, relativamente à obtenção da matéria primas, mas não relativamente à louça vidrada ou de barro. A importância dos sapateiros era indiscutível na confecção da “calcadura” de pele e de couros e na carta foral, havia mesmo um capítulo especial relativamente ao desempenho desta função. Os marceneiros asseguravam a loiça de madeira, as arcas, tonéis e outro tipo de recipientes utilizados no quotidiano medieval. O mesteiral por via e regra, era vendedor do seu produto e esta comercialização ocorria no espaço “oficinal”. Por outro lado, não devemos de esquecer o papel do ferreiro, sapateiro e do peliteiro, fundamentais na equipagem de guerreira numa vila de fronteira, como a ferradura e as peças metálicas para cavalos e cavaleiros, a protecção dos pés da peonagem ou os arreios dos cavalos. Na “produção” da utilisagem agrícola, o ferreiro destacava-se dos demais pela importância económica da actividade agrícola que envolvia a maior parte da população. (Continua).




quarta-feira, setembro 09, 2009

2.4. Elvas Portuguesa.A aristocracia vilão e os escudeiros.

Convém salientar que uma parte significativa da nova aristocracia que se desenvolve nos séculos, XIV e XV, tem a sua origem num estrato social que nos primeiros tempos da reconquista vivia entre o arado e a espada face ao inimigo, que com regularidade efectuava as suas “incursões” na chamada guerra guerreada. Nascia neste quadro não institucional uma aristocracia vilã que ao longo do séc. XIII assumiu e pautou-se pelos valores da honra que eram apanágio da nobreza. Ao mesmo tempo que se foi diferenciado de uma vasta população desprovida de posse, que ao serviço da Coroa foi obtendo algumas mercês que lhe permitiram dispor de meios suficientes para o sustento de um cavalo, a compra e manutenção de armas e em alguns, poucos, tinham já um pequeno grupo de servos ou criadagem ao seu serviço. Os Gante e os Garro, não só integraram as milícias concelhias como serviram a tempo inteiro o monarca e as doações régias que foram feitas a estas primeiras famílias da cavalaria que durante semanas serviram no fossado e como tal, eram recompensados com frequentes doações régias. Por vezes o casamento, entre os vários membros da cavalaria permitiu o “nascimento” de uma cavalaria vilã que no séc. XIV se distinguia já com valores sociais e de honra que eram apanágio da nobreza, todavia no presente momento do nosso conhecimento sobre as fontes medievais e nomeadamente a vasta documentação das Chancelarias Reais, não nos permite ainda de ter uma visão clara e objectiva, sobre a origem de muitos cavaleiros da vila de Elvas. Todavia o seu número no nas primeiras décadas do século XV era já significativo uma vez que o privilegiado e cavaleiro, por nomeação régia em 1439, Álvaro de Abreu, era designado vedor dos vassalos do rei, dezassete anos depois [ ANTT, Chanc. D.Afonso V., fol. 13 e segº ] e a sua importância social equiparava-se já desde os tempos da reconquista ao Infanção da nobreza de topo [ Leyes, I,p.47], ganhando um estatuto de privilegiado nas terras da raia . Os escudeiros, o estrato base da “pirâmide” social da aristocracia medieval português, se identificavam na vila de Elvas com a Casa Senhorial D.Henrique, que incluía desde 1321 uma Comenda onde a Ordem de Cristo, que detinha vários bens imóveis e estava incluía ainda na rota da criação do gado lanígero que se deslocava da Beira Henriquina, num percurso onde as localidades de Montalvão e Elvas eram os pontos de apoio no Alto Alentejo na ida a Castela [ ANTT, Ob.cit, fl.38V º]. O número de escudeiros da Vila de Elvas na Casa Senhorial do Infante do Henrique é deveras significativo quando se compara com as nomeações dos funcionários ao serviço do “Navegador”: Afonso Domingues, Besteiro do Couto, 1448 (Ob.cit.fol.27); Afonso Gonçalves, Besteiro do Couto ( Ob.cit., fol.71 Vº ); João Rodrigues Trigueiro, servidor da Casa do Infante e Escrivão do Porto de Elvas (Alfândega 1436) (Ob.cit. fol.36.). Outros escudeiros de renome da Casa do Infante foram sem dúvida: o navegador Álvaro Tristão e seu irmão Nuno Tristão navegadores da Ordem de Cristo, que descobriu várias paragens da Costa Ocidental africana, fixando o reconhecimento da referida costa em Cabo Branco. Lourenço de Elvas – navegador capitão ao serviço de Gil Eanes. Estevão Subtil – Escudeiro do Infante e Gil Fernantes distinto descendente do herói mítico de Elvas com o mesmo nome e que foi Chanceler da Correição da Comarca Entre Tejo e Guadiana. Em Elvas o estatuto do escudeiro praticamente não é mencionado na documentação o que se entende numa terra onde o grande senhor era o rei e como tal deviam servir a casa real nos tempos difíceis que a guerra determinava, contudo no séc. XV eram na sua maioria funcionários da administração régia, de ordens militares religiosas ou casas senhorias como a de D. Infante D. Henrique. Por outro lado, esse papel foi sempre assumido pela cavalaria vilã cujas hostes jamais foram significativas e por outro lado, a ascensão de escudeiro a privilegiado foi uma prática usual reduzindo a persistência de homens não nobres na baixa nobreza. Por fim, há que ter presente que a Nobreza em Elvas, nunca se afirmou no período medieval como um grupo nobiliárquico forte e as linhagens de Estevão Anes e dos Aboim, acabaram mesmo por se extinguir e em parte devido a política centralista de D. Afonso III que acabou por favorecer a constituição de uma nova linhagem constituída por bastardos régios. Por último, a verdade é que o rei era o único senhor feudal e a força, para exigir a uma multidão de vassalos a que exigia fidelidade, terras, “contias” e até as suas próprias não só para a defesa da soberania, mas inclusive para os dominar.