quinta-feira, maio 14, 2009

ELvas maior placa de estacionamento militar portuguesa em finais do séc.XIX.

Da guerra à paz, ou afirmação da Praça Militar de Elvas com uma nova função: “Estacionamento militar”. O século XIX, na região do Caia iniciava-se sob a ameaça da guerra, a Guerra das Laranjas e o Combate de Arronches, foram os primeiros embates no contexto de uma conjuntura internacional em que o território português estava sob ameaça das forças franco - espanholas, que se esboçava de forma concreta desde o Tratado de Santo Ildefonso[1] e que se tornaram evidentes em acordos posteriores[2]. De resto, este avanço das forças militares espanholas um pouco por todo o Alto Alentejo, foi de certa forma facilitada pela postura das forças lusitanas que procuraram evitar o confronto bélico, segundo o Prof. Doutor António Ventura, « Foi essa a principal preocupação do comando português, levando o nosso exército a tomar posições estritamente defensivas, a evitar a batalha e a executar uma série de retiradas estratégicas que por vezes assumiram a forma de fuga desordenada com abandono de equipamento»[3]. O tratado de Paz assinado em 7 de Junho de Badajoz em 1801, afastava de forma muito breve a conjuntura de guerra da região do Caia apesar da perda da vila portuguesa de Olivença[4]. Uma vez que em 21 de Novembro de 1806, Napoleão decretou o Bloqueio Continental, que desde logo constituía uma ameaça a Portugal, velho aliado da Inglaterra que desde logo ignorou o fecho dos seus portos à navegação inglesa, como ultimava o referido Tratado.

           Uma vez mais estava ameaçada a integridade do território português, e enquanto que aliança anglo-lusa, se concretizava na negociação de um tratado de auxílio e de comércio, a aliança franco-espanhola, preparava a invasão de Portugal, pondo em causa a integridade do território continental que seria retalhado em três partes e das nossas colónias.

            Portugal preparava-se para a guerra, procurando assegurar a defesa da sua ampla fronteira terrestre, desde Valença a Tavira, destacando-se a região do Caia, onde pela primeira vez o estacionamento militar, demonstra a importância daquela entrada natural tão utilizada pelos exércitos invasores desde a época moderna. Na verdade nas praças militares de Elvas e Campo Maior concentram-se cerca de 42 regimentos de infantaria e 11 regimentos de artilharia, totalizando cerca de 57.000  homens, quase o dobro de outras concentrações em regimentos de infantaria e cavalaria, cuja importância também era inevitável na defesa da raia, casos de Valença, Chaves, Bragança e Almeida.

            Assim a região do Caia, só se tornou protagonista da guerra, em plena Terceira Invasão Francesa e no contexto das guerras Peninsulares, num período em que a estratégia do exército francês sob comando do Marechal Massena procurava garantir a posse da entradas naturais da raia luso-espanhola. Neste período em que o objectivo era expulsar a presença francesa do território peninsular, as forças aliadas encontram-se pela primeira vez no Cerco de Badajoz mas seria a Batalha de Albuera em 16 de Maio de 1911, que marcava também de forma decisiva a importância da Praça Militar de Elvas como placa “de estacionamento militar”na retaguarda, funcionando como um verdadeiro hospital de campanha para o qual durante dois dias em sucessivos comboios foram transferidos os feridos no campo de Batalha. Da praça elvense saíram também vários regimentos que constituíam as forças aliadas e entre elas o regimento de Infantaria nº17, constituído por elvenses que mereceu o elogio do General britânico Lumlry [5] e o Batalhão de Caçadores nº8[6], comandados pelo Tenente General Hill que se destacaria na Tomada de Badajoz (1812) e outras que sucederam até a saída do exército francês do território espanhol, como foram os casos de Carrión (1812), Vitória (1813) e S.Sebastián (1813).     

           A paz, voltava a terras do Caia, mesmo no período das guerras civis quando a presença de oficiais superiores elvenses era então notada nesse conflito[7], o certo é que na região do Caia, a tradição militar assentava na lealdade governamental[8]. Mas o tempo era de mudança no sentido de uma progressiva desmilitarização de fronteira, em meados do século XIX espaços que outrora foram fundamentais para a defesa da fronteira terrestre do distrito de Portalegre, casos das praças de Marvão, Arronches, Campo Maior ou Juromenha, estavam simplesmente desactivadas e se a Praça Militar de Elvas, mantinha-se como a mais importante sentinela da raia do Alto Alentejo, o cerco é que o seus reflexo dos novos tempos também se manifestavam na baluarte mais importante da região do Caia[9]. Em vésperas das Campanhas de África a situação da praça não era indiferente à população elvense, que através da imprensa desde a década de sessenta manifestava com desagrado ao estado de indiferença a que tinha sido votada pelos governos da nação:«Todos sabem que uma praça de guerra não se defende com portas fechadas e calafetadas. Defende-se com boas praças de artilharia e bons soldados que as guarneçam. Elvas não tem trezentos soldados para a sua defesa, não tem artilharia montada, não tem nada do que constitui a fortaleza e segurança numa praça de guerra»[10].

    O certo é que terminadas as guerras liberais, o espaço militar elvense que se caracterizava por mais de uma centena de edificações segundo o Governador da Praça Militar de Elvas, General de Brigada Francisco Xavier Lopes[11], estavam agora ao abandono devido à crescente desmobilização militar que então se verificava em toda a fronteira terrestre de tal modo que em 1867, a situação da dita praça era assim caracterizada pelo Elvense: « A guarnição de  Elvas ainda há pouco era feita por uns oitenta e tantos homens: havia uma guarda comandada por um subalterno, e cinco por oficial inferior, além das comandadas por cabos desta esquadra. Hoje as maiores guardas que temos, são a cadeia civil, composta de um cabo e seis soldados, e a do quartel-general, com igual força. As portas têm apenas um cabo e um soldado, e a guarda do Trem, que é de responsabilidade, por ter presos importantes, só tem um cabo e três soldados[12]»   

     Esta situação foi corrente até a década de oitenta, apesar de estar estacionadas em Elvas várias unidades militares, tratava-se de um exército regular, semi-profissional e limitado pelo sistema de recrutamento que em tempo de paz, diminuía radicalmente o seu número de efectivos. De tal forma que mesmo em tempos de militarização da praça ocorria situações muito particulares por exemplo, o regimento da Infantaria nº4 que tal como o Batalhão de Caçadores nº8, desde 1862 constituía a base dos efectivos militares, dos seus 147 efectivos[13], em 1885 apenas «havia trinta praças também prontas para o serviço, tendo este regimento de mandar com passagem para a infantaria nº23 uns setenta e tal soldados»[14].    

           Assim podemos afirmar sem quaisquer dúvidas que o sistema de mobilização militar e a transferência mais ou menos periódicas de uma parte dos efectivos, das várias unidades militares, para outras sedeadas em outras circunscrições militares, tenha como consequência uma variação do número de militares que se encontram na Praça Militar de Elvas, uma vez que no período de 1880-1885 estão estacionadas a maioria das forças que são referenciadas em 1834 e só a partir de 1885 é que se verifica mudanças estruturais na forma de organização das forças estacionadas em Elvas, o Regimento de Lanceiros nº1 é desactivado e o Regimento de Artilharia nº5 constitui a base da  Praça Militar de Elvas,  num período relativamente curto e correspondente às Campanhas de Àfrica, a partir de então a Praça “caminha” para um processo de verdadeira desmilitarização alcançando o ponto mais alto durante a Primeira República, quando o Governo da Praça Militar de Elvas é a base do número de efectivos militares.      

 

1880-1885

1885-1890

1890-1905

Regimento de Lanceiros nº1

Regimento de Artilharia nº2

Batalhão de Caçadores nº8

Regimento de Infantaria nº4

8ªCompanhia de Reformados

Destacamento CA nº1

Destacamento CA nº2

Regimento de Artilharia nº5

 

Regimento de Lanceiros nº1

Batalhão de Caçadores nº8

Regimento de Infantaria nº4

8ªCompanhia de reformados

Destacamento CA nº1

Destacamento CA nº2

Regimento de Artilharia nº5

Regimento de Cavalaria

Governo da Praça de Elvas

Governo da Praça de Elvas

Regimento de Caçadores nº4

Companhia de Equipagem

Companhia de Subsistência

Manutenção Militar

 

Unidades militarem estacionadas -1880-1905

 

 

          Aliás o fim das campanhas africanas mudou significativamente a composição das unidades militares estacionadas em Elvas, de tal forma que as forças militares que praticamente atravessaram o século XIX, deixam a mais importante placa de estacionamento militar, ainda a mais importante da raia terrestre, casos do Regimento de Lanceiros nº1, Artilharia nº2 e do Batalhão de Caçadores nº8, cujos feitos históricos, contribui para a sua popularidade entre os civis, de tal forma que a sua saída foi motivo de contestação, uma vez que o problema do alojamento era apenas um pretexto para o seu abandono definitivo como viria a se verificar: « É justa e geral a indignação, porque depois de reiterados pedidos da Câmara Municipal e do Centro Progressista para que não saísse o regime de caçadores nº8 e para que se tratasse quanto antes de esse edificar a parte desmoronada do quartel de aquele corpo, o governo houve por bem não atender tais pedidos»[15].

 

           Contudo a Primeira República acabaria por ser o período de maior adversidade para o complexo militar de Elvas, numa época em que as cinco centenas de efectivos estavam sob comando de um capitão. Ou seja, os últimos tempos de restrição económica que marcaram a Monarquia Constitucional e a nova conjuntura política republicana, assim como diferentes reformas militares e a perda de importância estratégica Elvas do ponto vista estritamente militar ameaçavam de facto a presença militar na cidade.

 

           No entanto esta conclusão não passa de uma reflexão com base documental e teórica, na prática a Praça militar de Elvas, durante todo o século XIX, demonstrou que a sua importância com base ou placa de estacionamento militar, não podia ser ignorada, numa época em que o teatro de guerra em função da nova tecnologia de guerra poderia estar nos confins do Império como sucederia na chamada guerra colonial 1960-1975. Por outro lado, se a perda de efectivos militares e de despromoção dos graduados relativamente à Praça Militar de Elvas é evidente, a sua importância como complexo militar jamais esteve em causa se considerarmos a sua classificação e categoria no contexto nacional: «Artº.121º As fortificações do continente do reino e ilhas adjacentes são classificadas pela seguinte forma: (…).

Artº 126º Os Governadores do campo entrincheirado de Lisboa, da Praça de Elvas e do Castelo de São João Batista da ilha Terceira serão generais de brigada; o de S. João da Barra, coronel de qualquer arma; e o Forte da Graça, coronel de almoxarifes»[16].

 

 

 



[1] Logo após o referido Tratado, os planos de invasão de Portugal pela Espanha, tornaram-se evidentes com a concentração de tropas junto à fronteira portuguesa.

[2] Nomeadamente no Convénio de 1 de Fevereiro de 1801- “ ... que previa a invasão do nosso país caso não abandonasse o campo inglês.

[3] António Ventura, A Revolução Francesa e as Invasões Francesas, in Nova História Militar. . pp.26

[4] O respectivo Tratado no Artigo nº III, determinava: Sua Majestade restituirá a Sua  Alteza Real as Praças e Povoações de Juromenha, Arronches, Portalegre, Castello de Vide, Campo-Maior e Ouguelha, com todos os seus territórios até agora  conquistados pelas armas,ou que se possam vir a conquistar;: e toda a artilharia, espingardas e quaesquer outras munições de guerra que se achassem nas sobreditas Praças, Cidades, Villas e Logares, serão igualmente restituídas, segundo o estado em que foram rendidas; e Sua dita Majestade conservará em qualidade de conquista para unir perpetuamente aos seus domínios e vassalos, a Praça de Olivença, seu território e povos desde o Guadiana; de sorte que este rio seja o limite dos respectivos Reinos, n`aquella parte que unicamente toca ao sobredito território de Olivença.    

[5] Diaz  Perez, Extremadura , Tomo I,pp.262

[6] Do qual o actual Regimento de Infantaria nº8, é fiel depositário.

[7] Almanach do Exército –  Destaca um conjunto de oficiais do exército da cidade de Elvas, que participaram nas guerras que marcaram a primeira metade do séc.XIX : Marechal António Couceiro, interrompeu os seus estudos na Academia da Marinha para servir D.Miguel nas guerras civis; Coronel da Infantaria, António Joaquim Silvano, posto que alcançou durante as guerras Peninsulares, foi um dos últimos governadores da Praça Militar de Campo Maior, foi preso em Elvas em 15  de Outubro de 1828, liberal esteve preso em Cabo Verde, passando à reserva com o posto de Brigadeiro.

[8] De facto à Revolta de Évora de 9 de Outubro de 1834, não aderiram as praças de Estremoz.Elvas e Campo Maior.

[9] Relatório de material de guerra, de João Eliseu Vargas, 1829- apresenta um  conjunto de 426 peças, 39 obuzes e 12 morteiros – distribuídos por Praça do Marvão, Praça e Forte de Santa Luzia e da Graça.Praças de Campo Maior e Juromenha Em 1847, assistiu-se ao desarmamento das peças de  2ª Ordem, correspondentes ao Marvão ( 27 peças, 2 obuzes e 2 morteiros). Forte de Santa Luzia (156 peças, 17 obuzes e 8 morteiros) e Praças de Campo Maior (27 peças e um obuz).  

[10] Sentinela da Fronteira, nº108, 13-4-1882

[11] Relatório do Governador da Praça Militar de Elvas, General de Brigada Francisco Xavier Lopes – [ Praça de Elvas e Fortificações adjacentes ]  -  identifica as seguintes edificações: Quartel de S.Paulo, Edifício do Trem, Casa das Barcas, três quartéis na Rua do Passo, 48 Casernas na Rua dos Quartéis, 20 Casernas na Porta da Esquina, 18 Casernas no Redente do Cascalho, Duas casa-mata no dito Redente, Armazéns da Ramada, Armazéns  do Chafariz de Dentro, Hospital , Casa da Vedoria, Casa das Mortes- defronte ao Hospital, Farmácia militar,Quartel de S.Dom

ingos. Cavalaria do Largo de S.Domingos, Quartel do General do Governador, Tribunal dos Conselhos de Guerra, Casernas da Parado do Castelo, Castelo, Casas nº6, 6ª e 13 na rua da Alagoa, 13 Quartéis da Rua dos Esteiros,na Rua dos Fagundes, 8 Casernas na Rua do Botafogo, Casa nº13 e 13 baterias às Portas de Olivença, da Esquina, S.Vicente e Hospital Militar, Tanque das Madeiras, Casa da Guarda da Esquina, S .Vicente e do Hospital Militar, Casas da Guarda da Porta de Olivença, Casas  da  Guarda de S.Vicente, Casas da Guarda da Obra-Coroa, Casas da Guarda  da Esquina, Casas da Guarda do Castelo, Casas da Guarda do Jardim,  Quartéis do Casarão ( local de estacionamento da Cavalaria nº1-incluía  8 cavalariças da C1) e da Infantaria nº4, Quartéis  da Corujeira ( destacamento de Engenharia),Casos dos Fornos.   

[12] O Elvense, nº13,4-2-1867, BME

[13] Decreto Lei de 13-7-1834, AHM,1834

[14] Ob.cit, 22-2-1885

[15] Sentinela da Fronteira,nº450, 28-10-1886

[16] Administração Peral das Alfândegas, Boletim oficial nº11,1899,nº696     

 




Dois Grandes vultos da historiografia de Elvas e Campo Maior

 História Local -  Ao longo da História da Cidade de Elvas e da Vila de Campo Maior, grandes nomes destacaram-se na reconstrução da memória dos seus antepassados, mas dois nomes são fundamentais e determinantes quando se fala de uma História, cujo objecto de reconstrução se centra no documento. Referimo-nos a Vitorino de Almada e João Francisco Dubraz, o primeiro natural de Elvas, onde nasceu em 21-10-1845 sem dúvida o mais importante historiador desta cidade, o segundo nascido em Campo Maior destacou-se não só na vida cultural da sua vila como foi um dos colaboradores mais importantes da imprensa periódica de Elvas onde se salientou como cronista político e historiador, de facto foi no nº1828 da Voz do Alentejo, que Dubraz escreveu o primeiro artigo sobre história que se intitulava “História de Campo Maior. Em comum, estes dois vultos para além da História, possuíam uma verdadeira paixão pelo jornalismo chegando Vitorino de Almada, a correspondente do Diário Ilustrado na década de 70, enquanto que João Dubraz iniciou mesmo a sua “carreira jornalística” no periódico lisboeta Revolução de Setembro. Todavia, a forma de participação na imprensa nacional e depois local, foi fortemente marcada pela sua formação profissional, que os distingue notavelmente na forma como utilizaram as folhas periódicas onde colaboraram, Vitorino de Almada, capitão do exército e oriundo de uma família ligada a carreira de armadas, jamais utilizou o seu talento para a reflexão da temática política numa época em que o exército português caminhava no sentido da unidade nacional, depois das várias divisões que as guerras liberais determinaram e que ainda se faziam sentir perto de meados do século XIX. João Dubraz, pelo contrário era um verdadeiro activista político, participou na revolta da Maria da Fonte, defensor de um liberalismo radical e da república como regime político, de tal forma que os escritos deste professor foram sempre motivo de polémica na cidade de Elvas, quando essas ideias eram motivo de reflexão.
         No plano da construção memória, a recolha de fontes e uma forma muito particular de registar os agentes da história, são sem dúvida os elementos de maior destaque nas suas obras. No caso de J.Dubraz destaca-se «Recordações dos Últimos Quarenta Anos (1868)», que é sem dúvida, a memória descritiva mais importante da Vila de Campo Maior, referente aos séculos XVIII e XIX e em particular da conjuntura de guerra, desde as Invasões francesas até às guerras peninsulares. De realçar também que uma parte significativa desta memória foi publicada nos jornais de Elvas, Voz do Alentejo e Diário de Elvas. O mesmo caminho seguiu Vitorino de Almada, uma vez que uma parte considerável da sua obra foi também antes publicada em alguns artigos do Elvense, Gil Fernandes e Correio Elvense. Porém de referência é sem dúvida o Dicionário de História e Geografia do Concelho de Elvas e Extintos de Barbacena, vila Fernando Vila Boim, uma obra impar que reúne uma vasta informação: Política, Institucional, Económica, Social e Cultural, uma parte dela recolhida por António Tomás Pires ou facilitada pelo Dr. Francisco de Paula Santa Clara, entre outras personalidades que nos finais do século XIX permitiram o acesso a uma documentação institucional que estava à sua guarda. Eis, algumas notas, sobre dois vultos e duas obras de referência que permanecem ignoradas pela historiografia portuguesas, uma referente a vida de uma cidade e que se estende pelo Alentejo, outra sobre uma memória de uma vila que se desenvolve num cenário específico da História de Portugal. Postado por Arlindo Sena             

quarta-feira, maio 13, 2009

O Aqueduto das Amoreiras algumas dúvidas suscitadas pela documentação


História Local: Foi até a construção do Aqueduto das Águas Livres em Lisboa, edificado em finais do séc. XVIII, o maior aqueduto português e o mais notável da sua época considerando outros obras públicas da mesma tipologia edificadas em Coimbra, Tomar e Vila do Conde. A razão da sua edificação, tem sido justificada pelo facto de em finais do séc. XV, o chamado “Poço do Alcalá” provavelmente do período islâmico não se encontrar em condições de servir a população da então Vila de Elvas. Todavia esta questão merece um reparo, primeiro o dito poço continuou em funcionamento durante pelo menos mais um século, em segundo os representantes às Cortes de Évora de 1498, os elvenses Álvaro Pegado e João Rodrigues d’Abreu, nas suas petições propuseram a reparação do dito poço, o que foi atendido pelo rei de D. Manuel I, que concedeu à câmara de Elvas, o direito da cobrança de lançar o chamado real de água. Que segundo a documentação, seria para as ditas reparações e não para as obras do aqueduto, como mais tarde se viria a verificar. Um outro documento, do A.M.E. refere que durante mais alguns anos se investiu nas referidas obras do Alcalá, sendo assim jamais a mais importante obra pública quinhentista portuguesa se iniciou em 1498 como se encontra registada numa vasta bibliografia sobre esta obra. De resto, este problema foi levantado no século XIX pelo escrivão da Câmara João Viegas, sobre a data do início da construção que não foi a de 1498. Outra questão que vale a pena questionar é sobre o nome do arquitecto que travou o risco do aqueduto, que também não sabemos quem foi com rigor documental que a história como ciência social exige, com tudo e como sabemos esta obra é atribuída ao mestre régio Francisco de Arruda, mas o primeiro documento que se refere à presença deste mestre em Elvas é datado de 27 de Julho de 1537, no qual el-rei D. João III manda à cidade de Elvas, Francisco de Arruda para verificar a maneira como se poderá fazer a obra. Considerando esta afirmação, podemos até responder à primeira questão as obras da “Amoreira” iniciaram-se pelo menos trinta e nove anos mais tarde que a data que lhe é tradicionalmente atribuída. E neste contexto, Francisco de Arruda foi de facto o projectista do aqueduto, da mesma época um documento do A.N.T.T., transcreve de forma clara e inquestionável, que a primeira campanha construtiva do aqueduto de Elvas, foi dirigida pelo arquitecto militar da fortaleza do Restelo. Ora, a fortaleza do Restelo não é mais nada menos que a Torre de Belém e o seu projectista foi Francisco de Arruda.

Assim e nesta perspectiva, o que se destaca é sem dúvida o papel da Coroa em dotar a nobre vila de Elvas, que apresentava então um crescimento demográfico notável de um equipamento que então era específico das cidades do reino ou seja a possibilidade de elevar a nobre vila de Elvas a cidade, era clara até pelo facto de nesse período outras obras utilitárias então se desenvolviam como a construção da futura Sé, a nova Casa da Câmara ou a nova praça, que foi projectada de forma circular e assim se manteve até aos inícios da época contemporânea.

Outras curiosidades alimentam a construção do Aqueduto, como a possibilidade da sua destruição durante a Guerra da Restauração para a construção de uma ampla baluarte onde hoje se situa o redente do Cascalho ou a proposta quase anedótica de D.João V que face às despesas com as obras e manutenção do Aqueduto, propunha a chegada de água à cidade através de um amplo repuxo, que foi contestado pela Câmara de Elvas, que em carta de 6 de Junho de 1709, justifica a importância e necessidade desta obra. As fases de construção, as dificuldades de elevação da última arcada que durou mais de uma dezena de anos, a falta de meios económicos para construção e manutenção do aqueduto ou os roubos constantes de água dos canos do aqueduto, são outras histórias que a história do aqueduto devia contemplar. Postado Por Arlindo Sena

terça-feira, maio 12, 2009

Castelo do Marvão





O Castelo de Fronteira na Guerra Medieval.

História na raia Ibérica: - O Castelo como máquina de guerra nos assédios medievais  - O cenário da guerra  medieval nos fins da Idade Média privilegiado em toda a fronteira portuguesa de Norte a Sul , tinha como palco  central o Castelo que era sem dúvida o meio mais eficiente na prática da guerra ,quer em toda a Península Ibérica quer no Ocidente Medieval . Esta realidade bélica , o Castelo não é apenas uma arma defensiva, ela é também uma base extraordinária para a guerra ofensiva e na medida  em que a guerra de fronteira é uma guerra de conquista de posições  . Eis um exemplo desse tipo de guerra : “...antes de iniciar o cerco de Elvas, ao mandar abastecer Badajoz , Albalá , Jaraicero e Almocir com grandes quantidades de pão e trigo e cevada , necessários ao aprovisionamento das gentes e de armas     a partir desses castelos, deveriam invadir Portugal “ [1]  Porém foi na guerra defensiva que o Castelo provou ser quase inexpugnável , segundo Garcia Fitz : “ Qualquer fortificação bem abastecida , ainda que tivesse poucos defensores e com clara desvantagem em armas , tinha muitas  possibilidades  de manter-se frente a uma pressão exterior [2] .Os cercos foram a prática de guerra mais utilizada na fronteira do Caia e Guadiana . As fontes revelam-nos sistematicamente nos fins de Idade Média , em Elvas , e mais para interior das margens do Guadiana , os cercos a Vila Viçosa , importante também em acções  ofensivas pela sua posição estratégica de “ fazer correr “ os seus “ exércitos “ , numa faixa bem determinada entre o Alandroal e Estremoz , não está posta de parte a sua intervenção em terras do Sul como Terena ou Reguengos , e é provável que tal acontecesse atendendo que o fronteiro mor de Vila Viçosa , o Conde Gonçalo de Azevedo era simultaneamente o fronteiro mor de Moura no fim do Séc. XIV . A importância desta vila no palco da guerra medieval é incontestável     “ quem vençesse e ouvesse a praça ligeiramente cobriria os logares cercados[3]Mas a defesa de longa fronteira , foi também possível em função de um conjunto de modificações que ocorreram nas primeiras fortificações acasteladas do início da reconquista cristã portuguesa ao longo da raia . Na região do Caia em Elvas   ,  as alterações às novas exigências de guerra atingem o auge em finais do Séc. XV ; em Barbacena (Elvas ) a nova gramática bélica marca esta nova fortificação a caminho do Norte Alentejano ; ao contrário de Campo Maior, onde a edificação mandada erigir por D. Dinis em 1310 só será alterada com a introdução  do fogo de artilharia na segunda metade do séc. XVII , as suas altas muralhas e a sua forma compacta explicam a longa longevidade desta construção bélica . Na região do Guadiana , o Castelo do Alandroal  mantém a estrutura inicial do Séc. XIV , o seu papel na logística da guerra é deveras importante, mas como teatro de operações não se encontra nas frentes mais avançadas  , papel esse pertencente a Elvas e Juromenha e na retaguarda a Vila Viçosa . Na época de transição quase até ao aparecimento da pólvora e da sua aplicação na guerra aberta , destacamos a área das fortificações da actual região dos mármores , o Castelo de Estremoz , cuja Torre de Menagem funcionou como autêntico “ paiol” de apoio logístico  à guerra de assédio  e provavelmente[4] / pontualmente como reforço de armas através da cavalaria de ginetes ( ligeira ) aos locais de cerco . Não menos importante e o melhor exemplar das inovações e transformações, é o Castelo de Évora –Monte , salientando-se o Paço Fortificado , que se inscreve numa fase de transição pirobalística  e finalmente o Castelo de Vila Viçosa , de planta quadrada , do início do séc .XVI,  do qual se destacam os torreões cilíndricos de entrada e o profundo fosso que rodeia toda a estrutura do edifício anunciando uma nova era, a do fogo. Porém, numa época em que o Castelo constitui um elemento fundamental, considerando  que a Guerra Medieval  de um modo geral como vimos, se caracteriza como uma guerra de assédios , os exércitos que põem cerco têm alguns objectivos determinados . Nesta perspectiva,  para além da pressão psicológica sobre a população cercada, cuja atitude era de resistir e padecer , tratava-se também de destruir os seus recursos económicos e ao mesmo tempo estabelecer as condições de acesso ao Castelo , cujo assédio  se  podia fazer através da  aproximação das muralhas , utilização de engenhos e abertura de cavas e minas , esta última prática muito utilizada , através da qual o inimigo pretendia abrir  as portas da população sitiada e permitir o avanço dos invasores , por isso mesmo a vigilância das portas ou mesmo a sua abertura era um acto temido e sagrado  :     dabrir as portas tiinha moor cuidado que de rrezar as matinas [5]  . Mas os meios de assédio a um Castelo eram vários e com objectivos bem determinados :  


                      Quadro nº1 – Engenhos e máquinas de assalto


        Mas, como defendemos  ao logo do presente texto , o castelo como máquina de guerra afirmava-se através das suas capacidades defensivas e quase sempre com sucesso. As mais comuns eram : Do lançamento do alto das ameias e das torres , com grande intensidade chuveiros de viratões e de setas [12] [13]; simultaneamente , os sitiados lançavam também sobre os assaltantes e as suas máquinas de guerra fabricadas em madeira , uma vasta gama de projécteis e de materiais inflamáveis , uma técnica em que os estrategos da guerra medieval recomendavam tal como : Cristiano Pisano , Frei de D.Alonso ou Gil Roma. Se na guerra medieval , o Castelo teve um papel fundamental, as armas e o equipamento da cavalaria , da infantaria e da artilharia  tiveram um papel singular como veremos .     
       


[1]Cof.Arnaut ,1962,pp.462-474
[2] Garcia Fitz, Ob.Cit . pp.52
[3] ibid,CDJ,I ,Cap.XXVII,p.323
[4] Provavelmente porque a Guerra campal não foi prática nas guerras do Caia/Guadiana .Mas tornar-se-á umas das práticas no séc.XVI e XVII , quando Estremoz tem um ainda um papel fundamental na logística de guerra, nomeadamente na frente do Caia . Postado por Arlindo Sena
[5] ibid , Cap.CLIII ,  pp.256-257
[6]  Fernão Lopes , Ob,Cit. Cap.CLXIX,pp.360 :
Lê-se “aviam de hir muy notauees escudeiros escolleytos per el-Rey, não por linhagem de fidalgaduia , mas per conhecimentos de boons homeens darmas “ 
[7] Fernão Lopes,Ob.Cit.Cap.CXXXVIII,P.282
[8] Luis Moral Tejada , Ingeniería Militar en las crónicas catalanas, Ob,Cit. PP. 29
Sobre  as  dificuldades  de acesso ao castelo atravás de torres móveis afirma : “ Si hay um foso que
salvar , éste habría de ser rellenado o bien se tendrá de ser rellenado o bien se tendrá una especie de carriles sobre los que passe el castell “ de fusta . 
[9] Joao Gouveia Monteiro , Ob.Cit.pp 348
[10] Fernão Lopes , Ob.Cit , Cap.CXXXV,276-277
[11] Álvaro Soler del Campo,La evolución del Armamento,pp.55
[12] Este processo só era eficaz com base num treino intensivo e organizado , devido a duas razões : sucesso relativamente ao alvo e valor económico dos projécteis em acção.
[13] Foi  desta  forma  que  Fernão  Pereira  ( irmão de D.Nuno Álvares Pereira ) encontrou a morte num dos cercos a Vila Viçosa

  Objectivo
Meios ou engenhos de assédio

1.       Alcançar as muralhas de um castelo como forma de intervir com sucesso .


A ) Através de escadas:  considerada forma mais
clássica para permitir a respectiva escalada . Pretendia-se através da escalada intervir com sucesso ou expulsar os guerreiros que defendiam as ameias .[6]. As escadas deviam ser  à altura da muralha e resistentes . “ D.João I na tomada de Campo Maior serviu-se de uma escada por que as cavas estavam atupidas ”[7]. Em 1388 , durante um cerco o Campo Maior , uma das escadas de assalto a uma das torres, quebrou na altura em que a colocavam em posição de assalto a uma das torres . Sem dúvida que esta forma de aceder ao Castelo ou Praça  sitiada era   perigosa .
B ) Através de Torres móveis ou Castelos de madeira : já conhecida na Antiguidade ,  se a torre móvel vencesse os obstáculos [8] do próprio solo , e se conseguisse  aproximar-se ou abordar as muralhas , a praça  ou o Castelo ficavam imediatamente em perigo. Nestas estavam por vezes incorporados outros meios com vista à entrada no espaço cercado . No pavimento médio da torre por vezes , seguia uma ponte levadiça , que era lançada ao advarve permitindo a entrada dos assaltantes . Segundo J . Gouveia Monteiro , este tipo de torres foi utilizado em toda a Idade Média mas sem o recurso à ponte levadiça[9] e na Crónica de D. João I , há referências a este engenho durante o séc.XIV[10] . No pavimento inferior da torre podia incorporar-se um aríete ou carneiro ou transportar guerreiros com o fim de picar o muro , com vista ao seu derrube e entrada das forças invasoras  .
C ) Utilização do aríete /carneiro : Era uma máquina composta por um grande mastro de madeira em forma abobadada . Através do manejo das correntes e das cordas , os assaltantes faziam avançar e recuar uma grande viga , imprimindo-lhe um movimento de vaivém através do qual se esperava o derrube da muralha.
2. Utilização de engenhos que serviam para arremesso de projécteis aos espaços cercados , castelos e fortalezas
Tratava-se de máquinas por dois fortes pilares , unidos por um duplo ou quádruplo grupo de cordas , entre as quais era colocada uma viga , fazia-se um buraco em forma de colher , ou então associava-se uma funda ; colocava-se aqui uma pedra , e feito isso , aliviava-se rapidamente a viga , o que projectava o míssil numa rota parabólica . Este invento dos engenhos de contrapeso é atribuído aos hispano-mouros da Andaluzia e provavelmente também aos mouros da Sicília .[11] O trabuco considerado  mais eficaz que os engenhos de torção e também menos cómodo , podia ser construído no próprio local de operações . Este engenho que não dependia da torção de cordas , mas sim do súbito desprendimento de cordas , destacava-se pela sua capacidade de destruição .Esta máquina , que funcionava na base do contrapeso , permitia o lançamento de materiais pesados  normalmente pedras  (por vezes podia ser um barril contendo material inflamável). O tiro deste engenho , permitia o projéctil desenhar uma curva parabólica , como de um bomba de um morteiro moderno . Relativamente a este tipo de engenhos com o mesmo objectivo bélico , utilizou-se o “ Trabuquete“ , a “bifa” e o “tripancio “
3. Abertura de cavas e minas com vista a entrar na Praça ou Castelo sitiado ou fazer desabar algumas das suas estruturas, ex:muralhas .
O método mais clássico , conhecido desde a época dos romanos consistia , era através da escavação de túneis profundos de maneira que fosse possível passar por baixo dos fossos e atingir as muralhas . Duas atitudes eram possíveis : atingir o interior do espaço sitiado e abrir a porta principal , permitindo uma invasão de surpresa ou então proceder ao derrube de uma lanço de uma muralha ou mesmo de uma torre , colocando  nas fundações de um muro , procedendo-se depois há sua queima com matéria inflamável.

segunda-feira, maio 04, 2009

O divino uma das obras primas, de Luís Morales

O retábulo da Sé e a obra do Maneirista Luís Morales



História Local - A história do grande retábulo da Sé de Elvas está relacionada directamente com o término das obras do referido espaço arquitectónico iniciadas em 1537, considerando que o Bispo D. António Mendes de Carvalho, pretendia coroar aquele ciclo de obras com uma peça retabular monumental, coincidindo ainda com a concessão da Bula Papal "Super Sanctas " que criava o Bispado de Elvas. Para tal e ao contrário do que passou com os mestres pedreiros das principais obras das arquitectónicas de Elvas quinhentista, o pintor escolhido para tal obra não foi um pintor da capital nem da corte régia, mas da cidade vizinha de Badajoz. O que até se compreende, uma vez que Luís Morales era já então um pintor de nomeada e com obra conhecida na região raiana, como pintor de retábulos entre eles o de Arroyo da Luz, da Igreja matriz de Alconchel ou de São Domingos de Évora. O retábulo da Sé que cobriu a Capela Mor até 1734 altura, em que é retirado quando ocorre a remodelação daquele espaço e que deu lugar a actual capela Barroca era constituída por doze painéis, três deles foram identificadas em 1944 pelo Marquês de Lozola, na sacristia da Igreja do Colégio e as outras três, identificadas pelo Prof. Dr. Victor Serrão, nas reservas do Museu Municipal em 1983. O conjunto retabular era disposto provavelmente de cima para baixo e da esquerda para a direirta da seguinte forma: Busto de Cristo ( diâmetro de 260 mm. desaparecido); Busto da Virgem (260mmm) desaparecido; numa segunda linha: Sant`Ana e São Joaquim (1970x970mm) ; Nossa Senhora da Conceição (1770x1440mm) e Anunciação (1025x1700); na terceira linha: Grupo escultórico cromado (Morte da Virgem) , tamanho não referido à luz da documentação; na quarta linha (Visitação), 1680x1630 mmm) e Adoração dos pastores (desaparecido), na quinta linha, Apresentação ao Templo (1700x1650 mm) e a Adoração aos Magos (1740x1600mm). O retábulo era rematado pela Predela Partida (desaparecidas). Das seis tábuas conhecidas, desta obra prima que custou na época ua fortuna, avaliada num valor superior a mais de 1.000 ducados, destaca-se as seguintes características: A Anunciação, representa um excelente desenho da figura da Virgem, pintada a tons magenta e violáceos, de finos cabelos louros, enquanto que o Anjo Gabriel é representado segundo as regras tradicionais; O encontro de Sant´Ana e São Joaquim na Porta Dourada, encontra-se num estado degrado e mutilado como efeito de utilizações várias; no painel a Visitação destaca-se o cromatismo quente, a qualidade superior do desenho, a expressão figurativa e a forma eficaz de representação do vestuário e dos tecidos soltos; A apresentação do Menino do Templo, segue o modelo comum nas obras de Morales onde o valor figurativo das figuras é variado do ponto vista qualitativo; O painel da Adoração aos Magos, destaca-se pelo carácter pedagógico da representação e finalmente o painel de Nossa Senhora de Assunção, que deveria coroar o retábulo e que se econtra igualmente em mau estado. Eis pois a obra monumental de um dos maiores pintores do maneirismo espanhol ou melhor o pacense Luís Morales, que deixou a sua marca em Elvas, hoje visível nos painéis da sacristia da Igreja do Salvador, a saber a Adoração aos Magos, a Visitação e a Apresentação no Templo. Postado por Arlindo Sena

Robin dos Bosques era um ladrão vulgar?


Notícias com  História - A história do lendário Robin dos Bosques que roubava aos ricos para dar aos pobres que se encontram referenciadas em numerosas baladas ou romances populares britânicos pelo menos desde o século XV , tem sido motivo de estudo e debate, contudo entre os medievalistas britânicos não há acordo sobre a sua existência e alguns historiadores consideram que a personagem de Robin dos Bosques não é mais do que o resultado da fusão dos relatos das vidas de diversos bandoleiros, entre eles o Monge Eustaquio ou Fulk Fitz Warin. Porém este debate parece esgotado com o achado do Doutor Julian Luxford da Universidade de St. Andrews, que descobriu por um mero acaso um documento que se encontra conservado no Colégio de Eaton, Oxford, que confirma a existência de Robin dos Bosques,  que identifica a existência de Robin Hood como um bandido, que viveu nos tempos do rei Eduardo I, em finais do século XIII e que é descrito numa perspectiva negativa  gozando segundo a referida fonte, da simpatia da Igreja de Nottingham nem do xerife daquela cidade com quem estava frenquentemente em conflito. Por último de referir que o referido historiador britânico nos seus estudos não conseguiu em nenhum momento comprovar a existência do bando de Robin dos Bosques, nem a floresta de Sherwood como base para as suas operações de saque, que a Sétima Arte, tanto publicitou. Postado por Arlindo Sena.      

quinta-feira, abril 30, 2009

Carta Geológica de Portugal - 1879 de Nery Delgado


Joaquim Filipe Nery, um notável geólogo e paleontólogo elvense e de Portugal.

Biografia /História Local : -Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado nasceu em Elvas no dia 26 de Maio de 1835, quando seu pai o Tenente-Coronel José Miguel Delgado desempenhava a função de Governador militar do Forte de Nossa Senhora da Graça . Em 1844 entrou para o Colégio Militar, continuando os seus estudos na Escola Politécnica. Em 1856, já graduado com o posto de sub-tenente de engenharia, trabalhou no Ministério das Obras Públicas onde pertenceu à comissão encarregue de estudar as medidas a tomar, contra as inundações do Mondego . Entrou para a "Comissão Geológica" em 1857 como adjunto do engenheiro militar Carlos Ribeiro tendo assumido a direcção deste organismo de 1882 a 1908. Deixou uma obra científica notável, tendo a sua actividade incidido sobretudo no estudo dos terrenos paleozóicos e ante-paleozóicos de Portugal, sobre os quais publicou importantes trabalhos que ainda hoje, volvidos mais de 100 anos sobre a sua edição, continuam a ser de leitura obrigatória. Ocupou-se, além disso, de problemas de geologia aplicada e de estudos de pré-história .Em 1867 foi publicado o seu primeiro estudo "Da existência do homem no nosso solo em tempos mui remotos provada pelo estudo das cavernas". Um dos aspectos mais importantes dos trabalhos de campo de Nery Delgado foi a descoberta da fauna câmbrica de Vila Boim, constituída por trilobites e outros fósseis que foram por ele descritos e classificados, sendo a cronologia então estabelecida (Georgiano) ainda hoje se mantêm. A sua obra fundamental , talvez a mais conhecida, é a monografia entre o Sistema Silúrico de Portugal. Trata-se de um estudo exaustivo, contendo listagens de fósseis, mapas e cortes geológicos. Nery Delgado começa por apresentar uma introdução histórica sobre o sistema silúrico do país, seguida de estudo de estratigrafia paleontológica do mesmo sistema, partindo da bacia hidrográfica do Mondego, passando às bacias do Tejo, do Douro e, finalmente do Guadiana. As amostras litológicas e paleontológicas recolhidas por Nery Delgado encontram-se depositadas no Museu do Instituto Geológico e Mineiro. No domínio da geologia os seus trabalhos de campo foram efectuados em pareceria com o engenheiro militar Carlos Ribeiro nas prospecções hidrogeológicas com vista ao abastecimento de água a Lisboa em 1857, e, em 1868, por solicitação do Instituto Geográfico, publicou com Carlos Ribeiro um estudo sobre a arborização geral do país, cuja utilidade continuou a ser reconhecida no século XX. Na área da arqueologia, os seus trabalhos mais significativos são o estudo das grutas da Cesareda que descreveu em 18867, e da gruta da Furninha, Peniche, 1880. A descrição e morfologia desta última foram apresentadas no Congresso Internacional de Arqueologia e Antropologia Pré-Históricas, realizado em 1880. Na vida púvblica exerceu os mais altos cargos públicos, tendo-lhe sido confiados numerosos cargos honoríficos, como a sua nomeação ao Conselho dos Monumentos Nacionais. Representou Portugal no Congresso Internacional de Paris (pré-história) e nos Congressos Geológicos de Bolonha, Londres e Zurique. No de Paris foi distinguido pelos seus trabalhos científicos, facto este que viria a repetir-se em Filadélfia em 1876, no âmbito da publicação de trabalhos científicos foram editados cerca de uma centena e meia das suas investigações e trabalhos de campo, dos quais destacamos a seguinte bibliografia:

• Nery Delgado, Noticia Acerca das Grutas da Cesareda, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1867; Carlos Ribeiro; Nery Delgado, Relatorio acerca da Arborisação Geral do Paiz, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1868.• Nery Delgado, Terrenos Paleozoicos de Portugal. Sobre a Existencia do Terreno Siluriano no Baixo Alemtejo (Memoria Apresentada à Academia Real das Sciencias de Lisboa), Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1876.• Carlos Ribeiro; Nery Delgado, Carta Geológica de Portugal (escala 1:500 000), 1876 • Nery Delgado, “Apontamentos para servirem de base ao estudo do projecto de abastecimento de aguas da villa de Figueira”, Revista de Obras Publicas e Minas, 10 (1879), 269-277.• Nery Delgado, Estudo sobre os Bilobites e outros Fosseis das Quartzites da Base do Systema Silurico de Portugal, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1886.• Nery Delgado, Estudo sobre os Bilobites e outros Fosseis das Quartzites da Base do Systema Silurico de Portugal, Supplemento, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1887.• Nery Delgado, “Chronica: Jazigos de Marmore e Alabastro e grutas respectivas dos concelhos de Vimioso e Miranda do Douro,” Revista de Obras Publicas e Minas, 19 (1888), 81-89.• Nery Delgado, Fauna Silurica de Portugal. Descrição de uma nova forma de Trilobite, Lichas (Uralichas) Riberoi, Lisboa, Comissão dos Trabalhos Geologicos de Portugal/Typographia da Academia Real das Sciencias, 1892.• Nery Delgado, “As Aguas de Bellas. Reflexões acerca do artigo ‘As Aguas de Lisboa’, publicado no vol. 24 d’esta ‘Revista’”, Revista de Obras Publicas e Minas, 25 (1894), 72-81.• Nery Delgado; Paul Choffat, Carta Geológica de Portugal (escala 1:500 000), 1899• Nery Delgado, Système Silurique du Portugal. Étude de Stratigraphie Paléontologique, Lisbonne, Imprimerie de l'Académie Royale des Sciences, 1908 e Nery Delgado, Terrains Paléozoïques du Portugal. Étude sur les Fossiles des Schistes à Néréites de San Domingos et des Schistes à Néréites et à Graptolites de Barrancos (Ouvrage Posthume), Lisbonne, Commission du Services Géologique du Portugal/Imprimerie Nationale, 1910
Terminou a carreira militar no posto de General de divisão que atingiu em 1899. Foi homenageado com a grande cruz da Ordem Militar de S. Bento d'Aviz, comendador da Ordem de D. Isabel a Católica, oficial da Ordem da Legião de Honra, oficial da Ordem da Coroa de Itália e com medalhas em todas as exposições internacionais nas quais o Serviço Geológico estivesse presente. Foi membro correspondente na Academia das Ciências de Lisboa em 1875 e passou a membro efectivo em 1884. Foi vice-presidente da aula das ciências matemáticas, físicas e naturais e presidente da comissão da redacção do jornal dessa aula. Viria a falecer na capital do reino em 3 de Agosto de 1908 quando há cerca de uma década se encontrava já afastado da vida pública e científica. Postado por Arlindo Sena.

quarta-feira, abril 29, 2009

Land Art



segunda-feira, abril 27, 2009

O trajecto histórico da Herdade na História de Elvas



História Local :- Do ponto vista histórico o conceito de herdade perde-se no tempo, há quem encontre na "Villa Romana" e na sua "pars rústica", a sua origem e por extensão a base da denominação do "monte alentejano". Todavia, quando se considera os fundos documentais da vila e mais tarde cidade de Elvas, encontramos as primeiras referências para o período de povoamento e aproveitamento económico da vila de Elvas. De facto, a primeira carta régia, que utiliza a designação de herdade é uma confirmação dada à Ordem de Alcobaça em 7 de Maio de 1259 ou seja, a primeira doação de uma herdade é provavelmente do início de meados do séc. XIII. Considerando ainda que uma das primeiras herdades da referida ordem a de Fonte Enossa estão referenciadas no testamento de João Paes Salzedas como doadas por carta régia em 3 de Abril de 1258. Ao longo do período medieval as doações sucedem-se a alguns membros da aristocracia de Portugal e Local, como são os casos dos Aboim. Na época Moderna, D. Álvaro, da Casa de Bragança é o primeiro aristocrata do reino a receber uma herdade e no final do Antigo Regime uma elite domina a propriedade concelhia como são os casos da Casa de Bragança e de Cadaval ou do Conde de São Martinho. A partir de meados do século XIX a herdade é fonte de riqueza e elemento determinante para a formação de novas elites económicas, de facto na lista de maiores contribuintes de Elvas entre 1880-1890, apenas o comerciante José Nunes da Silva, não constitui a sua riqueza com base na herdade. José Miguel Barreto era o maior proprietário com morado na cidade e António Bagulho, o maior proprietário oriundo de uma vila rural. Porém o esboço das primeiras Casas Agrícolas com base na herdade estavam já criadas antes do fim do século XIX como era as casas dos primeiros grandes lavradores após a Reforma de Mouzinho da Silveira: António Bagulho (1864); Adelino Gonçalves (1867) ou Francisco Lobão Rasquilha (1879). A transição para o século XX foi determinante para o alargamento das áreas de exploração agrária, correspondente a um aumento da propriedade e ao aparecimento de novos proprietários alguns dos quais antigos arrendatários, numa época em que a paisagem agrícola era ainda marcada por « ... extensos matagais de carrasco, piorno e outros arbustos silvstres». A partir de então e até final da década de 1960, a posse herdade tornou-se um sinal de elitização social e de desenvolvimento local, considerando como:


- Um sinal de prestígio social e nesse contexto os comerciantes e os "doutores", os médicos, procuravam adquirir esse tipo de propriedade como forma de se inserir nas elites económicas.


- Factor de criação de emprego, de uniformização e nivelamento social, uma vez que a maioria da população encontrava a sua subsistência no trabalho rural.As expectativas das classes populares, variavam entre a guarda fiscal e a vida militar.


-Elemento determinante na produção cerealífera e na economia nacional após as reformas agrícolas de 1883 e a Campanha do Trigo de 1929.


Sem dúvida que a herdade e os seus protagonistas não se esgotam, mas o papel da herdade como motor da economia elvense e nacional não deve ser ignorado na sua História. Postado por Arlindo Sena.

sábado, abril 25, 2009

A irrequietude artística de Rosso Fiorentino


História e Cultura das Artes/10º ano de escolaridade - A obra maneirista de Rosso Fiorentino: - Giovanni Batista di Lacopo, conhecido por Rosso Fiorentino, foi aluno de Andrea Del Sarto e manifestou desde cedo uma vontade de independência relativamente aos módulos formais clássicos. Na Virgem com o Menino e Santos para Santa Maria Nuova, retoma o esquema do século XV do retábulo do altar, mas anula o sentido de profundidade espacial pondo no mesmo plano as figuras, caracterizadas por rostos que parecem possuídos, corpos com volumes facetados e mãos aduncas. Uma explicação ruptura dos cânones clássicos surge na Deposição de Volterra ( figura acima representada), onde Fiorentino exacerba a expressividade das figuras, sublinhando a tensão dramática do evento e organizado, em linhas quebradas e dissonantes, uma composição em que tudo vive numa dimensão não naturalista: a luz irreal, a compacta faixa de céu no fundo, as cores violentas sem efeitos de claro-escuro e as expressões caricatas dos rostos. Do mesmo período é o Anjo Músico, fragmento de um retábulo representado provavelmente uma Virgem com o Menino. Na pintura Moisés Defende as Filhas de Jetro, é óbvia a intenção de imitar os modelos de Miguel Ângelo para levar ao extremo as pesquisas formais do mestre. Antes de partir para Roma, Rosso realizou o Casamento da Virgem, obra que revela o desejo de reinterpretar a tradição clássica de Rafael e dos artistas florentinos. Postado por Arlindo Sena

sexta-feira, abril 24, 2009

O 25 de Abril de 1974


História de Portugal - O dia 24 de Abril caminhava para o fim, faltavam cinco minutos para as vinte e trinta minutos, quando o som da rádio nacional mais ouvida, emitia a canção Grândola Vila Morena. De prevenção há algumas horas, as forças militares compostas em quatro zonas de comando (Lisboa e sectores: norte, centro e sul), iniciavam o primeiro Golpe de Estado militar após o 25 de Maio de 1926 que tinha como objectivo a capital, no plano geral das operações o Major Otelo Saraiva de Carvalho deixava bem claro que considerava " a cidade de Lisboa como o fulcro de toda acção, visto que é nela que se concentram os poderes legais e os objectivos remuneradores para o cumprimento da missão e para as missões consequentes". Pela manhã, as notícias eram conhecidas em Elvas, com entusiasmo e ao mesmo tempo com apreensão, a rádio nacional era o meio privilegiado com notícias como estas: " As forças armadas desencadearam, na madrugada de hoje uma série de acções com vista a liberdade do País e do regime que há longo tempo o domina". Mas a noite seria mais histórica para dois elvenses que participaram no anúncio da aventura democrática, José Manuel Carapinha Brilha e Martinho José Coelho Jesus, que faziam parte da coluna militar do RPC liderados pelo capitão Salgueiro Maia, que de Santarém partiram para a capital, durante a madrugada, ocupando sucessivamente o Terreiro do Paço, subindo ao Carmo onde aceitaram a demissão do Prof. Dr. Marcelo Caetano, Presidente do Concelho. Aos poucos o movimento emprendido pelas forças armadas, chegava a Elvas, a cidade tornava-se movimentada e patrulhada por inúmeras viaturas militarizadas, entre elas os Jipes da era dos aliados do pós 2ª guerra mundial, o tempo corria depressa e as vozes da liberdade faziam-se sentir um pouco por todo o lado, onde a esperança e apreensão eram sentimentos próprios de quem não entendia o que se passava. O fim da estruturas do regime de censura e repressão, situados respectivamente na Praça (PIDE-DGS) e no Largo de S. Domingos (Legião) denunciavam a mudança que alcançou o ponto mais alto com a comemoração do 1ºMaio quando o povo de Elvas saíu de forma expansiva à rua. Postado por Arlindo Sena

A Guerra civil de Espanha na raia de 1939


História Local - 24 de Abril de 1939, a violência na cidade de Badajoz tinha cessado à pouco mais de vinte dias quando um grupo de autoridades locais, civis e militares visitaram a actual capital da Extremadura. Em Elvas, as forças militares estacionadas na cidade voltavam a capital, como também os vários jornalistas que de Elvas faziam as suas reportagens sobre os acontecimentos de Badajoz nomeadamente o Rádio Clube Português, a partir da informação que era recolhida na raia. De resto seria uma coluna automóvel organizada pelo Rádio Clube a primeira a entrar com fins humanitárias em Badajoz via Elvas em 1939 , " ... que na sua longa viagem de Lisboa - Badajoz, transportava donativos em géneros, agasalhos e mendicamentos. As camionetas alinhadas por distritos e levando à frente o de Lisboa, estendiam-se pela estrada fora numa fila interminável que atingia alguns quilómetros. Esperava-se anciosamente a entrada em Badajoz (...) Havia talvez uma hora que ali estavamos quando de Elvas nos chegou o barulho de potentes aviões. (...) Eram aviões portugueses das nossas forças aéreas que para nós se dirigiam". Mas dos dias da guerra registam-se momentos de contrariedade e de solidariedade, se a denuncia junto das autoridades espanholas e a entrega de prisioneiros, alguns dos quais foram eliminados na Praça de Touros da cidade, há momentos de solidariedade e de humanidade que não podemos deixar de referir. Como por exemplo.


- O papel dos lavradores com propriedades na raia, que protegeram alguns dos que fugiam do clima de terror.


- A acção humanitária dos contrabandistas que traziam a salvo algumas crianças a pedido dos seus familiares.


- A convivência de alguns funcionários públicos com alguns exilados, como os médicos locais que não denunciaram os tratamentos feitos no hospital de Elvas, a um coronel republicano e ao governador Civil de Badajoz na época, que tinham mandatos de captura.


- O papel anónimo dos elvense, foram muitos que ofereceram a sua solidariedade, como por exemplo, a Senhora Isabel (assim referida num documento oficial), que evitou que um cabeleiro extremenho encontrado na cidade e vivendo clandestinamente em sua casa, fosse detido e enviado para Badajoz em função dos pedidos que fez junto de algumas figuras influentes na vida política local.
"São sem dúvida registos que a HISTÓRIA das relações fronteirizas não pode ignorar num acontecimento em que Portugal declarou a sua neutralidade mas na prática, tomou partido das forças da falange na medida em que a existência de um regime republicano, democrático ou socialista em Espanha era uma ameaça ao estado autoritário e nacionalista que definia a base júridica do Estado Novo, cujo princípio anti-comunista saiu notavelmente reforçado após a Guerra Civil de Espanha".


Dos dias da guerra na documentação oficial, regista-se ainda os movimentos das forças militarizadas na Rua da Cadeia e as constantes subidas dos elvenses aos pontos mais altos para testemunharem os bombardementos sobre a cidade de Badajoz. Postado por Arlindo Sena

sexta-feira, abril 17, 2009

A Igreja do Salvador, um monumento que não o é ?

História e Cultura das Artes - Leitura formativa 10º ano de escolaridade/História Local - " Uma das edificações mais significativas da arquitectura religiosa do período moderno na cidade de Elvas, é sem dúvida a Igreja do Salvador, mais conhecida pela igreja do Colégio e que apesar da sua notoriedade não se inscreve na lista de imóveis elvenses classificados com a designação de Monumento Nacional. Este espaço arquitectónico integrado no conjunto monumental do Colégio dos Jesuitas edificado durante a segunda metade do séc. XVII e aberto ao público a 17 de Agosto de 1692, iniciou a sua construção com o lançamento da primeira pedra a 4 de Julho de 1679, apresentando como características dominantes as formas e estruturas que predominaram na Igreja Jesuítica nacional se considerarmos as suas linhas construtivas : - A planta - cuja fórmula sai da igreja gótica alentejana de forma rectangular, apresenta uma só nave com cobertura de abóbada de berço, com transepto bem marcado, ladeada pela capela mor e por duas capelas laterais profundas, nas naves distinguem-se duas capelas laterais de cada um dos lados , dando ao espaço interior uma dimensão alargada e transformando a mesmo numa autêntica igreja salão, do qual se destacando-se dois púlpitos (em mármore branco e preto) que determinavam a descentralização do culto a partir do altar principal, seguindo o modelo da Igreja de São Roque (Lisboa), ainda que sem a capacidade inventiva do templo lisboeta. Todavia no traço da planta da Igreja do Salvador de Elvas, está subjacente uma maior proximidade com o modelo das igrejas jesuíticas algarvias, o que é absolutamente normal considerando que o traço da referida igreja atribuída ao jesuíta Bartomoleu Duarte, que desenhara no início da sua década de 1660 a Igreja do colégio de Portimão que por sua vez foi deveras influenciada pela igreja da Companhia de Jesus edificada em Faro. A Fachada principal - que se eleva no prolongamento do colégio onde se acolhiam os Padres da Companhia Jesus, é caracterizada pela verticalidade que caracteriza o modelo jesuíta e o maneirismo que de resto está inerente no modelo das frontarias das Igreja da Companhia de Jesus, contudo a simplicidade é o elemento dominante com três portais clássicos (sendo o maior o central onde se identifica um frontão interrompido, um medalhão com uma inscrição referente à fundação régia). O segundo e terceiro andar, marcados por duas ordens de janelas em cada secção superior, o último andar é rematado por um frontão pronunciado. Na fachada destaca-se duas torres tal como em S.Vicente Fora, S. Lourenço no Porto ou na Sé Nova em Coimbra, que são limitadas pelas pilastras que separam as mesmas do corpo central do frontespício". Postado por Arlindo Sena