quinta-feira, maio 14, 2009

ELvas maior placa de estacionamento militar portuguesa em finais do séc.XIX.

Da guerra à paz, ou afirmação da Praça Militar de Elvas com uma nova função: “Estacionamento militar”. O século XIX, na região do Caia iniciava-se sob a ameaça da guerra, a Guerra das Laranjas e o Combate de Arronches, foram os primeiros embates no contexto de uma conjuntura internacional em que o território português estava sob ameaça das forças franco - espanholas, que se esboçava de forma concreta desde o Tratado de Santo Ildefonso[1] e que se tornaram evidentes em acordos posteriores[2]. De resto, este avanço das forças militares espanholas um pouco por todo o Alto Alentejo, foi de certa forma facilitada pela postura das forças lusitanas que procuraram evitar o confronto bélico, segundo o Prof. Doutor António Ventura, « Foi essa a principal preocupação do comando português, levando o nosso exército a tomar posições estritamente defensivas, a evitar a batalha e a executar uma série de retiradas estratégicas que por vezes assumiram a forma de fuga desordenada com abandono de equipamento»[3]. O tratado de Paz assinado em 7 de Junho de Badajoz em 1801, afastava de forma muito breve a conjuntura de guerra da região do Caia apesar da perda da vila portuguesa de Olivença[4]. Uma vez que em 21 de Novembro de 1806, Napoleão decretou o Bloqueio Continental, que desde logo constituía uma ameaça a Portugal, velho aliado da Inglaterra que desde logo ignorou o fecho dos seus portos à navegação inglesa, como ultimava o referido Tratado.

           Uma vez mais estava ameaçada a integridade do território português, e enquanto que aliança anglo-lusa, se concretizava na negociação de um tratado de auxílio e de comércio, a aliança franco-espanhola, preparava a invasão de Portugal, pondo em causa a integridade do território continental que seria retalhado em três partes e das nossas colónias.

            Portugal preparava-se para a guerra, procurando assegurar a defesa da sua ampla fronteira terrestre, desde Valença a Tavira, destacando-se a região do Caia, onde pela primeira vez o estacionamento militar, demonstra a importância daquela entrada natural tão utilizada pelos exércitos invasores desde a época moderna. Na verdade nas praças militares de Elvas e Campo Maior concentram-se cerca de 42 regimentos de infantaria e 11 regimentos de artilharia, totalizando cerca de 57.000  homens, quase o dobro de outras concentrações em regimentos de infantaria e cavalaria, cuja importância também era inevitável na defesa da raia, casos de Valença, Chaves, Bragança e Almeida.

            Assim a região do Caia, só se tornou protagonista da guerra, em plena Terceira Invasão Francesa e no contexto das guerras Peninsulares, num período em que a estratégia do exército francês sob comando do Marechal Massena procurava garantir a posse da entradas naturais da raia luso-espanhola. Neste período em que o objectivo era expulsar a presença francesa do território peninsular, as forças aliadas encontram-se pela primeira vez no Cerco de Badajoz mas seria a Batalha de Albuera em 16 de Maio de 1911, que marcava também de forma decisiva a importância da Praça Militar de Elvas como placa “de estacionamento militar”na retaguarda, funcionando como um verdadeiro hospital de campanha para o qual durante dois dias em sucessivos comboios foram transferidos os feridos no campo de Batalha. Da praça elvense saíram também vários regimentos que constituíam as forças aliadas e entre elas o regimento de Infantaria nº17, constituído por elvenses que mereceu o elogio do General britânico Lumlry [5] e o Batalhão de Caçadores nº8[6], comandados pelo Tenente General Hill que se destacaria na Tomada de Badajoz (1812) e outras que sucederam até a saída do exército francês do território espanhol, como foram os casos de Carrión (1812), Vitória (1813) e S.Sebastián (1813).     

           A paz, voltava a terras do Caia, mesmo no período das guerras civis quando a presença de oficiais superiores elvenses era então notada nesse conflito[7], o certo é que na região do Caia, a tradição militar assentava na lealdade governamental[8]. Mas o tempo era de mudança no sentido de uma progressiva desmilitarização de fronteira, em meados do século XIX espaços que outrora foram fundamentais para a defesa da fronteira terrestre do distrito de Portalegre, casos das praças de Marvão, Arronches, Campo Maior ou Juromenha, estavam simplesmente desactivadas e se a Praça Militar de Elvas, mantinha-se como a mais importante sentinela da raia do Alto Alentejo, o cerco é que o seus reflexo dos novos tempos também se manifestavam na baluarte mais importante da região do Caia[9]. Em vésperas das Campanhas de África a situação da praça não era indiferente à população elvense, que através da imprensa desde a década de sessenta manifestava com desagrado ao estado de indiferença a que tinha sido votada pelos governos da nação:«Todos sabem que uma praça de guerra não se defende com portas fechadas e calafetadas. Defende-se com boas praças de artilharia e bons soldados que as guarneçam. Elvas não tem trezentos soldados para a sua defesa, não tem artilharia montada, não tem nada do que constitui a fortaleza e segurança numa praça de guerra»[10].

    O certo é que terminadas as guerras liberais, o espaço militar elvense que se caracterizava por mais de uma centena de edificações segundo o Governador da Praça Militar de Elvas, General de Brigada Francisco Xavier Lopes[11], estavam agora ao abandono devido à crescente desmobilização militar que então se verificava em toda a fronteira terrestre de tal modo que em 1867, a situação da dita praça era assim caracterizada pelo Elvense: « A guarnição de  Elvas ainda há pouco era feita por uns oitenta e tantos homens: havia uma guarda comandada por um subalterno, e cinco por oficial inferior, além das comandadas por cabos desta esquadra. Hoje as maiores guardas que temos, são a cadeia civil, composta de um cabo e seis soldados, e a do quartel-general, com igual força. As portas têm apenas um cabo e um soldado, e a guarda do Trem, que é de responsabilidade, por ter presos importantes, só tem um cabo e três soldados[12]»   

     Esta situação foi corrente até a década de oitenta, apesar de estar estacionadas em Elvas várias unidades militares, tratava-se de um exército regular, semi-profissional e limitado pelo sistema de recrutamento que em tempo de paz, diminuía radicalmente o seu número de efectivos. De tal forma que mesmo em tempos de militarização da praça ocorria situações muito particulares por exemplo, o regimento da Infantaria nº4 que tal como o Batalhão de Caçadores nº8, desde 1862 constituía a base dos efectivos militares, dos seus 147 efectivos[13], em 1885 apenas «havia trinta praças também prontas para o serviço, tendo este regimento de mandar com passagem para a infantaria nº23 uns setenta e tal soldados»[14].    

           Assim podemos afirmar sem quaisquer dúvidas que o sistema de mobilização militar e a transferência mais ou menos periódicas de uma parte dos efectivos, das várias unidades militares, para outras sedeadas em outras circunscrições militares, tenha como consequência uma variação do número de militares que se encontram na Praça Militar de Elvas, uma vez que no período de 1880-1885 estão estacionadas a maioria das forças que são referenciadas em 1834 e só a partir de 1885 é que se verifica mudanças estruturais na forma de organização das forças estacionadas em Elvas, o Regimento de Lanceiros nº1 é desactivado e o Regimento de Artilharia nº5 constitui a base da  Praça Militar de Elvas,  num período relativamente curto e correspondente às Campanhas de Àfrica, a partir de então a Praça “caminha” para um processo de verdadeira desmilitarização alcançando o ponto mais alto durante a Primeira República, quando o Governo da Praça Militar de Elvas é a base do número de efectivos militares.      

 

1880-1885

1885-1890

1890-1905

Regimento de Lanceiros nº1

Regimento de Artilharia nº2

Batalhão de Caçadores nº8

Regimento de Infantaria nº4

8ªCompanhia de Reformados

Destacamento CA nº1

Destacamento CA nº2

Regimento de Artilharia nº5

 

Regimento de Lanceiros nº1

Batalhão de Caçadores nº8

Regimento de Infantaria nº4

8ªCompanhia de reformados

Destacamento CA nº1

Destacamento CA nº2

Regimento de Artilharia nº5

Regimento de Cavalaria

Governo da Praça de Elvas

Governo da Praça de Elvas

Regimento de Caçadores nº4

Companhia de Equipagem

Companhia de Subsistência

Manutenção Militar

 

Unidades militarem estacionadas -1880-1905

 

 

          Aliás o fim das campanhas africanas mudou significativamente a composição das unidades militares estacionadas em Elvas, de tal forma que as forças militares que praticamente atravessaram o século XIX, deixam a mais importante placa de estacionamento militar, ainda a mais importante da raia terrestre, casos do Regimento de Lanceiros nº1, Artilharia nº2 e do Batalhão de Caçadores nº8, cujos feitos históricos, contribui para a sua popularidade entre os civis, de tal forma que a sua saída foi motivo de contestação, uma vez que o problema do alojamento era apenas um pretexto para o seu abandono definitivo como viria a se verificar: « É justa e geral a indignação, porque depois de reiterados pedidos da Câmara Municipal e do Centro Progressista para que não saísse o regime de caçadores nº8 e para que se tratasse quanto antes de esse edificar a parte desmoronada do quartel de aquele corpo, o governo houve por bem não atender tais pedidos»[15].

 

           Contudo a Primeira República acabaria por ser o período de maior adversidade para o complexo militar de Elvas, numa época em que as cinco centenas de efectivos estavam sob comando de um capitão. Ou seja, os últimos tempos de restrição económica que marcaram a Monarquia Constitucional e a nova conjuntura política republicana, assim como diferentes reformas militares e a perda de importância estratégica Elvas do ponto vista estritamente militar ameaçavam de facto a presença militar na cidade.

 

           No entanto esta conclusão não passa de uma reflexão com base documental e teórica, na prática a Praça militar de Elvas, durante todo o século XIX, demonstrou que a sua importância com base ou placa de estacionamento militar, não podia ser ignorada, numa época em que o teatro de guerra em função da nova tecnologia de guerra poderia estar nos confins do Império como sucederia na chamada guerra colonial 1960-1975. Por outro lado, se a perda de efectivos militares e de despromoção dos graduados relativamente à Praça Militar de Elvas é evidente, a sua importância como complexo militar jamais esteve em causa se considerarmos a sua classificação e categoria no contexto nacional: «Artº.121º As fortificações do continente do reino e ilhas adjacentes são classificadas pela seguinte forma: (…).

Artº 126º Os Governadores do campo entrincheirado de Lisboa, da Praça de Elvas e do Castelo de São João Batista da ilha Terceira serão generais de brigada; o de S. João da Barra, coronel de qualquer arma; e o Forte da Graça, coronel de almoxarifes»[16].

 

 

 



[1] Logo após o referido Tratado, os planos de invasão de Portugal pela Espanha, tornaram-se evidentes com a concentração de tropas junto à fronteira portuguesa.

[2] Nomeadamente no Convénio de 1 de Fevereiro de 1801- “ ... que previa a invasão do nosso país caso não abandonasse o campo inglês.

[3] António Ventura, A Revolução Francesa e as Invasões Francesas, in Nova História Militar. . pp.26

[4] O respectivo Tratado no Artigo nº III, determinava: Sua Majestade restituirá a Sua  Alteza Real as Praças e Povoações de Juromenha, Arronches, Portalegre, Castello de Vide, Campo-Maior e Ouguelha, com todos os seus territórios até agora  conquistados pelas armas,ou que se possam vir a conquistar;: e toda a artilharia, espingardas e quaesquer outras munições de guerra que se achassem nas sobreditas Praças, Cidades, Villas e Logares, serão igualmente restituídas, segundo o estado em que foram rendidas; e Sua dita Majestade conservará em qualidade de conquista para unir perpetuamente aos seus domínios e vassalos, a Praça de Olivença, seu território e povos desde o Guadiana; de sorte que este rio seja o limite dos respectivos Reinos, n`aquella parte que unicamente toca ao sobredito território de Olivença.    

[5] Diaz  Perez, Extremadura , Tomo I,pp.262

[6] Do qual o actual Regimento de Infantaria nº8, é fiel depositário.

[7] Almanach do Exército –  Destaca um conjunto de oficiais do exército da cidade de Elvas, que participaram nas guerras que marcaram a primeira metade do séc.XIX : Marechal António Couceiro, interrompeu os seus estudos na Academia da Marinha para servir D.Miguel nas guerras civis; Coronel da Infantaria, António Joaquim Silvano, posto que alcançou durante as guerras Peninsulares, foi um dos últimos governadores da Praça Militar de Campo Maior, foi preso em Elvas em 15  de Outubro de 1828, liberal esteve preso em Cabo Verde, passando à reserva com o posto de Brigadeiro.

[8] De facto à Revolta de Évora de 9 de Outubro de 1834, não aderiram as praças de Estremoz.Elvas e Campo Maior.

[9] Relatório de material de guerra, de João Eliseu Vargas, 1829- apresenta um  conjunto de 426 peças, 39 obuzes e 12 morteiros – distribuídos por Praça do Marvão, Praça e Forte de Santa Luzia e da Graça.Praças de Campo Maior e Juromenha Em 1847, assistiu-se ao desarmamento das peças de  2ª Ordem, correspondentes ao Marvão ( 27 peças, 2 obuzes e 2 morteiros). Forte de Santa Luzia (156 peças, 17 obuzes e 8 morteiros) e Praças de Campo Maior (27 peças e um obuz).  

[10] Sentinela da Fronteira, nº108, 13-4-1882

[11] Relatório do Governador da Praça Militar de Elvas, General de Brigada Francisco Xavier Lopes – [ Praça de Elvas e Fortificações adjacentes ]  -  identifica as seguintes edificações: Quartel de S.Paulo, Edifício do Trem, Casa das Barcas, três quartéis na Rua do Passo, 48 Casernas na Rua dos Quartéis, 20 Casernas na Porta da Esquina, 18 Casernas no Redente do Cascalho, Duas casa-mata no dito Redente, Armazéns da Ramada, Armazéns  do Chafariz de Dentro, Hospital , Casa da Vedoria, Casa das Mortes- defronte ao Hospital, Farmácia militar,Quartel de S.Dom

ingos. Cavalaria do Largo de S.Domingos, Quartel do General do Governador, Tribunal dos Conselhos de Guerra, Casernas da Parado do Castelo, Castelo, Casas nº6, 6ª e 13 na rua da Alagoa, 13 Quartéis da Rua dos Esteiros,na Rua dos Fagundes, 8 Casernas na Rua do Botafogo, Casa nº13 e 13 baterias às Portas de Olivença, da Esquina, S.Vicente e Hospital Militar, Tanque das Madeiras, Casa da Guarda da Esquina, S .Vicente e do Hospital Militar, Casas da Guarda da Porta de Olivença, Casas  da  Guarda de S.Vicente, Casas da Guarda da Obra-Coroa, Casas da Guarda  da Esquina, Casas da Guarda do Castelo, Casas da Guarda do Jardim,  Quartéis do Casarão ( local de estacionamento da Cavalaria nº1-incluía  8 cavalariças da C1) e da Infantaria nº4, Quartéis  da Corujeira ( destacamento de Engenharia),Casos dos Fornos.   

[12] O Elvense, nº13,4-2-1867, BME

[13] Decreto Lei de 13-7-1834, AHM,1834

[14] Ob.cit, 22-2-1885

[15] Sentinela da Fronteira,nº450, 28-10-1886

[16] Administração Peral das Alfândegas, Boletim oficial nº11,1899,nº696     

 




Dois Grandes vultos da historiografia de Elvas e Campo Maior

 História Local -  Ao longo da História da Cidade de Elvas e da Vila de Campo Maior, grandes nomes destacaram-se na reconstrução da memória dos seus antepassados, mas dois nomes são fundamentais e determinantes quando se fala de uma História, cujo objecto de reconstrução se centra no documento. Referimo-nos a Vitorino de Almada e João Francisco Dubraz, o primeiro natural de Elvas, onde nasceu em 21-10-1845 sem dúvida o mais importante historiador desta cidade, o segundo nascido em Campo Maior destacou-se não só na vida cultural da sua vila como foi um dos colaboradores mais importantes da imprensa periódica de Elvas onde se salientou como cronista político e historiador, de facto foi no nº1828 da Voz do Alentejo, que Dubraz escreveu o primeiro artigo sobre história que se intitulava “História de Campo Maior. Em comum, estes dois vultos para além da História, possuíam uma verdadeira paixão pelo jornalismo chegando Vitorino de Almada, a correspondente do Diário Ilustrado na década de 70, enquanto que João Dubraz iniciou mesmo a sua “carreira jornalística” no periódico lisboeta Revolução de Setembro. Todavia, a forma de participação na imprensa nacional e depois local, foi fortemente marcada pela sua formação profissional, que os distingue notavelmente na forma como utilizaram as folhas periódicas onde colaboraram, Vitorino de Almada, capitão do exército e oriundo de uma família ligada a carreira de armadas, jamais utilizou o seu talento para a reflexão da temática política numa época em que o exército português caminhava no sentido da unidade nacional, depois das várias divisões que as guerras liberais determinaram e que ainda se faziam sentir perto de meados do século XIX. João Dubraz, pelo contrário era um verdadeiro activista político, participou na revolta da Maria da Fonte, defensor de um liberalismo radical e da república como regime político, de tal forma que os escritos deste professor foram sempre motivo de polémica na cidade de Elvas, quando essas ideias eram motivo de reflexão.
         No plano da construção memória, a recolha de fontes e uma forma muito particular de registar os agentes da história, são sem dúvida os elementos de maior destaque nas suas obras. No caso de J.Dubraz destaca-se «Recordações dos Últimos Quarenta Anos (1868)», que é sem dúvida, a memória descritiva mais importante da Vila de Campo Maior, referente aos séculos XVIII e XIX e em particular da conjuntura de guerra, desde as Invasões francesas até às guerras peninsulares. De realçar também que uma parte significativa desta memória foi publicada nos jornais de Elvas, Voz do Alentejo e Diário de Elvas. O mesmo caminho seguiu Vitorino de Almada, uma vez que uma parte considerável da sua obra foi também antes publicada em alguns artigos do Elvense, Gil Fernandes e Correio Elvense. Porém de referência é sem dúvida o Dicionário de História e Geografia do Concelho de Elvas e Extintos de Barbacena, vila Fernando Vila Boim, uma obra impar que reúne uma vasta informação: Política, Institucional, Económica, Social e Cultural, uma parte dela recolhida por António Tomás Pires ou facilitada pelo Dr. Francisco de Paula Santa Clara, entre outras personalidades que nos finais do século XIX permitiram o acesso a uma documentação institucional que estava à sua guarda. Eis, algumas notas, sobre dois vultos e duas obras de referência que permanecem ignoradas pela historiografia portuguesas, uma referente a vida de uma cidade e que se estende pelo Alentejo, outra sobre uma memória de uma vila que se desenvolve num cenário específico da História de Portugal. Postado por Arlindo Sena             

quarta-feira, maio 13, 2009

O Aqueduto das Amoreiras algumas dúvidas suscitadas pela documentação


História Local: Foi até a construção do Aqueduto das Águas Livres em Lisboa, edificado em finais do séc. XVIII, o maior aqueduto português e o mais notável da sua época considerando outros obras públicas da mesma tipologia edificadas em Coimbra, Tomar e Vila do Conde. A razão da sua edificação, tem sido justificada pelo facto de em finais do séc. XV, o chamado “Poço do Alcalá” provavelmente do período islâmico não se encontrar em condições de servir a população da então Vila de Elvas. Todavia esta questão merece um reparo, primeiro o dito poço continuou em funcionamento durante pelo menos mais um século, em segundo os representantes às Cortes de Évora de 1498, os elvenses Álvaro Pegado e João Rodrigues d’Abreu, nas suas petições propuseram a reparação do dito poço, o que foi atendido pelo rei de D. Manuel I, que concedeu à câmara de Elvas, o direito da cobrança de lançar o chamado real de água. Que segundo a documentação, seria para as ditas reparações e não para as obras do aqueduto, como mais tarde se viria a verificar. Um outro documento, do A.M.E. refere que durante mais alguns anos se investiu nas referidas obras do Alcalá, sendo assim jamais a mais importante obra pública quinhentista portuguesa se iniciou em 1498 como se encontra registada numa vasta bibliografia sobre esta obra. De resto, este problema foi levantado no século XIX pelo escrivão da Câmara João Viegas, sobre a data do início da construção que não foi a de 1498. Outra questão que vale a pena questionar é sobre o nome do arquitecto que travou o risco do aqueduto, que também não sabemos quem foi com rigor documental que a história como ciência social exige, com tudo e como sabemos esta obra é atribuída ao mestre régio Francisco de Arruda, mas o primeiro documento que se refere à presença deste mestre em Elvas é datado de 27 de Julho de 1537, no qual el-rei D. João III manda à cidade de Elvas, Francisco de Arruda para verificar a maneira como se poderá fazer a obra. Considerando esta afirmação, podemos até responder à primeira questão as obras da “Amoreira” iniciaram-se pelo menos trinta e nove anos mais tarde que a data que lhe é tradicionalmente atribuída. E neste contexto, Francisco de Arruda foi de facto o projectista do aqueduto, da mesma época um documento do A.N.T.T., transcreve de forma clara e inquestionável, que a primeira campanha construtiva do aqueduto de Elvas, foi dirigida pelo arquitecto militar da fortaleza do Restelo. Ora, a fortaleza do Restelo não é mais nada menos que a Torre de Belém e o seu projectista foi Francisco de Arruda.

Assim e nesta perspectiva, o que se destaca é sem dúvida o papel da Coroa em dotar a nobre vila de Elvas, que apresentava então um crescimento demográfico notável de um equipamento que então era específico das cidades do reino ou seja a possibilidade de elevar a nobre vila de Elvas a cidade, era clara até pelo facto de nesse período outras obras utilitárias então se desenvolviam como a construção da futura Sé, a nova Casa da Câmara ou a nova praça, que foi projectada de forma circular e assim se manteve até aos inícios da época contemporânea.

Outras curiosidades alimentam a construção do Aqueduto, como a possibilidade da sua destruição durante a Guerra da Restauração para a construção de uma ampla baluarte onde hoje se situa o redente do Cascalho ou a proposta quase anedótica de D.João V que face às despesas com as obras e manutenção do Aqueduto, propunha a chegada de água à cidade através de um amplo repuxo, que foi contestado pela Câmara de Elvas, que em carta de 6 de Junho de 1709, justifica a importância e necessidade desta obra. As fases de construção, as dificuldades de elevação da última arcada que durou mais de uma dezena de anos, a falta de meios económicos para construção e manutenção do aqueduto ou os roubos constantes de água dos canos do aqueduto, são outras histórias que a história do aqueduto devia contemplar. Postado Por Arlindo Sena

terça-feira, maio 12, 2009

Castelo do Marvão





O Castelo de Fronteira na Guerra Medieval.

História na raia Ibérica: - O Castelo como máquina de guerra nos assédios medievais  - O cenário da guerra  medieval nos fins da Idade Média privilegiado em toda a fronteira portuguesa de Norte a Sul , tinha como palco  central o Castelo que era sem dúvida o meio mais eficiente na prática da guerra ,quer em toda a Península Ibérica quer no Ocidente Medieval . Esta realidade bélica , o Castelo não é apenas uma arma defensiva, ela é também uma base extraordinária para a guerra ofensiva e na medida  em que a guerra de fronteira é uma guerra de conquista de posições  . Eis um exemplo desse tipo de guerra : “...antes de iniciar o cerco de Elvas, ao mandar abastecer Badajoz , Albalá , Jaraicero e Almocir com grandes quantidades de pão e trigo e cevada , necessários ao aprovisionamento das gentes e de armas     a partir desses castelos, deveriam invadir Portugal “ [1]  Porém foi na guerra defensiva que o Castelo provou ser quase inexpugnável , segundo Garcia Fitz : “ Qualquer fortificação bem abastecida , ainda que tivesse poucos defensores e com clara desvantagem em armas , tinha muitas  possibilidades  de manter-se frente a uma pressão exterior [2] .Os cercos foram a prática de guerra mais utilizada na fronteira do Caia e Guadiana . As fontes revelam-nos sistematicamente nos fins de Idade Média , em Elvas , e mais para interior das margens do Guadiana , os cercos a Vila Viçosa , importante também em acções  ofensivas pela sua posição estratégica de “ fazer correr “ os seus “ exércitos “ , numa faixa bem determinada entre o Alandroal e Estremoz , não está posta de parte a sua intervenção em terras do Sul como Terena ou Reguengos , e é provável que tal acontecesse atendendo que o fronteiro mor de Vila Viçosa , o Conde Gonçalo de Azevedo era simultaneamente o fronteiro mor de Moura no fim do Séc. XIV . A importância desta vila no palco da guerra medieval é incontestável     “ quem vençesse e ouvesse a praça ligeiramente cobriria os logares cercados[3]Mas a defesa de longa fronteira , foi também possível em função de um conjunto de modificações que ocorreram nas primeiras fortificações acasteladas do início da reconquista cristã portuguesa ao longo da raia . Na região do Caia em Elvas   ,  as alterações às novas exigências de guerra atingem o auge em finais do Séc. XV ; em Barbacena (Elvas ) a nova gramática bélica marca esta nova fortificação a caminho do Norte Alentejano ; ao contrário de Campo Maior, onde a edificação mandada erigir por D. Dinis em 1310 só será alterada com a introdução  do fogo de artilharia na segunda metade do séc. XVII , as suas altas muralhas e a sua forma compacta explicam a longa longevidade desta construção bélica . Na região do Guadiana , o Castelo do Alandroal  mantém a estrutura inicial do Séc. XIV , o seu papel na logística da guerra é deveras importante, mas como teatro de operações não se encontra nas frentes mais avançadas  , papel esse pertencente a Elvas e Juromenha e na retaguarda a Vila Viçosa . Na época de transição quase até ao aparecimento da pólvora e da sua aplicação na guerra aberta , destacamos a área das fortificações da actual região dos mármores , o Castelo de Estremoz , cuja Torre de Menagem funcionou como autêntico “ paiol” de apoio logístico  à guerra de assédio  e provavelmente[4] / pontualmente como reforço de armas através da cavalaria de ginetes ( ligeira ) aos locais de cerco . Não menos importante e o melhor exemplar das inovações e transformações, é o Castelo de Évora –Monte , salientando-se o Paço Fortificado , que se inscreve numa fase de transição pirobalística  e finalmente o Castelo de Vila Viçosa , de planta quadrada , do início do séc .XVI,  do qual se destacam os torreões cilíndricos de entrada e o profundo fosso que rodeia toda a estrutura do edifício anunciando uma nova era, a do fogo. Porém, numa época em que o Castelo constitui um elemento fundamental, considerando  que a Guerra Medieval  de um modo geral como vimos, se caracteriza como uma guerra de assédios , os exércitos que põem cerco têm alguns objectivos determinados . Nesta perspectiva,  para além da pressão psicológica sobre a população cercada, cuja atitude era de resistir e padecer , tratava-se também de destruir os seus recursos económicos e ao mesmo tempo estabelecer as condições de acesso ao Castelo , cujo assédio  se  podia fazer através da  aproximação das muralhas , utilização de engenhos e abertura de cavas e minas , esta última prática muito utilizada , através da qual o inimigo pretendia abrir  as portas da população sitiada e permitir o avanço dos invasores , por isso mesmo a vigilância das portas ou mesmo a sua abertura era um acto temido e sagrado  :     dabrir as portas tiinha moor cuidado que de rrezar as matinas [5]  . Mas os meios de assédio a um Castelo eram vários e com objectivos bem determinados :  


                      Quadro nº1 – Engenhos e máquinas de assalto


        Mas, como defendemos  ao logo do presente texto , o castelo como máquina de guerra afirmava-se através das suas capacidades defensivas e quase sempre com sucesso. As mais comuns eram : Do lançamento do alto das ameias e das torres , com grande intensidade chuveiros de viratões e de setas [12] [13]; simultaneamente , os sitiados lançavam também sobre os assaltantes e as suas máquinas de guerra fabricadas em madeira , uma vasta gama de projécteis e de materiais inflamáveis , uma técnica em que os estrategos da guerra medieval recomendavam tal como : Cristiano Pisano , Frei de D.Alonso ou Gil Roma. Se na guerra medieval , o Castelo teve um papel fundamental, as armas e o equipamento da cavalaria , da infantaria e da artilharia  tiveram um papel singular como veremos .     
       


[1]Cof.Arnaut ,1962,pp.462-474
[2] Garcia Fitz, Ob.Cit . pp.52
[3] ibid,CDJ,I ,Cap.XXVII,p.323
[4] Provavelmente porque a Guerra campal não foi prática nas guerras do Caia/Guadiana .Mas tornar-se-á umas das práticas no séc.XVI e XVII , quando Estremoz tem um ainda um papel fundamental na logística de guerra, nomeadamente na frente do Caia . Postado por Arlindo Sena
[5] ibid , Cap.CLIII ,  pp.256-257
[6]  Fernão Lopes , Ob,Cit. Cap.CLXIX,pp.360 :
Lê-se “aviam de hir muy notauees escudeiros escolleytos per el-Rey, não por linhagem de fidalgaduia , mas per conhecimentos de boons homeens darmas “ 
[7] Fernão Lopes,Ob.Cit.Cap.CXXXVIII,P.282
[8] Luis Moral Tejada , Ingeniería Militar en las crónicas catalanas, Ob,Cit. PP. 29
Sobre  as  dificuldades  de acesso ao castelo atravás de torres móveis afirma : “ Si hay um foso que
salvar , éste habría de ser rellenado o bien se tendrá de ser rellenado o bien se tendrá una especie de carriles sobre los que passe el castell “ de fusta . 
[9] Joao Gouveia Monteiro , Ob.Cit.pp 348
[10] Fernão Lopes , Ob.Cit , Cap.CXXXV,276-277
[11] Álvaro Soler del Campo,La evolución del Armamento,pp.55
[12] Este processo só era eficaz com base num treino intensivo e organizado , devido a duas razões : sucesso relativamente ao alvo e valor económico dos projécteis em acção.
[13] Foi  desta  forma  que  Fernão  Pereira  ( irmão de D.Nuno Álvares Pereira ) encontrou a morte num dos cercos a Vila Viçosa

  Objectivo
Meios ou engenhos de assédio

1.       Alcançar as muralhas de um castelo como forma de intervir com sucesso .


A ) Através de escadas:  considerada forma mais
clássica para permitir a respectiva escalada . Pretendia-se através da escalada intervir com sucesso ou expulsar os guerreiros que defendiam as ameias .[6]. As escadas deviam ser  à altura da muralha e resistentes . “ D.João I na tomada de Campo Maior serviu-se de uma escada por que as cavas estavam atupidas ”[7]. Em 1388 , durante um cerco o Campo Maior , uma das escadas de assalto a uma das torres, quebrou na altura em que a colocavam em posição de assalto a uma das torres . Sem dúvida que esta forma de aceder ao Castelo ou Praça  sitiada era   perigosa .
B ) Através de Torres móveis ou Castelos de madeira : já conhecida na Antiguidade ,  se a torre móvel vencesse os obstáculos [8] do próprio solo , e se conseguisse  aproximar-se ou abordar as muralhas , a praça  ou o Castelo ficavam imediatamente em perigo. Nestas estavam por vezes incorporados outros meios com vista à entrada no espaço cercado . No pavimento médio da torre por vezes , seguia uma ponte levadiça , que era lançada ao advarve permitindo a entrada dos assaltantes . Segundo J . Gouveia Monteiro , este tipo de torres foi utilizado em toda a Idade Média mas sem o recurso à ponte levadiça[9] e na Crónica de D. João I , há referências a este engenho durante o séc.XIV[10] . No pavimento inferior da torre podia incorporar-se um aríete ou carneiro ou transportar guerreiros com o fim de picar o muro , com vista ao seu derrube e entrada das forças invasoras  .
C ) Utilização do aríete /carneiro : Era uma máquina composta por um grande mastro de madeira em forma abobadada . Através do manejo das correntes e das cordas , os assaltantes faziam avançar e recuar uma grande viga , imprimindo-lhe um movimento de vaivém através do qual se esperava o derrube da muralha.
2. Utilização de engenhos que serviam para arremesso de projécteis aos espaços cercados , castelos e fortalezas
Tratava-se de máquinas por dois fortes pilares , unidos por um duplo ou quádruplo grupo de cordas , entre as quais era colocada uma viga , fazia-se um buraco em forma de colher , ou então associava-se uma funda ; colocava-se aqui uma pedra , e feito isso , aliviava-se rapidamente a viga , o que projectava o míssil numa rota parabólica . Este invento dos engenhos de contrapeso é atribuído aos hispano-mouros da Andaluzia e provavelmente também aos mouros da Sicília .[11] O trabuco considerado  mais eficaz que os engenhos de torção e também menos cómodo , podia ser construído no próprio local de operações . Este engenho que não dependia da torção de cordas , mas sim do súbito desprendimento de cordas , destacava-se pela sua capacidade de destruição .Esta máquina , que funcionava na base do contrapeso , permitia o lançamento de materiais pesados  normalmente pedras  (por vezes podia ser um barril contendo material inflamável). O tiro deste engenho , permitia o projéctil desenhar uma curva parabólica , como de um bomba de um morteiro moderno . Relativamente a este tipo de engenhos com o mesmo objectivo bélico , utilizou-se o “ Trabuquete“ , a “bifa” e o “tripancio “
3. Abertura de cavas e minas com vista a entrar na Praça ou Castelo sitiado ou fazer desabar algumas das suas estruturas, ex:muralhas .
O método mais clássico , conhecido desde a época dos romanos consistia , era através da escavação de túneis profundos de maneira que fosse possível passar por baixo dos fossos e atingir as muralhas . Duas atitudes eram possíveis : atingir o interior do espaço sitiado e abrir a porta principal , permitindo uma invasão de surpresa ou então proceder ao derrube de uma lanço de uma muralha ou mesmo de uma torre , colocando  nas fundações de um muro , procedendo-se depois há sua queima com matéria inflamável.

segunda-feira, maio 04, 2009