sábado, setembro 26, 2009

2.7 – Elvas Portuguesa: - Os grupos étnicos - religiosos e estrangeiros: Os Mouros

Os mouros e os judeus, estavam perfeitamente integradas na sociedade medieval, com os seus bairros próprios e com uma série de privilégios devidamente reconhecidos pela Coroa. Os mouros cuja presença era anterior à soberania portuguesa nunca tiveram o protagonismo dos Judeus que se fixam na vila e nos primeiros tempos da cidade elvense. Era um grupo mais heterogéneo do ponto vista social e económico, distinguindo-se na vida económica e científica de um modo particular nos séculos XV e XVI. A comunidade moura fixada no alfoz do espaço concelhio, encontra a sua origem no período anterior à Reconquista ou por outras palavras a presença muçulmana na “região histórica” de Elvas, foi contemporânea do processo de colonização do Al-Andaluz que se iniciou com a invasão da Península Ibérica em 711. Na verdade, a existência de comunidades muçulmanas e mourarias, deixaram registos arqueológicos ao longo dos tempos históricos, mas são mais objectivos e claros, na documentação medieval, nomeadamente a Sul do Tejo: Alcácer do Sal, Avis Évora, Elvas, Beja e Moura. Todavia, no longo percurso da história árabe no Ocidente, o espaço territorial da “região histórica de Elvas”, foi utilizado frequentemente pelos exércitos dos estrategas árabes, como foram os casos do malado, Ibn Marwan (874-889), sediado na Anaia (actual Marvão) nas suas incursões para Sul e Este da Península. Ou de Makhul outro malado, partidário de Marwan, documentado nas terras vizinhas da Juromenha, como governador e que em diversos momentos pôs cerco a Badajoz. Espaço estratégico para o domínio dos territórios do vale do Guadiana e das regiões de Badajoz e Mérida, nas mãos da dinastia dos Banu Harm desde 1026. Porém não podemos ignorar que Elvas, inexistente como cidade na época romana, foi provavelmente planeada por volta de 884 por Ibn Marwan, segundo o cronista árabe Ibn Al-Althir, que admite ainda antes da existência da conquista de Elvas, reconhecida na toponímia islâmica como Albas, Ilbas ou Yalbas, que no seu espaço territorial possuía uma fortificação incipiente de épocas mais recuadas, que Alexandre Herculano com todas as reservas que a historiografia positivista determina, denominou de "Castro Vitória". A maioria dos historiadores nacionais, defendem que a realidade da urbe elvense no período árabe, tratava-se de uma pequena cidade incapaz de competir com Badajoz, com cerca de 500 a 1000 habitantes segundo o consagrado medievalista Luís Kruss. A sua importância advinha da sua posição militar e económica, a Kura ou Kwar (cidade) de Elvas, para além das suas muralhas abrangia uma rede de atalaias, cuja finalidade era o controlo do espaço em redor como forma de assinalar a presença do inimigo. De resto estas atalaias no corredor militar entre Marvão e Badajoz estão na base dos sucessos e domínio militar imposto por Ibn Marwan nos finais do séc. IX. Nos tempos Medievais, os mouros residentes na vila portuguesa estavam perfeitamente integrados e a sua importância em termos demográficos não está documentada embora há referências bibliográficas no Archivo Municipal de Badajoz de vagas migratórias de mouros livres de Castela, Leão e da Estremadura em direcção às comunas do Alentejo. E a realidade documental prova esta hipótese, de facto, a presença extraordinária de efectivos mouros nos primeiros tempos da reconquista. Não é por acaso que os mouros livres da vila “contrataram” com D. Afonso III (ANTT, Liv. OA.Tit.,II, p.24 Vº), a construção de novas casas na vila. Vivia-se uma época em que os mouros gozavam de alguns privilégios com vista à sua integração social e só ligeiramente adversa durante o período da reconquista do Algarve, uma vez que a coroa Portuguesa receava a fixação moura naquela província do sul de Portugal. Duas décadas depois a comunidade moura florescia do ponto vista económico, embora não haja referência nas fontes documentais relativamente à aquisição de bens imobiliários, característica dos mouros abastados de Lisboa e Santarém, o ouro e a prata faziam parte do rol de bens quitados aos mouros da comuna elvense pelo monarca D. Dinis em 1284. Por outro lado, no interior da mouraria o grau de riqueza era diferenciado e perfeitamente identificado pelo número de indivíduos que constituíam a criadagem de alguns homens de negócio que constituíam a comuna de Elvas e de Vila Boim. Mas a maioria dos mouros tinham na agricultura a sua actividade principal nas terras próprias, aforadas ou de renda. Os albardeiros, sapateiros, pedreiros e outros mesteres ocupavam a vida profissional de uma parte deste grupo étnico que estava sujeita a pesados impostos, tais como: o imposto de capitação (nascimento); a dízima do trabalho, o imposto de compra e venda entre outros. As mourarias de Elvas e vila Boim eram governadas pelo alcaide dos mouros que desempenhava simultaneamente as funções de Juiz. (Continua).



quinta-feira, setembro 24, 2009

I - Terras da Raia do Distrito de Portalegre.

O espaço fronteiriço que será objecto do nosso estudo em alternância com as reflexões sobre “Elvas Portuguesa”, terá como finalidade divulgar a evolução histórica das cidades de Portalegre e Elvas e das vilas do Marvão, Arronches e Campo Maior, no período contemporâneo com algumas retrospectivas a outras épocas históricas.Em termos de espaço geográfico, trata-se de uma vasta região definida em termos de demarcação territorial pelo menos desde o século XIII, com algumas episódicas alterações. Estas populações fronteiriças, que evoluíram ao longo do tempo histórico, ocupam uma área espacial correspondente a cerca de 44% do espaço territorial do Alentejo e uma área aproximadamente de 441.0777 ha. do território nacional. Ao largo da sua trajectória histórica, estas populações se afirmaram como fundamentais para a defesa da soberania portuguesa, graças a uma rede de castelos que foram edificados e fortalecidos com obras de modernização ao longo dos tempos medievais e modernos. Por outro lado, desde meados do século XVI até há Época Contemporânea, a evolução histórica das populações do distrito portalegrense foram marcadas sempre por realidades administrativas diferenciadas e por uma evolução económica distinta. De facto, Elvas (em 1513) e Portalegre (em 1550) foram elevadas à categoria administrativa de cidades, enquanto as vilas de Marvão (1226), Arronches (1255) e Campo Maior (1229) continuaram na mesma categoria administrativa e em dependência directa, por razões políticas e sociais, das cidades mencionadas pelo menos até ao início do Estado Novo. Do ponto vista económico, a agricultura constituiu a base económica do distrito de Portalegre, com excepção das cidades de Portalegre e Elvas. A primeira, capital do distrito e em conflito permanente com a cidade de Elvas a partir de meados do séc. XIX por razões de liderança administrativa , na vida económica afirmava-se como o núcleo industrial mais importante do distrito, realidade de resto válida, pelo menos desde meados do séc. XVII. A segunda, Elvas, considerada como uma das praças militares de referência do Reino, desde a época da Regeneração, [ainda que a presença efectiva e permanente de forças militares de carreira seja uma realidade de meados do séc. XIX], quando na mesma época a cidade raiana se afirma como o “ centro comercial ” mais importante do distrito em função das facilidades comerciais que a economia transfronteiriça favorecia numa época em que o caminho-de-ferro, a Linha de Leste chegava a Badajoz. No caso das populações das vilas de Marvão, Arronches e Campo Maior, seguiram a sua trajectória histórica com base na exploração directa das riquezas geradas pela terra, em particular de uns bens rústicos que pertenciam a um grupo restrito de proprietários exteriores a estes municípios e que na sua maioria, se identificavam com algumas casas aristocráticas. Apesar de algumas alterações na geografia das propriedades destas localidades depois da Revolução Liberal e das Reformas Legislativas que então ocorreram. E que permitiram a ascensão de alguns novos proprietários residentes nos centros urbanos e que então disputavam a aquisição das antigas terras senhoriais da aristocracia portuguesa. De facto nas últimas décadas de Novecentos, algumas herdades de Marvão se encontravam sob domínio de alguns proprietários e industriais da cidade Portalegre. O mesmo se verificava com as melhores terras de Campo Maior, disputadas pelos grandes proprietários de Elvas, muitos deles até há pouco tempo registados na documentação como rendeiros. Mais singular era a realidade da vila de Arronches, cuja demarcação das terras de melhor qualidade, dedicadas há exploração da plantação de olival, se repartiam, entre as diversas famílias de Elvas e Portalegre, ainda que algumas surgem na documentação registadas como património de algumas ordens religiosas. ( Continua)

domingo, setembro 20, 2009

2.6 - Elvas Portuguesa: - Os mercadores a sua ascensão profissional e económica

Os comerciantes ou mais exactamente os mercadores, ao longo dos séculos XIV e XV foram se afirmando como um estrato social com capacidade económica de tal forma que alguns deles chegaram a ter loja na capital do reino, como os Fernandes e os Gomes. Na sua grande maioria eram cristãos novos ou judeus, que em pouco tempo mereceram algum reconhecimento no comércio regional na qualidade de almocreves, beneficiados pela isenção do imposto de “Aduana” que penalizava os seus concorrentes castelhanos obrigados ao pagamento desse direito. Como podemos comprovar pela análise das fontes que referem que os homens de fora, pagam tributo sobre as mercadorias: “aquelas que hajam de trazer para aí vender” ou “as cousas que os homens de fora comprarem para levarem para fora do dito termo “. Mas depressa os tendeiros da praça comercial da vila de Elvas se fizeram ao caminho como almocreves e depois, já como mercadores acabaram por fazer fortuna na raia do distrito de Portalegre ao longo das primeiras décadas de quatrocentos numa época em que os produtos de origem colonial, estavam longe de concorrer com produtos oriundos do mundo rural, como os cereais e os gados frequentemente utilizados na prática do contrabando. O exemplo mais significativo do percurso dos tendeiros da vila de Elvas foi sem dúvida o caso de Diogo Álvares Soriano (ANTT, Inquisição de Évora, Manuscritos de Livraria, nº771), que residia na Rua da Carreira dos Cavalos, inicialmente tendeiro e mais tarde, mercador de largo trato e que se especializou como mercador de panos da Índia. Correndo as feiras de Lisboa, Flor do Crato, Vila Viçosa e Elvas e com uma rede de distribuição de longo curso em território castelhano, assegurada pelos seus familiares a partir de Badajoz até Málaga. Os registos documentais associam à sua actividade mercantil a de prestamista financiando outros mercadores elvenses, como os cristãos novos, Pero Vasquez e Álvaro Fernandes, residentes em Elvas (ANTT, ob.cit.nº 1044). Todavia nas rotas comerciais de vizinhança, no sentido de Elvas e Badajoz e vice-versa, estavam na mão dos almocreves tal como no comércio regional a norte do distrito de Portalegre, Pedro Álvares, conhecido azeiteiro da vila, costumava vender sardinhas em Badajoz e azeite em Albuquerque (ANTT, ob.cit nº10440). Nos finais do séc. XIV, o mercador independente da sua origem e nacionalidade em pouco tempo conquistou com o seu trabalho de utilidade pública, a estima social e a tolerância da igreja que então condenava a usura e o pecado da avareza em terras luso-castelhanas pelo menos antes da perseguição a que a Inquisição sujeitou os judeus e cristãos novos. De Elvas para a capital, deslocavam-se António Fernandes, neto de António Fernandes que chegou a ser tesoureiro de D. Manuel e que por laços familiares se ligou a outras famílias de poderosos homens de negócios entre elas, Manuel Gomes de Elvas que tinha residência, na Rua de Nossa Senhora da Vitória (Lisboa) e que foi primeiro mercador da nova cidade de Elvas no trato do comércio colonial nas primeiras centúrias da época Moderna. Mas o período medieval fica marcado pela persistência de uma geração de mercadores que aproveitando a situação estratégica da vila raiana cedo se distinguiram nos mercados locais e nas rotas regionais, sendo reconhecidos pela comunidade local como homens possuidores de “cabedal” (Continua).

segunda-feira, setembro 14, 2009

2.5. -Elvas Portuguesa: O 3ºEstado o caso dos Mesteirais

O 3º Estado englobava a maior parte sociedade medieval que na vila de Elvas, incluía entre eles os rendeiros, mesteirais e comerciantes, como os “grupos sociais” com maior condição de posse e de privilégios durante os séculos XIII e XV. Os rendeiros eram uma espécie de campesinato livre que exercia a sua actividade nas terras reguengas e de outros senhores do concelho (laicos ou eclesiásticos). Os foros e as rendas, estabeleciam o contrato entre o senhor e o rendeiro, quase sempre anual, no caso particular das rendas reais. Nos tempos medievais, a documentação regista o pagamento de um quinto do pão, vinho e outras novidades. A excepção era o azeite que pagava um quarto. O rol das propriedades da Coroa a quem os rendeiros pagavam taxa no termo de Elvas, eram não só as hortas, vinhas, ferragiais e olivais, mas outro tipo de propriedades como casas ou instalações domésticas como moinhos e lagares. De resto alguns direitos como a cobrança de portagem, foi exercida pontualmente por alguns rendeiros que pagavam foro pelo exercício de esse serviço de nomeação régia e exercido quase sempre pelos oficiais de portagem [ANTT - Chancelaria de D.Afonso V.]. Os mesteirais e os comerciantes, numa época que o fundamental era antes de tudo, sobreviver, o trabalho era um bem necessário. O seu papel na economia da vila raiana é indiscutível na medida em que estes dois grupos procuravam responder às necessidades vitais. E que no caso dos mesteirais, proprietários das oficinas-tendas que se erguiam nas freguesias de maior importância na economia local, a da Alcaçova e do Salvador. O grupo profissional dos mesteirais, foi sem dúvida o que mais se cresceu até aos inícios do séc. XVI, não faltavam os curtidores, peliceiros ou peliteiros, que trabalhavam as peles e asseguram o vestuário a uma população em nítida em expansão. (Armando Castro, Ob.cit. p.195). Os ferreiros que trabalhavam o ferro “maçudo” ou moído ou moludo em barra, os latoeiros que asseguravam entre outros artefactos, os objectos trabalhados em latão, cobre e o estanho. Os oleiros que desde a fundação da vila de Elvas estavam isentos do pagamento de portagem, relativamente à obtenção da matéria primas, mas não relativamente à louça vidrada ou de barro. A importância dos sapateiros era indiscutível na confecção da “calcadura” de pele e de couros e na carta foral, havia mesmo um capítulo especial relativamente ao desempenho desta função. Os marceneiros asseguravam a loiça de madeira, as arcas, tonéis e outro tipo de recipientes utilizados no quotidiano medieval. O mesteiral por via e regra, era vendedor do seu produto e esta comercialização ocorria no espaço “oficinal”. Por outro lado, não devemos de esquecer o papel do ferreiro, sapateiro e do peliteiro, fundamentais na equipagem de guerreira numa vila de fronteira, como a ferradura e as peças metálicas para cavalos e cavaleiros, a protecção dos pés da peonagem ou os arreios dos cavalos. Na “produção” da utilisagem agrícola, o ferreiro destacava-se dos demais pela importância económica da actividade agrícola que envolvia a maior parte da população. (Continua).




quarta-feira, setembro 09, 2009

2.4. Elvas Portuguesa.A aristocracia vilão e os escudeiros.

Convém salientar que uma parte significativa da nova aristocracia que se desenvolve nos séculos, XIV e XV, tem a sua origem num estrato social que nos primeiros tempos da reconquista vivia entre o arado e a espada face ao inimigo, que com regularidade efectuava as suas “incursões” na chamada guerra guerreada. Nascia neste quadro não institucional uma aristocracia vilã que ao longo do séc. XIII assumiu e pautou-se pelos valores da honra que eram apanágio da nobreza. Ao mesmo tempo que se foi diferenciado de uma vasta população desprovida de posse, que ao serviço da Coroa foi obtendo algumas mercês que lhe permitiram dispor de meios suficientes para o sustento de um cavalo, a compra e manutenção de armas e em alguns, poucos, tinham já um pequeno grupo de servos ou criadagem ao seu serviço. Os Gante e os Garro, não só integraram as milícias concelhias como serviram a tempo inteiro o monarca e as doações régias que foram feitas a estas primeiras famílias da cavalaria que durante semanas serviram no fossado e como tal, eram recompensados com frequentes doações régias. Por vezes o casamento, entre os vários membros da cavalaria permitiu o “nascimento” de uma cavalaria vilã que no séc. XIV se distinguia já com valores sociais e de honra que eram apanágio da nobreza, todavia no presente momento do nosso conhecimento sobre as fontes medievais e nomeadamente a vasta documentação das Chancelarias Reais, não nos permite ainda de ter uma visão clara e objectiva, sobre a origem de muitos cavaleiros da vila de Elvas. Todavia o seu número no nas primeiras décadas do século XV era já significativo uma vez que o privilegiado e cavaleiro, por nomeação régia em 1439, Álvaro de Abreu, era designado vedor dos vassalos do rei, dezassete anos depois [ ANTT, Chanc. D.Afonso V., fol. 13 e segº ] e a sua importância social equiparava-se já desde os tempos da reconquista ao Infanção da nobreza de topo [ Leyes, I,p.47], ganhando um estatuto de privilegiado nas terras da raia . Os escudeiros, o estrato base da “pirâmide” social da aristocracia medieval português, se identificavam na vila de Elvas com a Casa Senhorial D.Henrique, que incluía desde 1321 uma Comenda onde a Ordem de Cristo, que detinha vários bens imóveis e estava incluía ainda na rota da criação do gado lanígero que se deslocava da Beira Henriquina, num percurso onde as localidades de Montalvão e Elvas eram os pontos de apoio no Alto Alentejo na ida a Castela [ ANTT, Ob.cit, fl.38V º]. O número de escudeiros da Vila de Elvas na Casa Senhorial do Infante do Henrique é deveras significativo quando se compara com as nomeações dos funcionários ao serviço do “Navegador”: Afonso Domingues, Besteiro do Couto, 1448 (Ob.cit.fol.27); Afonso Gonçalves, Besteiro do Couto ( Ob.cit., fol.71 Vº ); João Rodrigues Trigueiro, servidor da Casa do Infante e Escrivão do Porto de Elvas (Alfândega 1436) (Ob.cit. fol.36.). Outros escudeiros de renome da Casa do Infante foram sem dúvida: o navegador Álvaro Tristão e seu irmão Nuno Tristão navegadores da Ordem de Cristo, que descobriu várias paragens da Costa Ocidental africana, fixando o reconhecimento da referida costa em Cabo Branco. Lourenço de Elvas – navegador capitão ao serviço de Gil Eanes. Estevão Subtil – Escudeiro do Infante e Gil Fernantes distinto descendente do herói mítico de Elvas com o mesmo nome e que foi Chanceler da Correição da Comarca Entre Tejo e Guadiana. Em Elvas o estatuto do escudeiro praticamente não é mencionado na documentação o que se entende numa terra onde o grande senhor era o rei e como tal deviam servir a casa real nos tempos difíceis que a guerra determinava, contudo no séc. XV eram na sua maioria funcionários da administração régia, de ordens militares religiosas ou casas senhorias como a de D. Infante D. Henrique. Por outro lado, esse papel foi sempre assumido pela cavalaria vilã cujas hostes jamais foram significativas e por outro lado, a ascensão de escudeiro a privilegiado foi uma prática usual reduzindo a persistência de homens não nobres na baixa nobreza. Por fim, há que ter presente que a Nobreza em Elvas, nunca se afirmou no período medieval como um grupo nobiliárquico forte e as linhagens de Estevão Anes e dos Aboim, acabaram mesmo por se extinguir e em parte devido a política centralista de D. Afonso III que acabou por favorecer a constituição de uma nova linhagem constituída por bastardos régios. Por último, a verdade é que o rei era o único senhor feudal e a força, para exigir a uma multidão de vassalos a que exigia fidelidade, terras, “contias” e até as suas próprias não só para a defesa da soberania, mas inclusive para os dominar.

domingo, setembro 06, 2009

2.3- Elvas Portuguesa o alargamento da aristocracia local.

Durante o séc. XIV, os Annes e os Pegado, surgem como doadores à maneira senhorial, os primeiros com ligação à Corte, beneficiam frequentemente a Igreja com doações de bens materiais, Esteve Annes foi um dos senhores locais que mais beneficiou a primitiva igreja de Elvas como fonte espiritual das primeiras comunidades locais. O rol de bens segundo a documentação se inscreve em terras de olival e de vinha, mas também em moradas de casas que em meados do séc. XIV beneficiava a Igreja do Salvador através do testamento passado por Lourenço Annes. (ANTT, Liv 1- AV,1353, p.76. ) .Os Barbudo, desenvolvem-se durante a época quatrocentista e parte da sua riqueza fundiária, localiza-se em Barbacena na qual a referida família cobrava de foro no valor de 120 rs. à comunidade local que explorava a Herdade da Colina, durante a regência do infante D. Pedro e por testamento (ob.cit. 77), tal património fundiário foi legado à Igreja de Alcaçova, numa época em que as doações entre aristocratas e clérigos era frequente. Em meados do séc. XV a fidalguia de Elvas cruzava-se com o funcionalismo, Affonso de Aboim era um dos procuradores às Cortes e foram várias as respostas dadas pela Chancelaria Real, na época de D. Pedro, a este aristocrata. Joanne Mendes de Vasconcellos outra figura da nobreza local em ascensão foi Corregedor da Comarca Entre-Tejo e Guadiana e substituto de Gil Fernandes quando este desempenhou o cargo de chanceler da correição (Corpus Codicum,Vol.1, p.147). Como escolar em leis as suas informações legislativas eram ouvidas na corte como podemos comprovar por várias carta régias dirigida a João Mendes entre elas a de 23 de Dezembro de 1435 “Os dinheiros que o marinho há d´aver E de que lugares E de que pessoas” (ANTT, Ordenações de D.Duarte, p.640). Doações da propriedade régia a João Mendes em Elvas encontramos um aforamento que “el rrey o mandou per Johane mmendez Corregedor de sua Corte”.(Canc. D.Duarte, Tomo 2, p. 425-426). A fidalguia de sangue em meados do séc. XIV, os ricos homens oriundos da Corte, recebiam no seu seio os novos membros nascidos em terras raianas e que livres por nascimento procuraram servir o monarca na guerra e nas funções da administração que o estado centralizado determinava. A nobreza mais humilde, os cavaleiros foram também objecto de benefício de doações régias e em especial na época de D. Afonso V como são os casos de Pedro Aires (1148), de Vasco da Gama ou de Manuel Pessanha ou Manuel Pessegano (1472) que recebe a Herdade do Cabedal por carta régia de 23 de Janeiro, cavaleiro da Casa do Infante D. Henrique acabaria por se distinguir como cartógrafo. Todavia a cavalaria era já uma força considerável no senhorio da coroa na vila de Elvas, como se admite por uma leitura atenta de um ofício da Chancelaria Régia, datado de 7 de Novembro de 1470 que pretende indagar o número de armas distribuídas aos vassalos do rei e entre eles os escudeiros da Ordem de Cristo que na sua maioria pertencia a Casa do Infante D.Henrique representada na vila de Elvas com bens imóveis documentados desde 1321 e confirmados em 1326.(Continua)

quarta-feira, setembro 02, 2009

2.2-Elvas Portuguesa: a fidalguia em formação.

A primeira Nobreza com raízes no período medieval, radicada e nascida na Vila de Elvas, afirmou-se sobretudo nos séculos XIV e XV, incluindo vários graus da mesma, os ricos homens e a uma baixa nobreza que incluía a cavalaria e os escudeiros. Entre elas destacamos algumas : Os Gante, provavelmente de origem castelhana e radicada em Elvas no início do séc. XV e que se integrava na nova nobreza da Corte de Avis, uma vez que Vasco Peres Gante, cabeça da família e que serviu as armas de Portugal como cavaleiro, era escudeiro e vassalo da Corte. Entre Vasco Peres Gante, nascido em Elvas e Pêro Rodrigues Gante, seu sobrinho decorre quase um século e a integração da mesma família na aristocracia de Corte. Quando Pêro Rodrigues Gante, recebe por carta régia de D. Afonso V,(ANTT, 1454) as armas da família. São elas: de vermelho, um arco “turqueso” cosido de verde, posto em pala e encorado de prata, ladeado de dois grumes de prata. Timbre: um braço de vermelho, picado de ouro, em banda e empunhando o arco do escudo. Os Garro, devem a sua ascensão à Nobreza de Portugal, pelo serviços prestados nas guerras com Castela durante a crise geral do séc. XIV, a origem mais remota da família encontra-se em Pedro Esteves Garro, mas é o seu filho o escudeiro do mesmo nome Pedro Esteves Garro que daria nobreza à família, ao serviço do Mestre de Avis, o seu filho Pedro Afonso Garro, também escudeiro fez parte da hoste que participou na tomada ou conquista de Ceuta em 1915, mas é o escudeiro Numo Martins Garro, a quem D. Afonso V, lhe dá a condição de fidalgo por todos os serviços que prestou à Coroa na Guerra de Castela e nas praças marroquinos, por carta régia de 1475 (ANTT, 1475). O seu escudo apresenta como armas um escudo de vermelho, comum leão de prata empunhando nas garras uma bandeira bifurcada de verde, hasteada de ouro e carregada de uma flor de Lis do mesmo, e por timbre o leão do escudo. No âmbio dos primeiros ricos homens da vila destaca-se os Pegado, na pessoa de Estevão Martins de Pegado, que instituiu o primeiro vínculo na cidade de Elvas e que tinha como armas da fidalguia, três flechas de prata, com hastes de ouro e empenadas de vermelho, enfaixadas e atadas do mesmo, as pontas para cima. Na primeira geração da elite aristocrática da vila de Elvas, destaca-se os Zembrana ou Zembrano, da fidalguia andaluza, fiel partidário de D. Joana, legítima rainha de Castela e que se fixou após a Batalha do Toro na vila raiana por permissão de D. Afonso V. Fernão Gonçalves de Sousa era o rico - homem mais da raia de Portalegre foi inclusivamente o alcaide do Castelo de Olivença e pelos serviços prestados a D. Fernando recebeu a Vila de Aboim que teria voltado aos bens da Coroa com todos os seus direitos, rendas e jurisdição (ANNT, Chanc. de D. Fernando, Livro U, fols, 122-149 ). Nesta primeira etapa da formação da aristocracia elvense, os ricos homens ocupavam os ofícios mores da administração local e detinham os poderes militares e neste caso encontramos as quase três dezenas dos alcaides de Elvas, cujo poder económico advinda de uma parte das receitas e multas pagas pelos moradores da vila. (continua)

segunda-feira, agosto 31, 2009

Há 70 anos o Mundo preparava-se para a guerra

Memória – Há 70 anos na noite de 31 de Agosto para 1 de Setembro, a Alemanha preparava-se para a invasão da Polónia, o mundo entrava em guerra. Vários SS disfarçados de civis assaltaram uma rádio local da localidade fronteiriça de Gliwice, lançado proclamações anti-alemães e eliminando de forma fatal os três empregados que asseguravam a emissão nessa noite. A referida emissora não podia ser um foco de agitação por mais fortes que tenham sido as proclamações dos intrusos na referida rádio, já que a mesma não tinha na sua emissão propósitos políticos mas acabou por ser um dos protestos para legitimar a invasão germânica da Polónia. A primeira terra ocupada pelo exército Nazi seria Danzig (actual Gdansk) no Báltico, de cuja soberania os alemãs haviam feito bandeira. Objecto de disputa históricas entre a Alemanha e a Polónia, o chamado “corredor de Danzing” não era mais que uma cidade livre de cerca de 2.000 kms quadrados, administrada pela Sociedade das Nações (antecessora da ONU). Na madrugada de sexta – feira pelas 04.45m, em 1 de Setembro de 1939 a cidade de Danzing perdeu a sua liberdade iniciava-se a invasão da Polónia e o princípio de um vasto conflito a Segunda Guerra Mundial.

Património Arqueológico da Cidade Sagrada de Caral (Perú)



A UNESCO classifica a Cidade Sagrada de CARAL (Perú)

nNotícias com História - A UNESCO apresentou recentemente na sua página oficial um conjunto de vídeos de curta duração (em castelhano, francês e inglês) sobre um conjunto de lugares classificados e declarados como Património da Humanidade. O projecto foi o resultado da colaboração da empresa japonesa Broadcasting Corporotion (NHK) que utilizou avançadas técnicas de digitalização na construção da referida página. O acesso à página pode ser a feito a partir de um click em www.unesco.or.es/nhk-video). A cidade sagrada de Caral é a mais recente classificação de lugares declarados como património universal, situada no Peru a 184 km de Lima e a sua extensão ocupa cerca de 65 hectares. Este aglomerado urbano, que surgiu entre 3000 e 1500 aC.., é considerada a cidade mais antiga do contimente americano e inclui as Pirâmides Maior, do Anfiteatro e um sector residencial cuja dimensão é única no património da arquitectura pública peruana. O processo de classificação foi supersónico e iniciou-se em 1994 e tendo sido dirigido pela arqueóloga, Doutora Ruth Shady, directora do Projecto Arqueológico Caral-Supe (PEACS). De realçar ainda que a Cidade Sagrada de Caral, foi descoberta em 1905 pelo arqueólogo Max Uhle e a décima prima classificação da UNESCO atríbuida ao Perú.

quinta-feira, agosto 27, 2009

2.1-Elvas Portuguesa: Duas famílias da Nobreza de Corte na vila de Elva

Nos primeiros tempos da Reconquista Cristã e em função da conjuntura política da época que determinava a deslocação dos monarcas para o Centro e depois para a Sul, determinou um corte progressivo com a aristocracia do Norte da região de Entre Douro e Minho, perante a afirmação dos filhos segundos da Nobreza que acompanham o “ primer inter pares” nas campanhas contra os infiéis. Por outro lado, esta nova nobreza encontrava nas campanhas da reconquista um meio de afirmação social e de reconstituição da sua riqueza fundiária que a progressiva constituição de linhagens não lhes permitia, sendo o exercício das armas, uma das razões para acompanhar as hostes reais. Assim a conquista de novas terras a partir da linha do Tejo e terras da raia, ficaram à reserva das ordens militares e aos filhos segundos da nobreza, identificados como ricos homens eram os únicos dotados de virtudes guerreiras em função da sua formação que exercitava a violência guerreira. (Como foi o caso, das hostes militares que acompanharam D. Sancho II na conquista de Elvas). Nestas circunstâncias a Nobreza de Corte nas primeiras décadas da existência da Vila de Elvas, estava praticamente ausente sendo excepção as duas famílias da Corte de D. Afonso III, os Estevão Annes e os Aboim. Os primeiros senhores de várias propriedades fundiárias localizadas nos distritos de Évora e Portalegre e que por carta régia de 1251 recebia as primeiras terras na região de Elvas o baldio de Barbacena, que desde a reconquista era considerada terra de ninguém na pessoa do chanceler Estevão de Annes. O Chanceler do rei “Bolonhês”, um homem com carreira política na Corte e um verdadeiro senhor feudal, com grandes domínios identificados documentalmente no Norte de Portgal (Arcos de Valdevez, Valença e Monção), na Linha do Tejo (Abrantes, Santarém, Lisboa e Cascais) e no Algarve (Silves, Lagoa, Portimão, Faro e Tavira). A família Annes estava representada em Elvas por outros três nobres irmãos de Estevão Annes, Gomes Peres, e os falecidos Fernão Peres e Paio Peres num conflito entre ambos. (ANTT, 4 de Abril de 1255). Os Aboim senhores da herdade do mesmo nome, na sua posse durante mais de um século pelo menos até 14 de Junho de 1374, quando doaram a referida terra a Fernão Gonçalves Sousa, que passou a ser reconhecida pela Coroa, como vila, estendiam os seus domínios mais para sul, com algumas propriedades em Évora nomeadamente ao longo do Guadiana com excepção de algumas que se situavam no Centro do actual distrito de Beja. Mas no Distrito de Évora o seu principal núcleo de bens situava-se na região de Portel, segundo a documentação, “num extenso tracto de terra que se situava entre a ribeira de Pecenas até ao Guadiana, confrontando com o termo de Beja para sudoeste e tocando na ribeira de Dejebe para leste”. Não deixa de ser curioso, que a riqueza acumulada por Estevão Annes e João Peres de Aboim, chefes de melhores linhagens que se constituíram no Alentejo no período pós-reconquista, não só foi obtida pela sua influência na Corte Régia, em função dos cargos que desempenharam mas pela amizade e convívio com o monarca D.Afonso III. Em finais do séc. XIV, estas duas famílias, João Peres de Aboim de Arco de Valdevez e o Chanceler Estevão Annes, era identificados não só como membros da Nobreza de Corte de pleno direito, como os seus domínios senhoriais e fundiários eram só comparáveis à riqueza fundiária de Nuno Martins de Chacim que dominava praticamente as terras de Portugal situadas no Norte Interior. [ Continua]


terça-feira, agosto 25, 2009

1.13 - Elvas Portuguesa: As terras do Termo da vila

Desde a sua fundação que as terras situadas no termo da vila e arredores, estavam em expansão territorial sob exploração económica de alguns ricos homens e herdadores que em torno da vila ou em terras concelhias nomeadamente das herdades de Aboim e de Barbacena, futuras vilas concelhias, organizavam as primeiras formas de sustentação económica ainda que condicionados pela incapacidade tecnológica e pela dureza do clima e da fome, e até da guerra, que levava com relativa facilidade ao abandono de tais meios de produção. A herdade foi inicial uma das “chaves” mestras das áreas de ocupação e povoamento nos tempos imediatos à reconquista cristã, como comprova entre outras cartas régia, a outorgada por D. Estevão Annes, chanceler mor de D. Afonso II, que determina aos moradores da localidade de Barbacena “… aos poboradores presentes, e aos que hão de vir, que na minha herdade de Barvacena poborarem presentes, e aos que hão de vir (….) dêm a mi e a tôdolos que depôs mi vierem, em qualquer tempo, para sempre, pelo terrádego d´essa terra, a outava parte do pão, e do vinho, e de tinta, e de legumes, e de linho, e d´azeite, e de pomos, e de almoinhas, e de tôdolos outros fruitos que Deus hi der (…).” [ANTT, Abril de 1273]. Do mesmo tipo, regista-se a carta de doação a D. João de Aboim, à herdade do mesmo nome por carta régia[ANTT, 22 de Março de 1261]. E outras doações e aforamentos que se sucedem durante os séculos XIV e XV, de acordo com o ritmo de crescimento de uma população que concentrando-se nos três pólos de agregação populacional da vila de Elvas [ Elvas-Barbacena e Vila Boim], como podemos observar no quadro nº I, :


Doação ou Aforamento

Receptor

Carta régia - Fonte.
Do comendador de Elvas, Pero Cebola, da Herdade de Cascavel
Ordem dos Templários
ANTT, 23.12.1262
Doação régia de um terreno
Ordem de S .Domingos
ANTT, 1.5.1268
Doação da herdade de Alvernaz,
situada no Caia.
Ordem de S .Domingos
ANTT, 26.8.1330
Aforamento da herdade de Ourinaça
Beneficiados do Salvador.
ANTT, 30.8.1338
Doação da herdade e terras de Barbacena
D. Martin Afonso de Mello
ANTT, 1.10.1388
Aforamento da Herdade de Castel, em Vila Boim
Beneficiados do Salvador.
ANTT, 9.4.1341
Doação da herdade de Segóvia
Ordem de S. Domingos
ANTT, 5.1.1348
Doação da herdade dos Negros
Ordem de S. Domingos
ANTT, 3. 7.1453
Doação da herdade de Tintão
Ordem de S. Domingos
ANTT, 21.11.1455
Doação da herdade de Algalé (Caia)
D. Afonso Álvares
ANTT, 4.11.1457
Doação da herdade d’ Alcadaria
D. Vasco da Gama
ANTT, 24.3.1474.
Doação de várias herdades do concello
D. Álvaro de Bragança
ANTT, 18. 3.1479
Outro tipo de meios de produção, envolvia os vários agrupamentos populacionais em torno das herdades de matriz senhorial laica e religiosa, assim como outros meios e proventos económicos que animavam os vários servidores do monarca, como a doação de pastos e montados a um conjunto de pequenos e médios proprietários (ANTT, 15.4.1259). Mas, ao contrário do que ocorria em outras vilas e localidades do Alto Alentejo - Avis, Seda, Fronteira, Veiros, Cabeço de Vide ou Sousel, onde um dos principais proprietários fundiários da região, era a Ordem de Avis, que se desenvolveu e afirmou durante a reconquista e colonização das regiões conquistadas aos mouros, em Elvas as terras de matriz eclesiástica, os coutos, estavam na posse da Ordem de São Domingos cuja acção centrava-se na fé e no trabalho. A propriedade laica, não era representativa do ponto vista espacial uma vez que a aristocracia de sangue estava praticamente ausente, não havendo grandes latifundiários quando se compara com as vendas e as compras de propriedade de olival, cereal e vinha, que inclusivamente se desenvolvia no interior do espaço amuralhado. [ CONTINUA]

sábado, agosto 22, 2009

1.12- Elvas Portuguesa: A Mouraria ou os "Bairros dos Mouros"

Em relação à mouraria a sua localização na estrutura urbana e viária na vila de Elvas, não nos oferece grandes dúvidas, considerando que a presença moura é anterior à (re)conquista de Elvas e por outro há todo um conjunto de fontes conhecidas e estudadas, cuja toponímia permite-nos a sua localização no espaço e no tempo. De facto a partir da segunda metade do séc. XIII, a Coroa por carta régia de 1270, estabelecia em parte a área de ocupação da mouraria, situada entre a Porta Nova da muralha almóada e a Porta de Banhos nos limites da actual Igreja paroquial de S. Pedro [ Chac. D.Pedro I, p.264.]. Área esta fundamental e decisiva para a fixação, desenvolvimento e afirmação, da comunidade moura uma vez que a partir do séc. XIV o número de olarias expande-se ao longo das vias que desembocavam na Porta de Banhos numa época em que a área urbanizada atinge os arredores da Igreja, hospedaria e convento de São Domingos, que durante quase um século se manteve isolada nos arrabaldes da área territorial da vila. Durante o período quinhentista , a mouraria ou os “bairros dos mouros”, estavam já consolidados integrando provavelmente a cerca almóada e a cerca nova, fruto da importância económica da produção de vasos e objectos de cerâmica da produção artesanal e oficinal das olarias dos mouros. Aliás esta expansão causou algumas disputas entre cristãos e mouros, quebrando a normalidade das relações de convivência que as duas comunidades mantinham desde os primeiros tempos da fundação da Vila de Elvas. Não podemos esquecer que os mouros de Elvas, gozavam de vários privilégios alguns dos quais como a isenção de portagem como reconhecimento do seu serviço prestado às hostes nacionais com armas e cavalos na guerra contra Castela. O Cemitério mourisco situado junto do adro da Igreja de S.Vicente já fora dos limites da cerca árabe e relativamente perto do Mosteiro de S. Domingos, foi palco de várias incidentes quando quase há mesma hora os cortejos funerários se cruzavam entre si. [Eurico Gama, 1930,pp.39 e 65). Todavia, a vasta área a sul situada entre a Porta de Banhos e a Porta de Badajoz, que na centúria de duzentos revelara-se produtiva na cultura agrícola do cereal amarelo, estava um século mais tarde ocupada pelos mouros, que era na prática a razão das dificuldades de relacionamento das duas comunidades, como se comprova nas alegações apresentadas pelos Procuradores de Elvas às Cortes de 1436. O monarca D. Duarte por carta régia, determinava que a solução fosse encontrada entre os juízes e os mouros da vila e que o novo “jazigo colectivo dos mouros”, “façam e que assignem logar convinhavel aos mouros em que façam seu adro.” O conflito em torno dos espaços ocupados pelos mouros ao longo da época de Trezentos manteve-se pelo menos até finais do séc. XV quando o almocovar primitivo e adjacente ao adro do Mosteiro de S .Domingos, foi trocado por um terreno exterior à cerca nova em más condições de habitabilidade e que determinou um recurso do alcaide dos mouros à Coroa, cuja resposta seria enviada ao concelho por carta régia de 14 Julho de 1464 na qual D. Afonso V “Somos certificados em como o chão que ora daes aos mouros d`essa vila, pêra fazerem seu almocovar, é pedregoso e pouco pertencente pêra semelhante cousa. E além de sermos d éllo assí certificado, estando nós em essa villa, e passando um dia por o dito chão, así nos pareceu como nos dito era”. [continua]


segunda-feira, agosto 17, 2009

1.11- Elvas Portuguesa:- As Judiarias no traçado da Vila de Elvas

Vivia-se uma nova era no plano vial e urbanístico da vila, a saída directa para exterior, a partir do castelo ou da alcáçova era uma realidade da época da reconquista como provam as várias ruas estruturantes dos séc. XIV e XV, as praças e os amplos terreiros crescem em ruas mais largas uniformemente em torno do traçado antigo. Mas o progressivo aumento demográfico que a Vila de Elvas conheceu até finais do séc. XV era também o resultado da presença e crescimento da comunidade judaica, uma realidade extensiva em toda a raia do Distrito de Portalegre onde a proliferação dos judeus foi evidente por duas causas bem determinadas: a prática comercial e o exílio evidente nos períodos em que a Inquisição Espanhola, mais violenta que a portuguesa determinava o refúgio clandestino em terras portuguesas. Em fins do séc. XIV a vila de Elvas tal como outras de fronteira como são os casos de Trancoso, Guarda e Castro Marim eram centros de atracção para esta população flutuante clandestina que no Alentejo crescia em torno de outros centros urbanos como: Estremoz, Vila Viçosa e Beja [Elucidário, II ,325].A referência documental da Judiaria de Elvas mais antiga que se conhece situa-se por volta de 1386, mas a sua existência será provavelmente anterior a meados do séc. XIV como as demais situadas na raia nacional. A sua localização é ainda hoje problemática, pois a documentação é escassa e imprecisa na sua informação, mesmo quando se tem em consideração a documentação da Chancelaria Régia ou os Processos da Inquisição de Évora, fundamentais na caracterização e identificação do perfil dos Judeus e Cristão Novos de Elvas. As outras questões que se formulam é se devemos falar da Judaria de Elvas ou da Judaria Nova, são aliás estas as designações que encontramos em algumas obras publicadas por historiadores locais e nacionais. Nesta perspectiva, a problemática situa-se na inserção da comunidade judaica no espaço e no tempo, assim se tivermos em consideração as ruas dos Mercadores, Sapateiros, Beatas e outras afins que se ligavam entre si em torno de um espaço exterior à Alcáçova como referem alguns investigadores locais, não estaremos a caracterizar a Judiaria de Elvas mas provavelmente a Judiaria Velha. Sendo assim a Judiaria Nova proposta por alguma bibliografia nacional com base numa tese académica, estava quase limitada ao exterior do espaço da Porta do Templo e que envolvia praticamente o bairro residencial da rua das Beatas … ? Assim e considerando as fontes possíveis, (as objectivas seriam as arqueológicas), registamos um documento do séc. XVI [ANTT, nº 8031, fls. 157-1258], que identifica a Rua Nova ou antiga Judiaria, situada na actual artéria do Alcamin, referindo ainda que muitos judeus continuavam a habitar aquela rua e que antigos descendentes de judeus tinham como residência moradas de casa, na Praça, na rua da Feira e junto das portas de Olivença e Évora. Ou seja, quando falamos da Judiaria de Elvas, devemos ter duas realidades distintas, a Judiaria Velha a norte da actual Praça da República centrada nas ruas onde situavam os principais ofícios artesanais e a Judiaria Nova, onde a prática mercantil e artesanal, marcava a vida económica na época fernandina. A certeza porém da existência de duas Judiarias na Vila de Elvas e uma outra em Vila Boim é simplesmente indiscutível quando o ofício das rendas da Judiaria de Elvas, no qual o alcaide mor Rui de Abreu, recebia as rendas das referidas comunidades das três Judiarias elvenses no valor de 113. 333 reais. [ ANTT, Livro, 28, fols.2]- Continua.

quinta-feira, julho 30, 2009

UNESCO apresenta Biblioteca Digital Mundial

Notícias com História - A UNESCO apresentou recentemente um vasto fundo documental digital, que aquela instituição catalogou de Biblioteca Digital Mundial. Segundo informações prestadas pelo seu coordenador, Doutor Andelaziz Abib esta base digital pretende seleccionar as jóias que reflictam o génio humano das Culturas e das Civilizações. A página digital no presente momento está acessível a sete idiomas, mas o fundo documental está registado em mais de cinquenta idiomas. O material recolhido é tão diverso que nos permite consultar mapas do Novo Mundo, pinturas rupestres africanas desde 8.000 aC ou registos sonoros como a gravação da Marselhesa. Para a consulta na Web deverá utilizar o link ou simplesmente carregar no presente endereço electrónico: www.wdl.org/pt.

quarta-feira, julho 29, 2009

1.10 - As principais ruas medievais segundo as fontes documentais da Alta Idade Média



Assim se a estrutura urbana foi crescendo e ampliando-se de um modo particular nos séc. XV e XVI, as principais ruas, ruelas ou becos, constituíram sem dúvida o núcleo a partir do qual a vila se organiza na segunda metade de Trezentos seguindo a tradição árabe na zona história. Das mais remotas destacam-se, a Rua dos Mercadores cuja denominação medieval é referenciada em todas as vilas e cidades medievais no caso da artéria elvense é datada para o ano de 1273 e foi das primeiras ruas a integrar o traçado da judaria velha em finais do séc. XV. Nas primeiras décadas do séc. XIV era referenciada com a denominação de Rua dos Açouges, considerando a descrição documental, que coloca esta via entre a Igreja Nova (Sé) e a do Salvador, tratava-se de uma área com tendência para a prática comercial, uma vez que a maior parte dos tendeiros que desenvolviam as suas actividades económicas desde 1274 pagavam foro aos seus proprietários residentes na freguesia de Santa Maria dos Açouges mais tarde da Alcaçova. Era nesta rua da vila de Elvas que em 1498 se situava “ uns acouges antigos, de tres naves, mui grandes, todos de cantaria, e são dos melhores do vosso reino”.[ Capítº dos procuradores do concelho de Elvas, nº26 . às Cortes de 1498]. No séc. XIV destacamos outras ruas de natureza económica como a Rua dos Hortelões de 1351, que nos permite afirmar sem grandes reservas que a existência de pequenas hortas era uma característica dos moradores da paróquia do Salvador. Aliás nos livros de registo de 1351, encontramos parcelas de vinha e olival de Estevão Annes, que pagava foro ao Prior de S.Bartomoleu d’ Alfange. Por outro lado e analisando a toponímica comprovamos que as actividade de natureza económica se encontravam representadas por uma série de ruas situadas na mesma freguesia, como a Rua do Ganço (1344) que mantém essa função económica na centúria seguinte, onde se localizavam os lagares da cidade na rua do mesmo nome, que se mantiveram até pelo menos finais do séc. XVI ou princípios do séc. XVII. Não menos importante na vida económica da cidade medieval era sem dúvida a Rua do Alcamim principal via da freguesia de Santa Maria de Alcácova, rua de moradores e almocreves com informação documental frequente desde segunda metade do séc. XIV, mas com importância económica desde o período árabe, como espaço provável de exploração de cereais nos limites da cerca árabe. De resto não devemos ignorar que o termo (qamh) era o termo geral empregue para o trigo e que hoje identifica várias ruas portuguesas registadas na toponímia portuguesa que utilizam o termo Alcamin como são os casos de: Vila Franca de Xira, Castelo Branco, Estoí (Faro) ou herdade de Alcamins – S.Matias (Évora). As ruas de carácter profissional como a dos Mercadores ou dos Sapateiros, que se identificam com a presença dos cristãos novos em Elvas, completam-se com a actividade profissional do ofício das armas, como a Rua dos Cavaleiros (1386) ou dos Quartéis (1580) . A primeira que António Thomaz Pires, identifica como sendo de natureza onomástica considerando a relação nominal da freguesia de S. Pedro, contudo a designação de cavaleiro é uma prática atribuído à função profissional dos ricos homens que no período medieval era extensiva aos herdadores de origem nobre ou não. Ainda na dimensão da cavalaria destaca-se uma das ruas mais tradicionais e populares dos tempos medievais, a Rua da Carreira (1587) verdadeiro espaço de lazer para a cavalaria local que aí fazia disputar os seus torneios no contexto da arte de bem cavalgar. Durante o séc. XV e XVI, surgem com mais evidência as ruas com denominações de nomes comuns e quase todas com moradas de casa, tal como a de: João Fangueiro (1494); Gonçalo Varela (1500) ; João Vaz de Pousada (1523) cavaleiro; João Preto (1505), identificado como mercador, Gil Ferreira (1535), João Paes (1547); Pessanhas (1559), de família nobre de origem genovesa que defendeu fervorosamente a União Ibérica; Heitor das Sillas (1571), Luís Mendes de Vasconcellos, da nobreza do reino, João Rico (1581), de origem judaica e reconhecido como Dr., exercendo a profissão de físico, Gaspar Gomes (1590); João Sotil (1592) , que na documentação do Cabido da Sé, designa a partir de 1597 esta artéria como a Rua da Sapataria Velha e dois anos mais tarde Rua de Olivença (1599) ou seja em todos os casos referimo-nos a uma ou mais artérias da Judaria Velha. Outras de tradição histórica desenvolveram-se até finais da Baixa Idade Média como a de João de Olivença (1543), cuja referência nominal herdou da antiga porta fernandina e nesta perspectiva trata-se de uma das ruas de denominação histórica mais antiga de Elvas quando se considera a pesquisa toponímica. As ruas direccionais praticamente não fazem parte da toponímica medieval como por exemplo a Rua de Santarém aberta ao público provavelmente em meados do séc. XIV e referida pela documentação com alguma frequência entre 1361 até finais do séc. XV nos livros de testamentários. A toponímica referente à Cristandade estava subjacente em todo o período medieval como são os casos dos ruas de São Lourenço (1387), S. Mamede (1477) , Travessa de S. Miguel (1536), S. Martinho (1597). Em finais do século XV , Portugal Medieval limitava-se a nove cidades que eram em simultâneo sedes de bispado por ordem alfabética: Braga, Coimbra, Évora, Guarda, Lamego, Porto, Silves e Viseu, mas vilas urbanas como Guimarães, Beja, Elvas , Lagos e Setúbal já superavam a demografia e o desenvolvimento económico das urbes nortenhas Lamego, Guarda e Viseu assim como a desenvolvida cidade do antigo Algarbe Andaluz, Silves. Postado Arlindo

sexta-feira, julho 24, 2009

1.9. Elvas Portuguesa - O limite urbano na primeira fase de fortificação da vila de Elvas

Primitivamente e considerando a reprodução do Castelo de Elvas segundo Duarte Armas, o modelo da primeira fortificação da vila de Elvas, era de inspiração quadrangular dos quais só encontramos cinco outros modelos tipo na época medieval, como são os casos de Penha Garcia, Sabugal, Almeida, Alpalhão e Castro Marim. Com excepção dos castelos de Sabugal e de Alpalhão, tinham em comum a sua posição estratégica como fortificações de primeira linha. Trata-se inicialmente de uma pequena fortificação não ultrapassando os 200 metros de extensão e com panos de muralha que não atingiam uma altura superior aos 10 metros. No século XIII, o monarca D. Dinis introduziu à construção inicial um conjunto de inovações defensivas e construtivas ao nível dos torreões, abobadamentos e matacães. Na centúria seguinte e desde 1361, o espaço acastelado estava limitado por uma cava, espécie de escavação semelhante a um fosso que circundava provavelmente parte do castelo numa época em que a barbacã (espécie de barreira ou obstáculo) cobria as áreas mais sensíveis do espaço fortificado, nomeadamente da alcáçova e prolongando-se pelas portas dos Mártires, dos Banhos e de S. Francisco. Ou seja, o castelo da reconquista cristã estava então inserido num espaço mais amplo e fortificado e que correspondia a grande cerca fernandina iniciada pelo monarca D. Afonso IV .Todavia o ciclo das inovações específicas do castelo gótico, como o caso da Torre de Menagem do Castelo de Elvas datada de 1488, era edificada na posição de canto e adossada à própria muralha e não como era tradicional nos castelos românicos no centro isoladas das muralhas, a nova posição favorecia a generalização de sistemas de tiro vertical. Os matacães foram outra inovação gótica, espécie de aberturas que permitiam o despejo de projécteis destinados a bater o embasamento das torres e o acesso às portas. Ainda durante a baixa Idade Média assistiu-se a edificação da Torre Hexagonal e a cisterna na fase de transição para a “guerra de fogo” ou pirobalística. Mas o plano defensivo da vila de Elvas, estava traçado e sinalizado com as suas vinte e duas torres, mantendo - se quase sem transformações durante quase as duas primeiras centúrias da Época Moderna. O aglomerado populacional da vila e mais tarde cidade, no séc. XVI e na primeira metade do séc. XVII, concentravam-se inicialmente em torno da segunda cintura árabe já incapaz de manter uma população em franco crescimento, que no séc. XIV e XV crescia em torno das vias que desembocavam na Porta Real ou Olivença, para este e oeste da mesma. Ainda que as casas construídas em tijolo e cal, com traves e tabuados de madeira e telha, situadas no termo da Rua de S. Francisco se confrontavam a norte e a sul com áreas baldias, pomares, hortas e mesmo com algumas plantações de olivais. No início de quinhentos o casario e as novas ruas proliferavam em torno dos eixos das vias que se articulavam com as onze portas medievais: Porta de Banhos, de Badajoz, Mártires, Olivença, Évora, S. Pedro, S. Francisco, Enforcados, S. Martinho, Templo e Hospital. E o espaço não ocupado pela presença humana limitava-se a um conjunto de propriedades ou parcelas de terras em torno da Igreja, convento e mosteiro de São Domingos. (Continua – Postado Arlindo Sena).