segunda-feira, setembro 26, 2011

9.1.O princípio do fim da I República ... e a afirmação da ordem e da autoridade.

António Sardinha com os exilados monárquicos atentos às contradições republicanas
(foto de Ana Isabel Sardinha, arquivo FAS) 

D.Laura Santana Marques figura da facção católica liderada pelo seu esposo
(foto de Felícia Cabrita, arquivo de família)

Da casa do Governador conspirou-se contra a I República

As figuras do novo governo saído do 28 de Maio de 1926
(Portugal séc.XX -1920-1930, A Tropa,p.201)

As guerras regionais e locais, fora e dentro do Partido Democrático alimentavam as aspirações das figuras mais ambiciosas e as cisões atingiam o auge quando os adeptos do reforço dos poder executivo, ganhava peso em todo o distrito. O duelo entre republicanos, conservadores, integralistas e nacionalistas, era evidente no círculo nº33 (Elvas) e as eleições de 1921 eram as primeiras após a queda do sidonismo. As forças monárquicas desde 1919, tinham ganho alguma notoriedade no distrito e no concelho e pela primeira vez, a defesa dos valores tradicionais era representado por algumas personalidades locais, com algum prestígio nomeadamente o Doutor Ruy de Andrade e o Dr. Santana Marques. O primeiro, um aristocrata de sangue, doutorado pela Universidade de Pisa e um reputado especialista em questões de agronomia com obra publicado. Mais, modesto o licenciado Santana Marques, representava o movimento católico, mas a sua esposa era uma personagem, oriunda de aristocracia da Beira e curiosamente descendente da família Mata Coronel de Elvas, de origem judaica e com ligações próximas a futuras figuras de Estado, como era o caso do Doutor Oliveira Salazar. A recuperação eleitoral das forças monárquicas foi evidente,  no acto eleitoral, mas as denúncias de fraude pela opinião pública era evidentes e os republicanos, junto da imprensa local denunciavam: “Foram descarregados nos quatro cadernos eleitorais, dois para os vereadores e dois para procuradores à Junta Geral, os seguintes cidadãos: -José Joaquim Pinto Cordeiro em parte incerta; - António Joaquim da Silva Rente, estava no Monte da Marinela do Meio; António Rodrigues, estava nas proximidades; Francisco Sabino, cocheiro da Colónia de Vila Fernando, que estava em Estremoz e José Barriga Negra, antigo empregado da Colónia de Vila Fernando, donde saiu há um ano, e habitualmente reside em Borba”. Mas, a verdade era só uma, quer monárquicos, quer republicanos, todos conspiravam de igual forma na procura do voto popular e era de resto, uma situação vigente em todo o Distrito. Os republicanos tinham a vantagem de controlar as comissões municipais e os recenseamentos das freguesias e a fraude típica na região era a exclusão dos cidadãos legalmente inscritos, uma prática herdade da monarquia constitucional. Na vida partidária, o Partido Democrático - PRP, estava já em desagregação um pouco por todo o distrito ao contrário do que se observava a nível nacional e o médico monárquico, João Henriques Tierno da Silva, apresentava-se nas eleições ao Senado em 1926, há esquerda do P.R.P., impensável, quinze anos antes, mas era uma esquerda muito particular (?...) pois reunia em seu torno os grandes lavradores de Elvas que não tinha na sua origem recente, o trajecto da ascensão dos “rendeiros” , O Rebelde noticiava este apoios da seguinte forma: “O sr. Dr. João Henriques Tierno nas próximas eleições vai propor-se a senador pela esquerda democrática. Consta-nos que o acompanham na nova política os senhores Estevão Falé, M.Vasconcellos, José Joaquim Vasconcellos, Tello Rasquilha, Alfredo Carvalho e D.Gonçalves Telles da Silva”. Em Elvas a debandada do Partido Republicano era geral e algumas figuras que tinham militado nas lojas maçónicas também estavam em retirada, abraçando as causas do nacionalismo que sopravam gradualmente em todo o Ocidente. Júlio Alcântara Botelho, tornara-se sidonista e era o rosto do Partido Republicano Liberal, na companhia de José Augusto Cayola que também tinha pertencido à primeira comissão republicana da cidade. José Dias Barroso, era outro reforço nas hostes liberais mas antes já era o principal apoiante do Sidonismo. Entre os militares, o Coronel António Augusto Namorado Aguiar, era o rosto do descontentamento que levava os caminhos da República, mas só voltava a política activa já durante o Estado Novo onde chegaria a Ministro da Guerra (1930-1931). O tempo corria contra a I República, o candidato do Partido do Partido Democrático-P.R.P., por Elvas, era recrutado fora do círculo elvense, tratava-se do grande proprietário agrícola de Avis, António Pais da Silva Marques que conseguiria o pior resultado de sempre do P.R.P. na cidade raiana, a folha da oposição republicana elvense o Rebelde sobre os actos eleitorais de 1923 e 1925, fazia o seguinte juízo de valor: “As eleições essa comédia grotesca que o povo está junto já lá vai tempo e a nossa prometida ainda não chegou. Quando é que estes políticos nos deixam em paz”. Vivia-se numa época em que nos periódicos nacionais mas em especial nos do distrito se pedia, “autoridade e ordem”, quinze anos e quarenta e cinco governos, dera cabo da I República e o movimento militar de 28 de Maio de 1926, chefiado pelo Marechal da Costa era o golpe final na aventura republicana, no entanto como defende o Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, o 28 Maio na sua essência não era contra a República …”Torna-se errado defender que o 28 de Maio se fez contra a República, quando o espírito do movimento tomou como alvo principal a supremacia eleitoral democrática”, mas o insuspeito Doutor Agostinho da Silva o maior filósofo português do séc. XX diria pouco nas suas memórias (Dispersos): “A 1ª República, para mim, era uma coisa esquisita que não ia levar a sítio nenhum. Mais: estou convencido de uma coisa , segundo o qual, se não tivesse havido ditadura, provavelmente Portugal tinha acabado naquele momento, aí por 1925-1926. Era uma confusão, ninguém se entendia, não parecia existir uma saída de espécie alguma”. Chegava ao fim uma época da História da República, onde Elvas também desempenhou um papel activo, na conspiração militar de 28 de Maio de 1926, ….mais tarde o elvense, General Passos e Sousa daria o seguinte testemunho a um dos mais prestigiados historiadores de história contemporânea de Espanha, o Doutor Jesus Pabón, que recolheu o segundo testemunho: “En el fuerte da Graça y durante el tiempo en que fui governador, se lanzaram las bases de um movimiento militar de gran envergadura ( o 28 de Maio), en el cual tomariam parte todas las guarniciones del País, que en un momento dado, se sublevarían y marcharían com la mayor rapidez sobre Lisboa.       

sexta-feira, setembro 23, 2011

Termas de Caracala

domingo, setembro 18, 2011

9.1. António Sardinha e a "Causa Monárquica"

A morte de Sidónio Pais culminou com uma tentiva efémera de implantar a Monarquia.
(Folha volante entregue no funeral de Sidónio Pais)

Portal da Quinta do Bispo - local de encontro de algumas figuras integralistas
(foto de Raul Ladeira)


Correspondência de António Sardinha no período da Monarquia do Norte
(in arquivo FAS) 

António Sardinha, Alberto Monsaraz e Luís Almeida Braga três vultos do integralismo no exílio em Espanha ( in arquivo FAS)

A turbulência marcava a vida política portuguesa e o Dr. António Sardinha, tornava-se cada vez mais uma figura proeminente, na vida política nacional apoiante incondicional do Prof. Major Sidónio Pais, continuava longe do pensamento republicano que tinha marcado os seus primeiros passos na vida política. Todavia, era uma figura com uma visão realística do seu tempo e com uma capacidade de previsão política indiscutível face ao clima de conspiração que se vivia, então escrevia nos seus apontamentos: “ Não tenhamos ilusões, nem esquecimentos; a situação do Sr. Sidónio Pais não é eterna e, quando findar, ou regressa Afonso Costa ou termos a Monarquia”. A verdade é que a República Nova fundada pelo Major Doutor Sidónio Pais se assemelhava mais a uma monarquia do que uma república, que apenas existia em termos teóricos, tal era o protagonismo de Sidónio Pais. De resto, por todo o País, nas cidades e vilas, os apoios ao Chefe de Estado eram tão evidentes que dava a impressão de que não havia monárquicos e republicanos, católicos ou ateus, mas exclusivamente, defensores de uma realidade única. Em Elvas aclamação ao chamado “Presidente-Rei” foi notável, uma multidão ocupou em toda a sua extensão da Praça da República e perante os republicanos e monárquicos locais, acompanhado do Dr. António Sardinha diria “Não sirvo apenas para ser o guarda temporário do País, mas sê-lo-ei por tempo ilimitado, como presidente enquanto o Parlamento o marcar e como Português até à morte». A afirmação do Sidonismo, em terras do Alentejo tal como um pouco por todo o território nacional, tornou-se uma realidade inquestionável e mais evidente nas zonas mais empobrecidas, para tal contribui, a medida popular que foi sem dúvia a “sopa dos pobres” e os apoios incondicionais de certos sectores da Igreja, contribuiram para a  consolidação do seu carisma e do seu poder quase absoluto, interrompido brutalmente pelo atentado atribuído à Maçonaria na pessoa do algarvio José Júlio Costa na estação ferroviária do Rossio a 14 de Dezembro de 1918. Estava assim interrompida a primeira experiência de carácter nacionalista na Europa Ocidental, que tinha de certo modo favorecido de forma eficaz e apreciável, os interesses monárquicos que tinham ganho protagonismo sobretudo nas regiões do norte de Portugal. Sobre esta questão, escreveu Oliveira Marques “ Já antes da morte de Sidónio o controle da situação em diversas partes do País. Tinham-se criado Juntas Militares no Norte e sul, com o pretexto de defender Portugal da “subversão” e de apoiar o Presidente contra os seus inimigos mas, na realidade, com o propósito de proclamar a Monarquia, mais cedo e mais tarde”. As conversações entre os monárquicos para mudança de sistema política, ocorreram ao longo do ano de 1918, muitas das quais no norte de Portugal ou em Elvas na Quinta do Bispo, onde vivia o ideólogo do integralismo lusitano, de tal forma que no final do ano militares, monárquicos e conservadores esperavam o melhor momento para conspirarem.  E assim aconteceu quando o Coronel Paiva Couceiro, aceitando a tarefa de comando das hostes revoltosas, desfilou no Monte do Pardal (Porto) em 19 de Janeiro de 1919, fazendo hastear a bandeira azul e branca, seguindo-se uma proclamação pública em nome dos valores tradicionais face às ameaças que ponham em causa a integridade da Pátria. Pouco depois era constituída a Junta Provincial, proclamando-se a vigência dos símbolos próprias da monarquia tradicional e suspenso o corpus jurídico que estava em vigor após a implantação do regime republicano em 5 de Outubro de 1910.  Mas, a proclamação da restauração da monarquia, limitava-se às regiões Entre Douro e Minho, Trás-os-Montes e Beira Alta, nascia a Monarquia do Norte e o país, estava profundamente dividido entre norte e sul ou melhor entre monárquicos e republicanos. Na cidade de Elvas, nos últimos meses,  local de conspiração para alguns integralista, a sua população mantinha-se fiel à causa republicana, o Governador Militar da Praça de Elvas sem rodeios telegrafava ao Governador Civil de Portalegre: “Esta Praça é toda republicana com pequenas excepções e deste modo posso afirmar categoricamente a V.Exa. que tanto a guarnição militar como a população civil reprovam e condenam o infame movimento monárquico a norte”. Na mesma carta, o comando da guarnição de Elvas dava a conhecer que tinha quase 1.000 homens, disponíveis para defender a República e o Governador do Forte da Graça informava as autoridades republicanas que era : “…desesperada a ansiedade dos presos políticos do Forte da Graça para irem combater o traiçoeiro movimento monárquico”. No cerco no Monsanto, os monárquicos sem meios militares e económicos, rendiam-se  e a fronteira do Caia tornava-se um espaço de partido para o exílio dos monárquicos, um periódico de Elvas de 9 de Fevereiro de 1939 noticiava que: “Estão em Badajoz vários cabecilhas realistas, entre eles o germanófilo António Sardinha  ….. e acrescentava….conhecidos monárquicos desta cidade vão ali conferenciar com eles". As notícias corriam independentemente dos factos e geravam-se os boatos, um funcionário superior de alfândega de Elvas admitia que tinha falado com António Sardinha que lhe dissera que o plano dos monárquicos era fomentar distúrbios e desordens em todo o País, especialmente a sul, de modo a criar embaraços à República. Mas do norte de Espanha na mesma semana o poeta de Monforte dirigia-se à sua esposa do seguinte modo: “ Minha pobre e querida mulherzinha: Calculo o teu sofrimento! Calculo a tua agonia ….Encontro-me em  Vigo de passagem e, apesar de tudo o que terás visto nos jornais, a saúde não me falta, nem alegria. Os negócios não correm mal e espero-te ver-te bem depressa…”  . Entretanto o tempo era de consagração para os republicanos e em suas memórias no pós Monarquia do Norte, José Relvas registaria:”A República tem o caminho livre para recuperar muito do que tem perdido nos últimos anos. A Monarquia fez a sua decisiva experiência e estará a esta hora bem convencida da inutilidade da sua acção.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Notas sobre a Escultura Grega

A escultua grega vingou com a Polis (Acrópele)

 Permenor dos grupos escultóricos no frontão do Pártenon

Kouros:  mármore - 540 aC / 1.94m in Museu Nacional de Atenas 

Poseidon -Séc.V - bronze in Museu Nacional de Atenas

Afrodite: mármore  - 100 aC - 1. 32m - in Museu Nacional de Atenas

A maior parte da escultura grega perdeu-se através dos tempos e para sempre. Segundo, Andrew Stwart, “O triunfo do cristianismo, a queda de Roma em 410 d.C. e a iconoclastia bizantina eliminaram os elementos da arte mais ofensivos para muitos”. Todavia, algumas esculturas, verdadeiros tesouros em ouro, prata e marfim, foram simplesmente recicladas e transformadas em armas e outro tipo de instrumentos. Por outro lado, as de mármore foram objecto de utilização para pedras tumulares. Assim, o primeiro momento de preservação da estatuária grega ocorre durante o Renascimento quando as escavações feitas dentro e fora de Roma, que permitiram a criação das primeiras colecções de antiguidades. A escultura grega foi uma criação da polis (cidade de estado) e manteve-se para além do reinado de Alexandre Magno e ultrapassou mesmo os limites do território grego. O legado da escultura grega perde-se no tempo, na dimensão, no material e na temática. Mas se as estatuetas, utilizadas na prática de rituais nos séculos XII e XI aC., marcam o gosto pela estatuária, a escultura monumental teve início nos séculos VIII e VIII aC, quando a polis se consolidou definitivamente. Deste último período destaca-se essa obra ímpar o Pártenon. Dos seus frontões com cerca de 30 metros de largura, mostrando o nascimento de Atena e a sua instalação em Atenas, até à sua estátua de 12 metros esculpida por Fídias e colocada na sala principal de culto (um colosso de madeira coberto de ouro e marfim). As primeiras estátuas funerárias e votivas de mármore, as chamadas de Kouroi e kouros começaram a ser produzidas por volta de 625 aC., e os relevos votivos e as pedras tumulares em mármore duas gerações mais tarde. Os retratos em bronze foram outro tipo de escultura muito apreciada a partir do séc. IV aC., que prestavam homenagem a generais e políticos e que a breve trecho favoreceu o seu desenvolvimento através da sua encomenda pelas elites das polis gregas. Esta prática manteve-se no tempo de Alexandre Magno, quando os clientes eram os próprios reis, a classe governativa e as escolas filosóficas, aliás os reis helenísticos foram os grandes mecenas da estatuária que em vésperas da conquista romana, “povoavam” os palácios reais e as áreas envolventes. O fim do esplendor da estatuária grega, acabou com a chegada dos romanos por volta de 200 aC, quando se verificaram as primeiras pilhagens do legado grego que a breve trecho, seguiam para Roma à medida que os romanos mais abastados adquiriam as mesmas, para enfeitar as suas casas urbanas e as suas villas com os ornamentos helénicos.    

terça-feira, setembro 13, 2011

9.1.O sidonismo como alternativa à instabilidade republicana.

Sidónio Pais o Presidente-Rei (in Portugal século XX-1910-1920, p.189)

    António Sardinha, acreditava na República Nova como meio de transição para a Monarquia.
(in Arquivo FAS)

José Dias Barroso, um republicano radical que se converteu ao Sidonismo.  

O desapontamento da experiência republicana, crescia no pós - Guerra (1914-1918), em meados de 1917 e com sete anos de vigência da I República, o País tinha conhecido cerca de quinze governos, incluindo a curta de ditadura de Pimento de Castro. O descontentamento era geral, mas a chegada do Doutor Major Sidónio Pais ao poder após o golpe militar de 5 de Dezembro de 1917 era uma nova oportunidade nomeadamente para os sectores mais conservadores, mas também para um vasto sector das populações que apenas pretendiam ordem, estabilidade e segurança. Como era o caso particular, da opinião pública formalizada na imprensa periódica do Distrito de Portalegre e a única excepção era sem dúvida o “povo do concelho de Arronches” que continuava fiel aos princípios republicanos. Mas na cidade de Elvas crescia o número de seguidores da chamada “República Nova” que o Major Sidónio Pais pretendia empreender e na sua visita à cidade seria aclamado por uma multidão na Praça da República, a sua popularidade estava directamente relacionada com a criação da “sopa dos pobres”. Na Câmara Municipal, o Dr. António Sardinha fazia o discurso de boas vindas referindo que o seu pensamento político tem sido uma demonstração interessante no Integralismo Lusitano, que na prática para o poeta de Monforte era um primeiro passo para a restauração da monarquia. Na verdade, era cada vez mais os monárquicos, republicanos, católicos e adeus que acreditavam no projecto sidonista, essa tentação era visível em figuras locais de referência como, Júlio Alcântara Botelho, que foi simultaneamente o primeiro presidente da Comissão municipal republicana de 1911 e da Câmara de Elvas ou José Dias Barroso, republicano da primeira hora e que na visita a Elvas foi indigitado para receber o Major Sidónio Pais, que o nomeou Administrador do Concelho em 1920 ou ainda a maioria das figuras do Partido Progressista na época da Monarquia Constitucional, como era o caso do Dr. António Cidraes, motivo de crítica de um periódico local que caracterizava a sua vida política da seguinte forma: “ Foi franquista e a monarquia e o franquismo, desapareceram. O seu republicanismo de há um mês levou-o para o partido Sidonista. É caso para assustar os seus correligionários e os próprios republicanos, dado a superstições”. Apesar de tudo, a oposição republicana estava vigilante e João Camoesas que então vivia em Lisboa, mas mantendo-se como director do jornal a Fronteira, nos seus escritos na folha elvense, lembrava que Sidónio Pais era republicano mas o seu governo era de um tirano, lembrando que a presença dos portugueses na Flandres tinha a ver com as suas posições germanófilas. E na edição de 2 de Março de 1918 na “Fronteira” escrevia: “Que governo republicano é este que priva a liberdade a qualquer cidadão que não comunga as suas ideias e lhe restituí sempre que lhe diga o motivo do seu longo cativeiro”. Nas zonas urbanas, a oposição tornava-se cada vez mais latente, nos sectores esquerdistas da política e sindicalismo. Uma realidade que culminou com um atentado mortal contra a sua vida na Estação do Rossio em 14 de Dezembro de 1918, lançando a consternação no país e em terras portalegrenses, mas a breve trecho a conspiração monárquica renasce, destacando-se o Dr. António Sardinha que intensifica as suas viagens entre a Quinta do Bispo e a capital e a breve trecho com o Norte do País, quando a República seria questionada pelas armas.

quarta-feira, setembro 07, 2011

O Castelo Medieval - chave da Idade Média

Castelo Dunstanburg a torre britânica sucessora dos primeiros castelos de mota.

O Castelo ou torre de residência senhorial em Greenknowe 

O Castelo de Marvão sobre edificado sobre uma elevação montanhosa característica da Reconquista Cristã na Peninsula Ibérica.

A torre do Castelo Medieval de Frías (Burgos).

Castelo de fronteira de Castro Marim (Algarve) 

 Castelo de residência papal de Avinhão

 Fortaleza Medieval de Carcassone - Património da Unesco

Praça - Fortaleza de Elvas na transição para a modernidade.

A origem do Castelo remonta a épocas anteriores ao século IX , quando se definiu a denominada “mota”, elevação que servia para levar a cabo a última defesa e que estava ligada com um ou mais recintos, onde se identificava as habitações e os serviços de apoio. Na centúria seguinte, o conceito de “mota” é alterado, pela construção em pedra de uma torre principal fortificada e reforçada, continuando a sua função defensiva mas identificada também como uma habitação, em muitos casos tratava-se de residências senhoriais, normalmente de príncipes mas também como morada real nomeadamente nas ilhas britânicas. Nos séculos XI e XII, o castelo define-se a partir de uma planta geométrica flanqueada por torres. O Castelo torna-se um espaço fortificado, enriquecido por sólidas muralhas, que flanqueavam as zonas mais sensíveis da edificação nomeadamente a entrada principal. Nas regiões germânicas, na mesma época numa perspectiva defensiva, introduziu o fosso que fez escol em toda a Europa Ocidental. Na Península Ibérica, face há ameaça muçulmana em plena reconquista cristã, o castelo era edificada em zonas montanhosas quase inacessíveis como forma de impor a sua superioridade militar. Em muitos casos, como em Portugal tais construções foram levantadas sobre antigos castros ou velhas muralhas romanas, mas evidente no centro e no sul da Península. Nos finais do séc. XII e princípios do XIII, em Espanha, aparecem castelos regulares organizados em torno de pátios regulares e porticados, como Sádaba ou Villalba de los Alcores y poderosas fortalezas como Calatrava de la Nueva,Consuegra o Peñiscola,que recordam poderosamente as lendárias fortalezas de cavaleiros cruzados da terra Santa. Com a introdução do fogo, chegava ao fim a longo período do domínio do Castelo na actividade bélica medieval, quando os únicos recursos disponíveis ao sitiante eram os da antiguidade clássica: catapultas, aríetes, escadas e a mais eficaz de tosas as armas a fome quando se ponha cerco a uma população. A solução segundo Maquievel: “ é construir muralhas retorcidas e com vários abrigos e locais de defesa para que se o inimigo tentar aproximar-se, possa ser enfrentado e repelido tanto nos flancos como na frente”. A solução encontrada, passou pelas próprias muralhas mais grossas e rebaixadas para se constituírem no menor alvo possível ao fogo inimigo reforçadas com fortificações. Os fossos rodeavam as edificações militarizadas, protegidas por guaritas cujas taludes que se desenvolviam à sua frente tinham como objectivo expor os fogo os eventuais assaltantes eram um novo tempo na guerra medieval …. o tempo das fortalezas que iria vigorar no Ocidente a partir do séc. XVII.

segunda-feira, setembro 05, 2011

9.1 - O debate política numa época de causas....

1
A Plebe alimentou a causa da regionalização da elite política de Portalegre e Elvas 

 Pimenta de Castro reforçou o seu poder e dividiu os republicanos.


António Sardinha na sua casa na Quinta do Bispo em Elvas destacou-se como o ideólogo do Integralismo Lusitano.
(in Ana Isabel Sardinha Desvignes, António Sardinha um intelectual no século, p.XV.)

Coronel Miguel Santos, conspirou contra Pimenta de Castro no Golpe de 15 de Maio de 1915
(in António Ventura, A Maçonaria - distrito de Portalegre, p.118)  

O debate político durante a I República, ultrapassava a dimensão local fruto do protagonismo de algumas figuras locais, que se dividiam numa primeira fase em torno do regime e numa segunda fase, no sistema, ou seja em pouco tempo a questão deixou de ser monarquia ou república, mas entre liberdade e autoridade. Rapidamente, o Partido Democrático/PRP tornava-se na maior força política local e regional, em Elvas o número de “adesivos” que aderiam à república aumentava e a vida municipal corria com a normalidade que o Poder central determinava. Mas o carácter reivindicativo que a nova etapa política, alimentava favorecia a difusão de ideias do ideário regionalista, o Dr. José de Andrade Sequeira, Governador Civil sem reservas desafiava a elite regional para a importância da regionalização como se lê num dos seus escritos publicados na imprensa distrital: “O Partido Republicano Regional não deve ter, segundo julgamos e já dissemos, filiação em qualquer outro partido. Não reconhecerá a chefia de nenhum marechal republicano e não reconhecerá, também no distrito, supremacia de um general ou chefe (…)”. Em pouco tempo, a tese da regionalização tornou-se uma causa e animou a elite regional que conhecedora das realidades locais, no Distrito de Portalegre, o Dr. José da Andrade Sequeira, tornava-se o líder da ideia que tinha proclamado, com o apoio de figuras de referência do Distrito de Portalegre, como eram os casos do Dr.João Caroço, deputado independente do distrito,  Dr. Téofilo Júnior, professor licenciado em Filologia Germânica natural de Arronches e de Elvas, o Dr. João Henriques Tierno, notável médico e uma figura de referência do Partido Progressista durante a Monarquia Constitucional e o Dr. João Camoesas, um republicano da primeira hora, mas em comum um sentimento de que era necessário, uma nova força republicana regional, capaz de reivindicar e de  gerir melhor os recursos estatais, regionais e locais. Apesar de tudo, a questão da regionalização não era nova, o próprio Partido Democrático - PRP não só tinha defendido tal tese em 1911 como confirmava tal propósito em 1912. A verdade é que a conjuntura política não se revelava favorável aos regionalistas, a revitalização das forças monárquicas e a divisão entre os republicanos, era uma evidência um pouco por todo o distrito no Outono de 1911 e era o “pai” da ideia da regionalização que lembrava que aquele movimento político que surgiu pela sua iniciativa era “ inadaptável aos tempos que vão correndo”. A ideia da regionalização desaparecia de forma efémera tal como tinha surgido, os seus precursores, seguiam a sua vida política associados ao partido Democrático –PRP, o Dr. Téofilo Júnior, mantinha-se fiel às teses regionalistas mas com  o avanço do ideário nacionalista germinando tornava-se mais dócil nas suas críticas ao Poder Central enquanto que o Dr. António Sardinha, afastava-se definitivamente dos ideias republicanos e regionalistas e tornava-se em pouco tempo numa eminente figura nacional  das pretensões monárquicas e nacionalistas. O mundo preparava-se para a Grande Guerra e António Sardinha, com a colaboração de Alberto Monsaraz, Hipólito Raposo e Pequito Raposo, entre outros, editava uma revista com a finalidade de analisar questões de filosofia política, titulada “A Nação Portuguesa”, que funcionaria como um autêntico órgão de comunicação na difusão das teses correspondentes ao “Integralismo Lusitano” que desde o seu primeiro número defendia que a sua “(…)  actividade e propaganda em prol de uma Monarquia tradicional, servirá para reunir à volta de uma aspiração honesta e consciente à dedicação daqueles que, já decrescentes da mentira democrática – parlamentar(…)”.  A defesa da “tradição portuguesa” era uma das ideias recorrentes da doutrina do “Integralismo Lusitano”. Uma doutrina que não aceitava a ideologia republicana e resultava contrária ao liberalismo (económico e político), do mesmo modo que se oponha frontalmente a todo ideário da Revolução Francesa e outras derivadas daquela: “ (…) os integralistas erguiam-se com violência contra o individualismo e a soberania popular, com as suas expressões políticas práticas de monarquia constitucional ou da república”. Apesar de tudo o empenho do ideólogo de Monforte, as ideias integralistas não vingaram no Alto Alentejo, tendo em sete edições  da Fronteira, periódico republicano elvense, explicado o teor ideológico e alcance das teses do Integralismo Lusitano . Entretanto a Quinta do Bispo era visitada regularmente por algumas figuras que conspiravam contra a República, num período em que Pimenta de Castro não era apreciado nos meios políticos elvenses, o próprio António Sardinha afirmava que aquele oficial português era muito semelhante a um Rei Absoluto e nem sequer servia os próprios republicanos:”Dissolveu o parlamento, perseguiu os republicanos, escorraçou-os das corporações administrativas dos governos civis e da administração pública”. Os republicanos estavam divididos ou pelo menos incrédulos, o Coronel Miguel Santos, republicano, natural da freguesia de Assunção em Elvas, incorparava o movimento de 15 de Maio de 1915 contra a experiência totalitária que estava a ser imposta por Pimenta de Castro e o arrochense  Téofilo  Júnior apoiante desde a primeira hora da causda republicana  afirmava ” Num país destes a situação normal e a desordem organizada em governo é a anarquia espiritual a real triunfadora cavalgando pesadamente a Ordem como um grande e glorioso capitão no fim de uma vitória (…) O remédio nestas circunstâncias é exerce-se a ditadura para garantir à grande maioria do país ordenada e laboradora o exercício dos direitos que uma pequena maioria de agitadores, confundindo a licença com a liberdade”. Os republicanos elvenses do Partido Democrático- PRP, respondiam às ameaças ao sistema político apesar da desconfiança relativamente ao caminho que seguia o governo da República : “O País, com a opinião republicana, está vigilante no seu posto de honra, que será mesmo de combate se a isso forçarem os protectores do bandidismo monárquico”. Todavia a República continuava o seu caminho, vigorando de forma plena pois o regime republicano de Pimenta de Castro não deixou de ser republicano pelo menos na formalidade, apesar da sucessão de governos que marcaram um breve período entre 1519-1519, entre eles a coligação republicana da União Sagrada, que não evitava o surto das greves gerais, as consequência directas da guerra e o descontentamento de uma burguesia urbana e rural, que pedia sobretudo ordem e progresso económico.                           

sábado, setembro 03, 2011

Campo arqueológico de Segeda (Saragoça)



Projecto coordenado, pelo Prof. Doutor, Francisco Burillo, Facultad de ciencias sociales y humanas, Universidad de Saragoça.  

O renascimento em Itália: características gerais (síntese).

 Basília de S.Pedro coroada de elementos clássicos
 Interior da Basílica de S.Pedro com a sua abóbada em caixotões

S.Magiore II e a sua inseparável cúpula 

 A originalidade da Ponte Vechio
Campanário da muralha defensiva do palácio Vechio


A grandeza do Palácio di Priori


A villa Rotonda complemento do fausto urbano da burguesia itálica 

A arquitectura renascentista inspira-se inicialmente em modelos romanos, mas também gregos, helenísticos e bizantinos. Numa análise comparativa com a Antiguidade Clássica , observa-se que os arquitectos do renascimento, continuaram a utilizar determinadas estruturas arquitectónicas da época clássica como as ordens de coluna, as formas de frontão e de ornatos, numa composição arquitectónica pautada pela harmonia e por uma nova concepção de espaço. A forma ideal de construção sacra, segundo os grandes teóricos definia-se numa construção de planta centrada encimada por uma cúpula, se bem que a prática cultural surge a partir desses edifícios com construções axiais. A cúpula assenta geralmente sobre um tambor e é encimada por uma laterna. As paredes, que no gótico tinham sido em grande medida substituída por vitrais, passam novamente a ser fechadas. Os elementos divisórios e decorativos, que no Renascimento lombardo estavam ainda sobrecarregados de uma ornamentação exuberante, transformam-se no Alto Renascimento em formas tranquilas sem qualquer tendência de verticalismo. Predominam o rectângulo e o círculo. A nervura e o arco em ogiva são banidos. Os tectos de madeira, as abóbadas de berço e as cúpulas são divididas em caixotões. As janelas são rematadas por um arco de volta inteira no Renascimento primitivo, e no Alto Renascimento têm um remate direito (a partir de cerca de 1500), coroado por um frontão triangular ou aberto. Em vez de pilares do gótico tardio, sem base nem capitel, reaparecem as ordens de colunas clássicas: dórica, jónica, compósita, que “correspondem à medida do homem e representam a sua imagem , na euivalência base-pé, fuste- corpo e o capitel –cabeça”[H.Weigert]. A fachada torna-se também mais humana: apresenta em grau cada vez maior colunas e pilastras, silhares rústicos e pulidos, antecorpos, pórticos e ressaltos. A casa de Deus deixa de ter um carácter místico, espiritualizado e sagrado para se transformar numa realidade grandiosa. [Wilfried Koch, Renascimento e Maneirismo, p. 215 ]. As formas tardias do Renascimento italiano, posteriores a 1530, tornam-se mais pesadas; as pilastras são substituídas por meias-colunas ou colunas cilíndricas, as cornijas sobressaem muito as paredes. A decoração mais rica anuncia o Maneirismo que se aproxima. O principal arquitecto do Renascimento tardio foi Andrea Palladio, 1508-80. Este arquitecto nem sempre aplica as regras que ele próprio deduziu do estudo das construções antigas. Mas os seus esforços no sentido de uma aproximação cada vez maior das plantas das construções da Antiguidade, são visíveis na Villa Rotonda no seu sentido de simetria e das proporções harmoniosas, tornam-se um cânone clássico na época seguinte. Na arquitectura civil, todas as grandes famílias florentinas encomendaram palácios e villas com jardins no campo. Todos os palácios urbanos são autênticos bastiões, fortemente fechados no exterior, com pátios com colunas no exterior, construídos mediante arcadas e ordens clássicas, em geral mais habitáveis e flexíveis do que o que indicam os seus austeros tratamentos exteriores. A cantaria das paredes dá-lhes uma vibração especial, um carácter rugoso e áspero não isento de conotações defensivas de instabilidade. Mais tarde, cada arquitecto em cada palácio procurará a maneira de assinalar e diferenciar o carácter singular de cada novidade.

sexta-feira, agosto 26, 2011

9.1-Elvas Contemporânea. A "explosão republicana" nas ferguesias rurais.

H
Comício Republicano na Praça de Touros de Arronches com a participação popular de gentes da raia (foto de António Ventura, in Teófilo Junior, p.19).

As condições de trabalho e os salários foram determinantes para o surto grevista entre 1911 e 1913
(foto de historiamemoria) 

A melhoria das condições de vida mais do que uma revindicação popular era um acto nacional.
(in Os Rídiculos, edição de 16 de Outubro de 1916,nº1.034, Lisboa) 

A falta de mão de obra para cultivo das terras abandonados favoreceu a melhoria das condições de vida e de salários depois da Grande Guerra.


Na vida regional e local, a 1ª República, suscitou e favoreceu desde logo sentimentos de desconfiança, de neutralidade e de apoio. De facto, nos sectores mais conservadores e próximos do ideal monárquico, jamais apoiaram o novo regime, todavia na cidade de Elvas tratava-se de um pequeno grupo, que não chegavam a meia dúzia de famílias uma vez que a aristocracia de sangue era quase inexistente na cidade raiana. A neutralidade, preenchia as atitudes e ambições da maioria dos lavradores locais, na verdade os antigos rendeiros da aristocracia e de alguns burgueses exteriores ao concelho e que constituíram a força do Partido Progressista durante a Monarquia Constitucional, esperavam por razões tácticas o desenvolvimento dos acontecimentos. Não é por acaso, que uma vasta maioria dos homens da lavoura, em menos de um ano estavam filiados no Partido Republicano Português, um pouco mais tarde, Partido Democrático. Constituindo os chamados adesivos e que se identificam com algumas personalidades que nasceram monárquicos, foram republicanos e morreram ao serviço dos ideais do Estado Novo, uma característica nacional e que teve grande desenvolvimento em todo o Distrito de Portalegre. Os apoios atravessaram a sociedade elvense, com alguns notáveis das famílias abastadas da cidade, com tradições políticas como a família Alcântara que serviu a causa monárquica ao longo da monarquia constitucional, mas eram sobretudo os militares, comerciantes, funcionários públicos e as camadas populares que abraçaram o regime republicano desde a primeira hora. Mas se nas elites económicas locais a hora era de moderação independentemente de ser ou não republicano, a radicalização tornava-se evidente nos campos do concelho a exemplo do que se verificou por todo o distrito de Portalegre. No inicio de 1911 a sucessão de greves tornou-se imparável em todo o norte alentejano, as causas das revindicações camponesas eram determinadas pela necessidade de uma melhoria rápida e significativa dos salários e era evidente nas herdades de Arronches, Elvas e Campo Maior, em que a mão-de-obra era abundante. Mas em Elvas, então terra de cereais as greves sucediam-se nas freguesias com maior prosperidade agrícola, casos de Santa Eulália, São Vicente, Vila Boim , Terrugem e Barbacena. A natureza das greves iam variando, já não se tratava de defender melhores salários, mas melhores condições contratuais no caso dos jornaleiros ou ainda, melhores condições de trabalho.Estes protestos rurais, foram ganhando aos poucos uma maior consciência de classe face a acção dos sindicatos que então ganhavam alguma notoriedade, na organização destas revindicações populares, algumas delas consistiam na interrupção dos trabalhos de sessões das assembleias municipais com alguma regularidade e persistência, no caso particular de Arronches. Em 1911, o deputado pelo distrito de Portalegre, Henrique José Caldeira Reis, observava com preocupação a situação de revolta que mantinha-se nos campos agrícolas nos anos seguintes (1912/1913), criticando os levantamentos populares e acção repressiva do Estado, que chegou a provocar algumas mortes, ainda que os castigos mais usuais fossem a prisão e o desterro ou exílio, para as colónias africanas. Vivia-se uma época, em que a esperança na mudança, explicava estas contestações populares que estavam devidamente sindicalizadas e no II Congresso dos Trabalhos Rurais o município de Elvas estava representado com dois sindicados operários que eram oriundos das freguesias da Terrugem e Vila Boim. No mesmo e em consequência, do I Congresso, realizado em Évora em 1911, defendiam-se uma serie de revindicações que impediam qualquer entendimento entre camponeses e operários, tais como: defesa dos melhores salários, definição de um horário de trabalho, estabelecimento de um salário mínimo, prioridade absoluta na contratação de trabalhadores locais e restrição da área de produção à mecanização. Mas, com a mesma facilidade que este movimento irrompeu por todo o distrito de Portalegre, acabou também por praticamente desaparecer. De facto, este movimento operário, popular e rural, perdeu a sua força com o desencadear da I Guerra Mundial, com o clima de repressão e de medo sobre o movimento sindical. Outras razões acabaram por esvaziar esta vaga revolucionária, como a emigração da população rural para os centros urbanos e nomeadamente para a capital, que acabou por beneficiar a mão-de-obra rural da região que devido à sua falta viu o valor dos salários crescer, numa época em que o surto da legislação republicana permitiu uma melhoria incipiente das suas condições de vida que eram todavia melhores.


terça-feira, agosto 09, 2011

Marco Polo afinal não chegou a Pequim ....?


(foto in Hulton archive)

Daniel Petrella, arqueólogo da Universidade de Nápoles e director de uma missão arqueológica no Japão, defendeu recentemente que Marco Polo jamais esteve em Pequim. Segundo a História, Marco Polo que esteve ao serviço Khan Kubilay durante quatro anos de viagem através da Ásia, em missões diplomáticas no Sudoeste asiático, particularmente em Ceilão, deram a Marco Polo essa rica visão do mundo e dos povos que confere o excepcional interesse ao Livro das Maravilhas. Segundo, o mesmo académico, Marco Polo deverá ter terminado a sua viagem nas proximidades do Mar Negro e as provas situa-se nas tentativas de Khan Kubilay em invadir o Japão em 1274 e 1281, segundo Daniel Petrella, as descrições de Marco Polo, não coincidem com os factos históricos, uma vez que referido viajante descreve a frota que partiu em 1274 da Coreia e um tufão que acabou por atingi-la, dois acontecimentos que ocorreram de facto mas com sete anos de diferença já que o tufão está datado para 1281. Relativamente à frota mongol que era constituída por 4.500 navios, Marco Polo, só refere apenas o seu tamanho e a sua função militar quando os mesmos eram mercantes. Segundo o académico napolitano, as imprecisões históricas e erros de orientação, explicam a presença de Marco Polo em áreas geográficas para além do Mar Negro. Sem dúvida, uma notícia que tem gerado polémica face à verdade histórica secular numa época que o recurso às informações e aposteriori divulgação era muito comum na idade média … ou seja o debate continua ....

sábado, julho 30, 2011

9.1. Elvas Portuguesa: O fim do século e o advento da I República




Júlio de Alcântara Botelho foi o primeira figura local a hastear a bandeira republicana (figura ímpar da vida política local - rico proprietário de origem nobre,  foi liberal, republicano e sidonista mas destacou-se pela sua humanidade e solidariedade com os mais necessitados ).


Regulamento da Loja da Emancipação, in António Ventura (A Maçonaria - no distrito de Portalegre), p.96 




Galeria dos antigos Paços do Concelho de onde se deram as primeiras " Vivas à República"

O século xx , quando se inicia em Elvas , a classe dirigente da cidade está em plena transição , uma nova era marcaria a primeira década do século , em termos de novos valores quer ainda em termos de organização e estratégia política . Na vida política,  Eusébio Nunes da Silva , o velho chefe do Partido Progressista , ainda inicia a nova centúria como Presidente da Câmara (1900-1902), mas é fundamentalmente um homem do século passado , tal como o seu antigo rival Dr. José Tierno da Silva . A nível da organização política , pelo menos atá à Presidência de David Nunes da Silva (1902-1905 , continuava ter como base estratégica política a sua família aparentada , reforçada com a integração da família Tierno e com o apoio tradicional dos comerciantes da cidade , no entanto a meio da década novos valores se foram afirmando , o Dr.António Santos Cidraes liberal por convicção destaca-se dos demais , pela sua palavra fácil e vibrante . Mas é a chegada do seu companheiro político e amigo Doutor Ruy de Andrade , que representa a entrada dos lavradores nas disputas pela liderança da Câmara de Elvas , constituindo a partir de então em termos sociológicos e políticos , uma  nova força política de facto e não aparente se tivermos em consideração os filiados e dirigentes políticos da cidade do princípio do século. A ascensão da classe dos lavradores , que triunfa sobre a dos comerciantes no final do século XIX numa sociedade estritamente rural , não se justifica apenas pela posse da terra , mas também pela formação académica que distingue os novos lavradores como os Drs. Ruy de Andrade , António dos Santos Cidraes e João Pinto Bagulho, cuja vida política em nome de Elvas manifestava-se directamente na acção da Câmara ou dos partidos a que pertenciam nomeadamente o Regenerador Liberal e a Concentração Liberal .A nível local a primeira década do século seria marcada por uma acção política morna , longe da intriga  que foi característica no fim do século passado onde os Nunes da Silva e os Tiernos procuravam dominar a liderança do Partido Progressista e simultaneamente disputavam a Câmara . Porém as tensões políticas entre monárquicos e republicanos , no fim da primeira década do século voltavam a animar , depois de um periodo ( 1900-1908 ) de paz ou de indiferença : “ tem trazido a separação de rivalidades , mesquinhas e ambições desmedidas (...) sendo Elvas a mais importante povoação “  . Ao contrário do Séc . XIX , os jornais tinham adpatado uma postura menos política , menos revindicativa e estavam praticamente controlados pelos monárquicos . Assim a aderência às causas republicanas faz-se tardiamente já a República estava implantada , o Correio Elvense só o fez em 1911 e os jornais seus concorrentes tinham desaparecido . O Elvense desaparecera em 1904 para reaparecer mais tarde , O Notícias de Elvas em 1906 e O Liberal estava prestes a desaparecer mas continuava a ter a crença no Liberalismo e a questão republicana nada dizia aos seus mentores que faziam sempre das visitas régias um acontecimento ímpar nas folhas do seu periódico . Bem longe estavam os homens dos jornais da primeira imprensa republicana que deixavam na ponta dos seus escritos a virtude do sistema republicano , como se lê na Democracia e na democracia Pacífica. Assim a palavra seria o modo do processo de difusão do ideal republicano em Elvas , a partir da Comissão Municipal Republicana , constituída em 12 de Março de 1908 do qual faziam parte : Presidente – Júlio de Alcântara Botelho; vogais: Mathias Florêncio e José Joaquim Príncipe, Secretário, Andreia Nunes Calado Cavalo e Tesoureiro: Jaime Artur Ferreira Marques, na prática esta comissão republicana não era mais nem menos que a loja maçónica “Emancipação nº 347 fundada em Elvas a 22 de Junho de 1911). Contudo as palavras de ordem da república, não chegavam à maioria da população adversa indiferente aos movimentos republicanos e monárquicos , que se organizavam e se constituíam , todavia as facções sociais mais endinheiradas ou com formação académica , ao contrário da passavidade popular revelava-se activista , predominando sobretudo a discussão do sistema mais do que o regime , ainda que no início do século os valores liberais fossem os ideais cultivados por essa elite que tanto dignificou a cidade de Elvas. O fim da década abanava as estruturas do regime monárquico , em Elvas a aristocracia de sangue praticamente tinham desaparecido , os Pessanhas e os marqueses de Alegrete , eram as únicas famílias , monárquicas com ligação e reconhecimento real as restantes, também poucas, com títulos resultavam de uma processo de nobilitação e não de uma linhagem aristocrática mas do enriquecimento que permitiu a compra de tais títulos. Os republicanos cada vez mais acreditavam no fim do regime , isso mesmo diria o Dr. António José de Almeida , no Salão que se situava na rua Nova da Vedoria , quando convidado por Júlio Botelho , entusiasta e responsável pela organização republicana em Elvas apesar de nobre por nascimento . Mas já um ano antes (1908) o Dr.Benardino Machado , tinha deixado essa mensagem , perante o entusiasmo de um jovem galante , Dr.João Camoesas que perante a presença das senhoras de Elvas , dava “ Vivas às damas de Elvas “ para de seguida dar “Vivas à República “ facto que se regista pela primeira vez publicamente em Elvas , em consequência lia-se na folha periódica local : “ Sente-se já ; embora ainda não se veja , qualquer coisa de novo , que no nosso mundo político vae em breve aparecer “.
E assim, o tempo da Monarquia esgotava-se na manhã de 5 de Outubro de 1910 , mas só pela tarde , pelas 17.00 horas , a bandeira republicana era hasteada no quartel general. Nos Paços do Concelho , começava a grande festa popular e cabia ao republicano mais activo de Elvas o içar da bandeira do novo regime , Júlio Botelho segindo-se o uso da palavra por José Barroso , José Lopes e Dr.João Camoesas que aconselha perante a euforia da população “ ordem e serenidade “ , a revolução descia à cidade , percorrendo as ruas da Cadeia , Carreira , Olivença , Alcamin , voltando à rua da Cadeia , não faltando a banda dos Caçadores nº4 e Dr. João Camoesas que se associando , ao entus iasmo popular , continuava a pedir ordem e sossego , saudando os heróis de Lisboa. Os destinos de Elvas, estavam agora entregues a Comissão Republicana de Elvas em 5 de Outubro de 1910 ou mais exactamente à já referida Loja Maçónica da Emancipação na pessoa do seu Presidente: José Júlio de Alcântara e dos vários administradores do Conselho segunda figura do distrito (os dois últimos administradores pertenciam a outra loja maçónica elvense o  Triângulo nº262) e que foram recrutados nos meios intelectuais, económicos e militares da cidade, uma tradição que vinha dos tempos da Loja da Liberalidade, como eram os casos : Raul Carlos da Silva Rebelo ( administrador em 1916) , José Dias Barroso (administrador em 1919 durante o Sidonismo) , do Tenente José Jácome de Santana e Silva ( administrador em 1919) e de Augusto António Camoesas ( administrador em 1924 até ao fim do regime). Entretanto a república chegava ás populações rurais e  era Vila Fernando  a primeira a aderir , em 12 de Outubro de 1910 e era  Padre Marques Serrão que fazia  ahistória na revolução , dizendo ao povo que agora é soberano e não está sujeito à mais leve pressão política e o que os republicanos pedem é apenas uma paz duradora . As palavras de ordem alimentam o discurso dos republicanos elvenses , o Dr. João Camoesas explica a queda da monarquia em quatro palavras “ a fraude , a corrupção , despotismo e o saque “ em 12 de Novembro de 1910 anuncia a realização das primeiras eleições livres deixando recado para “ os caciques que devem ficar calmos que vamos cumprir “ .Os meses do fim da primeira década do século , ficaram marcados pela palavra republicana , que se ouve nas comemorações republicanas , que têm lugar por todo o concelho de Elvas e pelas adesões dos lavradores , comerciantes , jornalistas, militares , funcionários públicos , farmacêuticos, escriturários , que engrossa , surpeendentemente as fileiras do Partido Republicano de Elvas , onde não faltam os Liberais e Monárquicos , do antes da revolução . O ano não terminaria sem a primeira greve que se fez em Elvas , a dos Ganhões , que revindicavam mais salário e menos tempo de trabalho . Eram os lavradores em movimento que ouviam com atenção nas reuniões nocturnas que tinham lugar no Sindicato Agrícola de Elvas , sob a palavra do Dr. João Camoesas , José Barroso e Custódio Lobo , que os orientava para as suas pretensões .



sexta-feira, julho 22, 2011

9.1. Elvas Portuguesa. A difusão da imprensa republicana e a lealdade popular ao Rei e à Monarquia

h

Os militares abafaram a Revolta de Badajoz de 1883 e a cidade de Elvas foi o 1º destino para os exilados

A Maçonaria voltava a constituir-se na cidade de Elvas no contexto da ofensiva republicana 



A família real portuguesa visitaria a cidade de Elvas pela última vez em 11 de Janeiro de 1906

As décadas de 1870 e 1880, marcam o aparecimento de uma imprensa política mais representativa, por vezes os jornais como Alto Alentejo (1874), surgem como folhas independentes que se tornam republicanas, o mesmo acontece com a proliferação dos jornais monárquicos, estes conservem mesmo o estatuto de independentes mas na prática fazem a apologia do Rei e da Monarquia. Mas numa análise cuidada da imprensa com tendência monárquica, observa-se que os temas nacionais não são objecto de grande debate, mas sim as questões centradas na luta pelo poder local, que envolvia os Progressistas sempre na ofensiva, os Regeneradores e os Históricos, que apenas tinham em comum a apologia e a defesa da monarquia. Era um tempo em que a divisão reinava no seio dos monárquicos, os Progressistas tinham dois jornais que correspondiam a duas tendências locais e individualizadas nas personagens de Eusébio Nunes da Silva e no Dr. João Henriques Tierno e a forma de actuação política era demasiado incipiente e à margem da militância política que de caracterizava já a forma de actuação política por exemplo do Partido Progressista em Portugal. Mas em Elvas, o mesmo partido era ainda elitista e mais próximo da forma de organização dos Regeneradores pelo seu pendor aristocrático, todavia não era a questão social que unia os progressistas de Elvas mas os interesses económicos, de uma meia dúzia de comerciantes e de alguns rendeiros/lavradores “ Os agrupamentos políticos em Elvas , que não regulam pelo número de sujeitos que se podem permitir a honra de receber em sua casa meia dúzia de parentes e amigos, arvorando-se logo alí chefe de uma nação ” . Ao contrária a unidade republicana, era evidente “ A Folha Nova de Lisboa” circulava em Elvas com a mesma pujança das folhas de monárquica, propagando os ideais republicanos e defendendo o regime republicano , ao mesmo tempo que o Centro Republicano de Elvas constitui-se e fazia editar o Correio de Elvas (1889) , assim e no fim da década , clandestinamente ou não a República tornava-se um desejo ardente de uma vasta camada da população da Praça Militar de Elvas , que reunia populares , militares , professores , tipógrafos e alguns comerciantes de posse . Contudo o povo de Elvas manifestava-se indiferente a estas lutas entre os grupos privilegiados ou mais esclarecidos da cidade, mas acreditavam na soberania da Nação e do seu Rei … mas seria a Revolução republicana de Badajoz de 1883, a tornar a ideia de república como elemento libertador nas ruas da cidade mas sem influência na propagação dos ideais republicanos no povo de Elvas que recebeu os revoltosos com humanismo apesar da sua lealdade à “Monarquia Lusitana”. De facto, o insucesso dos revoltosos liderados pelo coronel de cavalaria Serafim Veja no dia 3 de Agosto de 1883, determinou a sua fuga em direcção a Elvas e a folha elvense republicana “Sentinela da Fronteira” exortava a população: “Elvenses! Já o sabeis, em virtude de uma revolução malograda, entram nas vossas muralhas centenas de homens, que como vês, tem pais para respeitar, mães a quem dedicar os extremos afectos (…) abraçai-os, dá-lhes o que puderdes, sobretudo hospitalidade …O número de famílias de famílias que têm vindo visitar e despedir-se dos emigrados é imenso (…). Ao saírem da praça desta praça vimos muitas mulheres lamentando a falta dos seus maridos chorando pela ausência dos seus pais …” No dia 9 de Setembro os revoltosos da guarnição de Badajoz abandonavam a Praça Militar de Elvas, disfarçados de vestuário civil doado pelo povo de Elvas e sob controlo e vigilância do Regimento da Infantaria nº4, a caminho do porto de Lisboa e do exílio que para muitos era então a França revolucionário e dessa época registava-se quatro anos depois o agradecimento do Professor Raimundo Porres com a seguinte expressão : “O povo português é bom e generoso, e esse acolhe-o fraternalmente, mas se o povo é bom, o governo é mau… ” .A década de 1890 seria marcada por uma tentativa de intensificação da campanha republicana, clandestinamente ou não, o tema da república desceu ao à rua e aos pontos de encontro da sociedade Elvense , O Centenário de Camões (1880) passou despercebido como forma de divulgação da causa republicana. Mas a questão do Ultimato Inglês (1890) e a Revolta do 31 de Janeiro de 1891 , tiveram o mesmo impacto que por todo o País se sentiu , no caso do Ultimato , a subscrição pública levado cabo pelos republicanos para a compra de um cruzador foi acolhida com entusiasmo e patriotismo , não significando porém uma mais valia para as hostes republicanas , de facto o 31 de Janeiro de 1891 , não foi recebido com entusiasmo pelos Elvenses que ficaram incrédulos pelo facto dos republicanos pegarem nas armas para depor o Rei , o que mostra que a intensificação da propaganda republicana não tinha causado ainda o mesmo impacto que se vivia noutras zonas do País , o que se compreende numa cidade fechada , controlada militarmente e com uma elite pensante à dimensão da roda dos amigos dos espaços de privilégio da palavra escrita e oral , várias vezes referidos. Sobre estes dois acontecimentos, o Correio Elvense, considerado independente na época, é um testemunho do comportamento colectivo da população . Sobre o Ultimato “ O movimento patriótico não pára afirma-se cada vez mais forte , mais imperioso , mais dominador . A dor que sofremos com a bofetada inglesa em vez de se amortecer com o tempo aparece que aumenta de intensidade e o movimento alastra ... ” Em relação ao 31 de janeiro de 1891 “ Repugna-nos o facto de vermos militares utilizarem as armas destinadas à defesa da pátria em beneficio das suas crenças, pessoas querendo assim impor a força das ideias que julgam preferíveis".É pois neste desencontro entre o ser monárquico ou republicano ou mesmo independente ou indiferente, que se percorre a última década do século onde os sinais de mudança por vezes pressentiam-se, com a atitudes conspirativas como a tentativa de constituição da Loja dos Triângulos em 1893 que juntava comerciantes (negociantes) e outras profissões de matriz liberal e operária.