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segunda-feira, maio 18, 2009

As armas das hostes nacionais na Idade Média.

História de Portugal - Glossário do Armamento dos guerreiros em Portugal nos fins da Idade Média- A História de Portugal , tal como no Ocidente Medieval, é marcada pela guerra , a própria fundação da nacionalidade ocorre no contexto da Reconquista Cristã e o Conde D. Henrique , cavaleiro da nobreza francesa e pai do primeiro rei de Portugal , chega à Península Ibérica no contexto do movimento das Cruzadas: porém, se houve época em que a Guerra marcou o quotidiano e a vida política Portuguesa foi sem dúvida no séc. XIV quando Portugal se envolveu em três guerras , chamadas de « Fernandinas », com Castela e, por consequência indirecta num contexto mais vasto a Guerra dos Cem Anos . Resta ainda acrescentar que estes equipamentos durante o Séc. XIV foram determinantes nas guerras do Caia e Guadiana , como actos isolados ou na prevenção ou mesmo participação das Guerras de Independência durante o séc. XIV . Mas é também deste período que encontramos as primeiras informações coevas e significativas do equipamento militar português na época Medieval . Na Crónica de D.Fernando , o cronista Fernão Lopes descreve : « As armas mandou el Rei mudar a esta guisa : do carambais mandou que fizessem jaque ; e da loriga , cota ; e da capelina , barvuda com seu camalho , e estofa , e cota , e jaque , e caxotes , e canelleiras Framçeses , e luvas , e estoque e grave »[1]. E mais atrás , no capítulo XXXVI l lê-se : « Armado aaguisa chamavom estomçe assi de pee come de cavallo , qualquer que era compridamente armado , sem lhe falleçemdo nenhuuma cousa , e o que era comunallmente , e nom tambem , chamavom armado aa mea guisa »[2]
As Ordenações de 1375 foram provavelmente o documento coevo que serviu de base , à identificação dos equipamentos do armamento português , uma vez que quando Fernão Lopes escreve a Crónica, parte de alguns desses equipamentos de guerra já se não usava . Vejamos os seus significados e a sua função.

A ) – Gambais – era uma túnica de tecido ou de cabedal , acolchoada com costuras verticais enchidas de algodão . Usada pelos árabes , aparece na Europa depois das primeiras Cruzadas . Certamente conhecida na Península Ibérica , dado o contínuo contacto com os mouros . E era geralmente usada sob a loriga . Os homens a pé usavam –no por vezes como única defesa . Será mudada em jaque.

B ) _ Jaque - era uma veste reforçada com lâminas de ferro . Como as Ordenações se referem ao armamento importante , seria o que os ingleses chamam « coat of plates » , geralmente de coiro , que servia de base a lâminas de metal ; sem mangas , foi usado no século XIV como a única defesa do tronco. Em Portugal as reformas militares levadas a cabo por D. Fernando após a 2ºGuerra Fernandina pressupõe a introdução desta peça , quando Fernão Lopes refere que “ do cambais mandou que se fizesse jaque “ [3]

C ) _ Loriga - Conhecida no Ocidente Medieval nos Sécs. XII e XIII , tem provavelmente antecedentes ibéricos que se reconhecem no equipamento romano e na literatura visigótica [4] .Peça clássica característica do equipamento defensivo , destinada à protecção do tronco , embora pudesse também comportar elementos destinados à defesa da cabeça e dos braços . Pode definir-se como uma túnica de malha ou camisola de anéis , sem capuz , com mangas , e não passava abaixo dos joelhos , com um talho à frente e outro atrás para facilitar a permanência do cavaleiro na cela . Será mudado em « cota » , veste de malha a anéis com manga , gola alta ,e chegará até pouco abaixo das ancas. O jaque a cobrirá completamente .

D ) _ Capelina - Será a « barvuda » e camalho servia de base para o grande elmo que , na segunda metade do século era usado quase exclusivamente para justas e torneios .

E ) _ Estofa - Como é citada antes da cota , embora o cambais fosse usado sob a malha , é provável que seja uma túnica de tecido forte para o substituir . A malha não era fácil de usar sem protecção que defendesse o corpo do roçar dos anéis , os quais , tendo os extremos rebatidos , eram ásperos .

F ) _ Coxotes – ( arma defensiva ) - Um grupo de lâminas de metal , ou coiro reforçado com metal , que defendiam as coxas e se uniam às joalheiras , formadas por uma peça globular com extensão lateral externa , a asa . Era articulada ao coxote por uma pequena lâmina e outra na parte inferior , constituindo um bloco para facilitar o movimento .

E ) _ Caneleiras – ( arma defensiva ) -Defesa das pernas , composta por duas lâminas articuladas com dobradiças na parte externa e com correias e fivelas na parte interna . Muito usadas em coiro , abertas na parte interna e unidas por um cordão que corria de um extremo ao outro . O texto diz « francesas » , provavelmente de metal , coisa comum na Europa .

G ) _ Estoque – É a espada do cavaleiro , longa e estreita , que pendia do cinto «nobre» e a Adaga , presa à direita , muito pequena .Este cinto , ou antes cinturão ,

ornamentada com metal ou só composto de elementos metálicos , usado pelos nobres na segunda metade do século , e também nos trajos civis , é típico neste período .

Mas outras fontes referem-nos outros equipamentos utilizados pelos portugueses durante plena e baixa Idade Média. A espada constituía um equipamento indispensável , muito usada , até como simples adorno , a espada foi a arma por excelência na Idade Média , tornou-se mesmo um atributo da nobreza , uma insígnia de certas dignidades , um símbolo de força , coragem e acção guerreira ; as referências a este equipamento são variadas nos Lusíadas , desde o séc.XII ao XIV , deste período lê-se :



1. Referência à qualidade do material


Arracam das espadas de aço fino

Os que por bom tal feito apregoam [5]



2. Referência ao equipamento de Nuno Álvares Pereira

( herói das guerras da Independência )


A mão na espada , irado e não facundo ,

Ameaçando a terra , o mar e o mundo [6]


Na Crónica do Condestabre , encontra-se uma representação de uma figura desta personagem guerreira das guerras com Castela , D. Nuno Álvares Pereira , equipado com as suas armas , mas sem o seu capacete de plumas , que se encontra ao seu lado mas no chão , tendo nas mãos um comprido montante direito, com a empunhadura floreada nos quartões e no topo.


3. Referência ao efeito da violência determinada pelo emprego da espada


Aqui a fera batalha se encruece

Com mortes , gritos , sangue e cutiladas [7]


Mas sobre o armamento português medieval e contemporâneo da segunda metade do Séc. XIV , a Crónica de D. Fernando , revela-nos ou leva-nos a defender que o equipamento e o material português , não só era escasso como também imperfeito ; as palavras imperfeito , desconexo , escasso e impotente [8] , leva-nos a esta conclusão , quer relativamente às armas ofensivas quer defensivas . Por outro lado , o maior poeta português Luís Vaz de Camões , na sua obra “ Os Lusíadas “ refere sobre o equipamento militar de inícios do séc. XV , que cada qual se armava como podia e não como convinha , no dizer do poeta .

H ) Luvas - As manoplas , com a parte metálica em forma de clepsidra , ao interior da qual se aplicava uma luva de cabedal ou tecido forte , com os dedos cobertos por uma série de pequenas placas de metal .

I ) Lança – A lança comprida normal era a arma principal dos chamados homens de armas , que constituíam em plena Idade Média a chamada cavalaria pesada . Fazia parte do equipamento de D.Nuno Álvares Pereira , quando reconheceu o campo de batalha , antes da sua eclosão ; nessa acção levava “ cento de cavalo com cotas e braçais e lanças compridas "[9] . Contudo o Condestável como afirma o cronista , dela não se serviu uma vez que combateu a pé . A infantaria portuguesa, nas Guerras da Independência 1383-85 , utilizou frequentemente a lança de menores dimensões , entre elas destacam-se os dardos que eram lanças mais curtas utilizadas pelos peões . O cronista refere : “ eram em tanto servidos avondo de lanças e dardos e virotões ” [10] . Em Portugal as lanças utilizadas pela infantaria portuguesa nas Guerras Fernandinas , pouco evolução apresentam relativamente aos séculos anteriores tal como no Ocidente. “ Durante os séculos XII e XIV o manejo das lanças pela infantaria não sofrem variações importantes relativamente à Alta Idade Média "[11] . Neste grupo de armas podemos ainda indicar : os piques ( que tinham aproximadamente os seis metros , os chuços curtos e muitas vezes improvisados , as forquilhas e até tridentes ,

J ) Besta – A besta, embora imperfeita, já era conhecida em Portugal por volta do séc. XI , porém, só se tornou uma importante arma de guerra durante o séc. XIV. Na batalha de Atoleiros , D. Nuno Álvares Pereira , serviu-se dos peões e dos besteiros para o triunfo desta batalha e que marca a supremacia da infantaria como decisiva para este triunfo.


Mila Lanças ajuntou com os que tinha ,

Foram dois mil besteiros escolhidos

Formou deles um campo qual convinha[12]


H ) Funda – Arma vulgarmente usada entre os Romanos , cujos exércitos não dispensavam um corpo de fundeiros , a funda era muito apreciada, pela eficácia de tiro do seu projéctil . A sua utilização está documentada, nas Guerras Fernandinas com Castela .

I ) Escudo – O escudo como arma defensiva é conhecida desde longínquos tempos . Fernão Lopes diz-nos que os Castelões , em Aljubarrota , traziam na vanguarda da besteiros « apavezados» e que o Condestável andava com um escudo no braço , por recrear os virotões . Os escudos tinham geralmente na parte superior , argolas ou braçadeiras , por onde passavam os braços para se manobrarem .Os escudos portugueses do fim da Idade Média , considerando como fonte iconográfica a tapeçaria de Pastrana , onde é possível identificar alguns soldados ao serviço de D.Afonso V, eram grandes , coloridos e com armas heráldicas .Com a introdução das armas de fogo e com o alcance de maiores distâncias dos projécteis , o escudo foi-se abandonando sucessivamente . Porém a sua eficácia como equipamento de defesa contra setas , arremessões , dardos e golpes de espada ou lanças , dependeu sempre do seu material , uma vez que em função da necessidade de resistir aos projécteis , tiveram necessidade de serem reforçados, e o seu peso , o que acabou por ter consequências no palco de guerra, sobretudo na movimentação dos “ guerreiros”.

Porém, foi partir do séc.XV , com as necessidades de enfrentar o inimigo muçulmano , melhor equipado e armado , que houve necessidade de melhorar os meios defensivos e ofensivos do equipamento militar português . Nesse contexto tomam-se medidas , importam-se armaduras de Biscaia , malhas de Milão e arcabuzes da Flandres , Boémia e Alemanha, assim como matéria-prima como chapas de aço para o fabrico de armas , para além das bestas e das armas portáteis. Por outro lado, desde meados do séc. XV, que os monarcas portugueses concediam privilégios e vantagens aos oficiais que fabricavam armas e seus pertences , destacando-se os seguintes ofícios : hasteiros , couraceiros , barbeiros de espadas , lanceiros , bate-folhas , latoeiros de cravações de couraças , armeiros , viroteiros , solheiros , besteiros e espingardeiros ... Em fins do século , admitia-se e fomentava-se a vinda de artífices estrangeiros para fabricar , corrigir e polir as armas quer defensivas quer ofensivas . Mas na segunda metade do séc. XV quando o Império Colonial Português , estava consolidado em toda a Costa Ocidental Africana , a arte de fabricar e conservar armas e equipamento militar ainda era uma preocupação da coroa portuguesa como se explica através de medidas régias do monarca D.Manuel I , como por exemplo , o pagamento obrigatório de uma taxa de oito cruzados por cabeça por cada judeu que fugindo de Castela se refugiasse em Portugal , ficava reduzido a meia taxa se o seu ofício estivesse relacionado com a fabricação e renovação das armas [13].

Podemos ainda referir outras peças que denunciam a sua utilização com frequência nas operações militares utilizadas em fins da Idade Média e confirmadas pela relação apresentada no “Glossário de Armas ” [14] por João Gouveia Monteiro :

Adarga – Escudo fabricado não em madeira , mas em pele , originário do Magrebe, no Séc. XIII , muda a sua forma circular , assumindo um aspecto bi-oval.[15]

Aljava – Bolsa ou coldre de couro que os besteiros ou arqueiros , traziam a tiracolo ou á cintura e onde transportavam os viratões ou setas destinadas à utilização nas operações militares .[16]

Braçais – Peça de arnês destinada à defesa do braço.[17]

Brafoneiras – Peças de malha em forma de calça, destinadas à protecção das pernas[18]

Caneleira – Peça de equipamento militar destinada à protecção das canelas [19]

Couraça – Peça de protecção do tronco ( peito e costas ) dos combatentes, cuja afirmação se produz na Península Ibérica a partir de meados do séc. XIII , em virtude da incapacidade das tradicionais defesas de malha contrariarem entre si só a evolução registada a nível do armamento defensivo. [20]

Elmo – Protecção de ferro destinada à protecção da cabeça dos guerreiros. Domina em Castela o elmo em forma de tonel , [21] diferente da Capelina , capacete de ferro de tipo semi-esférico bastante simples que se moldava à forma da cabeça e que podia ter ou não uma protecção nasal [22]

Loudel – Túnica larga , de mangas curtas ou mesmo sem mangas , possivelmente acolchoada , que os guerreiros envergavam – decorada com os seus símbolos heráldicos . [23]

Maça - Estas armas identificadas pela iconografia peninsular, segundo Soler de Campo [24] , tinham uma grande carga simbólica e parecem estar associadas ao poder e à justiça . Era uma arma secundária , ofensiva e era uma espécie de cacete curto , com um cabo cilíndrico e uma cabeça de ferro que poderia ter várias formas entre elas a esférica.

Pavês – Escudo canelado e de grandes dimensões , que servia para proteger completamente um guerreiro ,em particular um besteiro – que – regularmente tinha que se recolher para poder e recarregar a sua besta .[25]

Sapatos de Ferro – peça de arnês de pernas destinada , como o nome indica, à protecção dos pés dos guerreiros .[26]



                                                                                                                               Postado por Arlindo Sena









[1] Fernão Lopes , Crónica de D. Fernando , Capítulo LXXXVII , pp 230

[2] Fernão Lopes , Crónica de D.Fernando , Capítulo XXXVI , pp 97

[3] Fernão Lopes , Crónica de D.Fernando ,Capítulo LXXXVII , pp.305

[4] Álvaro Soler de Campo , Ob.Cit.,pp .119

[5] - Luís Vaz de Camões , Os Lusíadas , Canto III , 130

[6] - Luís Vaz de Camões , Os Lusíadas , Canto IV , 14

[7] - Luís Vaz de Camões , Os Lusíadas, Canto IV , 42

[8] - Fernão Lopes ,Crónica de D.Fernando , cap .LXXXVII

[9] Fernão Lopes , Crónica de D.João I , cap.XXXIII,pag.92

[10] Fernão Lopes , Crónica de D.Fenando , cap.

[11] Alvaro Soler del Campo , La Evolución del Armamento Medieval , pp 47

[12] F.Rodrigues Lobo , O Condestabre de Portugal , Cap.XV

[13] Damião de Góis , Crónica de D.Manuel I , parte 8 , fol.8 Vº

[14] João Gouveia Monteiro , Ob.ci ppt531-547

[15] Ibid, pp531

[16] Ibid,.pp531

[17] Ibid .pp535

[18] Soler del Campo,Ob Cit ,pp 123

[19] João Gouveia Monteiro,Ob.Cit.536.

[20] Ibid.pp537

[21] Bhrum Hoffmeyer, Las armas de la historia da reconquista,pp.80-81

[22] ibid,pp.85-86

[23]Ibid ,.pp544

[24] Soler de Campo , Ob.Cit.pp 59

[25] Ibid,.pp545

[26] Ibid, .pp546

terça-feira, maio 12, 2009

O Castelo de Fronteira na Guerra Medieval.

História na raia Ibérica: - O Castelo como máquina de guerra nos assédios medievais  - O cenário da guerra  medieval nos fins da Idade Média privilegiado em toda a fronteira portuguesa de Norte a Sul , tinha como palco  central o Castelo que era sem dúvida o meio mais eficiente na prática da guerra ,quer em toda a Península Ibérica quer no Ocidente Medieval . Esta realidade bélica , o Castelo não é apenas uma arma defensiva, ela é também uma base extraordinária para a guerra ofensiva e na medida  em que a guerra de fronteira é uma guerra de conquista de posições  . Eis um exemplo desse tipo de guerra : “...antes de iniciar o cerco de Elvas, ao mandar abastecer Badajoz , Albalá , Jaraicero e Almocir com grandes quantidades de pão e trigo e cevada , necessários ao aprovisionamento das gentes e de armas     a partir desses castelos, deveriam invadir Portugal “ [1]  Porém foi na guerra defensiva que o Castelo provou ser quase inexpugnável , segundo Garcia Fitz : “ Qualquer fortificação bem abastecida , ainda que tivesse poucos defensores e com clara desvantagem em armas , tinha muitas  possibilidades  de manter-se frente a uma pressão exterior “[2] .Os cercos foram a prática de guerra mais utilizada na fronteira do Caia e Guadiana . As fontes revelam-nos sistematicamente nos fins de Idade Média , em Elvas , e mais para interior das margens do Guadiana , os cercos a Vila Viçosa , importante também em acções  ofensivas pela sua posição estratégica de “ fazer correr “ os seus “ exércitos “ , numa faixa bem determinada entre o Alandroal e Estremoz , não está posta de parte a sua intervenção em terras do Sul como Terena ou Reguengos , e é provável que tal acontecesse atendendo que o fronteiro mor de Vila Viçosa , o Conde Gonçalo de Azevedo era simultaneamente o fronteiro mor de Moura no fim do Séc. XIV . A importância desta vila no palco da guerra medieval é incontestável     “ quem vençesse e ouvesse a praça ligeiramente cobriria os logares cercados “[3] . Mas a defesa de longa fronteira , foi também possível em função de um conjunto de modificações que ocorreram nas primeiras fortificações acasteladas do início da reconquista cristã portuguesa ao longo da raia . Na região do Caia em Elvas   ,  as alterações às novas exigências de guerra atingem o auge em finais do Séc. XV ; em Barbacena (Elvas ) a nova gramática bélica marca esta nova fortificação a caminho do Norte Alentejano ; ao contrário de Campo Maior, onde a edificação mandada erigir por D. Dinis em 1310 só será alterada com a introdução  do fogo de artilharia na segunda metade do séc. XVII , as suas altas muralhas e a sua forma compacta explicam a longa longevidade desta construção bélica . Na região do Guadiana , o Castelo do Alandroal  mantém a estrutura inicial do Séc. XIV , o seu papel na logística da guerra é deveras importante, mas como teatro de operações não se encontra nas frentes mais avançadas  , papel esse pertencente a Elvas e Juromenha e na retaguarda a Vila Viçosa . Na época de transição quase até ao aparecimento da pólvora e da sua aplicação na guerra aberta , destacamos a área das fortificações da actual região dos mármores , o Castelo de Estremoz , cuja Torre de Menagem funcionou como autêntico “ paiol” de apoio logístico  à guerra de assédio  e provavelmente[4] / pontualmente como reforço de armas através da cavalaria de ginetes ( ligeira ) aos locais de cerco . Não menos importante e o melhor exemplar das inovações e transformações, é o Castelo de Évora –Monte , salientando-se o Paço Fortificado , que se inscreve numa fase de transição pirobalística  e finalmente o Castelo de Vila Viçosa , de planta quadrada , do início do séc .XVI,  do qual se destacam os torreões cilíndricos de entrada e o profundo fosso que rodeia toda a estrutura do edifício anunciando uma nova era, a do fogo. Porém, numa época em que o Castelo constitui um elemento fundamental, considerando  que a Guerra Medieval  de um modo geral como vimos, se caracteriza como uma guerra de assédios , os exércitos que põem cerco têm alguns objectivos determinados . Nesta perspectiva,  para além da pressão psicológica sobre a população cercada, cuja atitude era de resistir e padecer , tratava-se também de destruir os seus recursos económicos e ao mesmo tempo estabelecer as condições de acesso ao Castelo , cujo assédio  se  podia fazer através da  aproximação das muralhas , utilização de engenhos e abertura de cavas e minas , esta última prática muito utilizada , através da qual o inimigo pretendia abrir  as portas da população sitiada e permitir o avanço dos invasores , por isso mesmo a vigilância das portas ou mesmo a sua abertura era um acto temido e sagrado  :   “  dabrir as portas tiinha moor cuidado que de rrezar as matinas “[5]  . Mas os meios de assédio a um Castelo eram vários e com objectivos bem determinados :  


                      Quadro nº1 – Engenhos e máquinas de assalto


        Mas, como defendemos  ao logo do presente texto , o castelo como máquina de guerra afirmava-se através das suas capacidades defensivas e quase sempre com sucesso. As mais comuns eram : Do lançamento do alto das ameias e das torres , com grande intensidade chuveiros de viratões e de setas [12] [13]; simultaneamente , os sitiados lançavam também sobre os assaltantes e as suas máquinas de guerra fabricadas em madeira , uma vasta gama de projécteis e de materiais inflamáveis , uma técnica em que os estrategos da guerra medieval recomendavam tal como : Cristiano Pisano , Frei de D.Alonso ou Gil Roma. Se na guerra medieval , o Castelo teve um papel fundamental, as armas e o equipamento da cavalaria , da infantaria e da artilharia  tiveram um papel singular como veremos .     
       


[1]Cof.Arnaut ,1962,pp.462-474
[2] Garcia Fitz, Ob.Cit . pp.52
[3] ibid,CDJ,I ,Cap.XXVII,p.323
[4] Provavelmente porque a Guerra campal não foi prática nas guerras do Caia/Guadiana .Mas tornar-se-á umas das práticas no séc.XVI e XVII , quando Estremoz tem um ainda um papel fundamental na logística de guerra, nomeadamente na frente do Caia . Postado por Arlindo Sena
[5] ibid , Cap.CLIII ,  pp.256-257
[6]  Fernão Lopes , Ob,Cit. Cap.CLXIX,pp.360 :
Lê-se “aviam de hir muy notauees escudeiros escolleytos per el-Rey, não por linhagem de fidalgaduia , mas per conhecimentos de boons homeens darmas “ 
[7] Fernão Lopes,Ob.Cit.Cap.CXXXVIII,P.282
[8] Luis Moral Tejada , Ingeniería Militar en las crónicas catalanas, Ob,Cit. PP. 29
Sobre  as  dificuldades  de acesso ao castelo atravás de torres móveis afirma : “ Si hay um foso que
salvar , éste habría de ser rellenado o bien se tendrá de ser rellenado o bien se tendrá una especie de carriles sobre los que passe el castell “ de fusta . 
[9] Joao Gouveia Monteiro , Ob.Cit.pp 348
[10] Fernão Lopes , Ob.Cit , Cap.CXXXV,276-277
[11] Álvaro Soler del Campo,La evolución del Armamento,pp.55
[12] Este processo só era eficaz com base num treino intensivo e organizado , devido a duas razões : sucesso relativamente ao alvo e valor económico dos projécteis em acção.
[13] Foi  desta  forma  que  Fernão  Pereira  ( irmão de D.Nuno Álvares Pereira ) encontrou a morte num dos cercos a Vila Viçosa

  Objectivo
Meios ou engenhos de assédio

1.       Alcançar as muralhas de um castelo como forma de intervir com sucesso .


A ) Através de escadas:  considerada forma mais
clássica para permitir a respectiva escalada . Pretendia-se através da escalada intervir com sucesso ou expulsar os guerreiros que defendiam as ameias .[6]. As escadas deviam ser  à altura da muralha e resistentes . “ D.João I na tomada de Campo Maior serviu-se de uma escada por que as cavas estavam atupidas ”[7]. Em 1388 , durante um cerco o Campo Maior , uma das escadas de assalto a uma das torres, quebrou na altura em que a colocavam em posição de assalto a uma das torres . Sem dúvida que esta forma de aceder ao Castelo ou Praça  sitiada era   perigosa .
B ) Através de Torres móveis ou Castelos de madeira : já conhecida na Antiguidade ,  se a torre móvel vencesse os obstáculos [8] do próprio solo , e se conseguisse  aproximar-se ou abordar as muralhas , a praça  ou o Castelo ficavam imediatamente em perigo. Nestas estavam por vezes incorporados outros meios com vista à entrada no espaço cercado . No pavimento médio da torre por vezes , seguia uma ponte levadiça , que era lançada ao advarve permitindo a entrada dos assaltantes . Segundo J . Gouveia Monteiro , este tipo de torres foi utilizado em toda a Idade Média mas sem o recurso à ponte levadiça[9] e na Crónica de D. João I , há referências a este engenho durante o séc.XIV[10] . No pavimento inferior da torre podia incorporar-se um aríete ou carneiro ou transportar guerreiros com o fim de picar o muro , com vista ao seu derrube e entrada das forças invasoras  .
C ) Utilização do aríete /carneiro : Era uma máquina composta por um grande mastro de madeira em forma abobadada . Através do manejo das correntes e das cordas , os assaltantes faziam avançar e recuar uma grande viga , imprimindo-lhe um movimento de vaivém através do qual se esperava o derrube da muralha.
2. Utilização de engenhos que serviam para arremesso de projécteis aos espaços cercados , castelos e fortalezas
Tratava-se de máquinas por dois fortes pilares , unidos por um duplo ou quádruplo grupo de cordas , entre as quais era colocada uma viga , fazia-se um buraco em forma de colher , ou então associava-se uma funda ; colocava-se aqui uma pedra , e feito isso , aliviava-se rapidamente a viga , o que projectava o míssil numa rota parabólica . Este invento dos engenhos de contrapeso é atribuído aos hispano-mouros da Andaluzia e provavelmente também aos mouros da Sicília .[11] O trabuco considerado  mais eficaz que os engenhos de torção e também menos cómodo , podia ser construído no próprio local de operações . Este engenho que não dependia da torção de cordas , mas sim do súbito desprendimento de cordas , destacava-se pela sua capacidade de destruição .Esta máquina , que funcionava na base do contrapeso , permitia o lançamento de materiais pesados  normalmente pedras  (por vezes podia ser um barril contendo material inflamável). O tiro deste engenho , permitia o projéctil desenhar uma curva parabólica , como de um bomba de um morteiro moderno . Relativamente a este tipo de engenhos com o mesmo objectivo bélico , utilizou-se o “ Trabuquete“ , a “bifa” e o “tripancio “
3. Abertura de cavas e minas com vista a entrar na Praça ou Castelo sitiado ou fazer desabar algumas das suas estruturas, ex:muralhas .
O método mais clássico , conhecido desde a época dos romanos consistia , era através da escavação de túneis profundos de maneira que fosse possível passar por baixo dos fossos e atingir as muralhas . Duas atitudes eram possíveis : atingir o interior do espaço sitiado e abrir a porta principal , permitindo uma invasão de surpresa ou então proceder ao derrube de uma lanço de uma muralha ou mesmo de uma torre , colocando  nas fundações de um muro , procedendo-se depois há sua queima com matéria inflamável.