quarta-feira, dezembro 30, 2009

O Pensamento do Dia



"A esperança está fundamentada no que sabemos que não é nada e na esperança sobre o que ignoramos que é tudo"

Maurice Maeterlinck (BL), escritor.

Sabia que ? ....



Como será 2010?...1910…. foi assim, logo no dia 1 de Janeiro, na Hungria foi promulgado o estado de “Ex LEx”, isto é, período de tempo sobre o qual não se podia cobrar qualquer imposto. Em 29 de Janeiro, o rio Sena subia cerca de 8.60 m e Paris ficava alagada. Logo no primeiro dia do mês de Fevereiro, Londres nomeava os primeiros inspectores do trabalho ao serviço de um Estado Nacional. O movimento futurista na arte surgia em Itália, Umberto Boccionni, Carlo Carrá, Ligi Russuolo e Gino Seeverino, utilizavam as máquinas como forma temática na arte pictórica. No dia 3 de Março a notícia começa a correr mundo, a Sociedade Médica de Madeburgo, encontra solução e tratamento médico contra a sifílus.Em Espanha, as mulheres no dia 8 de Março conseguiram uma grande conquista, podem realizar os seus estudos universitários. Dois dias depois a China promulgou o fim da escravatura. A 18 de Abril, na Alemanha Krupp y Man testam pela primeira vez um motor diesel. O Governo Civil de Lisboa proibia o uso de chapéus em espectáculos por dificultarem a visão dos espectadores sentados nas filas da rectaguarda e os armazéns do Chiado em Lisboa ofereciam aos seus clientes um bilete-postal esta famosa casa tinha um representante na cidade de Elvas. A 6 de Maio, a tragédia faz notícia cerca de mil quinhentas pessoas perdem a vida num terramoto na capital da província de Cartago, na Costa Rica e no mesmo dia Eduardo III sucede no trono da Inglaterra Jorge V. Na semana seguinte o cometa Halley aproxima-se da órbita terrestre e a comunidade científica reflecte sobre esse percurso e a ideia da tragédia manifesta-se nas camadas populares e alguns vaticinam o fim do mundo. Vasili Kandisnsky cria uma nova forma de representação pictórica abstracta. A norte-americana, Carlyn Hale supera 1.41m no salto em altura novo record do mundo batido em New Milford. Em 1 de Julho, o rei de Espanha, Afonso XIII firma um decreto que suprime a necessidade de um juramento religioso que então era vigente em todos os actos religiosos. José Malhoa concluiu a sua obra “O fado”. Em meados do mês, Octave Lapize vence o Tour de França. Sobre um sol escaldante, no primeiro de Agosto se realiza em Estacolmo o 16º Congresso Mundial pela Paz, seiscentos congressistas reuniram-se naquela cidade sueca representando os cinco continentes. Em 22 de Agosto a primeira agressão num mundo em paz, o Japão potência em ascensão na região Ásia-Pacífica, anexa a Coreia. Três dias depois o imperador alemão, Guillerme II, defende a continuidade da militarização das nações sobre a sua jurisdição o que é motivo de reprovação de todos partidos germânicos. A caminho do fim do Verão, os advogados alemães reunidos em Danzing defenderam a continuidade da pena de morte propostas por uma parte considerável da opinião pública. A 5 de Outubro, Portugal se converte numa República, face à má administração, à corrupção e à necessidade de reformas que a Monarquia não foi capaz de executar durante o período constitucional. Era o fim da dinastia de Bragança que governava o pais desde 1641. Na cidade de Elvas, a República é proclamada às 5 da tarde , com um discurso do Dr.João Camoesas seguido de uma caminhada pela cidade acompanhada pela Banda de Caçadores nº4 , o lavrador, proprietário e humanista, Júlio de Alcãntara Botelho é nomeado Presidente da Comissão Administrativa da Cãmara Muncipal de Elvas. No fim do mês, numa época em que o sindicalismo ganhava uma força considerável se constituía em Espanha a Confederação Geral dos Trabalhadores. No mesmo dia, 30 de Outubro , na Suiça, faleceu a figura do ano, Henri Dunant o fundador da Cruz Vermelha. No 1 de Dezembro é inaugurada a nova bandeira nacional de Portugal segundo o modelo de Columbano. Em 10 de Dezembro, o químico alemão, Otto Wallach, ganha o Prémio Nobel com base na análise do seu trabalho sobre a análise de óleos voláteis. E vinte dias, depois o físico, neozelandês, Ernest Rutherford, demonstra experimentalmente a existência do Protão. No último dia do ano, entram em serviço na Europa e nos Estados Unidos os primeiros carros de bombeiros, no desporto, realiza-se a 1ºedição do Torneio das Cinco Nações em Râguebi, com a presença da Inglaterra, França, País de Gales, Escócia e Irlanda.





IX -Terras da raia de Portalegre: A diversidade dos poprietários elvenses - 1850-1930



Na cidade mais a Sul do Distrito de Portalegre, a condição de proprietário, era formada por um colectivo de indivíduos com poder económico, no qual se identificava, uma maioria constituída por lavradores, comerciantes e militares que no seu todo integravam por sua vez, uma média ou pequena burguesia local e aos poucos foram constituindo a sua riqueza que por vezes não era tão real, mas antes era uma condição associada ao seu prestígio social. Neste grupo, distinguiam-se os casos particulares, dos militares e dos civis (bacharéis e licenciados) que eram reconhecidos na sociedade local como “doutores” e estavam associados à prática política, durante a monarquia constitucional eram quase todos membros activos do Partido Progressistas durante a I República estavam filiados no Partido Republicano Português. A maior parte dos lavradores integrantes da burguesia elvense eram arrendatários dos grandes terratenentes de Oitocentos, mas que ao longo das décadas de 1870 e 1880, teriam adquirido o capital necessário para a exploração e compra das propriedades arrendadas e de outras propriedades rústicas, algumas delas, fundamentais na criação e pastagens de gados outra realidade sem grande notoriedade numa região onde a paisagem agrícola variava entre os campos de cereais e olival. Eram os casos das grandes Casas Agrícolas das família Bagulho, cujo fundador , um médico que se fixou em Vila Boim, dos Rasquilhas que apesar de tudo era uma família que na época já tinha uma património assinalável no município de Arronches, dos Barbas, cuja ligação à aristocracia local era um dos sinais do seu prestígio social e os Gonçalves que se afirmam como grandes proprietários locais a partir de 1872. Outras famílias, continuavam na condição de arrendatários apesar de terem já uma fortuna considerável do ponto vista agrária e que se dedicavam à compra regular de algumas propriedades pertencentes à nobreza titulado do Reino como era o caso particular de Rodrigues Tenório que chegou a adquirir uma das maiores propriedades dos Duques de Palmela. A política de arrendamento, foi também seguida por estas famílias locais que viviam quase exclusivamente das rendas dos seus bens rústicos como eram o caso da família Andrade entre outras, que arrendavam as suas herdades aos novos-ricos que de um modo particular associavam o seu prestígio profissional à posse de uma herdade como era o caso dos médicos. Na verdade a “posse da terra” era uma das formas de integração e reconhecimento dos novos proprietários junto da” elite rural”. Um segundo grupo de proprietários era identificado não só com o referido grupo dos novos-ricos, com base na formação académica, os intelectuais, mas também os militares e ainda um pequeno grupo de comerciantes locais que surgiam integrados timidamente no estrato mais próximo dos grandes proprietários com Casa Agrícola. No entanto esse reconhecimento social, devia-se sobretudo a sua participação na vida social e política, no contexto dos interesses locais em nome do progresso e desenvolvimento. Todavia no final do séc. XIX os comerciantes enquanto grupo social em ascensão, mercê do seu trabalho e esforço, se tornavam um grupo dinâmico e com influência política notável, a família Nunes da Silva conquistara a Câmara e o Partido Progressista a principal força política do distrito, António Torres de Carvalho, empresário tipográfico, tornara-se um ideólogo político da causa republicana e um dos vultos da Loja Maçonica da Emancipação, fundada por Júlio Botelho de Alcântara e da qual surgiu a primeira geração de políticos republicanos da cidade , José Mendes caixeiro viajante que fundara a Casa Mendes & Paiva e que estava já integrado no seio dos grandes proprietários em função da prosperidade da sua Casa Agrícola e por último, Joaquim José Maria Guerra, proprietário da fábrica de ameixas “Guerra e Irmão”, cuja unidade fabril tinha conquistado mercados tão importantes como os do Brasil e da Inglaterra, para além de vários prémios internacionais. A estes diferentes grupos de proprietários juntava-se ainda os militares com propriedades rústicas, mas aqueles que estavam associados às elites locais, com quem estabeleciam relações de proximidade eram sem dúvida os Governadores da Praça Militar de Elvas ou do Forte da Graça, vistos e noticiados, em festas privadas e caçadas com as famílias de posse da cidade [ continua].

quarta-feira, dezembro 23, 2009

O Pensamento do Dia - "O povo culto"




"Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno". Agostinho da Silva


Publicações: -A Real Academia de Extremadura publicou a sua edição de 2009



A Real Academia de Extremadura de las Letras y las Artes, cuja sede se situa no Palácio de Lorenzana ( Cáceres), apresentou recentemente o seu boletim relativamente ao ano de 2009, Tomo XVII, sob direcção do Doutor Manuel Pacellín Lancharo, com 745 páginas é sem margens de dúvida a obra mais importante na sua área de investigação na Província da Extremadura, reunindo vinte sete académicos, universitários e investigadores, com obra reconhecida e publicada, não faltando neste volumoso volume temas relativos a Portugal. Esta obra conhecida em toda a Espanha é igualmente referenciada na América Latina onde a História e a Cultura Espanhola continua presente. Nesta obra identificam-se alguns trabalhos que têm com objecto a raia ibérica e a Cultura Portuguesa. Casos dos artigos de SANTIAGO CASTELO, Godoy su tierra, ARLINDO SENA, Elvas y la frontera del Caya.Un espacio en proceso de desmilitarización , GONZALO BARRIENTOS ALFAGEME, La Raya Seca e de ANTONIO ASTORGANO ABAJO, La literatura de los jesuítas portugueses expulsos [1759 -1814 ]. Recuerdo de los Centenários de Marquéz de Pombal y de Lorenzo Hervás y Panduro. A obra apresenta também um conjunto de textos muito interessantes na área da literatura, da música e da educação.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

O Pensamento do dia -"O Saber"


O saber é uma forma de comportamento, uma paixão. No fundo, um comportamento ilícito; porque, tal como a dependência do álcool, de sexo ou da violência, também a compulsão de saber molda um carácter em desequilíbrio. É um erro pensar que o investigador persegue a verdade; de facto, é ela que o persegue a ele. É ele que tem de suportá-la. A verdade é verdadeira, o facto é real, sem se preocuparem com ele: ele é que sofre da paixão, da dipsomania dos factos que define o seu carácter, e está-se nas tintas para saber se as suas descobertas levarão a alguma coisa de total, humano, perfeito ou o que quer que seja. É uma natureza contraditória, sofredora e, ao mesmo tempo, incrivelmente enérgica.Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'

4.1-Elvas Portuguesa: Na época da formação do Estado Moderno e burocrático.





A época moderna constitui um dos períodos mais longos da História de Elvas, sem dúvida o mais importante e que merece alguma reflexão. A sua importância como realidade administrativa encontra-se na época da edificação do Estado Moderno em Portugal, a elevação da Vila de Elvas a Cidade não resultou da vontade da pequena aristocracia de Elvas ou dos seus mercadores, alguns de referência internacional na época, mas da própria Cúria Régia pelo menos desde o reinado de D. Afonso V. Na verdade a necessidade contínua da afirmação monárquica foi desenvolvida em activa coexistência entre os poderes central e local, numa perspectiva de criar uma estrutura administrativa capaz de estabelecer uma identidade nacional. Foi de resto com esta finalidade que o dito monarca determinou a compilação da legislação dos reinados anteriores como forma de salvaguardar a autonomia dos concelhos e das terras senhoriais, nascia as Ordenações Afonsinas, fonte primordial para a publicação impressa do “Regimento dos Oficiais das Cidades, Vilas e Lugares do Reino” , que em conjunto com as Ordenações Manuelinas (1512-1513), consagraria o modelo municipal por mais três séculos ou até meio século da época Contemporânea em Portugal. Como jovem cidade com pouco mais de dez anos, tornava-se uma das cidades mais importantes do reino com cerca de 7.000 habitantes numa época em que a nova cidade era um pólo de atracção de uma população em movimento, a entrada de Judeus em Portugal cerca de 30.000, continuava a se processar ao ritmo da violência da aquisição espanhola e centenas deles justificaram o aumento e a expansão da Judiaria Nova na transição para o séc. XVI. A presença de escravos negros por via do movimento de expansão e colonização portuguesa era registada nos livros de registos de compra e venda do comércio de escravos, de tal forma que o número de vizinhos factor determinante, mas não único, para a demarcação da posição em Cortes, colocava a cidade de Elvas em 1527 no primeiro banco das cortes assim constituído:1º Banco: Lisboa (13.010); Porto (3006); Évora (2813); Santarém (1988); Elvas (1916) e Coimbra (1329); 2º Banco: Tavira (1567); Braga (848); Viseu (459); Lamego (479); Guarda (379) e Silves (271). 3º Banco: Lagos (1310); Beja (1205); Guimarães (1405); Estremoz (969), Faro (873); Leiria (584). 4º Banco: Portalegre (1224); Setúbal (1220); Montemor-o-Novo (889); Covilhã (819); Tomar (737); Miranda do Corvo (287). (…) organizavam-se mais 15 bancos, sendo o último pertença da Vila de Ourique com (130). Nos finais do séc. XVI em 1599 a região do Alentejo estava estruturada em seis comarcas, Évora, Elvas, Portalegre, Beja, Estremoz e Montemor, esta última ganhava a sua autonomia relativamente a Évora onde se inseria administrativamente no período medieval. Com os 11.000 habitantes, a cidade de Évora era a mais populosa do Alentejo, seguido de Elvas que ultrapassava os 7.000 mais 2000 que Portalegre e Beja, cuja Nobreza era mais influente na Corte Régia pela sua linhagem, mas tal não impedia que a cidade raiana fosse para todos os efeitos a segunda cidade mais importante do Sul de Portugal. Nos finais do séc. XVII algumas herdades do termo de Elvas eram anexadas a um conjunto de territórios descontínuos desmembrados às de Estremoz, Portalegre, Évora entre os quais Arraiolos no desenho cartográfico da nova comarca de Vila Viçosa.

sábado, dezembro 19, 2009

Publicações: Nova História de Portugal, do Doutor Rui Ramos









Uma nova História de Portugal, para consumo popular acaba de ser publicada, quase trinta anos depois de dois projectos semelhantes editados respectivamente, pelo Professor Doutor Oliveira Marques em 1972 e pelo Dr. José Hermano Saraiva, vulgarmente tratado por “professor” em 1978. Se é certo que a História de Portugal, do Doutor Oliveira Marques foi uma bíblia para as gerações universitárias de 1970 e 1980. A do Dr .José Hermano Saraiva conquistou as massas e conheceu várias edições sem ter o cunho académico da obra do primeiro autor. Mas a história de Portugal que agora se publica pela qualidade científica provavelmente fará carreira no meio académico e chegará às mãos daqueles que gostam dos estudos históricos. Com 976 páginas tantas como uma tese de doutoramento, a nova obra é dirigida pelo Professor Doutor Rui Ramos destaca-se pela organização temática e pela qualidade dos seus anexos descritivos e gráficos. Mas é sobretudo pela linha de organização metodológica que segue de tão perto o modelo anglo-saxónico que o valor da presente obra se revela. De realçar ainda que o autor /coordenador da nova história de Portugal, convidou para o desenvolvimento temático os Doutores, Bernardo Vasconcelos especialista de História Medieval e Nuno Gonçalo Monteiro de História a Moderna, a bibliografia que fundamenta o conteúdo temático inclui as obras de referência da historiografia portuguesa dos últimos vinte anos. O autor entrevistou ainda e teve em consideração a opinião especializada de alguns académicos de referência da universidade portuguesa: António Barreto, Fernando Martins, Isabel Guimarães de Sá, Leonor Freire Costa, José Mattoso, José Manuel Sobral, Mafalda da Cunha Soares, Maria de Fátima Bonifácio, Maria Filomena Mónica, Pedro Cardim, Pedro Aires Oliveira e Vasco Pulido Valente. Uma das primeiras questões que se põe na organização de uma obra deste tipo é sem dúvida, a dificuldade das opções temáticas, que não é uma tarefa fácil: Nada fácil, sobretudo por que a História mudou muito. A quantidade de pessoas que hoje faz investigação não tem comparação com há 20 a 30 anos. Veja-se o número de mestrados e doutoramentos. Por isso, não é fácil aceder a essa informação, muito dispersa e depois geri-la e colocá-la numa narrativa que faça sentido. As linhas de orientação mostram uma estrutura convencional apesar da sua modernidade ....? : “Um livro deste género tem de ter sua estrutura base na história política, a única que permite uma narrativa. Por outro lado, acordámos que a explicação não podia ser dada apenas pela lógica dos acontecimentos, tínhamos de ter em conta as circunstâncias. Percebemos também que eram necessários actores e protagonistas, sem cair no anedótico, para transmitir a vivência da história. Como por exemplo? Nas origens da Expansão Marítima não apresentamos apenas a explicação estrutural, mas também o debate que se viveu na época. Isso dá ao leitor uma ideia de uma história viva, que é feita por pessoas que hesitam…” Ou seja a historiografia necessitava de um novo projecto? …. “Muito do que nós sabíamos ou julgávamos saber acerca de determinadas épocas estava a ser contestado pela investigação. Durante muito tempo só sabíamos que não sabíamos. Nesse momento, havia necessidade de um ponto da situação. Esta História de Portugal vem na altura em que ela é possível, correspondendo a um desafio da editora. Um convite deste género há 15 anos ou 20 anos deixar-nos-ia provavelmente perplexos…” Em termos de História Contemporânea, a nova história de Portugal valoriza um conjunto de temas durante muito tempo esquecidos …”Muitos. Todo o século XIX, por exemplo, nomeadamente a experiência Liberal. Grande parte das instituições actuais deriva daí. Além disso, as dificuldades de desenvolvimento e modernização do país sentidas na época podiam inspirar o nosso tempo, caso percebêssemos que obras públicas, corrupção, funcionamento da Justiça, peso do Estado na Economia, não são questões novas. Não estou a dizer que as discussões são as mesmas, porque a sociedade mudou muito. Mas valia a pena olhar para os argumentos da altura. É difícil não pensar no TGV quando lemos a discussão em torno dos caminhos-de-ferro. (…). Fazer uma história sem preconceitos. Ter um ponto de vista, mas recusar visões partidárias, do género ser favor ou contra. Optar por uma história mais aberta. Sem esquecer o lado repugnante, como a censura, a polícia política, a proibição dos partidos, tentar compreender como é tudo isso é possível. Evitar a condenação ou o panegírico. Porque a História não é um tribunal que passa sentenças, mas uma forma de entender o que aconteceu. O nosso século XX está cheio de rupturas, conflitos e controvérsias. Perante isso, ou tomamos partido ou tentamos perceber o que se passou, sem esquecer que somos um produto deste tempo…” . Ao Doutor Rui Ramos, um obrigado à homenagem que presta no Prólogo a Luís Krus, que desapareceu à meia dúzia de anos, um homem da minha geração académico, um amigo com quem tive a honra de colaborar num projecto de investigação durante o ano de 1996 e na minha opinião era o potencial herdeiro da corrente historiográfica iniciada por José Mattoso….

quarta-feira, dezembro 16, 2009

IX-Terras da Raia de Portalegre: Os proprietários da Capital do Distrito (1850-1930)




Na capital do distrito os representantes da alta burguesia não se identificavam com os grandes proprietários de terra ou gados, como era evidente na maioria dos municípios que constituíam o Distrito de Portalegre.Os Larcher e os Robinson ocupavam o topo da hierarquia fabril da região. Os primeiros, os Larcher, constituíam a família industrial mais importante da região e exerceram o controlo sobre a maior parte dos estabelecimentos manufactureiros de têxteis que se localizavam na zona do município de Portalegre até cerca de 1870?... Os segundos, os Robinson, de origem inglesa, dedicaram-se inicialmente aos negócios da exploração da cortiça, todavia entre finais e começos do séc. XX eram já grandes industriais, cuja riqueza em parte, resultou da compra de uma parte das unidades fabris dos Larcher. De facto, os Larchers a princípios de novecentos, enfrentavam graves dificuldades económicas, concretamente financeiras, para manter a actividade das suas fábricas. E uma das decisões adoptadas pela família neste período de crise fabril na àrea dos "tecidos e das lãs", consistiu na venda e no arrendamento de algumas das suas instalações fabris, como podemos observar na seguinte passagem documental: “2ª Que a renda anual é de seiscentos mil réis (…). 3ª Que o arrendatário fica obrigado a conservar todas as máquinas e utensílios da referida fábrica e que constam os inventários assinados e rubricados por todos os outorgantes”. Uma parte dos recursos monetários obtidos através das referidas operações financeiras foram na sua quase totalidade destinadas à compra de algumas propriedades agrícolas, que se tornaram fundamentais para o negócio da cortiça que nos finais do séc. XIX e começos da passada centúria se situavam na zona agrícola de Portalegre e Arronches. De resto. a prática seguida pelos grandes e médios proprietários portalegrenses, não se centrava no desenvolvimento de áreas de plantação de culturas agrícolas mas no arrendamento das áreas dedicadas à plantação de sobreiros, como se pode ler no arrendamento do médio proprietário de Portalegre, João Carlos Tavares, que em 1891 assinava um contrato onde se estabelecia para arrendatário, entre outras, as seguintes condições: “Que este arrendamento pela criação de cortiça que a condição já tem em sua consideração o pedido por onze anos que houvera o seu começo no primeiro de Setembro de mil oitocentos e setenta e oito e dando fim em mil oitocentos e oitenta e nove”. Esta prática de arrendamento foi também seguida pelas velhas famílias aristocráticas da cidade como os Castelo Branco, ainda que os Robinson fossem os grandes negociantes da cortiça, de facto esta família industrial chegou mesmo a constituir a firma “Robinson Brothers” e alguns comerciantes exteriores ao município surgem também como correntes no mercado portalegrense da cortiça era o caso de Mathias Gomes Ponce de origem espanhola, mais concretamente da região da Andaluzia. Mas se a riqueza agrária, na cidade de Portalegre continuava a ser dominada pelas “melhores famílias” da nobreza local. Entre os principais contribuintes da cidade em finais do século, todos referidos na documentação como proprietários agrícolas, destacavam-se: 1º Conde Avilez (655$185 rs.); 2ºDr.Martinho Coutinho (593$481 rs); 3º Álvaro Sousa Coutinho (575$686 rs); 4º Luís Xavier Barros (537$736 rs); 5º José Lupa (518$736 rs); 6ºDr .António Juzarte (392$421 rs.) 7º Dr.Joaquim Juzarte (383$135 rs) 8º Francisco Velez Caldeira (370$000 rs) 9º António Joaquim Cassola (303$422 rs) e 10º DRª.Maria José Segredas (296$372 rs). A maioria dos pequenos proprietários portalegrenses vivia da exploração de bens rústicos variados como hortas, olivais, vinhas e outros cultivos de matriz agrícola. Cuja propriedade era definida por termos diferenciados na documentação notarial como: “hortas”; “tapadas”; “fazendas” e “pomares”. Na transição entre a I República e o Estado Novo, surgiam as Casas Agrícolas dos primeiros grandes proprietários de origem não nobre como era os casos de Francisco Romão Tavares, que em finais do séc. XIX já tinha na posse algumas herdades sob forma de arrendamento mas é durante a I República que se destaca como um grande criador de gado e proprietário de vastas áreas de exploração de cereais e de plantação de “sobro”. Mas na verdade a Casa Agrícola de referência do ponto vista agrário, uma das mais importantes do Distrito era de Manuel Moura cuja vantagem do ponto vista comercial era inegável pelo facto de se situar junto ao caminho-de-ferro que lhe permitia colocar com a maior rapidez os seus produtos nos mercados regional e nacional. Por último, a Casa Agrícola dos irmãos Elias Martins, João Elias Martins, antigo arrendatário que mediante a compra de várias herdades foi enriquecendo nos anos imediatos à implantação da I República, embora não atingindo o vasto património do seu irmão Manuel Elias Martins, grande produtor de cereais que acabaria por adquiria o Palácio do Conde de Vila Real. Se é certo que a concentração da propriedade foi evidente durante a transição para o Século XX a verdade é que até às vésperas de mudança de regime nos anos trinta o número de pequenos proprietários foi aumentando em função da fragmentação de antigas herdades situadas nos arredores da cidade de Portalegre.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

4. Elvas Portuguesa: - A demografia nos fins da Idade Média



O percurso final de Elvas como vila ocorre entre finais do séc. XV e os caminhos da afirmação do Estado Absoluto, numa época em que os tempos medievais davam lugar à modernidade e o País prosperava ao ritmo dos ventos da Ordem de Cristo que sulcavam a Costa Ocidental Africana onde os navegadores e os anónimos da nobre vila de Elvas marcavam presença. Em terras da planície a Vila de Elvas secundava com alguma distância o maior centro demográfico a Sul do Tejo, a cidade de Évora, mas era já então a localidade fronteiriça com maior importância nas “terras do Sul” e competia com outras terras que foram a alma da nacionalidade no século anterior como Lamego, Pinhel ou Mirandela. Todavia, o estudo da demografia em Portugal nos finais da Idade Média e inícios da Idade Moderna, não se expressa por um número de efectivos real, mas por verdadeiras “manchas de povoamento” que nos é fornecida pelo número do rol besteiros do couto [homens armados com besta] que nos informa sobre a contribuição militar de uma dada população. Assim e em fins da Idade Média na fronteira portuguesa, a vila de Elvas pelo seu contingente de besteiros (50 a 80), apresenta já uma cota populacional só comparável à cidade da Guarda e no Norte de Portugal, berço da nacionalidade a vila raiana iguala no plano teórico o valor de efectivos populacionais das cidades nortenhas de Braga e Chaves. Em finais do séc. XIV a em área amuralhada em hectares aumenta curiosamente nas terras mais a Sul e as notícias das cercas novas como resultado do crescimento populacional regista-se por ordem hierárquica em Lisboa, Évora, Coimbra, Santarém, Porto, Braga, Guarda e Silves, as diferenças demográficas entre a primeira cidade e a vila algarvia são assinaláveis, a primeira com 35.000 habitantes a segunda com 2.700 habitantes segundo os estudos e cálculos de Armindo Sousa. Mas seguindo, a mesma metodologia e a mesma documentação régia, chegaríamos a número situado entre os 1.800 a 2.000 habitantes, de resto a necessidade de proteger a população da vila de Elvas torna-se uma realidade ao longo da segunda metade do séc. XIV e numa carta régia de 4 de Março de 1378, há já a notícia da existência das obras da “cerca nova” ou seja a população aumentara de forma extraordinária quando comparada com outras localidades mesmo considerando que uma década depois Elvas estava na linha da defesa da soberania nacional. É certo que os valores parecem pequenos, mas em véspera da reconquista de Elvas aos muçulmanos segundo os estudos do Doutor Luís Kruss a Kwar de Elvas teria 500 habitantes um século e meio depois teria triplicado o seu número de efectivos e a cidade da Guarda que utilizámos por comparação documental por volta de 1422 não ultrapassava os 1.900 habitantes ou seja, na prática a vila elvense foi dos espaços populacionais que mais cresceu até fins da Idade Média. Considerando ainda que a transição para o século XV foi nefasto em termos demográficos com índices de mortalidade variáveis pelas epidemias de fome, peste e pelas guerras de independência que ceifaram aldeias e vilas de Portugal numa época em que a esperança de vida situava-se próximo dos 35 anos quando então iniciava-se o Outono da vida, para citar o nosso monarca D. Duarte na sua teoria das idades. A verdade é que nas vilas vizinhas próximas de Elvas, algumas quase desapareceram como Estremoz e Arronches e o despovoamento fez-se sentir segundo os relatos documentas nas vilas de Portalegre, Avis, Ponte Sor e Crato como referência à Comarca Antre Tejo e Odiana ( e em especial às terras situadas no actual Distrito de Portalegre), onde se situava a vila Elvense. Se bem que parte da população perdida pelas vagas epidémicas que abalaram o país entre 1356 e 1483, foram compensadas pela entrada de cerca de 30.000 judeus face ao movimento judaico na Espanha quatrocentista, nas áreas da raia, porta natural de entrada foram centenas os que se fixaram e mais uma vez Elvas foi uma das terras que mais beneficiou tal como Portalegre e Olivença numa primeira vaga. Todavia, não comparável à comuna judaica de Estremoz que no século XV em termos de percentagem correspondia a 5% a 6% da sua população segundo os estudos e cálculos da Doutora Maria José Pimenta Ferro Tavares. Os dados demográficos não são suficientes para demonstrar a importância demográfica da Vila de Elvas mas nas Cortes de finais da Idade Média que definiam entre outros aspectos, a importância demográfica das populações Elvas era a segunda vila mais importante do País na prática a mais rica e prestigiada junto a Coroa, mas a Vila de Silves então já sede de bispado relegava a vila do Caia da liderança mas não da sua valorização institucional que a consagração de cidade de Portugal lhe conferia algumas décadas depois. (continua).

terça-feira, dezembro 08, 2009

Reflexões sobre o Nosso Tempo


O mundo em debate é sem dúvida a proposta que a Conferência Climática Internacional, a decorrer no preciso momento em Copenhaga até 18 de Dezembro, na qual os olhares dos homens de ciência se concentram perante a expectativa ou desapontamento em função dos caminhos que o nosso ecossistema possa trilhar, após as crescentes mudanças que nos últimos cem anos o nosso ecossistema sofreu em virtude das diferentes etapas da Revolução Industrial. As propostas e as cotas de poluentes serão a base das conclusões de Copenhaga. Mas o que está em causa são sem dúvida, as alterações climáticas numa marcha sem recuo, apesar de mesmo na área científica há quem defenda que as alterações climáticas são apenas um resultado da mutação das condições que a marcha do tempo tem determinado … e nesse sentido a história está cheia de registos que determinaram novas etapas na vida económica e social das comunidades ainda que tais alterações ocorreram sem a “mão humana”. Segundo, o Doutor Filipe Duarte Santos (Catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa): “A médio e longo prazo o risco maior é a subida do nível médio do mar. Ao lançarmos para atmosfera gases com efeito de estufa, essencialmente dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, aumentamos o efeito de estufa e provocamos um aumento da temperatura média global. Para além disso, há uma maior frequência de fenómenos climáticos e meteorológicos extremos, ou seja, nos locais onde há seca, há tendência a ocorrer com grande intensidade em períodos curtos. Estas respostas são relativamente rápidas, mas no caso do oceano não. A subida da temperatura da atmosfera aumenta a temperatura da camada superficial do oceano e dá-se uma dilatação térmica do mesmo. Por outro lado, há fusão dos glaciares e essa água vai aumentar o volume, que resulta também de alguma fusão de gelos nas calotes polares. Há depois uma propagação do calor em profundidade, mas é muito lenta. O oceano leva muito tempo a reagir, de forma que mesmo controlando o aumento da temperatura, a subida do nível do mar continua”. De resto o debate em Copenhaga torno da defesa de uma poluição inferior aos 2.ºC justifica-se uma vez que “O que os modelos indicam são que os campos de gelo da Gronelândia, que estão acima do nível do mar irão fundir-se irreversivelmente. Para as zonas costeiras isso seria absolutamente dramático ….Por outro lado, acelera-se a fusão dos gelos nas grandes cordilheiras como os Andes, que têm uma importância enorme em relação aos regimes dos rios em muitos países como a Colômbia, Chile, Peru ou Bolívia. Corre-se o risco de uma escassez de água muito pronunciada”. Para o Doutor Viriato Soromenho - Marques ( Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa) o problema no futuro centra-se numa nova política que possa respeitar ou cooperar com o ambienteJulgo que existirão grandes mudanças a nível social. Depois da II Guerra Mundial tivemos uma política Keynesiana, baseada no crescimento. O anual aumento do PIB permite a redistribuição da riqueza, mantendo os ricos mais ricos e os pobres remediados. Mas isso foi feito à custa da pressão sobre os recursos naturais. Hoje, temos que inventar uma política social que seja capaz de cumprir a função básica do Keynesianismo – trocar a luta de classes pela coesão social num quadro de transição. Este só pode ser administrado, como Nicholas Stern e Al Gore acreditam, num caminho para um crescimento sustentável, com um mercado baseado em energias que não impliquem significativas ao ambiente. Mas isso só será possível se conseguirmos ter políticas sociais activas. Caso contrário corremos o risco de replicar à escala global a sociedade “condomínio fechado”.O exemplo de São Paulo é uma imagem, em pesadelo, do que poderá ser o mundo daqui a 15 anos, se não tivermos cuidado. Vivemos em crise e temos que sair dela, porque se não fizermos entramos no colapso” O que significa que: “ A população mundial baixaria drasticamente, teríamos uma mortandade sem paralelo. Um estudo divulgado na Dinamarca referiu que se não fizermos nada, chegamos ao final do século XXI com mil milhões de pessoas, ou seja, voltaríamos à população que tínhamos em 1930…” E Portugal onde se situa num mundo em transformação “ O desafio do nosso País é aproveitarmos a crise para redefinirmos o nosso lugar no mundo, na divisão internacional do trabalho. Portugal é um país muito rico em termos de energias renováveis. Temos muito sol, vento e marés, e por isso grandes potencialidades a este nível e em relação à eficiência energética. É uma prioridade, mas o desafio do clima é também o da sustentabilidade. Temos que repensar a nossa agricultura, e as nossas opções ao nível do mercado interno, em relação ao mercado interno, em relação a produtos alimentares. Não são precisas medidas proteccionistas. Os consumidores são cidadãos. E devem decidir comprar produtos que acreditem ter um valor qualitativo diferente – mesmo que custem algo mais. É preciso compreender que uma maior autonomia energética e alimentar faz parte da transição para uma economia menos carbónica. Este é um tempo de mudanças, não será uma transição fácil, mas o nosso estilo de vida vai ter que ser alterado. Os países que vão chegar à linha da frente são aqueles que assumirem essas mudanças e sacrifícios .Mas penso que isso tornará a nossa vida mais deliberada, intencional e reflectida”… A verdade é que já nada será igual, números actuais revelam que desde 1930 em Portugal o temperatura subiu 1.2 Cº , o desafio que hoje a Humanidade através dos seus representantes legítimos assume é poluir menos em relação à década de 1990, outras cimeiras deverão suceder para que os nossos filhos e os nossos netos possam garantir a sobrevivência do género humano...

quarta-feira, dezembro 02, 2009

- IX -Terras da Raia de Portalegre: O grupo dos proprietários [1850-1930] - Marvão.


"O grupo dos proprietários à margem da aristocracia do Distrito foram se afirmando ao longo da segunda metade do século XIX como consequência da Revolução Liberal que permitiu o aparecimento deste grupo social na vida económica e social na região. A maior parte dos mesmos numa análise documental, eram médios proprietários quando comparados em termos de riqueza efectiva com os grandes de Portugal. E cuja identificação feita através dos Livros de Notas e Testamentários, nos permite comprovar que na sua vasta maioria se tratavam de “lavradores” mesmo nos casos em que a constituição da sua riqueza se tenha constituído a partir de actividades paralelas como o comércio e a indústria. De facto, se os grandes proprietários do Distrito em meados do séc. XIX possuíam já uma ou várias herdades, na sua maioria tinham na sua posse um conjunto de várias propriedades fragmentadas e alguns dos mesmos se encontrava envolvidos em negócios comerciais, financeiros e industriais. Com a designação de proprietários se identificava também alguns industriais, mas quase todos pertencentes ao pólo industrial de Portalegre que em crise era todavia a força motriz do Distrito. De resto, se os grandes proprietários se integravam nas classes dominantes dos diferentes núcleos populacionais da região portalegrense a verdade é que as diferenças eram muito grandes dependente o se o proprietário era residente numa vila ou cidade, em que área do distrito. Em Marvão – A riqueza dos proprietários esteve sempre condicionada pela própria extensão, muito reduzida do seu termo que não ultrapassava os 40 hectares. Por outro lado uma parte considerável do seu espaço não era possível de utilização para fins de exploração agrícola devido ao acidentado do seu solo, que impedia um aproveitamento económico rentável. De resto até finais do séc. XIX parte do solo arável não era susceptível de exploração uma vez que se encontrava sob jurisdição militar embora a desmilitarização da sua praça fosse uma realidade de começos de oitocentos. Fruto desta realidade geográfica o regime de propriedade da terra se caracterizava por uma presença maioritária de quintas rústicas com uma superfície muito escassa num espaço igualmente reduzido, mas onde era possível o cultivo de algumas culturas agrícolas. Estes prédios rústicos correspondiam a um numeroso grupo de pequenos proprietários que viviam exclusivamente dos produtos agrícolas e pastoris que obtinham das referidas explorações, de tal forma que nas primeiras décadas do século XX a maior parte da população vivia do auto consumo. O regime de exploração de propriedade dominante, baseava-se em pequenas parcelas cultivadas com vinhas e olivais que em alguns casos se anexavam pequenas hortas, utilizadas para na sua base alimentar dos seus proprietários. Os pequenos proprietários que viviam de rendas agrárias, os comerciantes a retalho e de outro tipo de recurso monetário como o aluguer de casas e os funcionários da administração do estado eram os grupos sociais com maior capacidade económica. De resto e considerando o valor do imposto dos nove maiores contribuintes da vila do Marvão no início do séc. XX, se comprova desde logo a predominância da sua condição de pequenos proprietários, realidade específica desta vila acidentada da raia portalegrense. [ 1ºJosé António Moutta /contribuição predial : valor do imposto 22$659rs /2º Manuel Vivas Pachego /contribuição de comércio e rendas de casa: valor de 153$339 rs., /3ºManuel Velez Tavares /contribuição de comércio e rendas de casa: valor de 4$885 rs.,/4ºTeodora Estácio /contribuição predial: valor de 4$706 rs./ 5ºSebastião Garão/ contribuição predial: valor de 3$744 rs,/ 6ºAntónio Barradas /contribuição predial: valor de 2$860 rs./ 7ºJosé Ganhoto/ contribuição predial/ 2$860rs./8ºManuel Silva/contribuição comercial/ 1.$894 ser 9ºJosé Camilo Russo/contribuição sumptuária; valor de 1$110 rs. ].Mas a maioria da população eram constituídos por trabalhadores agrícolas ( 76.5% - 1890; 79.1% -1900 e 76.5% em 1911), com salários modestos que muitos vezes eram rentabilizados nas suas tarefas agrícolas em terras vizinhas. Outras profissões que garantiam unicamente o sustento e alimentação às gentes do Marvão, eram : os mineiros [ 14.8% em 1890 e 8.3% em 1911]; em valores entre os 2.8 % e 0.4% nos períodos cronológicos considerados encontramos: os artesãos, os profissionais de transporte, os comerciantes, funcionários da administração pública e os proprietárias situados em médias de 0.4%. Finalmente de referir que no final da década de 1930 a vila de Marvão apesar de tudo, possuía no seu território uma única Casa Agrícola cuja grandeza era indiscutível pertencente a João Nunes Sequeira com uma superfície de 162 hectares, dedicada a criação de gados e à exploração e produção cerealífera. De realçar ainda que se tratava de um proprietário exterior à vila de Marvão que através de várias compras teria então constituído a maior exploração agrícola do termo principal junto a qual edificou o seu solar.

quinta-feira, novembro 26, 2009

IX-Terras da Raia de Portalegre - A aristocracia do Sul do Distrito





Nas restantes terras do Distrito de Portalegre a Nobreza Tradicional era então escassa e pouco representativa e se é possível identificar na cidade de Elvas e na vila de Campo Maior, algumas casas da aristocracia, como os Marqueses de Penalva representado pelos Menezes, um grupo familiar, que desde os primeiros séculos da nacionalidade portuguesa e em especial durante a Expansão Portuguesa, esteve, quase sempre representado na Corte e em alguns acontecimentos marcantes da história portuguesa. Não foi em vão, que muitos dos seus membros desempenharam algumas funções administrativas e políticas mais importante não só na própria Casa real mas também na administração colonial nos sécs. XV e XVI. O ramo parental dos Menezes que fixaram a sua residência em Elvas no séc .XVII, na transição para o século XIX, viviam no centro da cidade junto a outras casas nobres entretanto desaparecidas e era então um espaço de sociabilidade ímpar na raia portuguesa onde se deslocava com frequência às suas festas sociais algumas das famílias da alta nobreza da província da “Estremadura Espanhola” e outras de Évora e de Reguengos de Monsaraz. De realçar, ainda que esta casa palaciana serviu como lugar de hospedagem a alguns membros da Coroa nas últimas viagens realizadas pela Casa Real no fim da Monarquia Constitucional quando da sua passagem por Elvas de visita ou a caminho do país vizinho. A sua riqueza agrária era formada por uma série de propriedades repartidas pelos municípios de Elvas, Campo Maior e Portalegre, ainda que algumas, poucas, eram exploradas em regime de associação com a família do Castelo Branco de Portalegre. Em Arronches esta família detinha um grupo de propriedades que embora pertence aos Menezes estava titulada em nome do Conde de Tarouca e eram geridas pelo grande produtor local, o lavrador Joaquim da Silva já nas primeiras décadas do século Vinte. Na vila de Campo Maior podemos identificar um conjunto de famílias com títulos aristocráticos mais recentes. Como são os casos dos Viscondes de Ouguela, Cayola e Xévora que como os grupos pertencentes à nobreza tradicional, incrementaram as suas riquezas mediante a compra e venda de propriedades, possuíam também alguns foros pelos quais recebiam algumas taxas que em termos económicos eram tão importantes como os arrendamentos que constituíam uma base deveras importante nos grupos aristocráticos tradicionais. Por último, ao finalizarmos a reflexão sobre o grupo nobiliário da raia do distrito de Portalegre, devemos assinalar que nos começos do século XX uma parte considerável das suas herdades estava já na posse dos antigos arrendatários, alguns dos quais já se tinham convertido em lavradores de sucesso, homens verdadeiramente ricos e figuras de influência notável na vida económica e política das cidades e vilas raianas do Distrito de Portalegre.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Síntese Hitórica da presença Militar em Elvas



Síntese histórica in Guião da Abertura Oficial do Museu Militar de Elvas
(do autor).

Desde a época Medieval que Elvas primeiro como vila e depois como cidade, se consolidou como um espaço territorial fundamental na defesa e afirmação da soberania portuguesa. Nos primeiros tempos da reconquista cristã os exércitos que corriam as terras de Entre Tejo e Guadiana, eram constituídos por forças de gente da pequena nobreza (ou mesmo não nobre), que no tempo das Guerras da Independência de 1383-1385 se encontravam reforçadas por milícias recrutada pelos concelhos de origem social distinta e que integrava os besteiros e os aquantiados e que no seu todo constituíam as milícias que operaram com bandeiras e oficiais próprios. Na época Moderna, as tropas concelhias correspondiam, às ordenanças a que se refere a lei de D. Sebastião, de 1570, no qual as funções de comando pertenciam a um capitão de Cavalaria ou Infantaria, sob comando de um General de Província. Mas o recrutamento subsidiado pelas obras pias no início do séc. XVII não impedia o recrutamento forçado dos passantes, dos detidos nos cárceres e dos vadios.

Em meados do séc. XVII a questão da mobilização geral era pela primeira vez “testada”, a demografia e o início da “ideia” de um serviço militar obrigatório estavam já subjacente, mas cuja problemática manteve-se já na Época Contemporânea quando os quantitativos demográficos estavam longe do número de recrutados. No teatro bélico do Cerco (1658) e da Batalha das Linhas (1659), evoluiu então a “Nação em Armas” numa época em que o País preparando a sua defesa alistava nos seus “exércitos”, todos os homens válidos de 16 aos 60 anos. A caminho de meados do séc. XVIII pela lei 1764 o recrutamento tornava-se uma realidade regular e pública, com as limitações conjunturais da própria época. Vivia-se a época do Conde de Lippe que lançava as bases para a formação de um exército moderno, com um regulamento próprio e organizado, que regulava a disciplina, o serviço, a instrução, a justiça, o pagamento e o recrutamento.

Mas a Praça Militar abaluartada de Elvas, dos governadores da Nobreza de Portugal desde a época seiscentista, gizada por Juan Sciermans ou Cosmander em 1643, com as suas setes baluartes, quatro meios-baluartes e um redente, era agora confrontada com os “ventos de modernização” instituídos pelo Conde germânico, tornando o espaço militar elvense numa máquina de guerra inexpugnável com a planificação e edificação do Forte da Graça e com as primeiras obras de referência de ocupação e permanência militar, os “Quartéis do Casarão”, iniciadas em 1767 sob a direcção do Engenheiro – General, Valleré perante a questão problemática de estacionamento militar que se tornará evidente na centúria seguinte

Todavia as últimas décadas do final de Setecentos e a primeira de 1800, foram marcadas por novas ameaças que não vinham apenas de Espanha com foi quase uma evidência ao longo da nossa história, mas da França Imperial numa conjuntura política internacional que envolvia um outro protagonista a Inglaterra. E foi neste contexto de ameaça bélica, que a cidade de Elvas não só reforçou a sua posição de “sentinela de fronteira” como se tornou até ao fim do séc. XX como uma placa operacional de estacionamento militar do exército português.

Na verdade em vésperas das invasões francesas o espaço abaluartado elvense concentrava nos seus panos de muralhas a principal retaguarda do exército de linha estacionado na raia, constituída por cerca de 21.600 efectivos de infantaria e 9.600 de cavalaria, cuja operacionalidade teórica e prática justificou a partir de então a presença efectiva do exército português, após a guerra civil que marcou a época liberal entre 1831-1834. E seria neste quadro de estabilidade política e de paz centrada na unidade do exército português, que o Governo da Regeneração legislava no sentido de modernizar os seus equipamentos e a prática e formação do serviço de armas.

O Convento e a Hospedaria da Igreja de S. Domingos, incorporava-se a partir de meados do séc. XIX, após a extinção das Ordens religiosas em 1934 na função militar tornando-se uma estrutura funcional no processo de militarização da cidade de Elvas que conheceu períodos áureos em momentos de estacionamento do exército português de apoio a cenários de guerra a longa distância como as campanhas de África em finais de Oitocentos ou a Guerra Colonial (1960-1975), marcando o quotidiano das gerações que viveram esses períodos em que os militares constituíram uma referência para os filhos de Elvas que encontraram desde então na instituição militar uma opção de vida de servirem as armas do exército português.

Na vida quotidiana a presença militar cruzavam-se em tempo de paz com a comunidade local, ao longo da segunda metade do século XIX, os cirurgiões militares, entre os quais José Desidério Pacheco, organizavam com as autoridades públicas e civis, as medidas preventivas face às ameaças epidémicas que a cólera morbus então determinava. Nas iniciativas de solidariedade como a fundação do Asilo de Infância Desvalida em 12 de Outubro de 1851 por iniciativa e acção do Governador da Praça Militar, General José Maria Baldi, numa época em que a miséria e a pobreza coincidia com o abandono das crianças. Na cultura destacaram-se figuras como o Capitão Vitorino de Almada que deixou à sua cidade natal o esboço do seu testemunho histórico. Na vida política, desempenharam a função de Presidentes de Câmara o Tenente-coronel, José Joaquim Ferreira (1905-1908) e o Major, Joaquim de Melo (1928/1931) e foram Administradores do Concelho, os Tenentes , José Jácome de Santana Silva em 1919 e o Tenente, João Miguel Simões em 1922. Em meados do século, a “cidade – quartel”, era um dos pólos da economia local e nos finais do século XX a componente formativa e profissional, tornou-se um dos vectores do Regimento da Infantaria nº 8, herdeiro directo do Batalhão de Caçadores nº 8 (1961-1975) e legítimo e histórico, das forças contemporâneas estacionadas na Praça Militar de Elvas, tais como o Batalhão de Caçadores nº1 ou os Regimentos de Infantaria nº1, nº8 e nº 17 que se distinguiram vitoriosamente nas Campanhas Militares da Guerra Peninsular (1807/1814).

Por último há que salientar os reflexos que as reformas militares que ocorreram nos dois últimos séculos, na comunidade local que desde sempre defenderam como causa principal a permanência militar na cidade, hoje representada pelo Museu Militar de Elvas..

domingo, novembro 22, 2009

3.2- Elvas Portuguesa: Das deslocações régias [ Cortes de 1361] à função diplomática



A nossa reflexão sobre a vida política e institucional da vila de Elvas se reporta ao papel diplomático e legislativo quando a mesma se afirmava como uma das localidades mais importantes da nova nação que caminhava na direcção do seu terceiro século de existência. Mas, em termos políticos, Elvas distinguia-se com base na sua posição estratégica e consequente afirmação na defesa da soberania portuguesa no quadro político e institucional do Estado Português. De facto se foi a guerra que notabilizou a vila fronteiriça, as Cortes de Elvas de 1361 têm um significado muito particular na vida política nacional, mesmo considerando a presença da corte itinerante que apenas compartilha com outra vila da raia a do Sabugal um número de visitas da Casa real em cerca de uma dezena durante a Idade Média. Em parte podemos relacionar tais visitas com o facto de a Corte se deslocar com frequência à cidade de Évora atingindo cerca de três vezes mais em números registados pela documentação, todavia, Elvas, Braga, Guarda e Guimarães, foram as únicas vilas medievais que realizaram Cortes à margem dos centros urbanos de decisão como Porto, Coimbra, Santarém e Lisboa. Na verdade a presença da nobreza de Portugal em terras de fronteira foi uma característica muito particular durante o reinado de D. Dinis que visitou as terras do Sul numa época em que o Andaluz muçulmano estava em vias de cair nas mãos das hostes nacionais e o Alentejo eram uma fronteira natural entre dois reinos adversos o castelhano cristão e o Andaluz muçulmano. Montemor-o-Novo, Estremoz, Elvas, Évora e Beja, situavam-se no caminho da cavalaria da Nobreza e da peonagem que acompanhava as hostes senhorias nas vários tipos de operação militar de matriz medieval, a guerra de assédio, a guerreada e a de cerco. Contudo uma particularidade, a guerra e paz, foi determinante - um benefício - para a vila elvense com uma pequena aristocracia em formação muito distinta da Nobreza de Entre Douro e Minho, acabaria por concentrar a mais nobre da aristocracia nacional como podemos comprovar documentalmente quando o Infante D. João de Castro em 1361, acompanhado pelos Mestres de Santiago e Alcântara cercou as cercanias de Elvas durante 25 dias, em que os reforços chegaram da capital do Reino: “A Elvas foi enviado por fromteiromor Gonçallo Meemdez de Vasconcellos , e com ele gentes de Lixboa, assi como Alvoro Gil, e Vasco Estevez de Molles, e Esteves Annes, e Martin Affonso Vallemte, todos cavalleiros. Gomez Louremço de Avellar e Gonçalo Vasquez … e asi otros fidalgos cada huuns em seus lugares”. “A vila ornada de grandes edifícios e habitada de gente rica, segundo o cronista António Brandão abria as portas à diplomacia portuguesa e a assinaram-se tratados diplomáticos de paz e de unidade nacional como os que foram firmados por D. Dinis e o seu filho e entre D. Fernando e D. João de Castela e o primeiro casamento real entre os herdeiros e das coroas ibéricas, a princesa D. Beatriz e D. João I de Castela. De Elvas também partiu a 14 de Maio de 1383 para Inglaterra o diplomata Rui Cravo para pedir desculpas ao monarca de Ricardo II e a Jonh of Gaunt, pela violação dos acordos luso-britânicos que tal casamento determinava. Mas, em 1361 realizaram-se pela segunda vez, Cortes durante o reinado de D. Dinis, os três estados do reino, Nobreza, Clero e 3º Estado, reuniam-se em Elvas, nelas de discutiram alguns problemas propostos pela realeza e se fizeram igualmente reclamações, formuladas principalmente pelo 3º estado (burguesia + povo), que apontaram as soluções que se entendia acertadas. Nas Cortes de Elvas, foram compilados dezoito artigos gerais do povo, alterando-se dois e acrescentando-se um. Algumas determinações foram fundamentais para a vida do reino entre elas e a título de curiosidade determinou-se: que os almoxarifes não tivessem maior jurisdição do que deviam “aas justiças dos logares hu esto for que lho nom consentam”; que os judeus não fizessem usura, porque tal provinha grave dano para os povos, devendo os contratos ser feitos como «boos mercadores e verdadeiros Christãos” ; que as mulheres públicas vivessem em lugar apartado e que tanto elas como as “barregaaes” se vestissem de modo a distinguir-se das mulheres casadas e das outras que vivem honestamente». Entre as reclamações destaca-se entre outras a que lê no artº 6 do Capítulo do Porto, nos quais os procuradores desta cidade se queixam que os alcaides tomam armas aos mercadores que veêm das aldeias e montes comprar vinhos e fruta, porque assim o mandava uma Ordenação do Corregedor. O monarca acedeu ao pedido, mandando que a nenhum mercador, enquanto for a caminho, não lhe tomem a espada ou cuitelo que leve embainhado, não fazendo dano”. Eram tempos de reconhecimento do patriotismo das gentes de Elvas que em 1325 e 1337 tinham posto fim ao cerco e ameaça da soberania portuguesa em 1325 e 1337, mas seria depois da magna reunião legislativa dos grandes de Portugal que Elvas conquistaria o respeito dos soberanos da coroa portuguesa durante a Crise Geral do Séc. XIV e nomeadamente durante a terceira guerra fernandina.

sábado, novembro 21, 2009

Reflexões sobre o Nosso Tempo




A nossa reflexão sobre o mundo actual leva-nos ao Médio Oriente, na individualidade do Professor Doutor, Helmi Mohammed Nasr, egípcio, doutorado pela famosa Universidade de Sarbonne, sendo um prestigiado estudioso dos estudos árabes e o mais recente tradutor da única versão oficial do Alcorão em língua portuguesa. E desde logo, a nossa reflexão inicia-se com a ideia que percorre o “mundo ocidental” , muitas pessoas, associam hoje o islamismo à violência e principalmente ao terrorismo….. O Islão realmente pede que os féis entrem em guerra para defender os ensinamentos da Alá?Confundir o islamismo com a violência é uma novidade trazida pelos norte-americanos. O preconceito não é algo de novo, mas foi acentuado nos últimos anos e se aumentou a descriminação aos muçulmanos. O problema é que jogaram a culpa pelos actos da Al-Quaeda no islamismo como um todo, e isso não é justo. Por causa dessa propaganda negativa, muitas pessoas realmente acreditam que a religião é responsável por esse tipo de crime. Porém, se algum indivíduo faz algo contra um país, como um atentado, não é justo culpar uma nação ou um povo. Não há nenhum livro sagrado no mundo que prega o pacifismo da mesma forma que o Alcorão. A palavra islã quer dizer paz e não pode ser associada à violência. Os muçulmanos não podem ser culpados pelos erros de alguns indivíduos. Porém essa violência existe …. Sim concordo que há pessoas usam o Alcorão para cometer crimes e atentados. Porém isso ocorre com qualquer religião, como a própria história já o provou. Há sempre há seres humanos praticando o mal em nome de falsos ideais religiosos …. Quem declara guerra em nome de Alá nunca leu o Alcorão. Se leu, não entendeu o seu verdadeiro significado”. Mas 11 de Setembro agravou essa noção que a violência é uma arma do mundo muçulmano …” O preconceito sempre existiu …Depois dos atentados de 11 de Setembro a situação se agravou demais. Não sei se Osama Bin Laden realmente existe, pois nunca o encontraram, mas de qualquer forma não se pode associá-lo ao islamismo. Ele pode ser muçulmano, mas não representa a nossa religião. Mas é justo isso que os norte-americanos fizeram: atribuíram a responsabilidade dos ataques à religião islâmica e estimularam a discriminação contra os muçulmanos”. Embora no Ocidente a questão do “estado de saúde” do Islão não seja objecto de reflexão a verdade é que alguns historiadores especialistas no Médio oriente defendem e falam de uma crise latente nos ideias do Islão … “Pode-se dizer que o islamismo está mesmo em crise no mundo todo, principalmente por conta da propaganda contrária aos muçulmanos. Mas há um outro factor importante que reforça o problema; muitos muçulmanos estão se dirigindo à cultura ocidental, deixando de lado os ensinamentos importantes do islã. Precisamos nos voltar cada vez mais aos nossos conceitos originais, pois o Alcorão é uma regra moral para o povo, mas muitos seguidores do islamismo esqueceram disso. Percebe-se a gravidade do problema porque os pais têm mandado os filhos estudar na Europa e nos Estados Unidos muito cedo, antes mesmo de passar a eles os elementos primordiais do Alcorão. Isso é um erro muito grande. É preciso estudar o livro sagrado muito bem antes de ir atrás da educação no exterior. A base original é fundamental para o muçulmano ter uma boa formação e, com isso, trilhar o caminho da paz. Sem isso, sem dúvidas passamos uma crise”. Por último qual o papel do islamismo no contexto das religiões dominantes no mundo actualO islamismo é a terceira religião divina, na sequência do cristianismo e do judaísmo. Os cristãos têm a Bíblia, os judeus têm o Novo Testamento e os muçulmanos têm o Alcorão, que reconhece as duas outras religiões. Portanto, o islamismo admite a importância dessas outras crenças. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o islã não contraria as outras religiões, pois elas se completam. O islamismo defende que nos três livros sagrados há luz para a humanidade seguir um caminho de paz. Além disso, o profeta de cada uma dessas três grandes crenças realizaram milagres importantes para determinados períodos da história. Jesus Cristo, por exemplo, executou, milagres em uma era em que a necessidade da medicina estava no auge, curando enfermos, ressuscitando os mortos e fazendo os cegos se tornarem videntes. Maoné, por outro lado, se mostrou ao mundo no auge da era da magia, concebendo um livro sagrado que pregava a paz. Foi uma prova divina. Enfim, o islã não rejeita o cristianismo e o judaísmo: apenas completa os ensinamentos dessas duas religiões…..