segunda-feira, maio 16, 2011

A Fotografia Contemporânea: A Escola de Paris.

Eugéne Atget, Prostituta, 1921, - 23.2X17.4 cm.

André Kertész,Champ Elysées, 1930 - 24.5x18 cm.


 André Kertész, entre a fotografia e a arte propriamente dita.
 Brassai, Amor de Marinheiros, 1933 - 29.3x22.8 cm
 Henri Cartier Bresson, Sringar, Casemira,1948,27.3x39.9 cm.

Robert Doisneau, A noiva de Cégéne, 1948 - 30.5 x 23.9 cm. 

A fotografia contemporânea confunde-se com os trabalhos de Eugéne Atget (n.1856) , que tinha como objecto o registo das facetas da cidade da luz, que  não mereceram numa primeira fase um olhar artístico sobre a riqueza dos mesmos. Na verdade, a sua inspiração pelos recantos instantâneos do meio ambiente estavam em contraste com os trabalhos inerentes da imaginação, que versavam as obras de Braque, Picasso, Duchamp ou Man Ray. A sua obra reflecte uma intensidade subtil e uma perfeição técnica que acentuam a realidade, até mesmos nos registos mais banais. De resto são poucos os fotógrafos que igualaram a sua capacidade de criar composições simultaneamente bi e tridimensais. Entre os seus seguidores directos e que constituem a chamada “Escola de Paris”, destaca-se André Kertéz (n.1894), cujos registos, destacam-se pelo isolamento central da figura central relativamente à composição apresentada. Brassai (n.1889) , tal como Kertéz não era francês por naturalidade mas por adopção, nascido na Transilvânia, voltou aos cenários parisienses, fotografando os costumes e os ambientes e de uma forma particular os ambientes boémios. Cartier Bresson (n.1908), considerado o primeiro fotojornalistas por alguns críticos foi sobretudo um artista do ponto vista dos seus objectivos e da sua técnica. A sua obra reflecte a influência da arte abstracta moderna. O Futurismo e a ironia do Dadaísmo, numa palavra o movimento está latente no registo das suas composições, que o distingue dos restantes seguidores da Escola de Paris, tal como a fronteira do seu registo que se alarga definitivamente ao espaço universal.  Sem a notoriedade de Cartier Bresson, destaca-se Robert Doisseau (n.1864) como o fotógrafo mais próximo do ”fotógrafo-artista”, não pela técnica,  nem pelo movimento mas pela clareza de registar como nenhum outro o acaso das fraquezas humanas tratadas com grande humor. Robert Doisneau, era um fotógrafo autodidacta que registava as suas imagens durante os seus passeios pelas ruas de Paris. O que tornou Doisneau famoso foi a sua "fotografia de rua", em inúmeros instantâneos, documentou com humor e empatia a vida dos subúrdios de Paris.            

sábado, maio 07, 2011

8.2. A sociedade contemporânea: As características da classe dominante - 1850-1930

H
 O palácio dos Marqueses de Alegrete o símbolo do aristocracia oitocentista.
A família Bagulho em menos de um século juntou lavradores, intelectuais e militares.

A elite dos lavradores na época áurea da agricultura elvense com o Ministro do Estado Novo, Arantes da Oliveira 

A maioria da sociedade elvense que se afirma a partir de meados do século XIX é marcada pela afirmação de novas gentes que se fixam em território elvense entre os finais do século XVII e o primeiro quartel do século XIX. Ou melhor, pouco mais que 32.7 % das famílias registadas no cartório notarial de Elvas algumas dezenas de anos antes da época da Regeneração têm a sua origem nas vilas ou na cidade raiana. E de um modo geral, a sua origem é popular e apenas meia dúzia de famílias tem origem nobre e a excepção é praticamente os marqueses da casa de Penalva. Uma vez que os restantes titulados o foram durante a monarquia constitucional por comenda e não pela origem de sangue como se observa com maior atenção na aristocracia portalegrense. Mas quando se chega a meados do séc. XIX, podemos já encontrar indícios de uma nova sociedade que chega aos nossos dias, mas que nada tem a ver com o passado histórico da cidade e é sobretudo um produto da Revolução Liberal. Na verdade quando se chega ao final do século XIX a “classe dos proprietários” afirma-se como grupo dominante, integrando os lavradores como grupo maioritário que foi sem dúvida o que mais evolui, pois mais de 85% das principais famílias tinham a sua origem em pequenos arrendatário e algumas tinham mesmo uma origem social humilde. Mas no grupo dos proprietários, agrupavam-se ainda os comerciantes, muito deles com origem na Sertã e os militares cujo prestígio estava determinado pela sua posição no exército português. Porém no seio dos proprietários agrícolas no final da primeira metade haviam já algumas famílias que se distinguiam das demais, como era o caso das famílias Bagulho, Gonçalves, Barbas e Rasquilha, as duas últimas com afinidade à nobreza local e regional, no caso da família Rasquilha o seu reconhecimento social advinha da sua riqueza inicialmente concentrada na vila de Arronches. Outras, estavam ainda dependentes do arrendamento de propriedades da Casa de Bragança, Cadaval e de alguns burgueses lisboetas como Lança Alvim ou João Miguel Barreto, que tinham o monopólio das grandes propriedades do concelho. Nas décadas de 1880/90 a intensificação de compra de herdades pelas famílias locais arrendatárias torna-se uma evidência na relação de compra/venda das propriedades agrícolas (herdades), numa época em que o investimento agrícola era complementar à actividade agrícola, neste âmbito distinguia-se a família Nunes da Silva oriunda das Beiras e cuja fortuna se constituiu na prática comercial antes de se tornaram também grandes lavradores da cidade e em pouco tempo, uma família de referência local e regional pela sua intervenção na vida política. Também inicialmente fora do seio da prática agrícola, destacava-se outra família com origem na região centro a família Lopes cujo poder aquisitivo estava relacionada pela sua prática prestamista que permitiu que ainda antes da década de 1890 fosse uma família de posse e de referência na vida social e económica, de quem dependiam os pequenos/ médios proprietários agrícolas por força dos empréstimos a quem estejam sujeitos por contrato. Fora do contexto agrário, distinguia-se no grupo dos proprietários a família Torres de Carvalho, com origem na então vila vizinha de Estremoz e  a família Mendes, cujo fundador da família José Mendes tinha a sua origem na Sertã como os Nunes da Silva e que da relação com o seu amigo Baltazar Paiva, nasceria a firma Mendes & Paiva com fins comerciais. No final do século XIX a elite económica da cidade tinha uma origem social exterior há cidade e procedia o seu enriquecimento económico através do arrendamento de grandes herdades que em pouco tempo, passavam para sua tutela considerando que se tratavam não de arrendatários mas de proprietários arrendatários com capital de remate era o caso de José Mendes, Lobão Rasquilha e José Lopes que se tornavam proprietários das melhores herdades do Conde de Tarouca. Na viragem do século, a propriedade não só significava riqueza como distinção, por isso mesmo alguns militares, médicos e industriais, procuravam então o estatuto de lavradores, como eram os casos do Dr.António Cidrais ou José Guerra, próspera e rico, o único com verdadeiro estatuto para tal no município de Elvas. Mas se os novos-ricos “sonhavam” com a aquisição da herdade, os grandes lavradores, bem sucedidos há muito tinham iniciado um verdadeiro processo de “nobilitação” com aquisição das Quintas e Solares, identificadas com as Casas Agrícolas como era o caso da Quinta de São João adquirida em 1872 por José Joaquim Gonçalves ou o “Solar dos Mesquitas” pelo Dr. Santa Clara que apesar de tudo tinha ascendência nobre apesar de ser uma das figuras mais prestigiadas da cultura oitocentista. De resto, o Dr.Santa Clara, o Visconde Cristovão Vasconcellos de Andrade, proprietário de uma casa palaciana de gosto itálico e o Visconde de Alcântara com a família da Marquesa de Alegrete e Condessa de Tarouca, identificadas com o grupo dos lavradores distinguia-se pela sua origem nobre e pela ligação à Casa Real. A este núcleo fechado abria-se excepção aos oficiais superiores do exército quase sempre os Governadores da Praça e a número muito restrito de proprietários, como eram o caso do Sr. Rodrigues Tenório durante várias décadas “tutor” das terras da “marqueza”, os Rasquilhas, pelo prestígio de essa grande figura do eixo Arrronches – Santa Eulália e Campo Maior, o deputado Progressista Lobão Rasquilha e os Bagulho, por via do Dr. João José Bagulho, médico que se distinguia pelo trato e educação numa sociedade fechada e profundamente ruralizada. Da I República ao Estado Novo, a classe dos proprietários, alargou-se significativamente em função da riqueza agrícola através de uma política matrimonial que acabou por cruzar as velhas famílias de posse com as que cresceram antes e depois da I República.

sábado, abril 30, 2011

O Renascimento Veneziano : as obras de Sansovino e Palladio


 A obra de Sansovino manifestou-se na renovação urbana de Veneza




 A colunata movimentada foi uma influência da sua formação romana


 As grandes cúpulas uma das marcas da obra de Palladio em Veneza
As últimas experiências de Palladio denunciam já as influências do Maneirismo.
Em Veneza, a experiência construtiva é resultado da sua própria história, na verdade a urbe italiana, não resultou da inspiração da Antiguidade, mas foi antes o resultado das experiências de mestres e artistas que desenvolveram a sua obra em território veneziano. Entre eles destaca-se, Andrea Sansovino, que se formara em Roma e que chega em 1527, permanecendo em Veneza cerca de quarenta anos até ao fim da sua vinda. Na sua obra é visível o processo de renovação da linguagem arquitectónica veneziana, traduzida nas severas formas classicistas de influência dos grandes mestres romanos como Bramante e Rafael, numa expressão mais dúctil, decorativa e movimentada que tão bem se expressa na cidade lagunar. Os melhores exemplos foram os edifícios edificados em volta da Praça de São Marcos, cuja fachada são modeladas através de um jogo notável e eficaz de claro-escuro, obtido através da disposição de elementos clássicos e de um notável aparato plástico. Outro mestre de relevo, Andrea della Gondola, mais conhecido por Andrea Palladio, vindo de Pádua, chega a Veneza, com a função de cinzelador em 1537, mas doze anos depois é o responsável pela reestruturação do Palácio Regione. A estrutura englobava a construção gótica anterior de dois pisos, que seria renovada segundo os princípios renascentistas. Na sua fachada, introduziu duas filas sobrepostas de arcos serlianos, rematada por uma bela balaustrada, na qual se levanta uma serie de estátuas, em correspondência com as colunas que se erguem no primeiro piso, dividindo os espaços dentro dos quais se encontram os arcos, supotados por colunas pequenas. Mas, a influência de elementos arquitectónicos de matriz romana, é evidente na utilização da janela em arco, denominada serliana, e na faixa de tríglifos e métopas que separam os dois níveis. A sua carreira em Veneza jamais seria igual quer na edificação de espaços públicos quer privados, destacando-se nesse âmbito uma série de villas por encomenda da nobreza veneziana. De resto, Andrea Palladio, fecha o ciclo das obras renascentistas em Veneza, com a edificação de três espaços religiosos, duas, San Maggiore (1556) e a do Redendor (1557), que estão localizadas nas ilhas limítrofes. Neste âmbito, destaca-se sem dúvida, a do Rendero II iniciada em 1577, de planta centrada, com Cúpula de três conchas sobre o cruzeiro. Cujo acesso se concretiza pela anexação de uma nave central com abóbadas de berço e capelas em forma de nicho. A Fachada com colunas duplas de ordem colossal no portal e no pórtico um frontão, denunciando desde logo a tendência maneirista neste espaço do Renascimento tardio.

8.1.3 - A afirmação do comércio Elvense numa cidade agrícola.

 O mercado local um faceta da actividade mercantil de base agrícola e artesanal que se manteve na Época Contemporânea.
A publicidade na Imprensa local contribui para a especialização do comércio durante as décadas de 1880-1890

A Rua da Cadeia pioneira do comércio contemporâneo em Elvas

A época da Regeneração foi sem dúvida um período determinante para o desenvolvimento do comércio elvense, que até então era sobretudo uma actividade subsidiária da prática agrícola com base na exploração dos seus produtos. Uma realidade que percorre a história económica da cidade desde os tempos medievais, em que o tendeiro, o mercador ou almocreve, asseguravam o sustento da sua actividade a partir dos excedentes agrícolas e de um conjunto mínimo de produtos manufacturados produzidos nos núcleos populacionais mais próximos das suas “rotas comerciais”. A viragem para uma actividade económica, de matriz exclusivamente comercial ocorre na principal cidade da região do Caia, pelo menos desde a década de 1870, numa época em que a população portuguesa não só se limitava como crescia e deslocava-se para os centros urbanos onde a prosperidade era visível. Não podemos ignorar que na cidade de Elvas,  o seu núcleo urbano cresceu muito rapidamente até ao fim do século XIX, assim em 1878 contava com cerca de 10.471 almas e em 1900, altura em que se verifica o primeiro abrandamento no ritmo de crescimento populacional a cidade atingiu um número de efectivos de cerca de 13.981 habitantes ou seja um índice de crescimento de cerca de 186% em cerca de 36 anos. Ao mesmo que crescimento médio da população rural era evidente durante o mesmo período cronológico, embora disparando mais tarde, por volta de 1887 quando cerca de 9.006 constituíam os valores efectivos da população rural. Todavia, entre a Regeneração e o final da I República, não só a existência de uma população próspera em trabalho e com um salário pago periodicamente, favorecia o desenvolvimento das práticas comerciais como também uma serie de estradas locais e regionais, facilitavam essas trocas e permitiam a prosperidade do negócio. De facto, em vésperas da implantação do Estado Novo, a Linha de Leste tornava-se um veículo fundamental para a especialização de estabelecimentos comerciais como também a rede viária sofrera uma forte reforma com um crescimento médio de novas vias à média de 5.1% desde 1922 com excepção do ano de viragem de regime, com o 28 Maio de 1926 em que o número de estradas municipais construídas não ultrapassa os 1.9%. Na verdade entre a Regeneração e o final da I República, não faltavam consumidores mas também de vias necessárias para canalizar os excedentes. E nessa perspectiva, a Linha de Leste facilitava a modernização do comércio regional colocando nas terras do interior de Portugal as novidades que se vendiam na capital. Mas, a cidade comercial propriamente dita como um espaço organizado afirma-se no final da década de 1870 e afirma-se na década seguinte, de tal forma que se publicava na cidade, duas vezes por semana, um periódico gratuito que informava e publicitava os produtos e as actividades de natureza comercial. Na década de 1860, a principal zona comercial urbana desenvolvia-se ao longo da Rua da Cadeia, as mercearias e as lojas, eram os estabelecimentos tipos e o Hotel Central a principal unidade hoteleira da região também estava sediado nesta artéria da cidade. Na década de 1870, a Rua da Carreira entrava na concorrência mas a maioria dos lojistas continuavam concentrados na Rua da Cadeia. A Rua do Alcamin entrava na disputa nas duas últimas décadas do século XIX e tornava-se um espaço de referência durante a República, o calçado, as lojas de vestuário e as ourivesarias, foram sem dúvida os estabelecimentos que vieram a valorizar aquela artéria urbana, que tal como todas as outras tinham uma ou duas mercearias no seu espaço. A viragem para o século XX, quando a cidade de Elvas era já referenciada como um pólo comercial e agrícola de referência regional, novas artérias juntavam-se ao aglomerado urbano, nomeadamente as Ruas Pereira de Miranda e da Princeza Dona Amélia que constituíam juntamente com as ruas comerciais que se foram desenvolvendo nas décadas anteriores a zona comercial da cidade. Do ponto vista da estrutura comercial da cidade a mercearia como local onde se vende um pouco de tudo e algumas delas eram agentes de algumas casas comerciais da capital, persistem com vigor até a década de 1890. Os serviços nomeadamente os transportes, as seguradoras e os agentes de actividades várias como por exemplo a bancária já estavam sediadas no final de Oitocentos. No final da I República, o comércio tinha já um estatuto próprio, não dependia da prática agrícola e resultava já de um pequeno investimento dos particulares, com uma estrutura de matriz familiar. Os poucos comerciantes de sucesso nos finais do século XIX, identificavam-se com a classe dos proprietários e eram reconhecidos na sociedade local como lavradores, numa época em que o poder ou a capacidade económica estava associada à casa agrícola como factor de criação de riqueza. Os lojas de especialidade e em contraste com as mercearias e as oficinas que se concentravam igualmente no traçado urbano, eram a novidade e esboçavam os traços comuns de um comércio virado para uma sociedade de consumo. Mas o conservadorismo, de uma mentalidade adversa à mudança continuava a persistir no modelo de muitas lojas que na verdade não eram diferentes das mercearias que foram as pioneiras do desenvolvimento do comércio local e que persistiram ao logo do séc. XX.                           

sexta-feira, abril 22, 2011

O Modernismo Catalão e a obra de Antoní Gaudi....


A Sagrada Famíla (1883)


Parque Guell

A Casa Milá


As artes decorativas uma realidade que Gaudí associou à arquitectura.

O Modernisme é um movimento artístico que se desenvolveu a partir de meados do século XIX com semelhanças à Arte Nouveau e que marcou a arquitectura catalã entre 1880-1910. Como estilo artístico, foi influenciado pelo chamado romantismo nacional que promoveu o estudo e a retomada da arquitectura e do idioma catalão e pelo progressismo, que observava a ciência e a tecnologia, como fundamento para o desenvolvimento da sociedade moderna. Estas duas influências aparentemente diferenciadas acabaram por ser determinantes na arquitectura catalã como provam as cerca de mil edificações que então se edificaram, sobre o risco de figuras como Domènech i Montaner, José Puig i Cadafalch e Antoní Gaudi. As suas obras edificadas, ecléticas e expressivas, destacam-se sobretudo pela ornamentação integrada no próprio edifício, enfatizando o seu projecto, função e construção. Em pouco tempo, o Modernisme se confundiu com a obra de Antoní Gaudi cuja obra inicial evidencia outra influência da arte internacional, o movimento Arts and Crafts, visível na abordagem no acto de projectar cada aspecto dos seus edifícios. Ou do mestre da arquitectura francesa Eugène Emmanuel Viollet le-Duc que preconizava o regresso à Idade Média e de uma forma particular à reconstrução gótica com base nas novas tecnologias. A primeira grande encomenda e que se tornou uma referência do seu legado para a arquitectura contemporânea foi sem dúvida a Igreja da Sagrada família proposta ao mestre catalão em 1883 e que constitui o centro da sua actividade como arquitecto até ao fim dos seus dias. Às estruturas góticas existentes acrescentou espirais com aparência mouriscas, decoradas com azulejos de cerâmica, onde se destaca a riqueza cromática, dando uma nova visualidade ao espaço construtivo. A Sagrada Família reunia os valores apetecidos por Gaudi e respondia às suas convicções pessoais mais íntimas, experimentadas em menor escala na cripta de Santa Coloma de Cervelló, de 1898. Na Sagrada Família até a sua morte, Gaudi deixou uma marca expressa nas duas silhuetas que se elevam sobre o casario da cidade catalã, em que se destacam as suas altíssimas torres de agulha afiada, pináculos cónicos com rendilhados e remates florais. A faceta racionalista expressa na obra edificada mas sobretudo nos desenhos e maquetas que o autor deixou como um documento aberto que permite que um século depois a sua obra tenha continuidade. A sua amizade com o grande industrial, Don Eusebi Guell permitiu-lhe trabalhar a um ritmo intenso face á variedade de encomendas como por exemplo a Casa Guell em 1888 o Parque Guell em 1900/14). O seu racionalismo estruturalista e a integração da arquitectura com as artes decorativas e o desenho industrial, percorre a sua obra que se expressa também na arquitectura privada como as chamadas casas de Gaudi. Na Casa Milá, de 1906, destaca-se pelo emprego de variado material de construção, pilares de pedra e tijolo, vigas de ferro, abóbadas à catalã, evitando as paredes de descarga e permitindo uma maior liberdade na distribuição das cargas. A organização da fachada é outro aspecto, que se cinge ao exterior  como uma parede que se sustenta a si próprio: Gaudi moldou-a como matéria plástica de linhas curvas côncavas e convexas, ondas de lava solidificada parecendo ser a massa pétrea com que a casa Milá se sustém. A Casa Batló, que na verdade não era mais do que dois prédios de apartamentos, cuja intervenção exterior se combinava com a concepção do mobiliário, evidenciando um gosto pelas formas orgânicas, mediante o emprego de determinados motivos, como por exemplo conchas. Embora o Modernisme e a Art Noveau internacional tenham tido uma vida curta, destacaram-se pela capacidade expressiva na arte e na arquitectura do século XX.                       

quarta-feira, abril 20, 2011

8.1.3. - A experiência fabril num concelho agrícola entre a Regeneração e a I República

 A mecanização foi um desafio para elite económica elvense



A Companhia de Moagens a Vapor um exemplo do associativismo da elite económica local no final de Oitocentos.


 Os moinhos e as azenhas outra forma de assegurar a importância da moagen dos cereais no distrito.

Em meados do século XIX a indústria no Distrito de Portalegre estava praticamente limitada a um conjunto de unidades fabris que se situavam na cidade capital verdadeiro pólo industrial desde os tempos da Fábrica real. Todavia, a indústria manufactureira da cidade de Portalegre atravessava uma crise sem precedentes face às dificuldades económicas que atravessavam o sector. A sul do distrito, distinguiam-se apenas duas unidades fabris, com alguma dimensão e cujo existência, se devia à aplicação de capital privado como era o caso da Companhia de Moagens a Vapor em Elvas na transição para o século XX ou a  Fábrica de moagens a União de Campo Maior  já em pleno século XX (1928). No caso, elvense a realidade industrial desenvolveu-se timidamente e não privilegiou os têxteis como no caso portalegrense e a exploração da cortiça jamais teve a importância económica que marcou a economia oitocentista da capital do distrito. A moagem seria um sector em franco desenvolvimento, na continuidade da tradição da realidade norte alentejana desde o século XVII, os moinhos hidráulicos ou eólicos povoavam o solo das aldeias agrícolas em solo elvense como eram os casos particulares de Vila Boim e Santa Eulália. Na verdade, eram os pequenos proprietários que se afirmavam como os “grandes investidores” na pequena indústria da moagem podendo ter rendas anuais segunda a documentação na ordem dos 17.000 réis. De um modo geral, tratava-se de modestos proprietários que junto das suas pequenas hortas e pequenas parcelas de cerais possuíam o seu moinho ou azenhas, no caso particular das pequenas parcelas na margem do Guadiana. Sem concorrência, identificavam-se os moinhos edificados pelos proprietários das herdades que procediam à moagem da sua produção cerealífera que lhes rendia um valor médio próximo dos 60.000 réis. De forma generalizada e até aos finais do séc. XIX, a moagem no município elvense continuava limitada pelos seus equipamentos tradicionais de matriz medieval, mas fundamental num concelho em que o aumento populacional determinava desde logo determinava maior consumo do pão na dieta alimentar da sua população. Porém, com a lei de 1899, que ordenava que a indústria da moagem implicava a utilização da máquina na moagem , mas esse processo de mecanização na indústria elvense já tinha sido iniciado em 1884 com a Companhia de Moagens a Vapor, uma sociedade anónima que associava não só uma parte significativa de lavradores mas também os comerciantes com maior capacidade económica da cidade e das localidades rurais do concelho. O sucesso deste empreendimento fabril tornou-se evidente à medida que se avançava pelo século XX e em função da importância das bolachas e massas alimentícias no espaço regional. Um pouco por todo, o território agrícola local, identificavam-se os lagares e as azenhas ( nas masrgens do Guadiana), destinados à transformação dos produtos agrícolas e de modo geral propriedade dos arrendatários bem sucedidos e identificados então já como prósperos proprietários. Outras indústrias com alguma importância na economia local e regional, foram sem dúvida a fábrica da família Guerra e Irmão, que tendo uma dimensão manufactureira de matriz tradicional, chegou a alcançar os mercados inglês e brasileiro, com as suas frutas doces, as ameixas de Elvas que chegaram a obter reconhecimento internacional com vários prémios conquistados nas Exposições Internacionais de Paris (1955), Porto (1861 e 1877), Lisboa (1864 e 1884) Filadélfia (1978) e Rio de Janeiro (1878). A fábrica os irmãos Guerra no início do século XX, tornou-se uma das mais modernas da região com a aquisição da máquina a Vapor “Rutton”, mas que não dispensava uma mão-de-obra de cerca de cem operários. Não menos importante à dimensão regional era a fábrica de António Duarte Brazão, que durante décadas foi o fornecedor do transporte de carros movidos por cavalos ou mulas, aliás só com a ameaça do automóvel que esta firma sofreu os seus primeiros golpes do ponto vista financeiro. A sua capacidade produtiva, situava-se no fabrico de quase meia centena de veículos sem motor ao ano, para além de todo um conjunto de actividades de reparação. A empresa obedecia já a uma organização pré-industrial com serviços de pintura, carpintaria e serralharia. Outra, firma de pequena dimensão, numa Praça militar era sem dúvida a oficina do metalúrgico, Alfredo Guedes que chegou a fornecer ao exército português por encomenda do Governador da Praça Militar de Elvas a requisição de dezoito espingardas. Numa cidade fortemente agrícola e em pleno desenvolvimento comercial, a indústria não tinha de facto grande impacto económico, predominando o trabalho artesanal onde se destacavam um pouco por toda a cidade numerosos operários ou artesão, como carpinteiros, pintores e serralheiros ao serviço de múltiplos oficinas de carácter privado que marcaram a época da Regeneração até ao Estado Novo.                         

segunda-feira, abril 11, 2011

8.1.2. A ciência e o progresso técnico no sul do Distrito de Portalegre [1850-1930]

A chegada da Linha de Leste ao Caia contribuiu para a acelarar a modernização agrária.

 Mapa agrícola do Alto Alentejo - 1866 - àreas de ocupação e exploração agrícola
O campesinato de um modo geral era adverso à modernização agrícola uma ameaça ao emprego 

Entre a Regeneração e a I República, o trabalho nos campos na planície caracterizava-se pelo esforço humano, em que a robustez física e o trabalho manual era a única característica dominante na exploração económica da propriedade. Em terras da raia, a mecanização da agricultura é uma realidade de fins do séc. XIX embora alguns agrónomos da região na imprensa regional reflectiam a emergência de uma melhor exploração dos solos e das culturas denunciando que “ tudo é feito ao acaso; tudo se espera da Providência”. De facto, a falta de conhecimentos sobre a exploração da terra propriamente dita e da apetidão dos solos para a sementeira de determinadas culturas, juntava-se a falta de instrumentos modernos e eficazes que então era objecto de aplicação na agricultura do Ocidente. Por outro lado, a imprensa periódica no seu noticiário reforçava a opinião de meia dezena de proprietários e lavradores, sobretudo com formação académica superior do distrito de Portalegre, em que a agricultura dependia exclusivamente da natureza, como se pode comprovar nas seguintes notícias no Elvense em meados da década de 1880: “ O tempo tem corrido favorável à agricultura. As oliveiras apresentam-se com um aspecto prometedor de uma boa colheita. As sementes brancas têm dado magníficas fundas especialmente elevadas”…”As geadas que caíram nas últimas noites produziram consideráveis prejuízos nos pomares de esta cidade. Em Varche há proprietários que calculam as suas perdas em centenas de mil réis” . Por essa época, o sistema de rotação quinquenal foi substituído paulatinamente nos municípios da raia portalegrense nomeadamente na Vila de Campo Maior e nas aldeias dos arredores do concelho de Elvas, onde o esforço do arroteamento dos campos era notório e distinguia-se na realidade regional. A entrada de adubos químicos nas últimas décadas eram visíveis um pouco por toda a região em finais do século XIX ainda que a maioria dos lavradores e rendeiros continuavam a utilizar o estrume animal como elemento regenerador dos solos. Na verdade, a entrada dos primeiros fertilizantes químicos em terras do sul do distrito portalegrense ocorre numa casa agrícola elvense por volta de 1884 mas seria na década seguinte que tais produtos se generalizam associados ao plantio das sementeiras cerealíferas, fruto das campanhas publicitárias em revistas e periódicos que se vendem nas casas comerciais das duas cidades portalegrenses, no caso particular dos jornais destacavam-se alguns artigos científicos que acabaram por contribuir para a formação de uma nova mentalidade nos processos de organização e exploração da terra, mais evidente na transição para o século XX. De referir também que essas reflexões descritivas evidenciavam as vantagens e os numerosos benefícios que o seu emprego determinava, de resto com a chegada da linha ferroviária de Leste à fronteira, as estações de Elvas e da Vila Santa Eulália eram o ponto de chegada dos super fosfatos de cal solúveis em água que de seguida eram distribuídos pelas casas agrícolas e herdades da região, de uma maneira particular a estação de santa Eulália tornava-se um verdadeiro entreposto de abastecimento para as terras vizinhas de Monforte, Arronches e Campo Maior. Mas o grande desafio, a lavoura regional foi sem dúvida a questão da mecanização, no distrito de Portalegre e nos municípios integrantes nesta circunscrição administrativa, este processo foi tardio quando se compara com as realidades agrícolas de outras regiões agrícolas e a primeira máquina agrícola que evolui nos solos do Distrito, ocorreu quando o lavrador Joaquim lúcio Couto, rico lavrador e proprietário da Quinta das Longas, alugou uma debulhadora mecânica a Sebastião Alvarez, grande lavrador do município de Borba para a debulha e limpeza. O êxito da experiência levou a que o referido lavrador elvense adquirisse uma máquina Garret por volta do início da década de 1880, mas tal compra não foi seguida pelos seus pares que achavam que tais máquinas eram excessivamente caras, um facto para os médios e pequenos lavradores, considerando ainda que na sua maior parte no sul do distrito tratavam-se de rendeiros e como tal sem grande capital de investimento. Também a chegada das máquinas aos campos também não era bem aceite pelos trabalhadores rurais que eram adversos a esta inovação, cuja aplicação lhes tiraria o “pão”. Assim, só na primeira década do século passado, que a mecanização tornava-se uma realidade no eixo, Arronches, Elvas e Campo Maior, fruto em parte do empenho do grande proprietário da região, Lobão Rasquilha que associado a Augusto de Andrade, negociou directamente com o Ministro Elvino Brito, conseguindo que um dos depósitos de máquinas agrícolas que seriam instalados pela Direcção Geral da Agricultura ficasse instalado em Santa Eulália que se convertia cada vez mais num pólo agrícola regional ao serviço dos municípios de Elvas, Arronches e Campo Maior. Todavia, entre o aluguer e a compra, a aversão às máquinas era evidente quer dos proprietários quer dos trabalhadores e o som das máquinas só viriam a perturbar a vida quotidiana rural, nos anos vinte quando o cereal “desgrenhado” nas propriedades rústicas elvenses, o “coração” da agricultura da raia atingia os 50% e eram cerca de cinquenta as debulhadoras registadas em 1921 ou seja o dobro do número de máquinas no início de 1911. Por último de referir que o sucesso da expansão da mecanização deveu-se a uma intensa campanha dos representantes oficiais das máquinas Garret, Marshall e Ruston, que através da imprensa apresentavam os seus modelos, as suas características e as suas vantagens, com a viragem de século, as referidas marcas tinham já os seus representantes com lojas próprias nas cidades do distrito e a partir de então se assistiu à transformação definitiva da paisagem agrícola com a introdução de vários tipos de maquinaria em terras do Distrito de Portalegre.

quarta-feira, março 30, 2011

8.1.1. - A propriedade agrícola. A formação da classe dos lavradores. Algumas referências à paisagem agrícola.


O cereal amarelo  - determinante na afirmação da economia elvense oitocentista
 O olival fundamental na economia local nos fins da Monarquia Constitucional
 Desfile em Santa Eulália terra agrícola e esteio dos proprietários durante a I República

 A maioria dos proprietários com estatuto inicial de arrendatários, que se constituíram a partir de meados do século XIX, chegam ao final da I República já com algum capital e alguns já com a sua casa agrícola. De facto, o número crescente de arrendatários que se converteram em grandes proprietários é de facto notável entre 1869-1881 nada mais que uma dezena de famílias de Elvas, que possuíam pelo menos uma herdade arrendada. A excepção seriam as famílias:  Rasquilha , Telo e Caldeira, que dotadas de maior capital tinham sob arrendamento pelo menos duas herdades. Mas entre todas era sem dúvida a família Rasquilha que a maior potencial económico agrícola detinha já que eram grandes proprietários em Arronches e até final do séc. XIX possuíam mais quatro herdades arrendadas em Elvas  entre o período situado entre 1871 e 1881, antes de as integrar na sua propriedade. Aliás os Rasquilha juntamente com o Conde de Tarouca eram os proprietários que detinham maior riqueza agrícola na área entre Arronches-Elvas e Campo Maior. De realçar que esta capacidade de fazer riqueza e fortuna com base na agricultura é sem dúvida uma particularidade da região de Elvas, uma vez que os pequenos e médios arrendatários das principais famílias elvenses com vocação agrícola, revelaram-se excelentes gestores das casas aristocráticas e dos proprietários agrícolas exteriores ao concelho que lhes cediam as suas terras para exploração agrícola, que atingiu o auge durante a primeira “Campanha dos Cereais -1899” levada a cabo no Alentejo durante a Monarquia Constitucional. Na verdade o apoio do Estado e a existência de vastidão de terras incultas favoreceu esse enriquecimento, numa época em que era possível identificar outro tipo de arrendatários, mais esclarecidos que se fixam nos arredores de Elvas e que se distinguiam dos futuros proprietários/lavradores, como era o caso dos chamados “doutores”, quase sempre médicos que associavam ao seu prestígio professional o domínio de uma ou mais propriedades, inicialmente com base no arrendamento, na maioria dos casos. Ou seja, o proprietário/lavrador foi no município de Elvas uma realidade dominante até ao final da I Guerra Mundial, ou melhor é sensivelmente a partir de 1920, que desaparecem os grandes arrendatários que chegam a ser uma dezena em vésperas da implantação da I República, pouco mais de uma meia dúzia em 1915 e nos anos seguintes já surgem na documentação como senhores das terras ou por outra, com estatuto de lavradores que durante décadas lhes permitiram adquirir o capital para a sua compra, através da exploração agrícola e da pastorícia como forma de obtenção de derivados do seu abate. Por outro lado, o número de pequenos arrendatários “dispara” entre 1910 e 1915, quando nada menos de sessenta arrendatários que desenvolveram a sua labuta em pequenas parcelas arrendadas pelos grandes arrendatários e sobretudo pelos novos proprietários, as razões são várias como o custo de exploração da terra, as taxas contributivas elevadas que eram exigidas pelo Estado e a concorrência dos cereais estrangeiros e em especial do chamado “trigo americano” para o seu aparecimento .  Porém, desde meados do séc. XIX que a agricultura elvense era mais do que a produção do cereal amarelo, “transpirava” alguma vitalidade o centeio de Elvas colocado nos mercados nacionais atingia a cifra de 1.5% ocupando uma área agrícola próxima dos 150 ha, nos quais se distinguia as terras dos grandes produtores locais, Francisco da Silva Rosado e José Joaquim da Silva. O azeite era outra das riquezas da economia nacional com uma capacidade produtiva na ordem dos 2% no contexto nacional, a sua exploração era uma tradição local, o seu investimento era relativamente baixo, não exigia muita mão-de-obra, complementava muitas vezes as áreas livres das grandes propriedades mas também era explorada em pequenas propriedades rústicas, hortas de pequenos proprietários. De resto, a produção de azeite para o mercado regional/local era assegurado por duas dúzias de lagares com tecnologia variada sendo um pouco de menos de metade de prensa de ferro e varas, os mais modernos que então se destacava dos demais caracterizados com tecnologias mais atrasadas. Mas a importância da produção de azeite continuou a ser uma prioridade dos lavradores locais ao longo das primeiras décadas do século XX como se pode comprovar nas razões que levam a criação da Sociedade Oleica Elvense, constituída em 12 de Julho de 1925 com um capital de 2.000$00 e que reuniam cerca de cinquenta e quatro proprietários nos quais se destacam Júlio Alcântara Botelho e o Dr. João Pinto Bagulho que foram sem dúvida os impulsionadores deste movimento associativo. Paralelamente a criação de gado era outra aposta da agricultura elvense, como veremos.

domingo, março 20, 2011

8.1 - Elvas Portuguesa. A organização económica entre o liberalismo e a I República.

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    A diversidade agrícola marcou a paisagem agrícola após a  Revolução Liberal de 1820

   As receitas dos cereais no final da Monarquia Constitucional a riqueza dos arrendatários. 

A prática agrícola foi sem dúvida a actividade fundamental e prioritária ao longo da história de Portugal e que se reflectia de uma forma particular a sul do território nacional, com o predomínio do latifúndio e do absentismo em terras do Alentejo. Todavia nos distritos de Évora, Portalegre e de Beja, algumas décadas após a Revolução Liberal do Porto (1820), as herdades tornaram-se pela sua dimensão e importância económica um modo de exploração económica das novas classes de posse em ascensão pelos menos até ao Estado Novo. Até à Regeneração no distrito de Portalegre a sua extensão média não ultrapassa os 6 hectares, sendo a paisagem agrícola dominada pela exploração do olival, da madeira de sobreiro, da plantação de cereais e de alguns pastos para os gados no complemento da exploração económica da propriedade. Todavia, era na raia norte alentejana, que esta geografia da propriedade era mais visível nos concelhos de Arronches, Elvas e Campo Maior, onde um grupo de agrários e arrendatários viviam directamente deste tipo de exploração económica. O concelho de Elvas constituía sem dúvida, o território mais vasto e importante do ponto de vista económico e agrícola, numa época em que a riqueza do município estava concentrada nas freguesias rurais de Barbacena, S.Vicente e Santa Eulália. Na verdade, os matagais e os arbustos silvestres dominavam a maior extensão das terras de bons solos agrícolas nos  concelhos Arronches e Campo Maior cujo arroteamento ocorre mais tarde do que na segunda cidade portuguesa do distrito. Por outro lado, em Elvas o investimento na exploração agrícola ocorreu mais cedo que nos municípios já citados, uma vez que nas décadas de 1830, 1840 e 1850, muitas das propriedades pertencentes aos Condes de Cadaval e S. Martinho foram objecto de compra ou de aluguer pela imensa rede de arrendatários que também beneficiaram de parte das propriedades da Casa aristocrática do Marquês de Penalva que sendo o único grande proprietário residente jamais alienou o seu património latifundiário durante a centúria de oitocentos. Outro grupo de proprietários com capacidade de exploração e investimento, em solo elvense era sem dúvida um trio de grandes comerciantes lisboetas, como era o caso de António José de Andrade, José Silva Falcão e António Silva Neves Lança Alvim, este originário da vila de Ourém e que acabaria por investir também num conjunto de propriedades situadas nos termos municipais de Arronches e Campo Maior. A maioria dos restantes proprietários do concelho de Elvas em meados do século XIX era arrendatária, apesar de alguns tratados oficialmente por lavradores por fazerem a gestão das terras arrendadas pertencentes a lavradores exteriores ao concelho. Mas, numa análise minuciosa da propriedade, verifica-se que a maior parte dos mesmos, estava directamente depende dos grandes proprietários por contratos de duração com prazos de dez anos, por isso mesmo só na viragem para o século XX e durante o Estado Novo, se revelam como a nova elite agrária em função da posse de uma ou mais herdade. Todavia é de salientar a capacidade de trabalho e de arrojo, que permitiu que uma parte destes arrendatários tenha construído a sua pequena fortuna a partir da introdução de novas culturas agrícolas, da ampliação do espaço agrícola através da limpeza das zonas baldias arrendadas ou de práticas inovadores como os sistemas de drenagem que permitia um melhor aproveitamento da área agrícola. A herdade transformava-se no centro de exploração agrícola em solo elvense a partir do monte, com uma série de edifícios e estruturas de apoio na qual se destacava a casa principal, de resto um modelo resultante e secular desde a romanização da Ibéria. Em meados do século XIX, o monte alentejano, no município de Elvas caracterizava-se pela presença da casa agrícola no extremo das herdades e na parte mais alta da propriedade ou seja edificada sobre uma colina, como forma de controlo sobre o espaço agrícola e dos pastos circundantes.

terça-feira, março 15, 2011

A Torre de Pisa está de novo aberta ao público.


 A Torre de Pisa emerge na Praça de Duomo 


O Campanário projecto de Tommaso Pisano

As obras de equilíbrio da Torre de Pisa iniciadas em 2002 com a finalidade de reduzir a sua inclinação foram finalmente concluídas. De facto, a ameaça da queda da mítica Torre motivada pelas suas 14.700 toneladas de peso e 55.8 metros de altura, tornou-se evidente desde a década de 1990 e o processo de intervenção custou cerca de 30 milhões de euros e consistiu num sistema de extracção de terra abaixo, da base dos alicerces de cimento da dita construção com vista à estabilização da inclinação, que consistia em endireitar a torre em 13 cm  . A fase final desta intervenção iniciada em 2002, que implicou um financiamento de cerca de seis milhões, segundo as previsões estimadas pelos projectistas da intervenção, atingirá o valor da inclinação que tinha em 1990 (altura em que a inclinação aumentava cerca de 1.2 mm) nos próximos 300 anos. A primeira pedra lançada para a edificação do campanário da Praça de Duomo, ocorreu na festa da Anunciação em 9 de Agosto de 1173. De autor desconhecido, a sua edificação decorreu ao longo de três centúrias, mas foi interrompida prematuramente doze anos após o início da obra em 1185 quando se verificou o afundamento da base da edificação responsável pela sua inclinação e determinando a paralisação da obra durante um século. A sua continuidade seria assumida por Giovanni di Simone, que havia trabalhado na Igreja de San Francesco e que mostrou uma grande habilidade para reparar os danos provocados pela inclinação inicial, mas seria Tommaso Pisano, que durante o séc. XVI concluía a terceira campanha de obras com o último anel da torre correspondente ao campanário. A Torre de Pisa, declarada Património Mundial de UNESCO em 1987, está de novo aberta ao público e aos milhares de visitantes que a visitam em cada ano.          

terça-feira, março 08, 2011

8. Elvas Portuguesa. Introdução. Demografia (1850-1930)


A construção da Linha de Leste teve impacto no comportamento demográfico na transição para o séc.XX


   A chegada do comboio foi determinante para o desenvolvimento regional



A cidade perdia em termos de % populacional relativamente à população rural - o centro do trabalho.

A demografia contemporânea demonstra que durante a Monarquia Constitucional, I República e início do Estado Novo, o concelho de Elvas, apresenta um constante crescimento pelo menos até 1882, quando a população atinge um valor próximo das 19.659 almas. Vivia-se numa época em que a população rural, cerca de 10.964 efectivos era mais representativa que a população urbana que se limitava a cerca de 8.695 efectivos, numa época em que o arroteamento dos campos estava no seu auge. Aliás em 1887 a população rural chega a um número recorde de 10.202 habitantes. Numa época em que a cidade de Elvas era o núcleo urbano mais importante do distrito se considerarmos por exemplo que em 1890, a cidade raiana tinha um registo populacional de cerca de 13.291 habitantes contra 11.820 de Portalegre, de resto a capital do Distrito só se afirma como o centro urbano mais populoso nos censos de 1911 e 1930, como resultado do reforço das políticas republicanas em favor da circunscrição administrativa mais importante do distrito. Mas, numa análise comparativa, das duas cidades que procuram liderar as políticas públicas no Distrito, observamos desde logo um percurso quase comum e um crescimento médio entre 1864-1930, de 62% de efectivos humanos, mas com um claro crescimento da capital do Distrito que duplica o número de habitantes entre (1864-1930) isto é passa de 6.433 para 14.712 habitantes enquanto Elvas, cidade, no mesmo período recebe apenas mais 2.142 almas. Situação aliás curiosa, uma vez que Portalegre só ultrapassa efectivamente o número de efectivos no curto período de 1920-1930, quando a força do trabalho na cidade raiana desenvolvia-se no espaço rural. Por outro lado, numa análise dos dados estatísticos observa-se que no período de 1864-1878, a taxa anual de crescimento de ambas as cidades foi bastante reduzido não ultrapassando a média de 0.3%, numa época em que os ventos da emigração contribuem para a saída de efectivos populacionais do distrito que todavia não atingiu os índices de outras regiões nacionais. Mas os dados dispararam, durante o período de 1878 e 1900, quando o distrito de Portalegre é dos que mais crescem a nível nacional, atingindo um crescimento médio de 2.1% mas com o contributo de Elvas que chega nesse período à taxa média anual de 3.1% , não havendo dúvidas que o desempenho demográfico do Distrito de Portalegre e da cidade de Elvas, deve-se a chegada do caminho de ferro à fronteira do Caia ou por outras palavras, a Linha de Leste, mobilizando novos moradores e um vasto número de assalariados, criou trabalho e progresso e um grande número de assalariados procedentes de outras regiões. Outras, duas grandes construções foram determinantes para esta etapa de progresso e trabalho na região, nomeadamente o Ramal de Cáceres e a estrada regional, Portalegre e Elvas. No caso, do concelho de Elvas, juntava-se ainda o aumento da população rural, que desde finais do século XIX vinha alcançando um número de efectivo superior à população urbana e a presença de novas forças militares, estacionadas na Praça Militar de Elvas no âmbito das Campanhas de África, depois da saída dos Regimentos de Artilharia nº2 e da extinção do Regimento de Caçadores nº2, que permitia que a presença militar tivesse ainda alguma representação até final da década de 1890, altura em que se inicia um verdadeiro processo de desmilitarização só estacando com a implantação do Estado Novo. As décadas de 1900-1920, a cidade de Elvas numa análise crua de dados, parece vítima de uma hecatombe, a recessão demográfica é evidente, a população urbana situa-se à volta de 9.133 habitantes em 1920 ou seja a valores de finais do séc. XVII. Mas, a realidade é de natureza administrativa que integra as freguesias de S. Lourenço, S. Vicente, Aventosa e Várzea, que até então haviam pertencido à cidade. Na década de 1920-1930, a cidade elvense voltava a crescer com taxa anual de 3%, recuperando o seu potencial humano, contando com mais 6.248 habitantes numa época que o município introduziria um conjunto de melhorias locais que foram fundamentais para a fixação de mão de obra na área urbana e municipal.

domingo, fevereiro 27, 2011

7.2 - Elvas Portuguesa : O fim do Antigo Regime, o último meio século.



 A cidade como Praça  militar afirmava a sua vocação de placa de estacionamento militar uma realidade na Época Contemporânea.

No último meio século da modernidade, a cidade continuava a recuperar, o crescimento populacional que era evidente de resto, em 1739, Elvas era o centro mais populoso do Alentejo, chegando aos 12.408 habitantes e em vésperas do início da época contemporânea em Portugal, em 1820 chegava aos 16.069 habitantes, com excepção do início do Séc. XIX em que a população triplicou durante meia dúzia de anos a partir de 1806 face ao estacionamento militar no contexto político-militar das Guerras Peninsulares. Continuava-se nesta fase de transição e na continuidade do que fora a segunda metade do séc. XVII e todo o século XVIII, a centrar toda a vida quotidiana na prática agrícola, as Beiras que durante época de setecentos tinha contribuído para o pré-desenvolvimento comercial da cidade com a chegada de alguns mercadores e tendeiros, tornava-se agora um espaço de recepção para as vagas de migrantes que iriam labutar nos campos agrícolas do termo de Elvas. Nessa época, chegavam as primeiras vagas de ceifeiros, os ratinhos que a documentação cita pela primeira vez para o ano de 1766, não havendo provas documentais se tal deslocação para terras para sul se deveu a alguma iniciativa da Câmara, todavia nas actas municipais há referência periódica à falta de braços e por Portaria de 17 de Julho de 1815, o Comando Geral da Praça autorizava o recrutamento de soldados em tempo de paz para a prática agrícola numa época em se assistia ao aumento da terra arroteada que seria, a grande conquista da lavoura elvense a partir de meados do século. Porém uma particularidade, ocorreria no concelho de Elvas antes da Revolução Liberal do Porto de 1820 e das várias reformas entre elas as de Mouzinho da Silveira que contribuíram para o aumento da área cultivável, que tem a ver com uma carta régia datada de 13 de Dezembro de 1812 na qual se estabelecia a venda de todos os bens livres da coroa: casas, capelas, propriedades e bens próprios, que seriam adquiridos por uma aristocracia não residente e por uma burguesia lisboeta em ascensão, como era o caso da Herdade do Alcaide, gerida pelo morgado dos Peixinhos que passa a pertencer a José Martinho Costão Falcão um rico burguês da capital ou da Herdade da Alcarapinha, que passava definitivamente para o Conde de Vila Flor, D. Rodrigo de Noronha que herdara parte da mesma propriedade que pertencera aos padres do Convento de S. Paulo. Ao mesmo tempo uma nova realidade surgia ainda de forma incipiente, os arrendatários com posse para fazer a gestão de uma herdade, era o caso de Manuel Joaquim Gonçalves que recebia mediante contrato de arrendamento da Herdade de Água de Banhos que pertencia à casa do Marquês de Penalva. No interior da cidade e nos seus arrabaldes, surgia um pouco por todo o território as hortas de dimensão variada, adjunta às plantações de olivais e nos espaços ainda vagos no interior da cidade. Apesar de tudo, o esforço de ordenação económico do território era novamente interrompido, face há conjuntura de Guerra na região do Caia, concretizada no Combate de Arronches e na Guerra das Laranjas. Foram os primeiros embates no contexto de uma conjuntura internacional em que o território português estava sob ameaça das forças franco-espanholas, que se esboçava de forma concreta, desde o Tratado de Santo Ildefonso (assinado com a concentração de tropas espanholas junto à fronteira) e que se tornavam evidentes em acordos posteriores, nomeadamente no Convénio de 1 de Fevereiro de 1801: “…que previa a invasão do nosso país caso não abandonasse o campo inglês”. Mas o Tratado de Paz assinado em 7 de Junho de 1801, em Badajoz, afastava de forma muito breve a conjuntura de guerra na região do Caia apesar da perda da vila de Olivença. Uma vez que Napoleão decretou o Bloqueio Continental, que desde logo constituía uma ameaça a Portugal, velho aliado da Inglaterra que ignorou o fecho dos seus portos à navegação inglesa, como ultimava o referido Tratado. Uma vez mais estava ameaçada a integridade do território português, enquanto que aliança anglo - lusa se concretizava na negociação de um tratado de auxílio e de comércio; a aliança franco-espanhola preparava a invasão de Portugal, pondo em causa a integridade do território continental que seria retalhado em três partes e das nossas colónias. Portugal preparava-se para a guerra, procurando assegurar a defesa da sua ampla terrestre, desde Valença a Tavira, destacando-se a região do Caia, onde pela primeira vez o estacionamento militar, demonstra a importância daquela entrada natural tão utilizada pelos exércitos invasores desde a época moderna. Na verdade nas praças militares de Elvas e Campo Maior concentraram-se cerca de 41 regimentos de infantaria e 11 de artilharia, totalizando cerca de 57.000 homens, quase o dobro de outras concentrações em regimentos de infantaria e cavalaria na raia, casos de Valença, Chaves, Bragança e Almeida. A preparação para guerra era acompanhada pela destruição das áreas de cultivo à volta da Praça para evitar a existência de reservas alimentares que favorecessem a possibilidade de pôr cerco à cidade. As invasões francesas jamais puseram em perigo a Praça militar que seria apesar de tudo, protagonista na 3ª Invasão francesa, quando o espaço abaluartado elvense se afirmou pela primeira vez como placa de estacionamento militar, funcionando como um verdadeiro hospital de campanha para o qual, durante dois  comboios sucessivos foram transferidos vários feridos no teatro bélico da Batalha de Albuera em 16 de Maio de 1811. Da Praça militar de Elvas saíram vários regimentos que constituíram as forças aliadas (já no contexto da Guerra Peninsular e entre) e entre elas o Regimento de Infantaria nº17, constituído por elvenses e que mereceu o elogio do General britânico Lumlry e o Batalhão de caçadores nº8 comandados pelo Tenente General Hill que se destacaria na tomada de Badajoz (1812) e outras que se sucederam até à saída do exército francês do território espanhol, como foram os casos de Carrión (1812), Vitória (1813) e S.Sebastian (1813). O protagonismo dos militares estacionados na Praça Militar elvense nas guerras liberais marcava o fim da época Moderna, na qual se destacavam os comandantes dos regimentos da Infantaria nº3 e nº4, respectivamente, o Coronel António José Antunes e o Marechal António Joaquim da Gama Lobo que defendiam a causa miguelista.






quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Os dias da História: O bombardeamento de Bagdad

A 17 de Fevereiro a ONU sob comando militar dos Estados Unidos inicia-se a operação militar dos aliados com a finalidade de retirar o Iraque do Kwait . Depois da recusa do ditador iraquiano em cumprir o ultimato decretado pela ONU iniciou-se a operação militar “Tormenta do Deserto”, cuja operação foi caracterizada pela utilização do utilização de armas, sofisticadas e modernos em termos de tecnologia militar. Esta operação caracterizou-se por dois tipos de operações os bombardeamentos e a guerra terrestre. Na acção de bombardeamento, o mesmo esteve centrado numa serie de pontos estratégicos, como fábricas de armas e bases aéreas. O objectivo da coligação aérea constituída por 1.500 aviões, sobretudo por britânicos e norte americanos, que com base na supremacia aérea tinha como finalidade a rápida destruição dos mísseis iraquianos que segundo Saddam Hussein seriam utilizadas para atacar a Israel. A ofensiva terrestre, teve início a 24 de Janeiro e num período de 100 dias decidiu a guerra a favor dos aliados. As tropas da ONU atacaram simultaneamente desde o sul e oeste, sem que o exército iraquiano oferecesse grande resistência. A vitória total ocorreria a 27 de Fevereiro, quando as tropas do Kwait entram na capital do emirado. O balanço da operação da ONU, foi marcada pela reconquista do Kwait  e a neutralização do poder de Bagdad, enquanto que os Estados Unidos e ONU saíram prestigiados do conflito como resultado de uma aliança contra um agressor árabe e que determinou a queda do poder de Saddam Hussein.          

sábado, fevereiro 12, 2011

7.1.Elvas Portuguesa - A Paz e a reconstrução no final do Antigo Regime na cidade do Caia.


No final do Antigo Regime a fortificação da cidade completara-se


O Forte da Graça o último reduto defensivo mas uma das marcas da militarização de fronteira.


Entre as sentinelas e os campos, a renovação agrícola era uma opção 


Nas margens do Guadiana o contrabando era outra forma regular de vida entre as práticas agrícola e  comercial

As décadas finais do Antigo Regime marcam o regresso aos campos agrícolas em terras do Caia num período em que a prioridade de organização económica manifesta-se um pouco por todo o concelho de Elvas. Que nos fins de setecentos mantém uma forma de exploração agrícola medieval e tradicional, com amplas áreas do seu território ainda num estado selvagem, predominando o bosque e a mata em vastas áreas do seu território. De facto, após quase meio século de guerra quase permanente, o abandono da prática regular da exploração dos campos agrícolas, determinou que a pecuária se tornasse uma opção, aos campos de cereais. Assim o número de rebanhos cabras e ovelhas estavam em crescimento e disputavam um espaço no mundo rural onde os alinhamentos de vinhedos ( contava-se nesta época mais de uma meia dúzia de herdades que apostavam nos vinhedos, casos da Torrinha, Enxara, Vale de Marques, Mouros, Varche, Caldeiras e Amoreira) e olivais, caracterizavam a paisagem agrícola, colorida pelo afolhamento trienal, uma prática seguida pelas casas agrícolas do distrito. De resto, o comércio da cevada e do trigo, duas das culturas cujo cultivo ainda sustentava a capacidade económica de alguns lavradores, tornava-se pouco lucrativa e gerava descontentamento face as imposições da coroa, que desde 28 de Julho de 1678, só permitia o comércio de tais produções agrícolas, uma vez abastecido o Assento ou seja, a partir do momento em que era assegurada a auto-suficiência alimentar das forças militarizadas, homens e cavalos. A documentação coeva, refere o grande esforço dos proprietários rurais, independentemente da sua dimensão na limpeza dos campos com frequência ao longo de setecentos face às matas que cobriam as outrora as terras de cereais e de olivais, documentadas pela primeiras em 1689 quando a ameaça de guerra parecia poupar os campos agrícolas do termo de Elvas. As grandes propriedades de um modo geral permaneciam na posse de uma aristocracia exterior ao concelho e a um pequeno grupo de aristocráticas que residindo ou não na cidade, eram então os “donos “ da terra em Elvas. Distinguindo-se então alguns poucos burgueses da capital com alguns investimentos na exploração agrária era os casos particulares, de Augusto Lima Mayer que adquiriu a herdade do Alcaide em 1698 ou de  António José de Andrade que em 1875 adquiriu a sua primeira propriedade nos arredores da cidade a herdade das Arcas de São João por volta de 1875. Essa propriedade cuja organização já seguiu o conceito de monte que fará tradição nos montes alentejanos entre meados do séc. XIX e a centúria seguinte, era dotada de casas de moradia, granja, pastagem, terras de semeadura  e mato de azinho, e era propriedade de D. João da Silva Pessanha, uma família prestigiada com reconhecimento nobiliárquico desde os tempos medievais. Em meados do século XVIII, a cidade voltava a animar-se com a presença de mercadores sem esplendor e a importância económica da época de quinhentos, mas estavam lançadas as bases para a reanimação comercial que tornaria Elvas na cidade comercial de importância na raia em finais do século XVIII. A chegada de comerciantes, maçanos e caixeiros, oriundos da Beira e particularmente da Vila da Sertã entre eles destacam-se o mercador Domingos Lopes e os tendeiros José Silva, Venceslau Mendes, Anastácio Mendes que marcam a primeira migração de homens com algum capital que se fixam ou mantêm relações económicas na cidade. No âmbito das relações inter-regionais animavam-se as rotas dos almocreves com o norte alentejano e a ligação das barcas entre as vilas vizinhas Elvas e Olivença, que voltam animar a relação agrária e comercial interrompida com a destruição da ponte durante a Guerra da Liga em 1709. Para tal era criada a companhia das barcas em 1718 que existiu até 1812, altura em que tal serviço foi interrompido, depois de ter estado ao serviço de particulares durante os finais do séc. XVII, nomeadamente de Manuel Fernandes Largo, que utilizou a barca ao serviço das herdades de Malpique e Defezinha, antes da aquisição da nova barca que custou 70.000 rs. Em 1783 e na transição para o séc. XVIII estava nas mãos de um agrário de Olivença, Miguel Garcia, numa época em que o contrabando tinha-se tornado uma forma regular de vida ao longo do Guadiana, face à existência de uma fiscalização que se limitava às áreas fortificadas. Mas, sem dúvida que a nova companhia deu um novo alento ao intercâmbio entre Elvas e Olivença, mesmo quando perdeu oito das suas doze barcas num pavoroso incêndio nas margens do Guadiana. No final do Antigo Regime, a cidade de Elvas e o seu termo, estavam em plena recuperação, os historiadores tradicionais referem a existência de cerca de 5000 vizinhos, mas fontes que consultamos levam-nos a dados reais e mais objectivos, a população cifrava-se em cerca de 15.800 almas  e uma % elevada de efectivas militares, pela primeira vez na Praça militar existia uma população aquartelada, iniciava-se o processo de militarização de fronteira com estacionamento militar e com o esforço construtivo no plano militar, as estruturas e o arame farpado marcava a nova realidade de coexistência entre civis e militares. Longe de outras épocas, onde Elvas era referência dos mercadores e viajantes, para além dos obstáculos naturais o testemunho da violência da guerra e dos cercos, estava marcada nos solos os barrancos abertos pelas bocas-de-fogo ocupados pela água ampliara o isolamento e a interioridade da cidade que era então a porta de saída para a Europa que então já soprava os ventos do Liberalismo, nesta época em que ainda vigorava o Estado Moderno e Absoluto.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

7. Elvas Portuguesa: - O século XVIII uma época de prevenção.


As vilas, as cidades, as nações, os impérios, têm nas suas histórias períodos, obscuros, mal estudados ou pouco referenciados na sua memória. O Século XVIII é para a história da cidade uma época com essas características, de facto depois do seu período áureo correspondente a sua elevação à categoria administrativa de cidade e após o seu protagonismo na época da Restauração, torna-se sobretudo num espaço de prevenção. Ainda longe da militarização a fase final do Estado Moderno e Absoluto, não ignorou a importância da cidade raiana, a defesa tornou-se uma prioridade se a obra mais significativa neste período foi sem dúvida a obra anexa, a norte da Praça Militar de Elvas, o Forte da Graça outras pequenas obras se inseriram nesse propósito. De facto e assinada a paz com Espanha, a população elvense continuou a ser tributada para as obras de carácter militarizado, não apenas para a manutenção das cortinas, dos fortins adjacentes e dos caminhos de ronda junto à praça, mas também para os primeiros alojamentos militares, os primeiros quartéis eram edificados em 1704, cerca de trinta e seis anos antes das primeiras medidas tomadas pela classe dirigente para a sua construção face ao estacionamento das primeiras forças militares exteriores à mobilização miliciana. Na verdade entre 1668-1704, a guarnição das forças militares ainda longe de constituir um exército nacional tinha dobrado em termos de efectivos, não sabemos exactamente o seu número, mas tal informação está registada em diversas cartas de correspondência entre os Governadores da Praça e a Coroa, a noção de que os efectivos militares aumentaram para além da sua capacidade é datada em cartas registadas para os anos de 1668, 1678,1681, 1685, 1689 e 1702, na última delas à referência que dobrou o número de efectivos, numa época que se verificava a reorganização do exército português no sentido da profissionalização sob orientação do Conde Lippe, um oficial oriundo da tradição germânica que viveu e conheceu as valências da importância da cidade na estratégia e defesa da soberania nacional, como se comprova em algumas das suas reflexões. A verdade é que a questão do alojamento militar só teria resolução efectiva e definitiva após a Revolução Liberal do Porto de 1820. Em meados do século XVIII as dificuldades mantinham-se os quartéis já não alojavam totalmente as forças militarizadas e uma parte dos efectivos desde 1767 tinham morada nas ruas dos Esteiros e Botafogo, enquanto os primeiros-oficiais de carreira sediados em Elvas estavam hospedados em casas particulares, pelo menos desde 1763 ocupavam de uma maneira particular um quarto em casas de particulares na freguesia do Salvador. Esta nova situação causava uma certa ambiguidade na população elvense, enquanto a hospedagem de militares de baixa patente não era muito apreciada ou mesmo não acontecia com os oficiais de carreira, os primeiros desenganos e os primeiros casamentos, era outra realidade que acompanhava o início de uma etapa onde os civis compartilhavam o espaço privado e urbano com os militares, uma das várias causas para a necessidade de um aquartelamento mais amplo que vingará um século depois.